REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 6 - DEZEMBRO 1863 - Nº. 12

 

 

UTILIDADE DO ENSINO DOS ESPÍRITOS.

 

 

 

Um publicista distinto, pelo caráter do qual professamos a mais profunda estima e cujas simpatias foram adquiridas pela filosofia espírita, mas a quem a utilidade do ensino dos Espíritos não foi ainda demonstrada, nos escreveu o que se segue: 

".....Creio que a Humanidade está de posse muito tempo dos princípios que ex- pusestes, princípio de que gosto e que defendo sem o recurso das comunicações espíritas, o que não quer dizer, notai-o bem, que negue os recursos das luzes divinas. Cada um de nós recebe esse recurso num certo limite, segundo o grau de sua boa vontade, de seu amor ao próximo, e também na medida da missão que tem a cumprir durante a sua passagem sobre a Terra. Não sei se vossas comunicações vos colocaram em posse de uma única idéia, de um único princípio que não haja sido precedentemente exposto pela série dos filósofos e dos pensadores que, desde Confúcio até Platão, até Moisés, Jesus Cristo, Santo Agostinho, Lutero, Diderot, Voitaire, Condorcet, Saint-Simon, etc., fizeram progredir nosso humilde planeta. Não o sinto, e se me engano, vos seria muito reconhecido do trabalho que tomardes para me demonstrar meu erro. Notai bem que não condeno vossos procedimentos espíritas: creio-os inúteis para mim, etc..." 

Meu caro senhor, vou responder em algumas palavras à vossa pergunta. Não tenho nem vosso talento nem vossa eloqüência, mas tratarei de ser claro, não para vós, mas para meus leitores, a quem minha resposta poderá servir de ensinamento, é porque a faço por intermédio de meu jornal.

 

Direi primeiro que, de duas coisas uma, ou as comunicações com os Espíritos existem, ou elas não existem. Se não existem, milhões de pessoas que se comunicam diariamente com eles se envolvem uma estranha ilusão, e eu mesmo terei tido uma singular idéia de lhes atribuir o que teria podido me fazer um mérito; mas é tanto menos útil discutir este ponto quanto não o contestais. Se essa comunicação existe, deve ter sua utilidade, porque Deus não faz nada de inútil; ora, essa utilidade ressalta não desse ensinamento, mas ainda e sobretudo das conseqüências desse ensino, assim como o veremos dentro em pouco.

 

Dizeis que essas comunicações não ensinam nada de novo daquilo que foi ensinado por todos os filósofos desde Confúcio, de onde concluís que elas são inúteis. O provérbio: "Nada de novo sob o Sol" é perfeitamente verdadeiro, e Edouard Fournier demonstrou-o claramente em sua interessante obra do Vieux neuf, o que disse das obras da indústria é inteiramente verdadeiro em matéria filosófica, e isto por uma razão muito simples, é que as grandes verdades são de todos os tempos, e de todos os tempos deveram se revelar a homens de gênio. Mas do fato de que um homem formulou uma idéia, segue-se que aquele que a formule depois dele seja inútil? Sócrates e Platão não anunciaram princípios morais idênticos aos de Jesus? Seria preciso disso concluir que a doutrina de Jesus foi uma  superfluidade?  Nessa  conta,  bem  poucos  trabalhos  seriam  de  uma  utilidade  real, uma vez que, na maioria, pode-se dizer que um outro teve o mesmo pensamento, e que basta ali ter recursos. Vós mesmo, meu caro senhor, que consagrais vosso talento ao triunfo das idéias de progresso e de liberdade, que dizeis que cem outros não hajam tido antes de vós? É preciso disso concluir que deveríeis vos calar? Não o pensais. Confúcio, por exemplo, proclama uma verdade, depois um, dois, três, cem outros homens vêm depois  dele,  que  a  desenvolvem,  a  completam,  e  a  apresentam  sob  uma  outra  forma,  se bem que essa verdade, que permaneceu nos cartões da história e no privilégio de alguns eruditos, se popularize, se infiltre nas massas e acabe por se tornar uma crença vulgar. O que  teria  advindo  das  idéias  dos  filósofos  antigos  se  não  tivessem  sido  retomadas  em seus alicerces pelos escritores modernos? Quantos os conhecem hoje? É assim que cada um, a seu turno, vem dar seu golpe de martelo.

 

Suponhamos, pois, que os Espíritos nada tenham ensinado de novo; que não hajam revelado a menor verdade nova; que não hajam feito, em uma palavra, senão todas aquelas que os apóstolos do progresso professaram, não é, pois, nada senão esses princípios ensinados hoje, pelas vozes do mundo invisível em todas as partes do mundo, no interior e todas as famílias, desde o palácio até  a choupana? Não é, pois,  nada senão esses milhões de golpes de martelo batidos todos os dias, a toda hora e por toda parte? Credes que as massas não estão nisso mais penetradas e impressionadas, vindo de seus parentes ou amigos, do que pelas máximas de Sócrates e de Platão que jamais leram ou que não conhecem senão de nome? Como, vós, meu caro senhor, que combateis os abusos de todas as espécies, podeis desdenhar um semelhante auxiliar? um auxiliar que bate em todas as portas, desafiando todos os castigos e todas as medidas inquisitoriais? esse auxiliar, disto tereis um dia a prova, triunfará de todas as resistências porque toma os abusos pela base apoiando-se sobre a que se extingue e que vem consolidar.

 

Pregais a fraternidade em termos eloqüentes, está muito bem, e vos admiro; mas o que  é  a  fraternidade  com  o  egoísmo?  O  egoísmo  será  sempre  a  dificuldade  imprevista para a realização das idéias mais generosas; os exemplos antigos e recentes não faltariam ao apoio dessa proposição. É preciso, pois, tomar o mal em sua raiz, e por isso combater o egoísmo e o orgulho que fizeram e farão abortar os projetos melhor concebidos; e como destruir o egoísmo sob o império das idéias materialistas que concentram a ação do homem sobre a vida presente? Para aquele que nada espera depois desta vida, a abnegação não tem nenhuma razão de ser; o sacrifício é uma velhacaria, porque é tanto tirado sobre os curtos gozos deste mundo. Ora, quem essa inalterável no futuro melhor do que o Espiritismo?

 

Como chegou a triunfar da incredulidade de um tão grande número, a domar tantas paixões más, se não é pelas provas materiais que dá, e como pode dar essas provas sem as relações estabelecidas com aqueles que não estão mais sobre a Terra? Não é, pois, nada ter ensinado aos homens de onde vêm, onde vão, e o futuro que lhes está reservado? A solidariedade que ensina não é mais uma simples teoria, é uma conseqüência forçada das relações que existem entre os mortos e os vivos; relações que fazem da fraternidade entre vivos não um dever moral, mas uma necessidade, porque do interesse da vida futura.

 

As idéias de casta, os preconceitos aristocráticos, produtos do orgulho e do egoísmo, não foram de todos os tempos um obstáculo à emancipação das massas? Basta dizer em teoria aos privilégios do nascimento e da fortuna: Todos os homens são iguais! O Evangelho bastou para persuadir aos cristãos possuidores de escravos de que esses escravos eram seus irmãos? Ora, quem pode destruir esses preconceitos, que passa um nível sobre todas as cabeças melhor do que a certeza que nas últimas classes da sociedade se encontram seres que ocuparam o alto da escala social, que entre nossos servidores, entre aqueles a quem damos esmolas podem se encontrar parentes, amigos, homens que  nos  comandaram;  que  aqueles,  enfim,  que  estão  no  alto  colocados  agora  podem descer ao último degrau? Está, pois, um ensinamento estéril para a Humanidade? Esta idéia é nova? Não; mais de um filósofo a emitiu e pressentiu essa grande lei da justiça divina; mas não é nada senão dar-lhe a prova palpável, evidente? Muitos séculos antes de Copérnico, Galileu e Newton, a redondeza e o movimento da Terra foram postos em princípios; esses sábios vieram demonstrar o que outros não fizeram senão supor; assim Espíritos que vêm provar as grandes verdades, permanecidas no estado de letras mortas para a maioria, dando-lhes por base uma lei da Natureza.

 

Ah! meu caro senhor, se soubésseis quanto eu quantos homens, que tivessem sido entraves para a realização das idéias humanitárias, mudaram de maneira de ver e delas se tornam hoje os campeões, graças ao Espiritismo, não diríeis que o ensino dos Espíritos é inútil; vós os abençoaríeis como a âncora de salvação da sociedade, e pediríeis com todos os vossos votos a sua propagação. Foi, pois, o ensino dos filósofos que lhes faltou? Não, porque a maioria é de homens esclarecidos, mas para eles os filósofos eram sonhadores, utopistas, bons falantes;  que  digo  eu?  revolucionários;  seria preciso tocar-lhes o coração, e o que os tocou foram as vozes de além-túmulo que ainda se fazem ouvir em seu próprio lar.

 

Permiti-me, caro senhor, em disso ficar por aqui hoje; a abundância de matérias força-me a remeter para o próximo número a questão considerada de um outro ponto de vista.

 

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