REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 2 - JULHO / SETEMBRO 1859 - Nº. 7 e 9

 

 

CONVERSAS FAMILIARES DE ALÉM-TÚMULO

 

 

 

  • NOVIDADES DA GUERRA

  • O SOLDADO ARGELINO DE MAGENTA

  • UM OFICIAL SUPERIOR MORTO EM MAGENTA

  • UM OFICIAL DO EXÉRCITO DA ITÁLIA

  • PAPEL DOS ESPÍRITOS NOS FENÔMENOS NATURAIS

 

NOVIDADES DA GUERRA

 

O governo permitiu aos jornais, apolíticos darem notícias da guerra, mas como as relações são muitas sob todas as formas, seria ao menos inútil repeti-las aqui. O que talvez fosse mais novo para os nossos leitores é uma narração chegada do outro mundo.


Embora não seja tirada da fonte oficial do Moniteur, não deixa de oferecer interesse do ponto de vista dos nossos estudos. Pensamos, pois, interrogar algumas das gloriosas vítimas da vitória, presumindo que poderíamos encontrar nisso alguma instrução útil; tais objetos de observação e sobretudo da atualidade não se apresentam todos os dias. Não conhecendo, pessoalmente, nenhum daqueles que tomaram parte na última batalha, pedimos aos Espíritos que consentem em nos assistir, se gostariam de nos enviar um deles; pensamos mesmo encontrar, num estranho, mais liberdade e facilidade do que se fora em presença de amigos ou de parentes, dominados pela emoção. Com a resposta afirmativa, tivemos as entrevistas seguintes.

 

O SOLDADO ARGELINO DE MAGENTA.

PRIMEIRA ENTREVISTA.

(Sociedade, 10 de junho de 1859.)

 

1. Rogamos a Deus Todo-poderoso permitir ao Espírito de um dos militares mortos na batalha de Magenta comunicar-se conosco.

- R. Que quereis saber?


2. Onde estáveis quando vos chamamos?

- R. Não sei dizê-lo.


3. Quem vos preveniu que desejávamos conversar convosco?

- R. Um que é mais esperto do que eu.


4. Em vossa vida duvidáveis que os mortos poderiam vir conversar com os vivos?

- R. Oh! disso, não.


5. Que efeito isso produziu sobre vós ao vos encontrardes aqui?

- R. Deu-me prazer; deveis, pelo que me dizem, fazer grandes coisas.


6. A qual corpo da armada pertencíeis? (Alguém disse em voz baixa: Pela sua linguagem deve ser um zuavo.)

- R. Ah! Vós o dissestes.


7. Que grau tínheis?

- R. O de todo mundo.


8. Como vos chamáveis?

- R. Joseph Midard.


9. Como morrestes?

- R. Gostaríeis de tudo saber e de nada pagar.


10. Vamos! Perdestes vossa alegria; dizei sempre, nós pagaremos depois. Como morrestes?
- R. Por uma ameixa (1) carregada.


11. Éreis contrário a ser morto?

- R. Minha fé! Palavra que não! Estou bem aqui.


12. No momento em que morrestes, imediatamente vos reconhecestes?

- R. Não, estava tão atordoado que não o acreditava.  

NOTA: Isto está conforme tudo o que observamos nos casos de morte violenta; o Espírito, não se rendendo conta de sua situação, não crê imediatamente estar morto. Esse fenômeno se explica muito facilmente; ele é análogo ao do sonâmbulo que não crê dormir. Com efeito, para o sonâmbulo, a ideia do sono é sinônimo de suspensão das faculdades intelectuais; ora, como pensa, para ele não dorme; disso não se convence senão mais tarde, quando estiver familiarizado com o sentido ligado a essa palavra. Ocorre o mesmo com o Espírito surpreendido por uma morte súbita, quando nada havia preparado sua separação do corpo; para ele a morte é sinônimo de destruição, de aniquilamento; ora, como vê, sente-se, tem suas ideias, para ele não está morto; é necessário algum tempo para se reconhecer.

13. No momento que morrestes, a batalha não tinha terminado; seguistes suas peripécias?
- R. Sim, uma vez que disse que não me acreditava estar morto; eu queria sempre ir de encontro aos outros cães.


14. Que sensação experimentastes nesse momento?

- R. Estava encantado, achava-me muito leve.


15. Víeis os Espíritos de vossos companheiros deixarem seus corpos?

- R. Não me ocupava disso, uma vez que eu não acreditava na morte.


16. Em que se tornava nesse momento essa multidão de Espíritos deixando a vida no tumulto da refrega?

- R. Creio que faziam como eu.


17. Os Espíritos daqueles que se batiam com mais ardor, uns contra os outros, que pensavam encontrando-se juntos nesse mundo dos Espíritos? Estavam ainda animados uns contra os outros?

- R. Sim, durante algum tempo e segundo o seu caráter.


18. Reconheceis-vos melhor agora?

- R. Sem isso não me teriam enviado aqui.


19. Poderíeis dizer-nos se entre os Espíritos mortos há muito tempo, encontravam- se ali os que se interessavam pela sorte da batalha? (Pedimos a São Luís consentir ajudá-lo em suas respostas, a fim de que sejam tão explícitas quanto possível para a nossa instrução).
- R. Em uma grande quantidade, porque é bom que sabeis que esses combates e suas consequências estão preparados de longa data, e que nossos adversários não estão enlameados de crimes, como o fizeram sem serem impelidos tendo em vista consequências futuras, que não tardareis a saber.


20. Deveria haver aí quem se interessasse pelo sucesso dos Austríacos; isso formava dois campos entre eles?

- R. Evidentemente.  

NOTA: Não nos parece ver aqui os deuses de Homero tomando partido uns pelos Gregos, e os outros pelos Troianos? Quem eram, com efeito os deuses do paganismo, senão Espíritos dos quais os Antigos fizeram divindades? Não tínhamos razão em dizer que o Espiritismo é uma luz que iluminará mais de um mistério, a chave de mais de um problema?

21. Eles exerciam uma influência qualquer sobre os combatentes?

- R. Uma muito considerável.


22. Poderíeis descrever-nos a maneira pela qual exerciam essa influência?

- R. Do mesmo modo que todas as outras influências produzidas pelos Espíritos sobre os homens.


23. Que pensais fazer agora?

- R. Estudar mais do que o fiz durante a minha última etapa.


24. Ides retornar para assistir, como espectador, aos combates que ainda se travam?

- R. Não sei ainda; tenho afeições que me retêm neste momento; entretanto, conto escapar um pouco, de tempo ao outro, para me divertir vendo as brigas subsequentes.


25. Qual gênero de afeições vos retêm?

- R. Uma velha mãe enferma e sofredora, que me chora.


26. Peço perdão pelo mau pensamento que passou pelo meu espírito a respeito da afeição que vos retém.

- R. Não o quero mais assim; disse-vos bobagens para vos fazer rir um pouco; é natural que não me tomeis por uma grande coisa, tendo em vista o honorável corpo ao qual pertenceis; mas tranquilizai-vos: eu não me empenhei senão por essa pobre mãe; mereço um pouco que me tenham mandado para junto de vós.


27. Quando estáveis entre os Espíritos, ouvíeis o ruído da batalha; víeis as coisas tão claramente quanto durante a vossa vida?

- R. Primeiro perdi a visão, mas depois de algum tempo já via muito melhor, porque via todas as astúcias.


28. Pergunto se percebíeis o ruído do canhão.

- R. Sim.


29. No momento da ação, pensáveis na morte e no que vos tornaríeis se fosses morto?

- R. Pensava no que se tornaria minha mãe.


30. Era a primeira vez que íeis ao fogo?

- R. Não, não; e a África?


31. Vistes a entrada dos Franceses em Milão?

- R. Não.


32. Sois o único que morreu na Itália?

- R. Sim.


33. Pensais que a guerra durará muito tempo?

- R. Não; é fácil, e pouco meritório, de resto, predizê-lo.


34. Quando vedes, entre os Espíritos, um de vossos chefes, o reconheceis ainda como vosso superior?

- R. Se o é, sim; se não, não.  

NOTA: Na sua simplicidade e seu laconismo, essa resposta é eminentemente profunda e filosófica. No mundo espírita, a superioridade moral é a única que se reconhece; aquele que não a tinha na Terra, qualquer que fosse sua classe, não tem nenhuma superioridade; ali, o chefe pode estar abaixo do soldado, o senhor abaixo do servidor. Que lição para o nosso orgulho!

35. Pensais na justiça de Deus, e vos inquietais com ela?

- R. Quem não pensaria nela? Mas, felizmente, não tenho que temê-la sempre; resgatei, por algumas ações que Deus achou boas, algumas escapadelas que fiz na qualidade de zuavo, como dissestes.


36. Assistindo a um combate, poderíeis proteger um de vossos companheiros e afastar dele um golpe fatal?

- R. Não; isso não está em nosso poder; a hora da morte é marcada por Deus; se deve passar por ela, nada pode impedi-la; como nada pode atingi-lo se a aposentadoria não soou para ele.


37. Vedes o general Espinasse? (2)

- R. Não o vi ainda, mas espero muito ainda vê-lo.

 

SEGUNDA ENTREVISTA.
(17 de junho de 1859.)

 

38. Evocação

- R. Presente! Coragem! Avante!


39. Lembrai-vos de ter vindo aqui há oito horas?

- R. Mas!


40. Dissestes-nos que não tínheis revisto ainda o general Espinasse (2); como poderíeis reconhecê-lo, uma vez que já não carrega sua farda de general?

- R. Não, mas conheço-o de vista; ademais não temos uma multidão de amigos prontos a nos dar a palavra. Aqui não é como no grande círculo; não se tem medo de se consentir em auxiliar e vos respondo que não há senão os maus velhacos, os únicos que não se veem.


41. Sob qual aparência estais aqui?

- R. Zuavo.


42. Se pudéssemos ver-vos, como vos veríamos?

- R. Com turbante e calção.


43. Pois bem! Suponho que nos aparecesse com turbante e calção, onde apanhastes essa roupa, uma vez que deixastes a vossa no campo de batalha!

- R. Ah! Eis! Nada sei; tenho um alfaiate que me arranjou esta.


44. De que são feitos o turbante e o calção que levais? Rendei-vos conta disso?

- R. Não; isso diz respeito ao trapeiro.  

NOTA: Essa questão da roupa dos Espíritos, e várias outras não menos interessantes que se ligam ao mesmo princípio, estão completamente elucidadas pelas novas observações feitas no seio da sociedade; disso daremos conta no nosso próximo número. Nosso bravo zuavo não é bastante adiantado para resolvê-las por si mesmo; ser-nos-ia preciso, para isso, o concurso de circunstâncias que se apresentam fortuitamente, e que não colocamos no caminho.

45. Dai-vos conta da razão pela qual nos vedes, ao passo que não podemos ver-vos?

- R. Creio compreender que vossos óculos são muito fracos.


46. É pela mesma razão que não poderíeis ver o general sem uniforme?

- R. Sim, ele não o usa todos os dias.


47. Quais dias ele o usa?

- R. Sim! Quando é chamado ao palácio.


48. Por que estais aqui em zuavo, se não podemos ver-vos?

- R. Muito naturalmente porque sou zuavo ainda, desde há oito anos, e que no meio dos Espíritos, guardamos por muito tempo essa forma, mas isso não é senão entre nós, compreendeis que quando vamos para um mundo muito estranho, a Lua ou Júpiter, não nos damos ao trabalho de fazer tanto preparo pessoal.


49. Falais da Lua, de Júpiter, é que para aí fostes depois de vossa morte?

- R. Não, não me compreendeis. Corremos muito o universo desde a nossa morte; não explicamos uma multidão de problemas da nossa Terra? Não conhecemos Deus e os outros seres muito melhores que nós como não o fazíamos há quinze dias? Passa-se na morte uma metamorfose no Espírito, que não podeis compreender.


50. Tornastes a ver o corpo que deixastes no campo de batalha?

- R. Sim, não é mais belo.


51. Que impressão essa visão deixou em vós?

- R. Tristeza.


52. Tendes conhecimento de vossa existência precedente?

- R. Sim, mas não foi bastante gloriosa para que dela me vanglorie.


53. Dizei-nos somente o gênero de existência que tivestes?

- R. Simples comerciante de peles indígenas.


54. Nós vos agradecemos por consentir em retornar uma segunda vez.

- R. Até breve; isso me alegra e me instrui; desde que me toleram aqui, voltarei de bom grado.

 

UM OFICIAL SUPERIOR MORTO EM MAGENTA.
(Sociedade. 10 de junho de 1859.)

 

1. Evocação.

- R. Heis-me aqui.


2. Poderíeis dizer-nos como viestes tão prontamente ao nosso chamado?

- R. Fui prevenido de vosso desejo.


3. Por quem fostes prevenido?

- R. Por um emissário de Luís.


4. Tínheis conhecimento da existência da nossa sociedade?

- R. Vós o sabeis.  

NOTA: O oficial, do qual se trata, com efeito, concorreu para que a Sociedade obtivesse autorização para se constituir. (3)

5. Sob qual ponto de vista consideráveis nossa sociedade, quando ajudastes a sua formação?
- R. Eu não estava ainda inteiramente fixado, mas me inclinava muito em crer, e sem os acontecimentos que sobrevieram, iria certamente instruir-me em vosso círculo.

6. Há muitas notabilidades que partilham as ideias espíritas, mas que não a confessam abertamente; seria desejável que as pessoas influentes na opinião desfraldassem abertamente essa bandeira.

- R. Paciência; Deus o quer e esta vez a palavra é verdadeira.


7. Em qual classe influente da sociedade pensais que o exemplo será dado em primeiro lugar?
- R. Por toda parte um pouco no início, inteiramente em seguida.


8. Poderíeis dizer-nos, do ponto de vista do estudo, se, embora morto quase no mesmo momento do zuavo que acabou de vir, vossas ideias estão mais lúcidas que as dele?

- R. Muito; o que pôde dizer que testemunhava uma certa elevação de pensamentos, era-lhe soprado, porque ele é muito bom, mas muito ignorante e um pouco leviano.


9. Interessai-vos ainda pelo sucesso de nossas armas?

- R. Muito, mais que nunca, porque lhe conheço hoje o objetivo.


10. Poderíeis definir o vosso pensamento; o objetivo sempre foi altamente confessado, e na vossa posição sobretudo, devíeis conhecê-lo?

- R. O objetivo que Deus se propôs, o conheceis?

NOTA: Ninguém menosprezará a gravidade e a profundidade desta resposta. Assim vivendo, conhecia o objetivo dos homens: como Espírito, ele via o que havia de providencial nos acontecimentos.

11. Que pensais da guerra em geral?

- R. Minha opinião é que vos desejo que progridais bastante rapidamente para que ela se torne impossível, tanto quanto inútil.


12. Credes que virá um dia em que ela será impossível e inútil?

- R. Penso-o, e disso não duvido, posso dizer-vos que o momento não está assim tão longe como podeis crer, sem, entretanto, dar-vos a esperança de vê-lo vós mesmos.


13. Vós vos reconhecestes imediatamente no momento de vossa morte?
- R. Reconheci-me quase em seguida, e isso graças às vagas noções que tinha do Espiritismo.

14. Poderíeis dizer-nos alguma coisa do Senhor M, morto igualmente na última batalha?

- R. Ele está ainda nas redes da matéria; tem mais dificuldade para dela sair; seus pensamentos não estavam dirigidos desse lado.  

NOTA: Assim o conhecimento do Espiritismo ajuda o desligamento da alma depois da morte; abrevia a duração da perturbação que acompanha a separação; isso se concebe; conhecia de antemão o mundo onde se encontra.

15. Assististes à entrada de nossas tropas em Milão?

- R. Sim, e com alegria; estava arrebatado pela ovação que acolheu nossas armas, primeiro por patriotismo, depois por causa do futuro que as espera.


16. Podeis, como Espírito, exercer uma influência qualquer sobre as disposições estratégicas?
- R. Credes que isso não foi feito desde o princípio, e tendes dificuldade de adivinhar por quê?


17. Como ocorre que os Austríacos tenham abandonado, tão prontamente, uma praça forte como Pavie?

- R. O medo.


18. Portanto, estão desmoralizados?

- R. Completamente, e depois agindo-se sobre os nossos num sentido, deveis pensar que uma influência de uma outra natureza agia sobre eles. (4) 

NOTA: Esta intervenção dos Espíritos nos acontecimentos não é equivocada; eles preparam os caminhos para o cumprimento dos desígnios da Providência. Os Antigos teriam dito que isso foi a obra dos Deuses, nós dizemos que foi a dos Espíritos por ordem de Deus.

19. Podeis dar-nos a vossa apreciação sobre o general Giulay, como militar, e todo sentimento de nacionalidade à parte?

- R. Pobre, pobre general.


20. Voltaríeis com prazer se vos chamássemos?

- R. Estou à vossa disposição, e prometo mesmo retornar sem ser chamado; a simpatia que tenho por vós não pode senão aumentar, deveis assim pensar. Adeus.

 

UM OFICIAL DO EXÉRCITO DA ITÁLIA.

REVISTA ESPÍRITA

Jornal de Estudos Psicológicos

Publicada sob a Direção de Allan Kardec

  

ANO 2 – SETEMBRO 1859 – Nº. 9

 

SEGUNDA CONVERSA 

(Sociedade; 1º.  de julho de 1859.

 

1. Evocação.

 - R. Eis-me; falai-me.

 

2.  Prometestes voltar a nos ver, e disso nos aproveitamos para vos pedir dar-nos algumas explicações complementares.

- R. De bom grado.

 

3. Depois da vossa morte, assististes a alguns combates que ocorreram?

 - R. Sim, o último.

 

4. Quando sois testemunha, como Espírito, de um combate e vedes os homens se massacrarem,  isso vos faz experimentar o sentimento de horror que sentimos, nós mesmos, vendo semelhantes cenas?

- R. Sim, eu o experimento mesmo sendo homem, mas então o respeito humano reprimia esse sentimento como sendo indigno de um soldado.

 

5.  Há Espíritos que sentem prazer em ver essas cenas de carnificina?

- R. Poucos.

 

6. Que sentimento experimentam, com essa visão, os Espíritos de uma ordem superior?

 - R.  Grande  compaixão;  quase  desprezo.  O que vós mesmos experimentais quando vedes animais se dilacerarem entre si.

 

7. Assistindo a um combate, e vendo os homens morrerem, sois testemunha da separação da alma e do corpo?

- R. Sim.

 

8.  Nesse momento, vedes dois indivíduos: o Espírito e o corpo?

- R. Não; que é, pois, o corpo?

 

8a.  Mas o corpo não está menos ali, e deve ser distinto do Espírito?

- R. Um cadáver, sim; mas não é mais um ser.

 

9. Que aparência tem, para vós, o Espírito nesse momento?

- R. Leve.

 

10.  O Espírito se afasta imediatamente do corpo? - Consenti em nos descrever, eu vos peço, tão explicitamente quanto possível as coisas tais quais se passam, e que a vejamos como se lhes fôssemos testemunhas. 

- R. Há poucas mortes inteiramente instantâneas; a maior parte do tempo o Espírito, cujo corpo acaba de ser ferido por uma bala comum ou uma bola de canhão, se diz: eu vou morrer, pensemos em Deus, sonhemos com o céu, adeus, Terra que eu amei. Depois desse primeiro sentimento, a dor vos arranca de vosso corpo, e é então que se pode distinguir o Espírito que se move ao lado do cadáver. Isso parece tão natural que a visão, do corpo morto, não produz nenhum efeito desagradável. Estando toda a vida transportada para o Espírito, só ele chama a atenção; é com ele que se conversa, ou a ele que se dirige. 

NOTA. - Poder-se-ia comparar esse efeito ao que produz um grupo de banhistas; o espectador não presta atenção às roupas que eles deixaram à beira d'água. 

11.  Geralmente, o homem surpreendido por uma morte violenta, durante algum tempo, não se crê morto. Como se explica sua situação, e como pode iludir-se, uma vez que deve bem sentir que seu corpo não é mais material, resistente?

- R. Ele o sabe, e não tem ilusão.  

NOTA.  - Isso não é perfeitamente exato; sabemos que os Espíritos se iludem em certos casos, e que não se creem mortos.

12. Uma violenta tempestade manifestou-se no fim da batalha de Solferino; foi por uma circunstância fortuita ou por um fim providencial?

- R. Toda circunstância fortuita é o fato da vontade de Deus. (5)

 

13.  Essa tempestade tinha um objetivo, e qual era ele?

- R. Sim, certamente: parar o combate.

 

14.   Foi provocado no interesse de uma das partes beligerantes e qual?

- R. Sim, sobretudo para os nossos inimigos.

 

14a. Por que isso? Podeis nos explicar mais claramente?

- R. Perguntais-me por quê? Mas não sabeis que, sem essa tempestade, nossa artilharia não deixaria escapar um Austríaco?

 

15.  Se essa tempestade foi provocada, deveu ter agentes; quais eram esses agentes?

- R. A eletricidade. 

 

16. É o agente material; mas Espíritos tendo em suas atribuições a condução dos elementos?

- R. Não, a vontade de Deus basta; não necessidade de ajudas assim comuns. 

 

AS TEMPESTADES (6)

Papel DOS ESPÍRITOS nos fenômenos naturais

REVISTA ESPÍRITA

Jornal de Estudos Psicológicos

Publicada sob a Direção de Allan Kardec

 

ANO 2 – SETEMBRO 1859 – Nº. 9

 

(Sociedade, 22 de julho de 1859).

 

1. (A Fr. Arago.) Nos foi dito que a tempestade de Solferino tivera um objetivo providencial, e se nos assinala vários fatos desse gênero, notadamente em fevereiro e junho de 1848. Essas tempestades, durante os combates, tinham um fim análogo?

- R. Quase todas.

 

2. O Espírito interrogado a esse respeito nos disse que só Deus agia, nessas circunstâncias, sem intermediários. Permiti-nos algumas perguntas a esse respeito, e rogamos consentirdes em resolver com a vossa clareza habitual. Concebemos, perfeitamente, que a vontade de Deus seja a causa primeira, nisto como em todas as coisas, mas sabemos também que os Espíritos são seus agentes. Ora, uma vez que sabemos que os Espíritos têm uma ação sobre a matéria, não vemos porque, alguns dentre eles, não teriam uma ação sobre os elementos, para agitá-los, acalmá-los ou dirigi-los.

- R. Mas é evidente; isso não pode ser de outro modo; Deus não se entrega a uma ação direta sobre a matéria; ele tem seus agentes devotados em todos os graus da escala dos mundos. O Espírito evocado não falou assim senão por um conhecimento menos perfeito dessas leis, como das da guerra. 

NOTA. A comunicação do oficial, narrada acima, foi obtida no dia 1º. de julho; esta não ocorreu senão no dia 22 e por um outro médium; nada, na questão, indica a qualidade do primeiro Espírito evocado, qualidade que lembra espontaneamente aquele que acaba de responder. Esta circunstância é característica, e prova que o pensamento do médium nada tem com a resposta. Assim é que, numa multidão de circunstâncias fortuitas, o Espírito revela, seja sua identidade, seja sua independência. Por isso, dizemos que é necessário sempre ver, sempre observar; então se descobre uma multidão de nuanças que escapam ao observador superficial e de passagem. Sabe-se que é necessário agarrar os fatos quando eles se apresentem, e que não é provocando que eles serão obtidos. O observador atento e paciente encontra sempre alguma coisa para aproveitar.

3. Á mitologia está inteiramente fundada sobre as ideias espíritas; nela encontramos todas as propriedades dos Espíritos, com a diferença que os Antigos deles fizeram os deuses. Ora, a mitologia nos representa esses deuses, ou esses Espíritos, com atribuições especiais; assim, uns estão encarregados do vento, outros do raio, outros de presidir a vegetação, etc; essa crença está despida de fundamentos?

- R. Ela está tão pouco despida de fundamento que ainda está bem abaixo da verdade.

 

4. Na origem das nossas comunicações, os Espíritos nos disseram coisas que parecem confirmar esse princípio. Disseram-no, por exemplo, que certos Espíritos habitam mais especialmente o interior da Terra, e presidem aos fenômenos geológicos.

- R. Sim, e não tardareis muito para ver a explicação de tudo isso.

 

5. Esses Espíritos que habitam o interior da Terra, e presidem aos fenômenos geológicos, são de uma ordem inferior?

- R. Esses Espíritos não habitam positivamente a Terra, mas presidem e dirigem; são de uma ordem muito diferente.

 

6. São Espíritos que estiveram encarnados em homens como nós?

- R. Que o serão, e que foram. Disso vos direi mais, se quiserdes, dentro de pouco tempo.

 

NOTAS:

 

(1) Linguagem vulgar, gíria, dando a entender que havia levado um tiro. No caso da ameixa o Espírito se refere ao projetil (bala) que o atingiu causando-lhe a morte.

 

(2) Ver mais abaixo, nesta mesma página, Um Oficial Superior Morto em Magenta.

 

(3) Em Obras Póstumas, 2ª. parte, Allan Kardec relata o seguinte sobre a fundação da Sociedade Espírita de Paris:

 

Em 1º. de abril de 1858

 

“Se bem que não haja aqui nenhum fato de previsão, menciono, para memória, a fundação da Sociedade, por causa do papel que desempenhou na marcha do Espiritismo, e das comunicações ulteriores às quais deu lugar.

 

Em torno de seis meses depois, tinha em minha casa, Rua dos Mártires, uma reunião de alguns adeptos, todas as terças-feiras. O principal médium era a Srta. Dufaux. Se bem que o local não pudesse conter senão 15 a 20 pessoas, às vezes nele se encontravam até 30. Essas reuniões ofereciam um grande interesse pelo seu caráter sério, e a alta importância das questões que ali eram tratadas; frequentemente, viam-se ali príncipes estrangeiros e outras personagens de distinção.

 

O local, pouco cômodo pela sua disposição, evidentemente, tornou-se muito exíguo. Alguns, dos frequentadores, propuseram se cotizar para alugar um mais conveniente. Mas, então, tornava-se necessário ter uma autorização legal, para evitar de ser atormentado pela autoridade. O Sr. Dufaux, que conhecia pessoalmente o Prefeito de polícia, se encarregou de pedi-la. A autorização dependia também do Ministro do Interior, que era então o general X que era, sem que o soubéssemos, simpático às nossas ideias, sem conhecê-las completamente, e com a influência do qual a autorização que, seguindo uma fieira comum, teria exigido três meses, foi obtida em quinze dias.”

 

Assim, o general X era Charles-Marie-Esprit Espinasse, que foi também um político francês.

 

Ver mais in:

http://fr.wikipedia.org/wiki/Charles-Marie-Esprit_Espinasse

http://www.treccani.it/enciclopedia/charles-marie-esprit-espinasse/

 

(4) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, livro segundo, Influência dos Espíritos sobre os Acontecimentos da Vida, cap. IX.

http://www.aeradoespirito.net/OLivrodosEspiritos/O_LIVRO_DOS_ESPIR_L2_C9_SC8.html

 

Sugerimos ler também este estudo:

http://www.aeradoespirito.net/EstudosEM/INFLUENCIA_OCULTA_DOS_ESPIRITOS.html

 

(5) Ver mais abaixo, nesta mesma página, As Tempestades - Papel dos Espíritos nos Fenômenos Naturais.

 

(6) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, livro segundo, cap. IX, Ação dos Espíritos sobre os Fenômenos da Natureza.

http://www.aeradoespirito.net/OLivrodosEspiritos/O_LIVRO_DOS_ESPIR_L2_C9_SC9.html

 

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