REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 8 - OUTUBRO 1865 - Nº. 10

 

 

PARTIDA DE UM ADVERSÁRIO DO ESPIRITISMO

PARA O MUNDO DOS ESPÍRITOS

 

 

 

Escrevem-nos de V...:

 

"Há algum tempo morreu um eclesiástico nas nossas vizinhanças. Era um adversário declarado do Espiritismo, mas não um desses adversários furibundos, como se veem tantos, que suprem a falta de boas razões pela violência e pela injúria. Era um homem instruído, de inteligência superior. Combatia-o com talento, sem acrimônia e sem se afastar das conveniências.

 

Infelizmente para ele, e a despeito de todo o seu saber e incontestável mérito, só lhe pôde opor os lugares-comuns ordinários e, para o derrubar, não encontrou nenhum desses argumentos que levam ao espírito das massas uma convicção irresistível.  Sua ideia fixa, ou pelo menos a que buscava fazer prevalecer, era que o Espiritismo só teria um tempo; que sua rápida propagação não passava de um entusiasmo passageiro, e que cairia como todas as ideias utópicas.

 

"Tivemos a ideia de o evocar em nosso pequeno círculo.  Sua comunicação nos pareceu instrutiva, sob vários aspectos, razão por que nós vo-la remetemos.  Em nossa opinião ela traz um selo incontestável de identidade.

 

"Eis a comunicação:

 

P. - [Ao guia do médium].  Teríeis a bondade de dizer se podemos fazer a evocação do Sr.  abade D...?

 

Resp.  - Sim; ele virá.  Mas, embora persuadido da realidade de vossos ensinos, de que a morte o convenceu, ainda tentará provar-vos a inutilidade dos vossos esforços para espalhá-los de maneira séria. Ei-lo pronto a apoiar-se em dissensões momentâneas suscitadas por alguns irmãos que se extraviaram, para vos provar a insanidade de vossa doutrina. Escutai-o; sua linguagem vos fará conhecer a maneira por que lhe deveis falar.

 

Evocação - Caro Espírito D..., esperamos que, com a ajuda de Deus e dos Espíritos bons, vos digneis comunicar-vos conosco.  Como podeis ver, todo sentimento de curiosidade está longe de nosso pensamento.  Provocando esta conversa, nosso objetivo é dela tirar uma instrução proveitosa para nós e, talvez, também para vós.  Ser-vos-emos, pois, reconhecidos pelo que nos quiserdes dizer.

 

Resp. - Tendes razão de me chamar, mas vos enganais supondo que eu pudesse recusar-me a vir até vós. Ficai certos de que meu título de adversário do Espiritismo não é motivo para que eu guarde silêncio; tenho boas razões para falar.

 

Minha vinda é uma confissão, uma afirmação dos vossos ensinos. Eu o sei e o reconheço.  Estou convencido da realidade das manifestações que hoje experimento, mas não é uma razão para que lhe reconheça a excelência, nem que admita como certo o objetivo a que vos propondes. Sim, os Espíritos se comunicam, e não apenas os demônios, como ensinamos, e por cálculo. É inútil que me estenda a respeito, pois conheceis tão bem quanto eu as razões que nos levam a agir assim. Certamente, os Espíritos de todas as espécies se comunicam; disto sou uma prova, porquanto, embora não tenha a veleidade de me crer um ser superior, quer por meus conhecimentos, quer por minha moralidade, tenho bastante consciência de meu valor para me estimar acima dessas categorias de Espíritos sujeitos à expiação das mais vis imperfeições. Não sou perfeito; como qualquer um, cometi faltas. Mas - reconheço com orgulho - se fui um homem de partido, fui, ao mesmo tempo, um homem de bem, no verdadeiro sentido da palavra.

 

Escutai-me, pois. Os padres podem estar equivocados em vos combater.  Não sei o que reserva o futuro e não entrarei em discussão se há ou não fundamento em sua oposição, verdadeiramente sistemática; mas, também, examinando com cuidado todas as consequências de uma aceitação, não podeis deixar de reconhecer que causaríeis a sua ruína social ou, pelo menos, uma transformação tão absoluta, que todo privilégio, toda separação dos outros homens a rigor seriam aniquiladas. Ora, não se renuncia com alegria no coração a uma realeza tão invejável, a um prestígio que eleva acima do comum, a riquezas que, por serem materiais, não são menos necessárias à satisfação do padre quanto à do homem comum.  Pelo Espiritismo, não mais oligarquia clerical; o padre não é ninguém e é qualquer um; o padre é o homem de bem que ensina a verdade aos seus irmãos; é o operário caridoso que ergue seu companheiro caído.  Vosso sacerdócio é a fé; vossa hierarquia, o mérito; vosso salário, Deus!  é grande!  é belo!  Mas, é preciso dizer, mais cedo ou mais tarde é a ruína, não do homem, que só pode ganhar com esses ensinos, mas da família clerical. Não se renuncia de boa vontade, repito, às honras, ao respeito que se está habituado a colher. Tendes razão, eu o quero!  e, contudo, não posso desaprovar nossa atitude frente ao vosso ensino; digo nossa, porque ainda é minha, apesar de tudo o que vejo e de tudo o que podereis dizer-me.

 

Admitamos vossa doutrina firmada; ei-la escutada, por toda parte estendendo suas ramificações, no seio do povo como nas classes ricas, no artesão como no literato.  Este último é que vos prestará o concurso mais eficaz; mas que resultará de tudo isto?  Em minha opinião, ei-lo:

 

Já se operam divisões entre vós.  Existem duas grandes seitas entre os espíritas: os espiritualistas da escola americana e os espíritas da escola francesa.  Mas consideremos apenas esta última. É una? Não. Eis, de um lado, os puristas ou kardecistas, que não admitem nenhuma verdade senão depois de um exame atento e da concordância com todos os dados; é o núcleo principal, mas não é o único; diversos ramos, depois de se terem infiltrado nos grandes ensinamentos do centro, se separam da mãe comum para formar seitas particulares; outros, não inteiramente destacados do tronco, emitem opiniões subversivas. Cada chefe de oposição tem seus aliados; os campos ainda não estão delineados, mas se formam e logo rebentará a cisão. Eu vos digo, o Espiritismo, assim como as doutrinas filosóficas que o precederam, não poderia ter uma longa duração.  Foi e cresceu, mas agora está no topo e já começa a descer. Sempre faz alguns adeptos, mas, como o são-simonismo, como o fourierismo, como os teósofos, cairá, talvez para ser substituído, mas cairá, creio firmemente.

 

Contudo, seu princípio existe: os Espíritos; mas, também, não tem os seus perigos?  Os Espíritos inferiores podem comunicar-se: é a sua perda.  Os homens são, antes de tudo, dominados por suas paixões, e os Espíritos de que acabo de falar estão habituados a excitá-los.  Como há mais imperfeições do que qualidades em nossa Humanidade, é evidente que o Espírito do mal triunfará, e que se o Espiritismo algo pode, certamente será a invasão de um flagelo terrível para todos.

 

Dito isto, concluo que, bom em essência, é mau por seus próprios resultados e, então é prudente rejeitá-lo.

 

O médium - Caro Espírito, se o Espiritismo fosse uma concepção humana, eu teria a mesma opinião que a vossa; mas se vos é impossível negar a existência dos Espíritos, também não podeis ignorar, no movimento dirigido pelos seres invisíveis, a mão poderosa da Divindade. Ora, a menos que negueis os vossos próprios ensinos, quando estáveis na Terra, não podereis admitir que a ação do homem possa ser um obstáculo à vontade de Deus, seu criador. De duas, uma: ou o Espiritismo é uma obra de invenção humana e, como toda obra humana, sujeita à ruína; ou é obra de Deus, a manifestação da sua vontade e, neste caso, nenhum obstáculo poderia impedi-lo e nem mesmo retardar o seu desenvolvimento. Se, pois, reconheceis que existem Espíritos, e que esses Espíritos se comunicam para nos instruir, isto não pode estar fora da vontade divina, porque, então, existiria ao lado de Deus um poder independente, que destruiria sua qualidade de todo poderoso e, por conseguinte, de Deus. O Espiritismo não poderia ser arruinado pelo fato de algumas dissensões que os interesses humanos poderiam gerar em seu seio.

 

Resp. - Talvez tendes razão, meu jovem amigo (o médium era um rapaz), mas mantenho o que disse.  Cesso toda discussão a respeito.  Estou à vossa disposição para qualquer pergunta que queirais fazer, isto à parte.

 

O médium - Pois bem!  já que o permitis, sem insistir sobre um assunto que talvez vos fosse penoso prosseguir no momento, rogaríamos que nos descrevêsseis vossa passagem desta para a vida em que estais, dizer se ficastes perturbado e se, na vossa posição atual, vos podemos ser úteis.

 

Resp. - Mau grado meu, não posso deixar de reconhecer a excelência desses princípios que ensinam ao homem o que é a morte e que lhe fazem ter afeição por seres que lhe são totalmente desconhecidos. Mas... enfim, meu caro jovem, vou responder à vossa pergunta. Não quero abusar do vosso tempo e satisfarei o vosso desejo em poucas palavras.

 

Confessarei, pois, que no momento de morrer estava apreensivo. Era a matéria que me levava a lamentar esta existência? era a ignorância do futuro?  não vo-lo ocultarei, eu tinha medo! Perguntais se eu estava perturbado; como o entendeis?  Se quereis dizer que a ação violenta da separação me mergulhou numa espécie de letargia moral, da qual saí como de um sono penoso, sim, fiquei perturbado; mas se entendeis uma perturbação nas funções da inteligência: a memória, a consciência de si mesmo, não.

 

Entretanto, a perturbação existe para certos seres; talvez também para mim, embora não o creia. Mas o que creio é que, geralmente, esse fenômeno não deve ocorrer imediatamente após a morte. É verdade que fiquei surpreso ao ver a existência do Espírito tal qual ensinais, mas isto não é perturbação. Eis como entendo a perturbação, e em que circunstâncias a experimentaria.

 

Se eu não estivesse seguro da verdade de minha crença; se a dúvida tivesse entrado em minha alma a respeito do que então acreditei; se uma modificação brusca se operasse em minha maneira de ver, aí eu teria ficado perturbado. Mas minha opinião é que tal perturbação não deve ocorrer logo depois da morte. Se creio no que me diz a razão, ao morrer o ser deve ficar tal qual era antes de passar... só mais tarde, quando o isolamento, a mudança que se opera gradualmente à sua volta, modificam suas opiniões, quando seu ser experimenta um abalo moral que faz vacilar sua segurança primitiva, é que começa realmente a perturbação.

 

Perguntais se me podeis ser útil em alguma coisa. Minha religião me ensina que a prece é boa; vossa crença diz que é útil. Então orai por mim e tende certeza de meu reconhecimento. Apesar da dissidência que existe entre nós, não ficarei menos satisfeito por vir conversar algumas vezes convosco.

 

Abade D...

 

Nosso correspondente tinha razão ao dizer que essa comunicação é instrutiva. Ela o é, com efeito, sob muitos aspectos, e nossos leitores apreenderão facilmente os graves ensinos que dela ressaltam, sem que tenhamos necessidade de os assinalar. Aí vemos um Espírito que, em vida, tinha combatido nossas doutrinas e esgotado contra ela todos os argumentos que seu profundo saber pudera lhe fornecer; sábio teólogo, é provável que não tenha desprezado nenhum. Como Espírito há pouco desencarnado, reconhecendo as verdades fundamentais sobre as quais nos apoiamos, nem por isso persiste menos em sua oposição, e isto pelos mesmos motivos. Ora, é incontestável que, se mais lúcido no seu estado espiritual, tivesse encontrado argumentos mais peremptórios para nos combater, os teria feito valer. Longe disto, parece ter medo de enxergar muito claro e, contudo, pressente uma modificação em suas ideias.  Ainda imbuído das ideias terrenas, a elas liga todos os seus pensamentos; o futuro o assusta, razão por que não ousa encará-lo.

 

Responder-lhe-emos como se ele tivesse escrito, em vida, o que ditou depois da morte. Dirigimo-nos tanto ao homem quanto ao Espírito, assim respondendo aos que partilham sua maneira de ver e que nos poderiam opor os mesmos argumentos.

 

Assim lhe diremos:

 

Senhor abade, embora tenhais sido nosso adversário declarado e militante na Terra, nenhum de nós o tem assim, nem hoje, nem quando éreis vivo, primeiro porque nossa fé faz da tolerância uma lei e, aos nossos olhos todas as opiniões são respeitáveis, quando sinceras. A liberdade de consciência é um dos nossos princípios; nós a queremos para os outros, como a desejamos para nós. Só a Deus cabe julgar a validade das crenças e nenhum homem tem o direito de anatematizar em nome de Deus. A liberdade de consciência não tira o direito de discussão e de refutação, mas a caridade ordena não amaldiçoar ninguém. Em segundo lugar, não vos queremos menos por isto, porque vossa oposição não trouxe nenhum prejuízo à doutrina; servistes à causa do Espiritismo sem o saber, como todos os que o atacam, ajudando a torná-lo conhecido e provando, sobretudo em razão do vosso mérito pessoal, a insuficiência das armas que empregam para o combater.

 

Permiti-me, agora, discutir algumas de vossas proposições.

 

Sobretudo uma me parece pecar, em alto grau, contra a lógica. É aquela em que dizeis que "O Espiritismo, bom por essência, é mau por seus resultados." Parece que esquecestes a máxima do Cristo, tornada proverbial pela força da verdade: "Uma árvore boa não pode dar maus frutos." Não se compreenderia que uma coisa boa em sua própria essência pudesse ser perniciosa.

 

Dizeis noutra parte que o perigo do Espiritismo está na manifestação dos Espíritos maus que, em proveito do mal, explorarão as paixões dos homens. Era uma das teses que sustentáveis em vida. Mas, ao lado dos Espíritos maus, há os bons, que excitam ao bem, ao passo que, segundo a doutrina da Igreja, o poder de comunicar-se só é dado aos demônios. Se, pois, achais o Espiritismo perigoso, porque admite a comunicação dos Espíritos maus, ao lado dos bons, a doutrina da Igreja, se fosse verdadeira, ainda seria muito mais perigosa, porque só admite a dos maus.

 

Aliás, não foi o Espiritismo quem inventou a manifestação dos Espíritos, nem é causa de sua comunicação. Ele apenas constata um fato, que se produziu em todos os tempos, porque está em a Natureza. Para que o Espiritismo deixasse de existir, seria preciso que os Espíritos deixassem de se manifestar. Se essa manifestação oferece perigos, não se deve acusar o Espiritismo, mas a Natureza. A ciência da eletricidade será a causa dos prejuízos ocasionados pelo raio? Não, certamente; ela dá a conhecer a causa do raio e ensina os meios de o desviar. Dá-se o mesmo com o Espiritismo: torna conhecida a causa de uma influência perniciosa, que age sobre o homem à sua revelia, e lhe indica os meios de dela se proteger, ao passo que se a ignorasse sofrê-la-ia e a ela se exporia sem suspeitar.

 

A influência dos Espíritos maus faz parte dos flagelos a que o homem está exposto na Terra, como as doenças e os acidentes de toda sorte, porque está num mundo de expiação e de prova, onde deve trabalhar por seu adiantamento moral e intelectual. Mas Deus, em sua bondade, ao lado do mal sempre põe o remédio; deu ao homem a inteligência para o descobrir; é a isto que conduz o progresso das ciências.  O Espiritismo vem indicar o remédio a um desses males; ensina que para a ele se subtrair e neutralizar a influência dos Espíritos maus, é preciso tornar-se melhor, domar os maus pendores, praticar as virtudes ensinadas pelo Cristo: a humildade e a caridade. Então é a isto que chamais maus resultados?

 

A manifestação dos Espíritos é um fato positivo, reconhecido pela Igreja. Ora, hoje a experiência vem demonstrar que os Espíritos são as almas dos homens, razão pela qual há tantos imperfeitos. Se o fato vem contradizer certos dogmas, o Espiritismo não é mais responsável que a Geologia, por ter demonstrado que a Terra não foi feita em seis dias.  O erro desses dogmas é não estarem de acordo com as leis da Natureza. Por essas manifestações, como pelas descobertas da Ciência, quer Deus reconduzir o homem a crenças mais verdadeiras. Repelir o progresso é, pois, desconhecer a vontade de Deus; atribuí-lo ao demônio é blasfemar contra Deus. Querer, por bem ou por mal, manter uma crença que se opõe à evidência e fazer de um princípio reconhecido como falso a base de uma doutrina é escorar uma casa num esteio carcomido; pouco a pouco o esteio se quebra e a casa cai.

 

Dizeis que a oposição da Igreja ao Espiritismo tem sua razão de ser e a aprovais, porque causaria a ruína do clero, cuja separação do comum dos mortais seria aniquilada. Dizeis: "Com o Espiritismo, não mais oligarquia clerical; o padre não é ninguém e é qualquer um; é o homem de bem que ensina a verdade a seus irmãos; é o operário caridoso que ergue seu companheiro caído; vosso sacerdote é a fé; vossa hierarquia, o mérito; vosso salário, Deus! é grande! é belo! Mas não se renuncia com alegria no coração a uma realeza, a um prestígio que vos eleva acima do comum, ao respeito, às honras que se está habituado a colher, a riquezas que, por serem materiais, não são menos necessárias à satisfação do padre quanto à do homem ordinário."

 

Pois quê!  então o clero seria movido por sentimentos tão mesquinhos? Desconheceria a tal ponto estas palavras do Cristo: "Meu reino não é deste mundo", que sacrificaria o interesse da verdade à satisfação do orgulho, da ambição e das paixões mundanas?  Então não acreditaria nesse reino prometido por Jesus-Cristo, desde que a ele prefere o da Terra. Assim, teria seu ponto de apoio no céu, apenas em aparência, e para se dar prestígio, mas na verdade para salvaguardar seus interesses terrenos! Preferimos crer que se tal for o móvel de alguns de seus membros, não é o sentimento da maioria; se assim não fosse, seu reino estaria bem próximo de acabar, e vossas palavras seriam sua sentença, porque o reino celeste é o único eterno, ao passo que os da Terra são frágeis e sem estabilidade.

 

Ides muito longe, Sr. abade, em vossas previsões sobre as consequências do Espiritismo; mas longe do que eu em meus escritos. Sem vos acompanhar neste terreno, direi simplesmente, porque cada um o pressente, que o resultado inevitável será uma transformação da sociedade; ele criará uma nova ordem de coisas, novos hábitos, novas necessidades; modificará as crenças, as relações sociais; fará à moral o que fazem, do ponto de vista material, todas as grandes descobertas da indústria e das ciências. Essa transformação vos assusta e é por isso que, ao pressenti-la, vós a afastais do pensamento; quereríeis não crer nela; numa palavra, fechais os olhos para não ver, e os ouvidos para não ouvir. Dá-se o mesmo com muitos homens na Terra. Entretanto, se essa transformação estiver nos desígnios da Providência, realizar-se-á, façam o que fizerem; será preciso suportá-la, quer queiram quer não e a ela se dobrar, como os homens do antigo regime tiveram de sofrer as consequências da Revolução, que também negavam e declaravam impossível, antes que se tivesse realizado. 

 

A quem lhes houvesse dito que em menos de um quarto de século todos os privilégios seriam abolidos; que um menino não seria mais coronel ao nascer; que não mais se compraria um regimento como uma boiada; que o soldado poderia tornar-se marechal e o último plebeu, ministro; que todos os direitos seriam iguais para todos e que o fazendeiro teria voz igual em todos os negócios de seu rincão, ao lado do seu senhor, eles teriam balançado os ombros de incredulidade e, contudo, se um deles tivesse adormecido e despertado, como Epimênides, quarenta anos mais tarde, julgaria encontrar-se num outro mundo.

 

É o temor do futuro que vos faz dizer que o Espiritismo terá apenas um tempo; procurai vos iludir, quereis prová-lo a vós mesmos e acabais crendo de boa-fé, porque isto vos tranquiliza. Mas que razão apresentais? A menos concludente de todas, como é fácil demonstrar.

 

Ah!  se provásseis terminantemente que o Espiritismo é uma utopia, que repousa sobre um erro material de fato, sobre uma base falsa, ilusória, sem fundamento, então teríeis razão. Mas, ao contrário, afirmais a existência do princípio e, além disso, a excelência desse princípio; reconheceis, e convosco a Igreja, a realidade do fato material sobre o qual repousa: o das manifestações. Tal fato pode ser destruído? Não, como não se pode aniquilar o movimento da Terra. Uma vez que está na Natureza, produzir-se-á sempre.  Esse fato, outrora incompreendido, porém mais bem estudado e mais compreendido hoje, traz em si mesmo consequências inevitáveis. Se não o podeis destruir, sois forçado a lhe sofrer as consequências. Segui-o passo a passo em suas ramificações e chegareis fatalmente a uma revolução nas ideias. Ora, uma mudança nas ideias leva forçosamente a uma mudança na ordem das coisas.  (Vide O que é o Espiritismo?).

 

Por outro lado, o Espiritismo não dobra as inteligências ao seu jugo; não impõe uma crença cega; quer que a fé se apoie na compreensão. É sobretudo nisto, Sr.  abade, que diferimos na maneira de ver.  Ele deixa a cada um inteira liberdade de exame, em virtude do princípio de que, sendo a verdade una, mais cedo ou mais tarde deve prevalecer sobre o que é falso, e que um princípio fundado no erro cai pela força das coisas. Entregues à discussão, as ideias falsas mostram seu lado fraco e se apagam ante o poder da lógica. Essas divergências são inevitáveis, porque ajudam a depuração e a solidez da ideia fundamental; e é preferível que se produzam desde o começo, pois a doutrina verdadeira dela se livrará mais cedo. É por isso que sempre dissemos aos adeptos: Não vos inquieteis com as ideias contraditórias, que podem ser emitidas ou publicadas. Vede quantas já morreram no nascedouro! quantos escritos dos quais não mais se fala! O que buscamos? O triunfo, a qualquer custo, de nossas ideias? Não, mas o da verdade. Se, no número das ideias contrárias, algumas forem mais verdadeiras que as nossas, elas prevalecerão e deveremos adotá-las; se forem falsas, não poderão suportar a prova decisiva do controle do ensino universal dos Espíritos, único critério da ideia que sobreviverá.

 

A comparação que estabeleceis entre o Espiritismo e outras doutrinas filosóficas carece de exatidão. Não foram os homens que fizeram do Espiritismo o que ele é, nem que farão o que será mais tarde; são os Espíritos por seus ensinos.  Os homens apenas o põem em ação e coordenam os materiais que lhes são fornecidos.  Esse ensino ainda não está completo e não se deve considerar o que deram até hoje senão como as primeiras balizas da ciência.  Pode-se compará-lo às quatro operações em relação às matemáticas, e ainda estamos nas equações do primeiro grau. Daí por que muita gente ainda não lhe compreende a importância, nem o alcance. Mas os Espíritos regulam seu ensino à vontade e de ninguém depende fazê-los ir mais depressa ou mais devagar do que eles querem; eles não acompanham os impacientes, nem vão a reboque dos retardatários.

 

O Espiritismo não é obra de um só Espírito, nem de um só homem; é obra dos Espíritos em geral.  Segue-se daí que a opinião de um Espírito sobre um princípio qualquer não é considerada pelos espíritas senão como opinião individual, que pode ser justa ou falsa, e só tem valor quando sancionada pelo ensino da maioria, dado em diversos pontos do globo.  Foi esse ensino universal que fez o que ele é e que fará o que ele será.  Diante desse poderoso critério caem, necessariamente, todas as teorias particulares que fossem produto de ideias sistemáticas, quer de um homem, quer de um Espírito isoladamente.  Sem dúvida uma ideia falsa pode agrupar à sua volta alguns partidários, mas jamais prevalecerá contra a que é ensinada em toda parte.

 

O Espiritismo, que mal acaba de nascer, mas que já levanta questões da mais alta gravidade, necessariamente põe em efervescência uma porção de imaginações. Cada um vê a coisa de seu ponto de vista.  Daí a diversidade dos sistemas surgidos em seu começo, a maioria dos quais já tombados ante a força do ensino geral. Dar-se-á o mesmo com todos os que não estiverem com a verdade, porquanto, ao ensino divergente de um Espírito, dado por um médium, opor-se-á sempre o ensino uniforme de milhões de Espíritos, dado por milhões de médiuns. Eis a razão pela qual certas teorias excêntricas viveram apenas alguns dias e não saíram do círculo onde nasceram. Privadas de sanção, não encontram na opinião das massas nem ecos nem simpatias e se, além disso, chocam a lógica e o bom-senso, provocam um sentimento de repulsa, que lhes precipita a queda.

 

O Espiritismo possui, pois, um elemento de estabilidade e de unidade, tirado de sua natureza e de sua origem, e que não é próprio de nenhuma das doutrinas filosóficas de concepção puramente humana; é o escudo contra o qual sempre virão quebrar-se todas as tentativas feitas para o derrubar ou o dividir. Essas divisões nunca poderão ser senão parciais, circunscritas e momentâneas.

 

Falais de seitas que, em vossa opinião, dividem os espíritas, donde concluís pela ruína próxima de sua doutrina. Mas esqueceram todas as que dividiram o Cristianismo, desde o seu nascimento, que o ensanguentaram, que ainda o dividem e cujo número, até hoje, não se eleva a menos de trezentos e sessenta. Contudo, malgrado as profundas dissidências sobre os dogmas fundamentais, o Cristianismo ficou de pé, prova de que é independente dessas questões de controvérsia. Por que quereríeis que o Espiritismo, que se liga pela própria base aos princípios do Cristianismo, e que só é dividido em questões secundárias, que dia a dia se esclarecem, sofresse com a divergência de algumas opiniões pessoais, quando tem um ponto de ligação tão poderoso: o controle universal?

 

Assim, estivesse hoje o Espiritismo dividido em vinte seitas, o que não é nem será, disto não se tiraria nenhuma consequência, porque é o trabalho de parto. Se fossem suscitadas divisões por ambições pessoais, por homens dominados pela ideia de se fazerem chefes de seita, ou de explorar a ideia em proveito de seu amor-próprio ou de seus interesses, indubitavelmente seriam as menos perigosas. As publicações pessoais morrem com os indivíduos, e se os que tiverem querido elevar-se não tiverem por si a verdade, suas ideias morrerão com eles e, talvez, antes deles. Mas a verdade verdadeira não poderá morrer.

Estais certo, senhor abade, dizendo que haverá ruínas no Espiritismo, mas não como entendeis.  Essas ruínas serão as de todas as opiniões errôneas que entram em ebulição e surgem.  Se todas estiverem em erro, cairão todas: isto é inevitável; mas se houver uma só verdadeira, infalivelmente subsistirá.

 

Duas divisões bem marcadas, e às quais se poderia realmente dar o nome de seitas, se haviam formado há alguns anos sobre o ensino de dois Espíritos que, disfarçando-se com nomes venerados, tinham captado a confiança de algumas pessoas.  Hoje não se trata mais disto.  Diante de quem tombaram?  Diante do bom senso e da lógica das massas, de um lado, e diante do ensino geral dos Espíritos, em concordância com essa mesma lógica.

 

Contestareis o valor desse mesmo ensino universal pela razão de que os Espíritos, não sendo mais que a alma dos homens, estão igualmente sujeitos ao erro? Mas estaríeis em contradição convosco mesmo. Não admitis que um concílio geral tenha mais autoridade que um concílio particular, porque é mais numeroso? que sua opinião prevalece sobre a de cada padre, de cada bispo, e mesmo sobre a do papa?  Que a maioria faz lei em todas as assembleias dos homens? E não queríeis que os Espíritos, que governam o mundo sob as ordens de Deus, também tivessem os seus concílios, as suas assembleias? O que admitis nos homens como sanção da verdade, recusais aos Espíritos? Então esqueceis que se, entre eles, os há inferiores, não é a esses que Deus confia os interesses da Terra, mas aos Espíritos superiores, que transpuseram as etapas da Humanidade, e cujo número é incalculável? E como nos transmitem as instruções da maioria? É pela voz de um só Espírito, ou de um só homem? Não, mas, como disse, pela de milhões de Espíritos e milhões de homens. É num único centro, numa cidade, num país, numa casta, num povo privilegiado como outrora os israelitas? Não: é em toda parte, em todos os países, em todas as religiões, em casa dos ricos e em casa dos pobres. Como queríeis que a opinião de alguns indivíduos, encarnados ou desencarnados, pudesse prevalecer sobre esse conjunto formidável de vozes? Acreditai-me, senhor abade, essa sanção universal vale bem a de um concílio ecumênico.

 

O Espiritismo é forte justamente porque se apoia sobre essa sanção, e não em opiniões isoladas. Proclama-se imutável no que hoje ensina, e diz que nada mais tem a ensinar? Não, porque até hoje seguiu, e seguirá no futuro, o ensino progressivo que lhe for dado, e nisto ainda está para ele uma causa de força, pois jamais se deixará distanciar pelo progresso.

 

Esperai ainda um pouco, senhor abade, e antes de um quarto de século vereis o Espiritismo cem vezes menos dividido do que hoje é o Cristianismo, após dezoito séculos.

Das flutuações que notastes nas sociedades ou reuniões espíritas, concluístes equivocadamente pela instabilidade da doutrina. O Espiritismo não é uma teoria especulativa, fundada sobre uma ideia preconcebida; é uma questão de fato e, por conseguinte, de convicção pessoal. Quem quer que admita o fato e suas consequências é espírita, sem que precise fazer parte de uma sociedade. Pode-se ser perfeito espírita sem isto. O futuro do Espiritismo está em seu próprio princípio, princípio imperecível, porque está na Natureza e não nas reuniões, muitas vezes formadas em condições pouco favoráveis, compostas de elementos heterogêneos e, consequentemente, subordinadas a uma porção de eventualidades.

 

As sociedades são úteis, mas nenhuma é indispensável; e se todas deixassem de existir, o Espiritismo não prosseguiria menos sua marcha, visto como não é em seu seio que se forma o maior número de convicções. Elas são muito mais para os crentes que aí buscam centros simpáticos, do que para os incrédulos. As sociedades sérias e bem dirigidas são úteis principalmente para neutralizar a má impressão daquelas onde o Espiritismo é mal apresentado ou é desfigurado. A Sociedade de Paris não faz exceção à regra, porque não se arroga nenhum monopólio. Ela não consiste no maior ou menor número de seus membros, mas na ideia-mãe que representa. Ora, essa ideia é independente de toda reunião constituída e, aconteça o que acontecer, o elemento propagador não deixará de subsistir. Pode, pois, dizer-se que a Sociedade de Paris está em qualquer parte onde se professem os mesmos princípios, do Oriente ao Ocidente, e que se morresse materialmente a ideia sobreviveria.

 

O Espiritismo é uma criança que cresce, cujos primeiros passos naturalmente são vacilantes; mas, como as crianças precoces, cedo faz pressentir a sua força. É por isto que certas pessoas se assustam e gostariam de o sufocar no berço.  Se se apresentasse como um ser tão débil quanto o supondes, não teria causado tanta emoção, nem levantado tantas animosidades, e vós mesmo não teríeis procurado combatê-lo. Deixai, então, a criança crescer e vereis o que dará o adulto.

 

Predissestes o seu fim próximo; mas inumeráveis encarnados e desencarnados também fizeram o seu horóscopo, num outro sentido. Escutai, pois, as suas previsões, que se sucedem ininterruptamente há dez anos, e se repetem em todos os pontos do globo.

 

"O Espiritismo vem combater a incredulidade, que é o elemento dissolvente da sociedade, substituindo a fé cega, que se extingue, pela fé raciocinada, que vivifica.

 

"Ele traz o elemento regenerador da Humanidade e será a bússola das gerações futuras.

 

"Como todas as grandes ideias renovadoras, deverá lutar contra a oposição dos interesses que fere e das ideias que derruba.  Suscitar-lhe-ão todos os entraves; contra ele empregarão todas as armas, leais e desleais, que julgarão próprias para derrubá-lo. Seus primeiros passos serão semeados de urzes e espinhos. Seus adeptos serão difamados, ridicularizados, vítimas da traição, da calúnia e da perseguição; terão dissabores e decepções. Feliz aqueles cuja fé não tiver sido abalada nesses dias nefastos; que tiverem sofrido e combatido pelo triunfo da verdade, porque serão recompensados por sua coragem e perseverança.

 

"Não obstante, o Espiritismo continuará sua marcha através das ciladas e dos escolhos; é inabalável como tudo o que está na vontade de Deus, porque se apoia sobre as próprias leis da Natureza, que são as eternas leis de Deus, ao passo que tudo quanto for contrário a essas leis cairá.

 

"Pela luz que projeta sobre os pontos obscuros e controversos das Escrituras, conduzirá os homens à unidade de crença.

 

"Dando as próprias leis da Natureza por base aos princípios de igualdade, liberdade e fraternidade, fundará o reino da verdadeira caridade cristã, que é o reino de Deus na Terra, predito por Jesus-Cristo.

 

"Muitos ainda o repelem porque não o conhecem ou não o compreendem; mas quando reconhecerem que realiza as mais caras esperanças do futuro da Humanidade, aclamá-lo-ão e, assim como o Cristianismo encontrou um suporte em São Paulo, ele encontrará defensores entre os adversários da véspera. Da multidão surgirão homens de escol, que empunharão a sua causa e, pela autoridade de sua palavra, imporão silêncio aos detratores.

 

"A luta ainda durará muito tempo, porque as paixões, sobreexcitadas pelo orgulho e pelos interesses materiais, não podem acalmar-se subitamente. Mas essas paixões se extinguirão com os homens, e não passará o fim deste século sem que a nova crença tenha conquistado um lugar preponderante entre os povos civilizados, e do século próximo datará a era da regeneração."

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