REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 12 - JUNHO 1869 - Nº. 6

 

 

PEDRA TUMULAR DO SR. ALLAN KARDEC

 

 

 

Na reunião da Sociedade de paris que se seguiu imediatamente às exéquias do Sr. Allan Kardec, os espíritas presentes membros da Sociedade e outros, emitiram a opinião unânime de que um monumento, testemunha da simpatia e do reconhecimento dos espíritas em geral, fosse edificado para honrar a memória do coordenador de nossa Filosofia. Um grande número de nossos aderentes da província e do estrangeiro se associaram a este pensamento. Mas o exame da proposição teve necessariamente de ser retardado, porque convinha verificar primeiro o Sr. Allan Kardec havia feito disposição a tal respeito e quais eram essas disposições.

 

Tudo bem examinado, nada mais se opondo ao estudo da questão, a comissão, depois de madura reflexão, deteve-se, salvo modificação, numa decisão que, permitindo satisfazer ao anseio legítimo dos espíritas, lhe parece harmonizar-se com o caráter bem conhecido do nosso saudoso presidente.

 

É bem evidente para nós, como para todos os que o conheceram, que o Sr. Allan Kardec, como Espírito, não se interessa de modo algum por uma manifestação deste gênero, mas o homem se apaga, neste caso, diante do chefe da doutrina, e o exige a dignidade, direi mais , o dever daqueles que ele consolou e esclareceu, que se consagre por um monumento imperecível o lugar onde repousam os seus restos mortais.

 

Seja qual for o nome que a designou, é fora de dúvida para todos os que estudaram um pouco a questão e para os nossos próprios adversários, que a doutrina espírita existiu por toda a Antiguidade, e isto é muito natural, pois ela repousa nas leis da Natureza, tão antigas quanto o mundo; mas também é evidente que, de todas as crenças antigas, é ainda o Druidismo, praticado por nossos antepassados, os Gauleses, a que mais se aproxima de nossa filosofia atual. Também é nos monumentos funerários que cobrem o solo da antiga Bretanha que a comissão reconheceu a mais perfeita expressão do caráter do homem e da obra que se tratava de simbolizar.

 

O homem era a simplicidade encarnada; e se a doutrina é, ela própria, simples como tudo quanto é verdadeiro, é, tão indestrutível quanto as leis eternas sobre as quais repousa.

 

O monumento se comporia, pois de duas pedras de granito bruto, eretas, encimadas por uma terceira, repousando obliquamente sobre as duas primeiras, numa palavra, de um dólmen. Na face inferior da pedra superior seria gravado simplesmente o nome de Allan Kardec, com está epígrafe: Todo o efeito tem uma causa; todo o efeito inteligente tem uma causa inteligente; a potência da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.

 

Esta proposição, acolhida por sinais unânimes de assentimento dos membros da Sociedade de paris, nos pareceu que devia ser levada ao conhecimento dos nossos leitores. Não sendo o monumento apenas a representação dos sentimentos da Sociedade de Paris, mas dos espíritas em geral, cada um devia ser posto em condições de apreciá-lo e para ele concorrer.

 

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Outras informações sobre o túmulo de Kardec:

Pesquisa E. Mollo 

 

O granito que abriga os restos do corpo físico que pertenceu a Allan Kardec foi talhado à semelhança dos monumentos druídicos, cujos vestígios se encontram nos descampados da Bretanha.

 

Na face dianteira do referido pedestal, Lêem-se as seguintes inscrições:

 

FONDATEUR DE LA PHILOSOPHIE SPIRITE
(Fundador da Filosofia Espírita)

 


 

TOUT EFFET A UNE CAUSE TOT EFFET INTELLINGENT A UNE CAUSE INTELLIGENTE
(Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente.)
 

LA PUISSANCE DE LA CAUSE EST EN RAISON DE LA GRANDEUR DE L'EFFET
(O poder da causa está na razão da magnitude do efeito.)

 

3 CTOBRE (outubro)1804
31 MARS (março) 1869

 

Cappiello segundo André Moreil ou Capellaro segundo Zêus Wantuil, Francisco Thiesen e Jorge Rizzini esculpiu-lhe o busto, notável pela vigorosa majestade do semblante e em cuja cabeça se destacam dois olhos singularmente comovedores.

 

No bordo frontal da pedra que, pesando seis toneladas, serve de teto, acha-se gravado o dito breve e silencioso que resume a doutrina espírita, de justiça e de progresso:

NAITRE, MOURIR, RENAITRE ENCORE ET PROGRESSER SANS CESSE TELLE EST LA LOI

(Nascer, morrer, renascer novamente e melhorar constantemente ESTA É A LEI.)

Quando de sua inauguração, o dólmen não registrava a célebre frase "Nascer, morrer, renascer ainda e progredir continuamente, tal é a lei"(1), que foi esculpida ainda em 1870. Ao contrário do que muitas vezes se afirma, essa frase não se deve textualmente ao próprio Kardec, não obstante represente corretamente o pensamento espírita, tendo sido esculpida em 1870 pelo Sr. Pégard, gravador, conforme desenho feito pelo Sr. Sebille..  (AK III 118-152).

 

Na solenidade, um pedreiro (maçom), com uma martelo numa das mãos e a colher na outra, procurou em pequeno discurso dizer que o edifício a ser levantado seria um dia destruído, acrescentando:

 

"Maitre pour mourir, mourir pour renaitre, telle est la loi universelle.

Les hommens y sont soumis, à bien plus forte raison leurs travaux."

("Nascer para morrer, morrer para renascer, esta é a lei universal.

Os homens estão sujeitos à muito mais, dependendo, da razão do seu trabalho.")

 

No dia 2 de julho de 1989, domingo, na calada da noite, terroristas pularam o muro do cemitério Père-Lachaise, em Paris, com o objetivo de fazer explodir o túmulo de Allan Kardec, inaugurado um ano após o desenlace do Codificador, 31 de março de 1870. Os terroristas que eram profissionais, colocaram na tumba cargas de explosivos, visando fazer desabar a imensa pedra horizontal. E acenderam o pavio. Foi exatamente às duas horas e quinze minutos da madrugada que se ouviu a explosão. Foi tão violenta que o pesado busto em bronze de Kardec com o pedestal de granito veio abaixo, deslizando por cerca de vinte centímetros. Além de rachar a base granítica o monólito afundou um pouco, e atingiu parte dos restos do caixão onde se encontrava os ossos que pertenceram ao corpo físico do codificador.

 

A polícia não localizou os criminosos. 

 

Fontes:

Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, ALLAN KARDEC (Pesquisa Bibliográfica e Ensáios de Interpretação), FEB, 2ª edição.

Jorge Rizzini, Kardec, Irmãs Fox e Outros, EME, 2ª edição.

André Moreil, Vida e Obra de Allan Kardec, EDICEL, 4ª edição.

 

(1) Esta famosa frase ao que parece derivou de pequenos textos que Kardec escreveu em vários números da Revista Espírita, em especial a de um discurso de 14 de outubro de 1861, publicada na RE de novembro de 1861, Reunião Geral dos Espíritas Bordoleses, onde o Sr. Sabò disse: "...a reencarnação é o progresso. É, enfim, a santa escada que devem subir todos os homens. Seus degraus são as fases das diversas existências a percorrer para atingir o topo, pois Deus disse: Para chegar a Ele é preciso nascer, morrer e renascer até que se tenha alcançado os limites da perfeição e ninguém a Ele chega sem se ter purificado pela reencarnação."

 

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