REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

 -

PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 10 – JULHO / NOVEMBRO 1867 – Nº. 7 e 11

 

 

NOTA BIBLIOGRÁFICA

O ROMANCE DO FUTURO

(Por E. Bonnemère)

 

 

 

julho de 1867

 

No ano passado os Espíritos nos haviam dito que em breve a literatura entraria na via do Espiritismo, e que 1867 veria aparecerem várias obras importantes. Com efeito, pouco depois apareceu o Spirite, de Théophile Gautier. Como dissemos, era menos um romance espírita que o romance do Espiritismo, mas que teve sua importância pelo nome do autor.

 

Vem a seguir, no começo deste ano, a tocante e graciosa história de Mirette.  Nesta ocasião o Espírito Morel Lavallée disse na Sociedade:

 

“O ano de 1866 apresenta a filosofia nova sob todas as formas; mas é ainda o talo verde que encerra a espiga de trigo e, para o mostrar, espera que o calor da primavera a tenha amadurecido e desabrochado.  1866 preparou, 1867 amadurecerá e realizará. O ano se inicia sob os auspícios de Mirette e não se escoará sem ver aparecerem novas publicações do mesmo gênero, e mais sérias ainda, em que o romance se fará filosofia e a filosofia se fará história.” (Revista de fevereiro de 1867).

 

Estas palavras proféticas se realizam. Temos como certo que uma obra importante aparecerá em breve; não será um romance, que pode ser considerado como uma obra de imaginação e de fantasia, mas a filosofia mesma do Espiritismo, altamente proclamada e desenvolvida por um nome que poderá fazer refletirem os que pretendem que todos os partidários do Espiritismo são loucos.

 

Esperando, eis uma obra que de romance só tem o nome, porque a intriga aí é quase nula e é apenas um quadro para desenvolver, sob a forma de conversas, os mais altos pensamentos da filosofia moral, social e religiosa. O título de Romance do Futuro não lhe parece ter sido dado senão por alusão às ideias que regerão a sociedade no futuro e que, no momento, apenas estão no estado de romance. O Espiritismo aí não é citado, mas pode tanto melhor reivindicar suas ideias, quanto em sua maioria parecem colhidas textualmente na doutrina, e que se algumas delas se afastam um pouco, são em pequeno número e não tocam o fundo da questão.

 

O autor admite a pluralidade das existências, não só como racional, conforme à justiça de Deus, mas como necessária, indispensável ao progresso da alma e adquirida pela sã filosofia.  Mas o autor parece inclinado a crer, embora não o diga claramente, que a sucessão das existências se realize antes de mundo a mundo, do que no mesmo meio, porque não fala de modo explícito das múltiplas existências num mesmo mundo, não obstante esta ideia possa ser subentendida. Talvez aí esteja um dos pontos mais divergentes, mas que, aliás, absolutamente não prejudica o fundo, pois, em última análise, o princípio seria o mesmo.

 

Assim, essa obra pode ser posta na classe dos livros mais sérios, destinados a vulgarizar os princípios filosóficos da doutrina no mundo literário, no qual o autor tem uma posição notável. Disseram-nos que quando o escreveu, não conhecia o Espiritismo; isto parece difícil, mas, se assim é, seria uma das provas mais retumbantes da fermentação espontânea dessas ideias e de seu poder irresistível, porque o acaso, sozinho, não faz encontrar tantos pesquisadores no mesmo terreno.

 

O prefácio não é a parte menos curiosa desse livro. O autor aí explica a origem de seu manuscrito. “Qual é – pergunta ele – a minha colaboração no Romance do Futuro? Somos dois ou três, ou o autor se chama legião? Deixo estas coisas à apreciação do leitor, depois que lhe tiver contado uma aventura muito verídica, conquanto tenha todas as aparências de uma história do outro mundo.” Tendo parado um dia em modesto vilarejo da Bretanha, a proprietária do albergue lhe contou que havia na região um jovem que fazia coisas extraordinárias, verdadeiros milagres.  Disse ela:

 

“Sem nada ter aprendido, ele sabe mais que o reitor, o médico e o tabelião juntos, e mais do que todos os feiticeiros reunidos.

 

Fecha-se todas as manhãs em seu quarto; vê-se sua lâmpada através das cortinas, porque ele precisa da lâmpada, mesmo de dia; então escreve coisas que ninguém jamais viu, mas que são sublimes.

 

Anuncia com seis meses de antecedência, o dia, a hora, o minuto em que cairá nos seus grandes acessos de feitiçaria. Uma vez que disse ou escreveu, nada mais sabe, mas é verdadeiro como a palavra do Evangelho e infalível como a decisão do papa, em Roma. Cura à primeira vista, sem cobrar, àqueles que lhe são simpáticos e, às barbas do médico, os doentes que este não cura, mesmo cobrando.

 

O Sr.  reitor diz que não pode ser senão o diabo que lhe dá o poder de curar aqueles a quem o bom Deus envia doenças para o seu bem, a fim de os provar ou os castigar.” “Fui vê-lo, acrescenta o autor, e minha boa estrela quis que eu lhe fosse simpático. Era um rapaz de vinte e cinco anos, ao qual seu pai, rico camponês do cantão, tinha propiciado uma certa educação, a despeito do que disse a minha hospedeira; simples, melancólico e sonhador, levando a bondade até a excelência, e dotado de um temperamento, no qual o sistema nervoso dominava sem contrapeso. Levantava-se ao amanhecer, presa de uma febre de inspiração que não podia dominar, e espalhava abundantemente sobre o papel, às vezes contra a vontade e sem se dar conta, as estranhas ideias que germinavam por si mesmas em seu cérebro.

 

“Vi-o à obra. No espaço de uma hora ele cobria invariavelmente o seu caderno com quinze ou dezesseis páginas de escrita, sem hesitação, sem rasuras, sem se deter um segundo à busca de uma ideia, uma frase, uma palavra. Era uma torneira aberta, de onde a inspiração se escoava em jacto sempre igual.

 

Absolutamente mudo durante essas horas de trabalho obstinado, dentes cerrados e lábios contraídos, a palavra lhe vindo no instante em que o relógio batia a hora de retomada dos trabalhos campestres. Voltava, então à vida de todo o mundo, e tudo quanto acabava de pensar ou escrever durante essas duas ou três horas de uma outra existência, pouco a pouco se apagava de sua memória, como o sono que se desvanece e desaparece à medida que se desperta.  No dia seguinte, expulso da cama por uma força invencível, entregava-se à obra e continuava a frase ou a palavra começada no dia anterior.

 

“Abriu-me um armário, no qual se acumulavam cadernos cheios de sua escrita. – Que há em tudo isto? perguntei. – Ignoro-o tanto quanto vós, respondeu sorrindo. – Mas como vos vem tudo isto? – Não posso senão repetir a mesma resposta: ignoro-o tanto quanto vós. Por vezes sinto que está em mim; outras vezes escuto o que me dizem. Então, sem ter consciência e sem ouvir o ruído de minhas próprias palavras, eu o repito aos que me cercam, ou o escrevo.

 

“Isto constituía cerca de dezessete mil páginas, escritas em quatro anos.  Aí se achavam uma centena de novelas e de romances, tratados sobre diversos assuntos, receitas médicas e outras, máximas, etc.  Notei sobretudo isto:

“Estas coisas me são reveladas, a mim, simples de espírito e de instrução, porque, nada sabendo, não tendo a respeito ideias preconcebidas, estou mais apto a assimilar as ideias alheias.

 

“Os seres superiores, partidos primeiro, depurados ainda pela transformação, vêm envolver-me e me dizer:

 

“Dão-vos tudo o que não se aprende e que pode esclarecer o mundo onde, ao partir, deixamos a nossa marca inapagável. Mas é preciso reservar sua parte no trabalho pessoal, sem usurpar a ciência adquirida, nem o trabalho que cada um pode e deve fazer.”

 

“Nessa enorme confusão, escolhi um simples idílio, obra de fantasia, estranha, impossível, e no qual são lançados, sob uma forma mais ou menos ligeira, as bases de uma nova cosmogonia toda inteira. Nesses cadernos, o estudo tinha como título: a Unidade, que julguei dever substituir pelo de Romance do Futuro.” Eis os elementos principais do enredo:

 

Paul de Villeblanche morava na Normandia, com seu pai, nas ruínas de um velho castelo, outrora residência senhorial de sua família, arruinada e dispersa pela Revolução. Era um rapaz de uns vinte anos, de grande inteligência, ideias mais largas e mais avançadas e que tinha posto de lado todos os preconceitos de raça.

 

No mesmo cantão, vivia uma velha marquesa muito devota que, para resgatar os pecados e salvar sua alma, tinha imaginado tirar da miséria e da abjeção social uma pequena cigana para dela fazer uma religiosa. Desta maneira, pensava ela, estaria certa de ter alguém que, por reconhecimento e por dever, por ela orasse incessantemente, durante sua vida e após a morte.  Essa mocinha era, pois, educada no convento, desde cerca dos oito anos e, esperando que tomasse o hábito, vinha de dois em dois anos passar seis semanas em casa de sua benfeitora.  Mas a jovem, de rara inteligência, tinha intuitivamente e sobre muitas coisas, ideias à altura das de Paul. Estava então com dezesseis anos. Numa de suas férias, os dois jovens se encontram, ligam-se por uma afeição toda fraterna e têm conversas em que Paul desenvolve à sua inteligente companheira princípios filosóficos novos para ela, mas que esta compreende sem esforço e, por vezes, leva vantagem. Estas duas almas de escol estão à altura uma da outra. O romance acaba em casamento, como é de justiça, mas aí está apenas um pretexto para dar uma lição prática sobre um dos pontos mais importantes da ordem social e dos preconceitos de casta.

 

Inscrevemos com muito gosto este livro no rol dos que são úteis propagar, e que têm seu lugar marcado na biblioteca dos espíritas.

 

São essas conversas que fazem o enredo principal do livro; o resto não passa de um quadro muito simples para a exposição das ideias que um dia devem prevalecer na sociedade.

 

Para referir tudo o que, desse ponto de vista, mereceria sê-lo, seria preciso citar a metade da obra. Reproduzimos apenas alguns dos pensamentos que poderão fazer julgar do espírito no qual ela foi concebida.

 

“Achar é a recompensa de haver procurado; e tudo quanto nós mesmos podemos fazer, não devemos pedir aos outros.”

 

“O mundo é um vasto canteiro, no qual Deus distribuiu a cada um a sua tarefa, distribuindo a nossa conforme as nossas forças. Deste imenso atrito de inteligências diversas, opostas, hostis em aparência, jorra a luz, sem que se apague na hora do nosso último sono. Ao contrário, a marcha constante das gerações que se sucedem traz uma nova pedra ao edifício social; a luz torna-se mais brilhante quando nasce uma criança, trazendo, para continuar o progresso, o primeiro elemento de uma inteligência sempre renovada.”

 

“Mas a marquesa me repete incessantemente (diz a jovem), que todos nascemos maus, que não diferimos senão pela maior ou menor propensão para o pecado, e que a existência inteira é uma luta contra as nossas inclinações, que todos tenderiam para a eterna danação, se a religião que ela me ensina não nos retivesse à beira do abismo.

 

“– Não creia nesses blasfemadores. Deus seria o agente do mal, se não tivesse posto em cada um de nós a bússola que deve guiar nossos passos para a realização dos nossos destinos, e se o homem não tivesse podido marchar em seu caminho até o dia em que a Igreja veio corrigir a obra imperfeita e mal acabada do Eterno.”

 

“Quem sabe se, na imensa rotação do mundo, nossos filhos, por sua vez, não se tornarão nossos pais, e se não nos restituirão, intacta, esta soma de misérias, que lhes teremos deixado ao partir?”

 

“Nenhum mal pode vir de Deus, no tempo nem na eternidade. A dor é obra nossa, é o protesto da Natureza para nos indicar que não mais estamos nos caminhos por ela fixados à atividade humana. Ela se torna um meio de salvação, porque é o seu próprio excesso que nos impele para a frente, incita nossa imaginação preguiçosa e nos leva a fazer grandes descobertas, que aumentam o bem-estar dos que devem passar por este globo depois de nós.”

 

“Cada um de nós é um anel dessa cadeia sublime e misteriosa que liga todos os homens entre si, bem como com a Criação inteira, e que jamais, em parte alguma, poderiam ser quebradas.”

 

“Depois da morte, os órgãos esgotados precisam de repouso, e o corpo devolve à terra os elementos de que se constituem, ao infinito, os seres que se sucedem. Mas a vida renasce da morte.”

 

“Ao partir, levamos conosco a lembrança dos conhecimentos aqui adquiridos; o mundo para onde iremos nos dará os seus e nós os agruparemos todos em feixes, para deles formar o progresso.”

 

“Entretanto, arriscou a moça, haverá um termo, um inevitável fim, tão afastado quanto o suponhas.

 

– Por que limitar a eternidade, depois de a ter admitido em princípio?

 

Aquilo que se chama o fim do mundo é apenas uma figura. Jamais houve começo e jamais haverá fim do mundo. Tudo vive, tudo respira, tudo é povoado. Para que o juízo final pudesse chegar, seria preciso um cataclismo geral, que fizesse o Universo inteiro entrar no nada. Deus, que tudo criou, não pode destruir sua obra. Para que serviria o aniquilamento da vida?”

 

“Sem dúvida a morte é inevitável. Mas, melhor compreendida no futuro, esta morte que nos apavora, não se dará senão na hora prevista, talvez esperada, da partida, para fornecer uma nova etapa. Um chega, outro se põe a caminho, e a esperança enxuga as lágrimas que ocorrem no instante do adeus. A imensidade, o infinito, a eternidade prolongam suas perspectivas aos nossos olhos ávidos, cujo desconhecido nos atrai. Já mais aperfeiçoados, faremos uma viagem mais bela, depois partiremos ainda outra vez, e sempre marcharemos, elevando-nos incessantemente, pois depende de nós que a morte seja a recompensa do dever cumprido, ou o castigo, quando a obra encomendada não tiver sido feita.”

 

“Em qualquer lugar que estejamos no Universo, prendemo-nos por laços misteriosos e sagrados, que nos tornam solidários uns com os outros, e recolheremos fatalmente a colheita do bem e do mal que cada um de nós semeou atrás de si, antes de partir para a grande viagem.”

 

“A criança que nasce traz seu germe de progresso; o homem que morre deixa o seu lugar para que, depois dele, o progresso se realize e ele continue a trabalhar, levando alhures, e a um outro ser, sua alma aperfeiçoada.”

 

“Aqueles a quem deves a luz expiaram nesta vida as faltas de um passado misterioso. Sofreram, mas sofreram corajosamente. O Deus de amor e de misericórdia necessitava deles, sem dúvida, para uma missão mais importante em outro mundo. Ele os chamou a si, concedendo-lhes assim o salário merecido antes que o dia tivesse acabado.”

 

(A propósito de uma jovem que, ainda criança, operava curas surpreendentes, indicando os remédios por intuição).

 

Isto fez ruído, e a principal autoridade, o cura, inquietou-se e interveio. A criança fazia, por meios naturais, o que nem o médico com sua ciência, nem o cura com suas preces, era capaz de obter!... Evidentemente ela era possessa. Para os homens de pouca fé e inteligência obtusa, é Deus que, com o propósito de nos castigar, como se não tivesse a eternidade à sua frente, ou de nos provar, como se não soubesse o que vamos fazer, nos envia todos os males, os flagelos de todo o gênero, as ruínas, a perda dos que nos são caros. Ao contrário, é Satã quem dá a prosperidade, faz encontrar tesouros, cura os doentes, e nos prodigaliza todas as alegrias deste mundo. Enfim, segundo eles, Deus faz o mal, enquanto o diabo é ao autor de todo o bem. Então Maria foi exorcizada, rebatizada ao acaso, a fim de que não pudesse mais aliviar os seus semelhantes. Mas nada adiantou: ela continua a fazer o bem ao seu redor.

 

– Mas tu, que sabes tudo, Paul, que dizes de tudo isto?

 

– Se jamais creio no que minha razão repele, respondeu o jovem conde, não nego os fatos atestados por numerosas testemunhas, só porque a Ciência ainda não os sabe explicar. Deus deu aos animais o instinto de ir direto à planta que pode curar as raras doenças que os atingem. Por que nos teria recusado esse precioso privilégio? Mas o homem saiu dos caminhos que o Criador lhe havia fixado; pôs-se em hostilidade com a Natureza, cujos avisos deixou de escutar. O facho extinguiu-se nele, e a Ciência veio substituir o instinto que, no seu orgulho de novo-rico, negou, combateu, perseguiu, aniquilou tanto quanto nela estava fazê-lo. Mas quem pode afirmar que não sobrevive em alguns seres simples e primitivos, decididos a se esclarecerem docilmente por todos os lampejos que entreveem, animados que estão do desejo de vir em auxílio aos sofrimentos alheios? Quem sabe se Maria, tendo vivido outrora entre essas populaças na infância, entre as quais ainda sobrevive o instinto e que sabem segredos maravilhosos, ou então em algum mundo mais adiantado, de onde suas faltas a fizeram decair, Deus não lhe permite recordar-se de coisas que os outros esqueceram?

 

“Não são certos conhecimentos, para cada um de nós, que parecem reencontrar-se em nós, tão fácil nos é o seu estudo, ao passo que outros não podem penetrar em nosso espírito, sem dúvida porque vêm feri-lo pela primeira vez, ou porque várias gerações acumularam sobre tais conhecimentos montanhas de ignorância e de esquecimento?”

 

(A propósito das visões nos sonhos).

 

“É a alma mantida no seu exílio que conversa com a alma desprendida de sua parte terrena; por isso essas visões são iluminadas por um raio luminoso, que deixa entrever aos pobres humanos quanto é resplandecente o ponto onde chegaram os que souberam dirigir o seu esquife no oceano perigoso, onde flutua a existência.”

 

“Por certo, em mundos diferentes, nossos corpos se constituem de elementos diferentes, e aí revestimos outro envoltório, mais perfeito ou mais imperfeito, conforme o meio onde devem agir. Mas é sempre certo que esses corpos vivem, animados pelo mesmo sopro de Deus; que a transmissão das almas se faz, nuns como nos outros inumeráveis planetas que povoam o espaço infinito, e que sendo a emanação mesma de Deus, existem identicamente as mesmas, em todos os mundos. Do outro lado da vida, ele nos dá uma alma sempre purificada, que permite que nos aproximemos incessantemente do céu; só a nossa vontade por vezes a faz desviar-se do reto caminho.

 

– Entretanto, Paul, ensinam-nos que ressuscitaremos com os nossos corpos de hoje!

 

– Tudo isto é loucura e orgulho! Nossos corpos não são nossos, mas de todo o mundo, dos seres que ontem devoramos, dos que nos devorarão amanhã.  São de um dia; a terra no-los empresta e no-los retomará.  Só a nossa alma nos pertence; só ela é eterna, como tudo quanto vem de Deus e a ele retorna.”

 

IMPRESSÕES DE UM MÉDIUM INCONSCIENTE

A PROPÓSITO DO ROMANCE DO FUTURO

(Pelo Sr.  Eug.  Bonnemère)

 

novembro de 1867

 

O Sr. Bonnemère houve por bem nos transmitir, sobre o jovem bretão tratado no prefácio do interessante livro que publicou, sob o título de Romance do Futuro, detalhes circunstanciados que complementam os que demos a respeito na Revista de julho de 1867. Estas novas informações são do mais alto interesse e os nossos leitores serão gratos ao autor, como nós também, por as haver posto à nossa disposição. Faremos segui-las de algumas observações.

 

Senhor,

 

Um amigo me envia, com muito atraso, o número da Revista Espírita em que comentais o Romance do Futuro, que assinei com o meu nome. Permiti que vos dê alguns esclarecimentos a respeito de uma passagem deste artigo, na qual se acha esta reflexão: “Disseram-nos que o autor, quando escreveu este livro, não conhecia o Espiritismo; isto parece difícil, etc.”

 

Entretanto, isto é rigorosamente exato.  Confesso com toda sinceridade e humildade, senhor, que errei por não vos ter oferecido este volume; jamais fui à vossa casa; nem mesmo conhecia o título da Revista Espírita e minha biblioteca não possui nenhuma obra sobre as questões que aí são tratadas; eis por que chamei o meu jovem bretão um extático natural, quando para vós ele é um médium.

 

Contei no prefácio do Romance do Futuro que, em consequência daquela estranha aventura, eu, que fui um historiador na maturidade de minha vida, ia tornar-me um romancista, depois de haver ultrapassado os cinquenta anos. Os leitores aí não viram senão um desses procedimentos familiares aos autores, para dar algo de picante ao seu relato. Atesto sob palavra que, à exceção de um detalhe, que nada tem a ver com o caso, e que não me é ainda permitido revelar, tudo o que avanço neste prefácio é verdadeiro e, longe de exagerar, não digo tudo.

 

Meu jovem bretão explica em vinte passagens de seus volumosos manuscritos (perto de 18.000 páginas) as causas e os efeitos desta espécie de condenação aos trabalhos forçados que sofreu, maldizendo-a.

 

“Todas as noites – escreveu ele em 24 de agosto de 1864 – deito-me muito fatigado, após um dia de trabalho; adormeço; uma hora depois desperto; estou triste, parece que um crepe negro me envolve; estou sem palavra, mas não sofro. Algo de vago está em meu cérebro; é sob essa impressão que por vezes meus olhos se fecham, com lágrimas no coração. Depois, pela manhã, desperto com um mutismo persistente, isto é, com intoleráveis sofrimentos no lado esquerdo e no coração, que não me permitiam conciliar o sono. Experimento um estado de angústia intolerável, que me força a levantar-me. Sufoco; é preciso que me desafogue. Então vou à minha mesa e lá sou constrangido a trabalhar.

 

“Quanto mais sofro, mais e melhor trabalho.  Então minha imaginação explode.  Quando uma obra está composta, e apenas precisa ser passada para o papel, invento outra, sem jamais a buscar, enquanto escrevo mecanicamente aquela que chegou à maturidade.

 

Quando devo servir de instrumento a algum dos amigos desaparecidos, seu nome ressoa ao meu ouvido. Quando escrevo, esse nome não me deixa e experimento, mesmo em meio aos meus sofrimentos físicos, por vezes agudos, sobretudo no coração, uma espécie de doçura em escrever o que ele põe em mim. É como uma inspiração, mas muito involuntária. Todas as fibras de meu ser moral são postas em alerta. Então sinto mais vivamente; parece que vibro; todos os ruídos são mais fortes, mais perceptíveis; vivo de vibrações intelectuais e morais ao mesmo tempo.

 

“Quando estou neste estado de mutismo, sinto-me como que envolto numa rede, que estabelece uma separação entre o meu ser intelectual e a massa dos objetos materiais ou das pessoas que me cercam. É um isolamento absoluto em meio à multidão; minha palavra e meu espírito estão alhures. O ser inspirador que vem em mim não me deixa mais; é uma espécie de penetração íntima dele em mim; sou como uma esponja embebida de seu pensamento. Pressiono-a e dela sai a quintessência de sua inteligência, isenta de todas as mesquinharias de nossa vida na Terra.

 

“Por vezes, mesmo sem mutismo, quer esteja só, quer com outros, pouco importa, converso, rio, percebo tudo na conversação dos outros e, no entanto, trabalho; as idéias se acumulam, mas fugidias; estou e não estou mais; volto a mim e não tenho mais lembrança de nada; mas o estado de mutismo faz reviver as imagens apagadas.

 

“Se for um romance que devo escrever, primeiro me vem o título, depois vêm os acontecimentos; às vezes é questão de um ou dois dias para o compor inteiramente. Se se trata de coisa mais séria, o título também me é ditado, depois os pensamentos superabundam, até mesmo quando pareço muito distraído. A elaboração se faz no tempo certo, até o instante em que atinge o clímax e transborda sobre o papel.

 

“Muitas vezes me aconteceu, depois de terminado um longo romance, e quando não tinha nada pronto para despejar em meus cadernos, experimentar essa estranha sensação, como se em meu cérebro houvesse um vazio. Então sofro muito mais; é um estado de completa atonia, até o momento em que minha cabeça se enche de outra coisa.

 

“Geralmente, desde a noite mesmo, ou de manhã na cama, acerto um plano novo. Contudo, por vezes me levanto sem pensar em nada do que vou fazer e sem nada ter elaborado de antemão. Acesa a vela, ponho-me diante do papel. Então escuto do lado esquerdo, no ouvido esquerdo, um nome, uma palavra, um enredo de romance em duas ou três palavras. Isto é suficiente. As palavras se sucedem sem interrupção; os acontecimentos vêm alinhar-se por si mesmos sob a pena, sem um instante de interrupção, até que a história fique terminada.  Quando as coisas se passam assim, é que se trata apenas de uma novela muito curta, que será concluída numa sessão.

 

“Há ainda em meu estado uma particularidade muito singular: é quando me inquieto pela saúde de alguém a quem amo. Verdadeiramente isto se torna uma moléstia atroz para mim, e creio que sofro mais que o próprio doente. Durante alguns instantes sou tomado na cabeça, no estômago, no coração e nas entranhas por uma pressão cheia de angústias, que vai até à dor extrema. Há um momento em que só a cabeça sofre. Então um ou vários nomes de remédios vêm a mim. Não quero falar, porque duvido e receio fazer mal, quando tanto queria aliviar! Mas estas palavras voltam sem cessar; estou vencido, cedo e as digo com esforço, ou as escrevo. Então está acabado, não penso mais nisto e tudo está apagado.”

 

Não sei se me engano, mas me parece encontrar aí todos os caracteres da possessão de outrora, e creio mesmo que no passado queimaram muitos possessos que não eram mais feiticeiros do que o meu jovem extático. Evidentemente ele vive uma dupla vida, mas nenhuma delas tem relação com a outra. Vi-o muitas vezes, quando uma das pessoas que a ele se confiava vinha lhe dizer que sofria; o olhar fixo, as pálpebras afastadas, a pupila dilatada, parecia escutar, procurar. – “Sim, sim!” murmurava ele como se repetisse a si mesmo o que lhe dizia uma voz interior. Então indicava o remédio necessário, conversava um momento sobre a natureza e a causa do mal, depois, pouco a pouco, tudo se dissipava e ele não tinha consciência nem do instante em que começou o êxtase, nem do momento em que havia cessado. Esse rápido momento de ausência não existia para ele e evitava-se falar do assunto.

 

“Quero e devo viver na sombra, escreveu ele alhures. Dizem-me: O bem que se faz sem interesse, emanando de uma fonte natural, mas um pouco extraordinária, parece culposo, ridículo, pelo menos indiscreto. É preciso não se expor à zombaria, ao desprezo, às vezes, por causa de uma boa ação. Conforme o velho provérbio: ‘Quem diz a verdade não merece castigo’, pode dizer-se que uma boa ação oculta não merece castigo. Assim, deve-se fazer o bem aos outros sem que o suspeitem. É a verdadeira caridade, que dá sem esperar retribuição.”

 

Tudo isto não se realiza sem lutas.  Por vezes ele se revolta contra esta obsessão tirânica. Vi-o resistir, debater-se com cólera; depois, domado por uma vontade superior à sua, pôr-se ao trabalho.

 

Tinha anunciado um grande e extenso trabalho sobre a liberdade.  Declarava-se incapaz de o fazer, e protestava que não o faria.  Uma manhã escreveu:

 

“Não; quero lutar ainda hoje. Sinto que a forma ainda não veio bastante clara... Quando, pois, me deixareis em repouso?... Estou quebrado!... Ah! chamais a isto uma liberdade de pensamento, que infundis em mim! Mas é a escravidão aos vossos pensamentos que se devia dizer! Pretendeis que eu tenha o seu gérmen, e que é prestar-me um imenso serviço desenvolvê-la, juntando a ela o que aí podeis colocar!

 

“Começarei por esta questão já tratada: O que é a vida?”

 

Uma espécie de anúncio de programa a cumprir assim se continuava por dez páginas de sua escrita, e tinha sido escrito em quarenta minutos.

 

Todas essas coisas, que me pareceram muito estranhas, talvez o sejam menos para vós, senhor. Em suma, tenho fé em seu poder misterioso, porque me curou de mais de uma afecção, que talvez tivesse embaraçado a Faculdade. Jamais alguém está doente junto a ele sem que escreva a sua receitazinha. Muitas vezes o faz mau grado seu, sentindo bem que não levariam em conta as suas prescrições. Um dia terminava por estas linhas uma consulta a propósito de uma pessoa doente do peito que, em sua opinião, era mal cuidada, e que julgava ainda poder salvar:

 

“Eis o que posso dizer. Façam o que julgarem conveniente; são minhas observações, eis tudo. Não terei que me censurar por as ter deixado dormir em mim. Nada deve ser feito sem o conselho do médico. Com naturezas como são todos, isto só pode servir como indicação. Que jamais me falem disto; que não me agradeçam. Não sou um homem, mas uma alma que desperta ao clamor do sofrimento, e que não se lembra mais desde que chegou o alívio.

 

Quando não tinha doentes à mão, prescrevia remédios gerais para as afecções que a ciência oficial ainda não sabia curar. Que valem essas prescrições? Ignoro-o. Todavia, o que vi, o que pude experimentar, me leva a crer que talvez pudessem pôr no caminho de novos processos curativos.

 

Se um indivíduo que jamais abriu um livro de Medicina prescreve, sem ter consciência disso, remédios que podem curar, em muitos casos, a maioria dos males hoje declarados incuráveis, parece-me incontestável que tais coisas lhe são reveladas por uma força desconhecida e misteriosa. Em presença de semelhante fato, a questão me parece resolvida. Deve-se aceitar como demonstrado que existem sensitivos aos quais é concedido servir de intermediários aos amigos desaparecidos que, não mais tendo órgãos ao serviço de sua vontade, vêm utilizar a voz ou a mão desses seres privilegiados, quando querem curar o nosso corpo, ou fortalecer a nossa alma, esclarecendo-a sobre coisas que lhes é permitido nos dar a conhecer.

 

Pode arriscar-se uma experiência in anima vili sobre os bichos-da-seda, por exemplo, que quase não servem mais senão para serem atirados aos vermes dos túmulos, tanto eles estão doentes. A questão é grave, porque é por centenas de milhões de francos que se devem contar as perdas que anualmente nos faz sofrer a doença que os colhe. O resultado a obter vale a pena que se tente esta primeira experiência que, em todo o caso, se não der resultado, não poderia agravar a situação.

 

Aqui pode haver um mistério, mas afirmo que não há mistificação. Se sou mistificado, sempre me restarão os cento e tantos romances e novelas desse romancista sem o saber, cuja publicação vai ocupar agradavelmente os lazeres dos últimos anos de minha existência, e dos quais deixarei a maior parte para os outros depois de mim.

 

Neste inverno darei outro romance de meu jovem extático bretão. No prefácio transcreverei textualmente tudo quanto ele escreveu sobre a cura dos bichos-da-seda; e acrescentarei mesmo, caso queiram, suas prescrições para prevenir e curar a cólera e as doenças do peito.

 

Pouco importa que riam de mim durante alguns dias; mas importa muito que esses segredos, que o acaso me fez depositário, não morram comigo, se contiverem algo de sério, e que se saiba que existem relações possíveis entre as inteligências superiores do outro lado da vida e as inteligências dóceis do lado de cá. Creio que seria muito importante para nós travar relações cada vez mais seguidas com esses mortos de boa vontade que parecem dispostos a nos prestar semelhantes serviços.

 

Aceitai, etc.

 

E.  Bonnemère

 

O quadro das impressões desse rapaz, traçado por ele próprio, é tanto mais notável quanto, tendo sido escrito na ausência de qualquer conhecimento espírita, não pode ser o reflexo de ideias colhidas num estudo qualquer, que tivesse exaltado a sua imaginação. É a impressão espontânea de suas sensações, de onde ressaltam, com a maior evidência, todos os caracteres de uma mediunidade inconsciente; a intervenção de inteligências ocultas aí é expressa sem ambiguidade; a resistência que ele opõe, a contrariedade mesmo que sente, provam à saciedade que age sob o império de uma vontade que não é a sua. Esse jovem é, pois, um médium em toda a acepção da palavra, e dotado, além disso, de múltiplas faculdades, pois, ao mesmo tempo, é médium escrevente, falante, vidente, audiente, mecânico, intuitivo, inspirado, impressionável, sonâmbulo, médico, literato, filósofo, moralista, etc. Mas nos fenômenos descritos, não há nenhum dos caracteres do êxtase. Logo, é impropriamente que o Sr. Bonnemère o qualifica de extático, pois é precisamente uma das faculdades que lhe faltam. O êxtase é um estado particular bem definido, que não se apresentou no caso de que se trata.  Também não parece dotado da mediunidade de efeitos físicos, nem da mediunidade curadora.

 

Há médiuns naturais, como há sonâmbulos naturais, que agem espontaneamente e inconscientemente; em outros, os fenômenos mediúnicos são provocados pela vontade, a faculdade é desenvolvida pelo exercício, como em certos indivíduos o sonambulismo é provocado e desenvolvido pela ação magnética.

 

Há, pois, os médiuns inconscientes e os médiuns conscientes. A primeira categoria, à qual pertence o jovem bretão, é a mais numerosa; é quase geral e, sem exagerar, pode dizer-se que em cem indivíduos noventa são dotados dessa aptidão em graus mais ou menos ostensivos.  Se cada um se estudasse, encontraria nesse gênero de mediunidade, que reveste as mais diversas aparências, a razão de uma porção de efeitos que não se explicam por nenhuma das leis conhecidas da matéria.

 

Esses efeitos, sejam materiais ou não, aparentes ou ocultos, não são menos naturais por terem essa origem. O Espiritismo nada admite de sobrenatural nem de maravilhoso; segundo ele tudo entra na ordem das leis da Natureza. Quando a causa de um efeito é desconhecida, deve-se buscá-la na realização dessas leis, e não em sua perturbação, provocada pelo ato de uma vontade qualquer, o que seria o verdadeiro milagre. Um homem investido do dom de milagres teria o poder de suspender o curso das leis que Deus estabeleceu, o que não é admissível.  Mas sendo o elemento espiritual uma das forças ativas da Natureza, provoca fenômenos especiais, que não parecem sobrenaturais senão porque se obstinam em buscar sua causa somente nas leis da matéria. Eis por que os espíritas não fazem milagres, e jamais tiveram a pretensão de os fazer. A qualificação de taumaturgos, que lhes dá a crítica por ironia, prova que fala de uma coisa cuja primeira palavra desconhece, já que chama de fazedores de milagres aqueles mesmos que os vêm destruir.

 

Um outro fato ressalta das explicações dadas na carta acima: o Romance do Futuro é mesmo uma obra mediúnica do jovem bretão, e não se pode senão ser grato ao Sr.  Bonnemère por ter declinado a sua paternidade. Pensamentos tão elevados e tão profundos nada tinham que pudessem nos surpreender de sua parte; por isso não hesitamos em os atribuir a ele, e só tínhamos mais estima por seu caráter e por seu talento de escritor, que nos era conhecido; mas eles tomam um interesse particular, considerando-se a fonte de onde promanam. Por mais estranha que pareça essa fonte à primeira vista, nada tem de surpreendente para quem quer que conheça o Espiritismo. Fatos desse gênero se veem frequentemente, e não há um só espírita, por pouco esclarecido que seja, que dele não se dê conta perfeitamente, sem recorrer aos milagres.

 

Assim, atribuindo a obra ao Sr. Bonnemère e aí encontrando fatos e pensamentos que parecem tomados à própria doutrina, parecia-nos difícil que o autor a ignorasse. Desde que afirma o contrário, acreditamo-lo sem esforço e encontramos em sua própria ignorância a confirmação deste fato muitas vezes repetido em nossos escritos: as ideias espíritas de tal modo estão em a Natureza que germinam fora do ensinamento do Espiritismo, e uma multidão de criaturas são ou se tornam espíritas sem o saber e por intuição; não falta às suas ideias senão o nome. O Espiritismo é como essas plantas cujas sementes são levadas pelo vento e brotam sem cultivo; nasce espontaneamente no pensamento, sem estudo prévio. Que podem, então, contra ele aqueles que sonham com o seu aniquilamento, ferindo a cepa materna?

 

Assim, eis um médium completo, notável, e um observador que não suspeitam, nem um, nem outro, o que seja o Espiritismo; e o observador, por uma dedução lógica do que vê, chega por si mesmo a todas as consequências do Espiritismo. O que constata, logo de saída, é que os fatos que tem sob os olhos lhe apresentam, no mesmo indivíduo, uma dupla vida, da qual uma não tem qualquer relação com a outra. Evidentemente essas duas vidas, nas quais se manifestam pensamentos divergentes, estão submetidas a condições diferentes; não podem ambas provir da matéria; é a constatação da vida espiritual; é a alma que se vê agir fora do organismo. Este fenômeno é muito vulgar; produz-se todos os dias durante o sono do corpo, nos sonhos, no sonambulismo natural ou provocado, na catalepsia, na letargia, na dupla vista, no êxtase. O princípio inteligente isolado do organismo é um fato capital, pois é a prova de sua individualidade.  A existência, a independência e a individualidade da alma podem, assim, ser resultado da observação. Se, durante a vida do corpo, a alma pode agir sem o concurso dos órgãos materiais, é porque tem existência própria; a extinção da vida corporal não arrasta, pois, forçosamente, a da vida espiritual. Vê-se por aí que, de consequência em consequência, se chega a uma dedução lógica.

 

O Sr. Bonnemère não chegou a este resultado por uma teoria preconcebida, mas pela observação. O Espiritismo não procedeu de outro modo; o estudo dos fatos precedeu a doutrina, e os princípios não foram formulados, como em todas as ciências de observação, senão à medida que eram deduzidos da experiência. O Sr. Bonnemère fez o que deve fazer todo observador sério, porque os fenômenos espontâneos que ressaltam do mesmo princípio são numerosos e vulgares; apenas, não tendo o Sr. Bonnemère visto senão um ponto, só pôde chegar a uma conclusão parcial, ao passo que o Espiritismo, tendo abarcado o conjunto desses fenômenos tão complexos e tão variados, pôde analisá-los, compará-los, controlar uns pelos outros, e aí encontrar a solução de grande número de problemas.

 

Desde que o Espiritismo é o resultado de observações, quem quer que tenha olhos para ver, razão para raciocinar, paciência e perseverança para ir até o fim, poderá chegar a constituir o Espiritismo, assim como se podem reconstituir todas as ciências; mas, estando feito o trabalho, é tempo ganho e esforço poupado. Se fosse preciso recomeçar incessantemente, não haveria progresso possível.

 

Como os fenômenos espíritas estão na Natureza, ocorreram em todas as épocas; e precisamente porque tocam a espiritualidade de maneira mais direta, estão misturados a todas as teogonias. O Espiritismo, vindo numa época menos acessível aos preconceitos, esclarecido pelo progresso das ciências naturais, que faltaram aos primeiros homens, e por uma razão mais desenvolvida, pôde observar melhor do que outrora. Hoje, vem separar o que é verdadeiro da mistura introduzida pelas crenças supersticiosas, filhas da ignorância.

 

O Sr. Bonnemère se felicita pelo acaso, que lhe pôs em mãos os documentos fornecidos pelo jovem bretão. O Espiritismo não admite mais o acaso do que o sobrenatural nos acontecimentos da vida. O acaso, que por sua natureza é cego, mostrar-se-ia por vezes singularmente inteligente. Então pensamos que foi intencionalmente que tais documentos vieram à sua posse, depois que ele foi posto em condições de constatar sua origem. Não mãos do jovem, teriam ficado perdidas e, sem dúvida isto não devia acontecer. Era preciso, pois, que alguém se encarregasse de os tirar da obscuridade; e parece que ao Sr.  Bonnemère é que coube esta missão.

 

Quanto ao valor desses documentos, a julgar pela amostra dos pensamentos contidos no Romance do Futuro, certamente ali deve haver coisas excelentes. Serão todas boas? É uma outra questão. Sob esse aspecto, sua origem não é uma garantia de infalibilidade, considerando-se que os Espíritos, não sendo mais que as almas dos homens, não têm a soberana ciência. Sendo seu adiantamento relativo, há uns mais esclarecidos que outros; se há uns que sabem mais que os homens, também há homens que sabem mais que certos Espíritos. Até agora se tem considerado os Espíritos como seres fora da Humanidade, e dotados de faculdades excepcionais.  Eis um erro capital, que engendrou tantas superstições e que o Espiritismo veio retificar. Os Espíritos fazem parte da Humanidade e, até que tenham atingido o ponto culminante da perfeição, para o qual gravitam, estão sujeitos a enganar-se. É por isso que jamais se deve renunciar ao livre-arbítrio e ao raciocínio, mesmo em relação ao que vem do mundo dos Espíritos; jamais se deve aceitar seja o que for de olhos fechados e sem o controle severo da lógica. Sem nada prejulgar sobre os documentos em questão, eles poderiam contar coisas boas ou más, verdadeiras ou falsas; por conseguinte, teríamos que fazer uma escolha judiciosa, para a qual os princípios da doutrina podem fornecer úteis indicações.

 

No número desses princípios, um há que não importa perder de vista: é o fim providencial da manifestação dos Espíritos. Eles vêm para atestar a sua presença e provar ao homem que nem tudo se acaba com a vida corporal; vêm instruí-lo sobre sua condição futura, exercitá-lo a adquirir o que é útil ao seu futuro e o que pode levar, isto é, as qualidades morais, e não para lhe dar meios de enriquecer. O cuidado de sua fortuna e a melhoria de seu bem-estar material deve ser ato de sua própria inteligência, de sua atividade, de seu trabalho e de suas pesquisas.  Se assim não fora, o preguiçoso e o ignorante poderiam enriquecer-se sem esforço, pois bastaria dirigir-se aos Espíritos para obter uma invenção lucrativa, fazer descobrir tesouros, ganhar na bolsa ou na loteria. Por isso, todas as esperanças de fortuna fundadas sobre o concurso dos Espíritos fracassaram deploravelmente.

 

É o que nos suscita algumas dúvidas sobre a eficácia do processo para o bicho-da-seda, processo que teria por efeito fazer ganhar milhões, e dar crédito à ideia de que os Espíritos podem dar os meios de enriquecer, ideia que perverteria a essência mesma do Espiritismo. Seria, pois, imprudente criar quimeras a esse respeito, porque poderia aqui se dar como com certas receitas que deviam fazer correr o Pactolo em certas mãos, e que só levou a ridículas mistificações. Contudo, não é uma razão para calar o processo e para o desprezar; se o sucesso deve ter um resultado mais importante e mais sério que a fortuna, é possível que semelhante revelação seja permitida. Mas, na dúvida, é bom não embalar esperanças que talvez não se concretizem. Aprovamos, pois, o projeto do Sr. Bonnemère de publicar as receitas que foram dadas ao seu jovem bretão, porque, dentre elas, podem encontrar-se algumas úteis, sobretudo para as doenças.

 

* * *