REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 6 - DEZEMBRO 1863 - Nº. 12

ANO 7 - JANEIRO 1864 - Nº. 1

 

 

UM CASO DE POSSESSÃO
 SENHORITA JÚLIA

 

 

 

PARTE 1

Dezembro de 1863

 

Temos dito que não havia possessos, no sentido vulgar do vocábulo, mas subjugados. Voltamos a esta asserção absoluta, porque agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, posto que parcial, de um Espírito errante a um encarnado.
 
Eis um primeiro fato, que o prova, e apresenta o fenômeno em toda a sua simplicidade.
 
Várias pessoas se achavam um dia em casa de uma senhora médium-sonâmbulo. De repente esta tomou atitudes absolutamente masculinas. A voz mudou e, dirigindo-se a um assistente, exclamou: “Ah! meu caro amigo, como estou contente de te ver!” Surpresos, perguntam o que isto significa. A senhora continua: “Como! meu caro não me reconheces? Ah! é verdade; estou coberto de lama! Sou Charles Z...” A este nome, os assistentes se lembraram de um senhor, morto meses antes, de uma apoplexia, à beira de uma estrada. Tinha caído num fosso, de onde o haviam retirado, coberto de lama. Declarou, que querendo conversar com o seu velho amigo, aproveitava o momento em que o Espírito da sra. A..., a sonâmbula, estava afastado do corpo, para tomar-lhe o lugar. Com efeito, tendo-se renovado a cena vários dias seguidos, a sra. A... tomava de cada vez as atitudes e maneiras habituais do sr. Charles, espreguiçando-se no encosto da cadeira, cruzando as pernas, torcendo o bigode, passando os dedos pelos cabelos, de tal sorte que, salvo os vestidos, não havia transfiguração, como vimos noutras circunstâncias. Eis algumas de suas respostas.


- Já que tomastes posse do corpo da sra. A... podereis nele ficar?

- Não; mas vontade não me falta.

 

- Porque não podeis?

- Porque seu Espírito está sempre ligado a seu corpo. Ah! seu eu pudesse romper esse laço eu pregaria uma peça.


- Que faz durante este tempo o Espírito da sra. A...?

- Está aqui ao lado; olha-me e ri, vendo-me em suas vestes.

           
Estas palestras eram muito divertidas. O sr. Charles tinha sido um boêmio e não desmentia o seu caráter. Dado à vida material, era pouco adiantado como Espírito, mas naturalmente bom e benevolente.
Apoderando-se do corpo da sra. A..., não tinha qualquer intenção má; assim aquela senhora nada sofria com a situação, a que se prestava de boa vontade. É bom dizer que ela não o havia conhecido e não podia saber de suas maneiras. É ainda de notar que os assistentes nele não pensavam, a cena não foi provocada e ele veio espontaneamente.


Aqui a possessão é evidente e ressalta ainda melhor dos detalhes, que seria longo enumerar. Mas é uma possessão inocente e sem inconvenientes.


Já o mesmo não se dá quando se trará de um Espírito malévolo e mal intencionado. Ela pode ter seqüências tanto mais graves quanto mais tenazes são esses Espíritos; o que, muitas vezes torna difícil livrar o paciente que é sua vítima.


Eis um exemplo recente, que observamos pessoalmente e que foi objeto de sério estudo na Sociedade de Paris.


A senhorita Júlia, doméstica, nascida na Savoie, com vinte e três anos, caráter muito suave, sem qualquer instrução, desde algum tempo era sujeita a acessos de sonambulismo natural, que duravam semanas inteiras. Nesse estado ocupava-se em seu trabalho habitual, sem que as pessoas suspeitassem de sua situação; seu trabalho até era muito mais cuidado. Sua lucidez era notável: descrevia lugares e acontecimentos distantes com perfeita exatidão.


Há cerca de seis meses tornou-se presa de crises de um caráter estranho, que sempre ocorriam no estado sonambúlico, que, de certo modo, se tornara seu estado normal. Torcia-se, rolava pelo chão, com se debatesse, em luta com alguém que a quisesse estrangular e, com efeito, apresentava todos os sintomas de estrangulamento. Acabava vencendo esse ser fantástico, tomava-o pelos cabelos, derrubava-o a sopapos, com injúrias e imprecações, apostrofando-o incessantemente com o nome de Fredegunda, infame regente, rainha impudica, criatura vil e manchada por todos os crimes, etc. Pisoteava como se a calcasse aos pés com raiva, arrancando-lhe as vestes. Coisa bizarra, tomando-se ela própria por Fredegunda, dando em si própria redobrados golpes nos braços, no peito, no rosto, dizendo: “Toma! toma! é bastante, infame Fredegunda? Queres me sufocar, mas não o conseguirás; queres meter-te em minha caixa, mas eu te expulsarei.” Minha caixa era o termo de que se servia para designar o próprio corpo. Ninguém poderia pintar melhor o acento frenético com que pronunciava o nome de Fredegunda, rangendo os dentes, nem as torturas que sofria nesses momentos.


Um dia, para se livrar de sua adversária, tomou de uma faca e vibrou contra si mesma, mas foi socorrida a tempo de evitar-se um acidente. Coisa não menos notável é que jamais tomou um dos presentes por Fredegunda. A dualidade era sempre a mesma; era contra si mesma que dirigia o seu furor, quando o Espírito estava nela, e contra um ser invisível quando dela se havia desembaraçado. Para os outros era suave e benevolente, mesmo nos momentos de maior exasperação.


Essas crises, verdadeiramente apavorantes, por vezes duravam horas e se renovavam várias por dia. Quando tinha acabado de vencer a Fredegunda, caia num estado de prostração e de abatimento de que só saia pouco a pouco, mas que lhe deixava profundamente alterada; nada podia comer e por vezes ficava oito dias sem alimento. Os melhores petiscos lhe tinham gosto horrível, que a fazia rejeitá-los. Dizia ele que era obra de Fredegunda, que queria impedi-la de comer.
 
Dissemos acima que a moça não tinha qualquer instrução. Em vigília jamais ouvira falar de Fredegunda, nem de seu caráter nem do papel que tinha tido. Ao contrário, no sonambulismo, sabe perfeitamente e diz ter vivido em seu tempo. Não era Brunehaut, como a princípio se supôs, mas outra pessoa, ligada à sua corte.


Outra observação, não menos essencial, é que, até o começo das crises, a senhorita Júlia jamais se tinha ocupado de espiritismo, cujo nome lhe era conhecido. Ainda hoje em vigília, ela lhe é estranha e não o aceita. Só o conhece no estado sonambúlico e depois que começou a ser tratada. Assim, tudo quanto diz é espontâneo.


Em face de uma situação tão estranha, uns atribuem o seu estado a uma afecção nervosa; outros a uma loucura de caráter especial; e força é convir que, à primeira vista, esta última opinião tinha uma aparência de realidade. Um médico declarou que, no estado atual da ciência, nada podia explicar semelhantes fenômenos, e que não via qualquer remédio. Contudo, pessoas experimentadas no Espiritismo reconheceram sem esforço que ela estava sob o império de uma subjugação das mais graves e que lhe poderia ser fatal. Sem dúvida quem só a tivesse visto nos momentos de crise e só tivesse considerado a estranheza de seus atos e palavras, teria dito que era louca, e lhe teria infligido o tratamento dos alienados que, sem a menor dúvida, teria determinado uma loucura verdadeira. Mas tal opinião deveria ceder ante os fatos.
 
No estado de vigília sua conversa é a de uma criatura de sua condição e relativa à sua falta de instrução; a inteligência é mesmo vulgar. Já a coisa é completamente outra no estado de sonambulismo. Nos momentos de calma, raciocina com muito senso, justeza e profundidade. Ora, seria loucura singular esta que aumentasse a dose de inteligência e julgamento. Só o Espiritismo pode explicar essa aparente anomalia. No estado de vigília, sua alma ou Espírito está comprimido por órgãos que lhe não permitem senão um desenvolvimento incompleto; no estado de sonambulismo, a alma, emancipada, está em parte liberta dos laços e goza da plenitude de suas faculdades. Nos momentos de crise, suas palavras e atos não são excêntricos senão para os que não crêem na ação dos seres do mundo invisível. Não vendo senão o efeito, e não remontando à causa, eis por que todos os 
obsedados, subjugados e possessos passam por loucos desta natureza e que seriam facilmente curados se não obstinassem a neles ver apenas uma doença orgânica.


Diante de tais fatos, como a senhorita Júlia não tinha recursos, uma família de verdadeiros e sinceros espíritas concordou em tomá-la a seu serviço, mas na sua situação ela deveria ser mais um embaraço do que uma utilidade, e era preciso um verdadeiro devotamento para cuidar dela. Mas essas pessoas foram bem recompensadas, primeiro pelo prazer de praticar uma boa ação, depois pela satisfação de haver poderosamente contribuído para a sua cura, hoje completa. Dupla cura, porque não só a senhorita Júlia se libertou, mas sua inimiga converteu-se a melhores sentimentos.


Eis o que testemunhamos numa dessas lutas terríveis, que não durou menos de duas horas, quando pudemos observar o fenômeno nos mínimos detalhes e no qual reconhecemos uma analogia completa com os dos possessos de Morzine (*). A única diferença é que em Morzine os possessos se entregavam a atos contra as pessoas que os contrariavam e falavam do diabo. Em Morzine a senhorita Júlia teria chamado Fredegunda de Diabo.


Em próximo artigo exporemos com detalhes as diversas fases desta cura e os meios para isto empregados. Além disso, reportar-nos-emos às notáveis instruções que os Espíritos deram a respeito, assim como as importantes observações a que deu lugar, relativamente ao magnetismo. 

 

 

PARTE 2

Janeiro de 1864

 

No artigo anterior descrevemos a triste situação dessa moça e as circunstâncias que provavam uma verdadeira possessão. Somos felizes ao confirmar o que dissemos de sua cura, hoje completa. Depois de liberta de seu Espírito obsessor, os violentos abalos que tinha sofrido por mais de seis meses a haviam levado a grave perturbação da saúde. Agora está inteiramente recuperada, mas não saiu do estado sonambúlico, o que não a impede de ocupar-se dos trabalhos habituais.


Vamos expor as circunstâncias dessa cura.


Várias pessoas tinham tentado magnetizá-la, mas sem muito sucesso, salvo leve e passageira melhora no estado patológico. Quanto ao Espírito, era cada vez mais tenaz, e as crises haviam atingido um grau de violência dos mais inquietadores. Teria sido necessário um magnetizador nas condições indicadas no artigo acima para os médiuns curadores, isto é, penetrando a doente com um fluído bastante puro para eliminar o fluído do mau Espírito.
Se há um gênero de mediunidade que exija uma superioridade moral, é sem contradita no caso de obsessão, pois é preciso ter o direito de impor sua autoridade ao Espírito. Os casos de possessão, segundo o que é anunciado, devem multiplicar-se com grande energia daqui a algum tempo, para que fique bem demonstrada a impotência dos meios empregados até agora para os combater. Até uma circunstância, da qual não podemos ainda falar, mas que tem uma certa analogia com o que se passou ao tempo do Cristo, contribuirá para desenvolver essa espécie de epidemia demoníaca. Não é duvidoso que surjam médiuns especiais com o poder de expulsar os maus Espíritos, como os apóstolos tinham o poder expulsar os demônios, seja porque Deus sempre põe o remédio ao lado do mal, seja para dar aos incrédulos uma nova prova da existência dos Espíritos.


Para a senhorita Júlia, como em todos os casos análogos, o magnetismo simples, por mais enérgico que fosse, era, assim, insuficiente. Era preciso agir simultaneamente sobre o Espírito obsessor, para o dominar, e sobre o moral da doente, perturbado por todos esses abalos; o mal físico era apenas consecutivo; era efeito e não causa. Assim, havia que tratar-se a causa antes do efeito. Destruindo o mal moral, o mal físico desapareceria por si mesmo. Mas para isto é preciso identificar-se com a causa; estudar com o maior cuidado e em todas as suas nuanças o curso das idéias, para lhe imprimir tal ou qual direção mais favorável, porque os sintomas variam conforme o grau de inteligência do paciente, o caráter do Espírito e os motivos da obsessão, motivo cuja origem remonta quase sempre a existências anteriores.


O insucesso do magnetismo coma senhorinha Júlia levou várias pessoas a tentar; neste número estava um jovem dotado de grande força fluídica, mas que, infelizmente, não tinha qualquer experiência e, sobretudo, os conhecimentos necessários em casos semelhantes. Ele se atribuía um poder absoluto sobre os Espíritos inferiores que, segundo ele, não podiam resistir à sua vontade. Tal pretensão, levada ao excesso e baseada em sua força pessoal e não na assistência dos bons Espíritos, deveria atrair-lhe mais um insucesso. Só isto deveria ter bastado para mostrar aos amigos da jovem que lhe faltava a primeira das qualidades requeridas para ser um socorro eficaz. Mas o que, acima de tudo, deveria tê-los esclarecido, é que sobre os Espíritos em geral tinha ele uma opinião inteiramente falsa. Segundo ele, os Espíritos superiores tem uma natureza fluídica muito etérea para poder vir à terra para comunicar-se com os homens e os assistir; isto só é possível aos Espíritos inferiores, em razão de sua natureza mais grosseira. Esta opinião, que não passa da doutrina da comunicação exclusiva dos demônios, ele cometia o grave erro de a sustentar em frente à doente, mesmo nos momentos de crise. Com esta maneira de ver, ele não devia contar senão consigo mesmo, e não podia invocar a única assistência que poderia ajudá-lo, assistência que, é verdade, julgava ele poder prescindir. A conseqüência mais prejudicial era para a doente, que ele desencorajava, tirando-lhe a esperança da assistência dos bons Espíritos. No estado de enfraquecimento em que estava o seu cérebro, uma tal crença, que dava todo poder ao Espírito obsessor, poderia tornar-se fatal para a sua razão, podendo mesmo matá-la. Assim, ela repetia sem cessar, nos momentos de crise: “Louca... louca... ele me põe louca... completamente louca... eu ainda não estou, mas ficarei.” Falando de seu magnetizador, ela pintava perfeitamente sua ação, dizendo: “Ele me dá a força do corpo, mas não a força do espírito.” Esta expressão era profundamente significativa e, contudo, ninguém lhe dava importância.
 
Quando vimos a senhorita Júlia, o mal estava no apogeu e a crise a que assistimos foi uma das mais violentas. Foi no momento em que procurávamos levantar-lhe o moral e inculcar-lhe o pensamento de que podia dominar esse mau Espírito, com a assistência dos bons e de seu anjo da guarda, cujo apoio era preciso invocar. Foi nesse momento, dizíamos, que o jovem magnetizador, que estava presente, por uma circunstância sem dúvida providencial, veio, sem qualquer provocação, afirmar e desenvolver sua teoria, destruindo por um lado o que fazíamos por outro. Tivemos que lhe expor com energia que praticava uma ação má e assumia a terrível responsabilidade da razão e da vida dessa moça infeliz.


Um fato dos mais singulares, que todos tinham observado, mas ninguém lhe deduzira as conseqüências, se produzia na magnetização. Quando era feita durante a luta com o mau Espírito, este, só, absorvia todo o fluído, que lhe dava mais força, enquanto a doente enfraquecia e sucumbia aos seus ataques. Deve lembrar-se que ela estava sempre em sonambulismo; assim, via o que se passava, e foi ela mesma quem deu a explicação. Não viram no fato senão uma malícia do Espírito e contentavam-se com se absterem de magnetizar nestes momentos e ficar assistindo a festa. Com o conhecimento da natureza dos fluídos, é fácil dar-se conta desse fenômeno. É evidente, para começar, que absorvendo o fluído para aumentar a força em detrimento da doente, o Espírito queria convencer o magnetizador da inutilidade de sua pretensão. Se havia malícia de sua parte, era contra o magnetizador, pois se servia da mesma arma com a qual este pretendia vencê-lo. Pode dizer-se que lhe tomava o bastão das mãos. Era evidente que a sua facilidade de se apropriar do fluído do magnetizador denotava uma afinidade entre esse fluído e o seu próprio, ao passo que fluídos de natureza contrária se teriam repelido, como água e óleo. Só esse fato basta para demonstrar que havia outras condições a preencher. É, pois, um erro dos mais graves e, podemos dizer, dos mais funestos, não ver na ação magnética mais que simples emissão fluídica, sem levar em conta a qualidade íntima dos fluídos. Na maioria dos casos, o sucesso repousa inteiramente nestas qualidades, como na terapêutica depende da qualidade do medicamento. Não seria demais chamar a atenção para este ponto capital, demonstrado, ao mesmo tempo, pela lógica e pela experiência.


Para combater a influência da doutrina do magnetizador, que já havia influenciado as idéias da doente, dissemos a esta:

 

“Minha filha, tenha confiança em Deus; olhe em sua volta. Não vê bons Espíritos?”

– “É verdade”, disse ela; vejo luminosos, que Fredegunda não ousa encarar.”

 

 – “Então! São os que vos protegem e não permitirão que o mau Espírito vença; implore a sua assistência; ore com fervor; ore sobretudo por Fredegunda.”

– “Oh! por ela jamais poderei.”

 

– “Cuidado! Veja que a estas palavras os bons Espíritos se afastam. Se quer sua proteção, é preciso merecê-la por seus bons sentimentos, esforçando-se sobretudo por ser melhor que a sua inimiga. Como quer que eles protejam, se não for melhor quer ela? Pense que em outras existências você terá censuras a se fazer; o que lhe acontece é uma expiação; se quer que esta cesse, terá que se melhorar e provar as boas intenções, começando por se mostrar boa e caridosa para com os inimigos. A própria Fredegunda será tocada e talvez você faça o arrependimento entrar no seu coração. Reflita.”

– “Eu o farei.”

 

– “Faça-o logo e diga comigo: “Meu Deus, eu perdôo a Fredegunda o mal que me fez; aceito-o como uma prova e uma expiação que mereci. Perdoai minhas faltas, como eu perdôo as dela. E vós, bons Espíritos que me cercais, abri o seu coração a melhores sentimentos e daí-me a força que me falta. “Prometa orar por ela todos os dias.”

– “Prometo.”

 

– “Esta bem. Por meu lado, vou cuidar de você e dela. Tenha confiança.”

– “oh! obrigada. Algo me diz que isto em breve vai acabar.”


Tendo dado conta disso à Sociedade, foram dadas a respeito as seguintes instruções:


“O assunto de que vos ocupais comoveu os próprios bons Espíritos que, por sua vez, querem vir em auxílio desta moça com seus conselhos. Com efeito, ela apresenta um caso de obsessão muito grave; e entre os que vistes e vereis ainda, pode-se por este no número dos mais importantes, mais sérios e, sobretudo, mais interessantes pelas particularidades instrutivas, já apresentadas e que oferecerá de novo”.


“Como já vos disse, esses casos de obsessão renovar-se-ão freqüentemente, e fornecerão dois assuntos distintos e de utilidade, primeiro para vós, depois para os que as sofrerem”.


“Primeiro para vós por isso que, assim como vários eclesiásticos contribuíram poderosamente para divulgar o Espiritismo entre os que lhe eram completamente estranhos, assim esses obsedados, cujo número tornar-se-á bastante importante para que deles se ocupem de maneira não superficial, mas larga e profunda, abrirão bem as portas da ciência para que a filosofia espírita possa com eles nela penetrar e ocupar entre gente de ciência e os médicos de todos os sistemas, o lugar a que tem direito”.


“Depois para eles, por isso que no estado de Espírito, antes de encarnar-se entre vós, eles aceitaram essa luta, que lhes proporciona a possessão que sofrem, em vista de seu adiantamento; e essa luta, acreditai, faz sofrer cruelmente seu próprio Espírito que, quando seu corpo, de certo modo, não é mais seu, tem a perfeita consciência do que se passa. Conforme tiverem suportado essa prova, cuja duração lhes podereis abreviar poderosamente por vossas preces, terão progredido mais ou menos. Porque, tende certeza, mau grado essa possessão, sempre momentânea, sempre guardam suficiente consciência de si mesmos, para discernir a causa e a natureza de sua obsessão.


“Para esta que vos ocupa, é necessário um conselho. As magnetizações que lhe faz suportar o Espírito encarnado, de que falastes, lhe são funestas, sob todos os aspectos. Aquele Espírito é sistemático. E que sistema! Aquele que não reporta todas as suas ações à maior glória de Deus, se envaidece das faculdades que lhe foram concedidas, será sempre confundido; os presunçosos serão rebaixados, às vezes neste mundo, e infalivelmente no outro. Tratai, pois, meu caro Kardec, para que essas magnetizações cessem imediatamente, ou os mais graves inconvenientes resultarão de sua continuação, não só para a moça, mas ainda para o imprudente, que pensa ter às suas ordens todos os Espíritos das trevas e lhes dar ordens como chefe”.


“Digo que vereis esses casos de
obsessão e de possessão se desenvolverem durante um certo tempo, porque são úteis ao progresso da ciência e do Espiritismo. É por isto que os médicos e os sábios enfim abrirão os olhos e aprenderão que há moléstias cujas causas não estão na matéria e não devem ser tratadas pela matéria. Esses casos de possessão vão igualmente abrir ao magnetismo, horizontes totalmente novos e lhe fazer dar um grande passo à frente pelo estudo, até aqui tão imperfeito, dos fluídos. Ajudado por esses novos conhecimentos e por sua aliança com o Espiritismo, ele obterá grandes coisas. Infelizmente no magnetismo, como na medicina, durante muito tempo ainda, haverá homens que julgarão nada ter a aprender. Essas obsessões freqüentes terão, também, um lado muito bom, por isso que, sendo penetrado pela prece e pela força moral, é possível fazê-las cessar e adquirir o direito de expulsar os mais Espíritos e, pelo melhoramento de sua conduta, cada um procurará adquirir o direito”. que o Espírito de verdade, que dirige este globo conferirá quando for merecido. Tende fé e confiança em Deus, que não permite que se sofra inutilmente e sem motivo.”

 

HAHNEMANN (Médium: sr. Albert)

 

 

“Serei breve. Será muito fácil curar essa infeliz possessa. Os meios estavam implicitamente contidos nas reflexões há pouco emitidas por Allan Kardec. Não só é necessária uma ação puramente espiritual. O Espírito encarnado que, como Júlia, se acha em estado de possessão, necessita de um magnetizador experimentado e perfeitamente convicto da verdade espírita. É necessário que seja, além disso, de uma moralidade irreprochável e sem presunção. Mas, para agir sobre o Espírito obsessor, é necessária a ação não menos enérgica de um bom Espírito desencarnado. Assim, pois, dupla ação: terrena e extraterrena; encarnado sobre encarnado; desencarnado sobre desencarnado; eis a lei. Se até agora tal ação não foi realizada, foi justamente para vos trazer ao estudo e à experimentação desta interessante questão. É por isto que a Júlia não se livrou mais cedo: ela devia servir para os vossos estudos”.


“Isto vos demonstra o que deveis fazer de agora em diante, nos
casos de possessão manifesta. É indispensável chamar em vossa ajuda o concurso de um Espírito elevado, gozando ao mesmo tempo de força moral e fluídica, como o excelente cura d´Ars; e sabeis que podeis contar com a assistência desse digno e Santo Vianney. Além disso, nosso concurso é dado a todos os que nos chamarem em auxílio, com pureza de coração e fé verdadeira”.


“Resumindo: Quando magnetizarem Júlia, será preciso começar pela fervorosa evocação do cura d´Ars e outros bons Espíritos que se comunicam habitualmente entre vós, pedindo-lhes que hajam contra os maus Espíritos que perseguem essa moça, e que fugirão ante suas falanges luminosas. Também não esquecer que a prece coletiva tem uma força muito grande, quando feita por certo número de pessoas agindo de acordo, com uma fé viva e um ardente desejo de aliviar.”

 

ERASTO (Médium: sr d´Ambel)

 

 

Estas instruções foram seguidas. Vários membros da Sociedade se entenderam para agir pela prece nas condições desejadas. Um ponto essencial era levar o Espírito obsessor a emendar-se, o que necessariamente deveria facilitar a cura. Foi o que se fez, evocando-o e lhe dando conselhos; ele prometeu não mais atormentar a senhorita Júlia e manteve a palavra. Um dos nossos colegas foi especialmente encarregado por seu guia espiritual de sua educação moral, com o que ficou satisfeito. Hoje esse Espírito trabalha seriamente em sua melhora e pede uma nova incarnação para expiar e reparar as suas faltas.


A importância do ensinamento, que decorre deste fato e das observações a que deu lugar, não escapará a ninguém e cada um poderá aí colher úteis instruções sobre a ocorrência. Uma observação essencial que o caso permitiu e que se compreende sem esforço, é a influência do meio. É evidente que se o meio secunda pela unidade de vistas, de intenção e de ação, o doente se acha numa espécie de atmosfera homogênea dos fluídos benéficos, o que deve necessariamente facilitar e apressar o sucesso. Mas se houver desacordo, oposição; se cada um quiser agir à sua maneira, resultarão repelões, correntes contrárias que, forçosamente, paralisarão e, por vezes anularão os esforços tentados para a cura. Os eflúvios fluídicos, que constituem a atmosfera moral, se forem maus, são tão funestos a certos indivíduos quanto as exalações das regiões pantanosas.

 

 

Conversas de além-túmulo: Fredegunda

janeiro de 1864.


Damos a seguir as duas evocações do espírito de Fredegunda, feitas na Sociedade, com um mês de intervalo, e que formam o complemento dos dois precedentes artigos sobre a possessão da senhorita Julie. Esse espírito não se manifestou com sinais de violência, mas escrevia com uma dificuldade muito grande e cansava extremamente o médium, que com isso ficava mesmo indisposto, e cujas faculdades pareciam, de alguma sorte, paralisá-las. Na previsão desse resultado, tivemos o cuidado de não confiar essa evocação a um médium muito delicado.


Numa outra circunstância, um espírito, interrogado à conta deste, dissera que, há muito tempo procurava se reencarnar, mas que isso não lhe fora permitido, porque seu objetivo não era ainda de se melhorar, sendo seu objetivo, ao contrário, de ter mais facilidade para fazer o mal, com a ajuda de um corpo material. De tais disposições deviam tornar sua conversa muito difícil; ela não o foi, no entanto, tanto quanto se poderia temê-lo, graças, sem dúvida, ao concurso benevolente de todas as pessoas que nisso participaram, e talvez também porque tinha chegado o tempo em que esse espírito deveria entrar no caminho do arrependimento.


(16 de outubro de 1863 - Médium, Sr. Leymarie.)


1. Evocação.

- R. Não sou Fredegunda; que quereis de mim?


2. Quem sois, pois?

- R. Um espírito que sofre.


3. Uma vez que sofreis, deveis desejar não mais sofrer; nós vos assistiremos, porque nos compadecemos com todos aqueles que sofrem neste mundo e no outro; mas é preciso que nos secundeis, e, para isso, é preciso que oreis.

- R. Eu vos agradeço por isso, mas não posso orar.


4. Vamos orar, isto vos ajudará; tende confiança na bondade de Deus, que perdoa sempre àquele que se arrepende.

- R. Creio em vós; orai, orai; talvez eu possa me converter.


5. Mas não basta que oremos, é preciso orar de vosso lado.

- R. Eu quis orar, e não pude; agora vou tentar com a vossa ajuda.


6. Dizei conosco: Meu Deus, perdoai-me, porque pequei; arrependo-me do mal que fiz.

- R. Eu o digo; depois.


7. Isso não basta; é necessário escrever.

- R. Meu.... (Aqui o espírito não pôde escrever a palavra Deus; não foi senão depois de forte encorajamento que chegou a terminar a frase, de maneira irregular e pouco legível.)


8. Não é preciso dizer isso pela forma; é necessário pensá-lo, e tomar a resolução de não mais fazer o mal, e vereis que logo estareis aliviada.

- R. Vou orar.


9. Se orastes sinceramente, com isso não vos sentis melhor?

- R. Oh! sim!


10. Agora, dai-nos alguns detalhes sobre a vossa vida e as causas de vossa obstinação contra Julie?

- R. Mais tarde... direi.... mas não posso hoje.


11. Prometeis deixar Julie em repouso? O mal que lhe fazeis recai sobre vós e aumenta os vossos sofrimentos.

- R. Sim, mas sou impelida por outros espíritos piores do que eu.


12. É uma desculpa má que dais aí para vos desculpar; em todos os casos, deveis ter uma vontade, e com a vontade pode-se sempre resistir às más sugestões.

- R. Se eu tivesse a vontade, não sofreria; sou punido porque não soube resistir.


13. Isso mostraríeis, no entanto, bastante para atormentar Julie; mas vindes de tomar boas resoluções, vos convidamos a persistir nisso, e pediremos aos bons espíritos para vos secundarem.


Nota: Durante esta evocação, um outro médium obtinha de seu guia espiritual uma comunicação contendo, entre outras coisas, o que se segue: "Não vos inquieteis com as negações que notais nas respostas deste espírito: sua idéia fixa de se reencarnar fá-lo repelir toda solidariedade com o seu passado, se bem que não lhe suporta senão muito os efeitos. Ela é bem aquela que foi nomeada, mas não quer convir nisso consigo mesma".


(13 de novembro de 1863.)


14. Evocação.

- R. Estou pronta para responder.


15. Tendes persistido na boa resolução em que estáveis na última vez?

- R. Sim.


16. Como vos achastes com isso?

- R. Muito bem, porque orei e estou mais calma, bem mais feliz.


17. Com efeito, sabemos que Julie não foi mais atormentada. Uma vez que podeis vos comunicar mais facilmente, quereis nos dizer porque vos obstinastes junto dela?
- R. Estive esquecida durante séculos, e desejava que a maldição que cobre meu nome cessasse um pouco, a fim de que uma prece, uma só, viesse me consolar. Oro, creio em Deus; agora posso pronunciar o seu nome, e certamente é mais do que não poderia esperar do benefício que podeis me conceder.


Nota: No intervalo da primeira para a segunda evocação, o espírito era chamado todos os dias por aquele de nossos colegas que foi encarregado de instruí-lo. Um fato positivo é que, a partir desse momento, a senhorita Julie deixou de ser atormentada.


18. É muito duvidoso que apenas o desejo de obter uma prece tenha sido o móvel que vos levou a atormentar aquela jovem; quereis, sem dúvida, ainda procurar encobrir vossos erros; em todo o caso, era um meio mau de atrair sobre vós a compaixão dos homens.
- R. No entanto, se não tivesse atormentado muito Julie, não ferieis pensado em mim, e eu não teria saído do miserável estado em que me arrastava. Disso resultou uma instrução para vós e um grande bem para mim, uma vez que me abristes os olhos.


19. (Ao guia do médium.) É bem Fredegunda que dá esta resposta?

- R. Sim, é ela, um pouco ajudada, é verdade, porque está humilhada; mas este espírito é muito mais avançado do que não credes; é-lhe preciso o progresso moral com o qual a ajudais a dar o primeiro passo. Ela não vos disse que Julie tirará um grande proveito daquilo que se passou para o seu adiantamento pessoal.


20. (A Fredegunda.) A senhorita Julie vivia em vosso tempo, e poderíeis nos dizer o que ela era?

- R. Sim; era uma de minhas damas de companhia, chamada Hildegarde; uma alma sofredora e resignada que fez a minha vontade; sofreu a pena de seus serviços muito humildes e muito complacentes a meu respeito.


21. Desejais uma nova encarnação?

- R. Sim, eu a desejo. Ó meu Deus! sofri mil torturas, e se tenho merecido uma pena justa, ai de mim! é tempo que eu possa, com a ajuda de vossas preces, recomeçar uma existência melhor, a fim de me lavar de minhas antigas sujeiras. Deus é justo; orai por mim. Até este dia, eu tinha desconhecido toda a extensão de minha pena; tinha como a vertigem; mas no presente vejo, compreendo, desejo o perdão do Senhor com o de minhas vítimas. Meu Deus, quanto é doce o perdão!


22. Dizei alguma coisa de Brunehaut!

- R. Brunehaut!. Esse nome me dá vertigem.... Ela é a grande falta da minha vida, e senti meu velho ódio despertar a esse nome!... Mas meu Deus me perdoará, e poderei doravante escrever este nome sem tremer. Mais feliz do que eu, ela está reencarnada pela segunda vez, e cumpre um papel que eu desejo, o de uma irmã de caridade.


23. Estamos felizes com a vossa mudança, para isso vos encorajamos, vos sustentamos com as nossas preces.

- R. Obrigada! obrigada! bons espíritos, Deus vo-lo restituirá.


Nota: Um fato característico nos maus espíritos é a impossibilidade em que estão, freqüentemente, de pronunciarem ou escreverem o nome de Deus. Sem dúvida, isto denota uma natureza má, mas, ao mesmo tempo, um fundo de temor e de respeito que os espíritos hipócritas não têm, menos maus em aparência; estes últimos, longe de recuarem diante do nome de Deus, dele se servem impudentemente para captar a confiança. São eles infinitamente mais perversos e mais perigosos do que os espíritos francamente maus; é nesta classe que se acha a maioria dos espíritos fascinadores, dos quais é mais difícil de se desembaraçar do que dos outros, porque é do próprio espírito que se apoderam com a ajuda de uma falsa aparência de saber, de virtude ou de religião, ao passo que os outros se apoderam do corpo. Um espírito que, como o de Fredegunda, recua diante do nome de Deus, está muito mais perto de sua conversão do que aqueles que se cobrem com a máscara do bem. Ocorre o mesmo entre os homens, onde encontrareis essas duas categorias de espíritos encarnados.

 

 

- Para complementar a leitura sobre este assunto, sugerimos ler também in A GÊNESE, cap. XIV,

Obsessões e Possessões, itens 45 à 49, obra codificada por Allan Kardec.

 

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