Publica-se neste momento uma importante obra que interessa no mais alto grau à Doutrina Espírita, e que não podemos melhor fazer conhecer senão pela análise do prospecto.
"NOVO DICIONÁRIO UNIVERSAL, panteão literário e enciclopédia ilustrada, por MAURICE LACHATRE, com o concurso de sábios, de artistas e de homens de letras, segundo os trabalhos de: Allan Kardec, Ampère, Andral, Arago, Audouin, Balbi, Becquerel, Berzelius, B!ot, Brongnard, Burnouf, Chateaubriand, Cuvier, Flourens, Gay- Lussac, Guizot, Humboldt, Lamartine, Lamennais, Laplace, Magendie, Michelet, Ch. Nodier, Orfila, Payen, Raspail, de Sacy, J. B. Say, Thiers, etc., etc.
"Dois magníficos volumes grandes in-42 em três colunas, ilustrado com vinte mil assuntos, gravados sobre madeira, intercalados no texto. - Duas entregas por semana, - 10 centavos cada entrega. - Cada entrega contém 95.768 letras, quer dizer, a matéria da metade de um volume in-8o. A obra contém 200 entregas por volume, e não custará em tudo senão 40 francos. Esta obra, o mais gigantesco dos empreendimentos literários de nossa época, encerra a análise de mais de 400.000 obras, e pode ser considerada com razão com o mais vasto repertório dos conhecimentos humanos. O Novo Dicionário Universal é o mais exato, o mais completo e o mais progressivo de todos os dicionários, o único que abarca em seus desenvolvimentos todos os dicionários especiais da língua usual, da língua poética, dos sinônimos, da velha linguagem, das dificuldades gramaticais, da teologia, das religiões, seitas e heresias, das festas e cerimônias em todos os povos, da mitologia, do magnetismo, do Espiritismo, das doutrinas filosóficas e sociais, da história, da biografia, das ciências, da física, da química, da história natural, da astronomia, das invenções, da medicina, da geografia, da marinha, da jurisprudência, da economia política, da franco-maçonaria, da agricultura, do comércio, da economia doméstica, do governo da casa, etc., etc. - Paris, Docks de la librairie , 38, boulevard Sébastopol."
Esta obra conta neste momento vinte mil subscritores.
Devemos primeiramente fazer observar que se nosso nome se encontra à frente dos autores cujas obras foram consultadas, foi a ordem alfabética que assim quis, e não a preeminência.
Todos os termos especiais do vocabulário espírita se encontram nesse vasto repertório, não com uma simples definição, mas com todos os desenvolvimentos que comportam; de sorte que seu conjunto formará um verdadeiro tratado do Espiritismo. Além disso, todas as vezes que uma palavra possa dar lugar a uma dedução filosófica, a idéia espírita estará colocada em paralelo como ponto de comparação. Estando a obra concebida num espírito de imparcialidade, não apresenta mais a idéia espírita que toda outra como a verdade absoluta; deixa o leitor livre para aceitá-la ou rejeitá-la, mas dá a este os meios de apreciá-la, apresentando-a com uma escrupulosa exatidão, e não truncada, alterada ou julgada antecipadamente; limita-se a dizer: sobre tal ponto uns pensam de tal maneira, o Espiritismo a explica de tal outra.
Um dicionário não é um tratado especial sobre uma matéria, onde o autor desenvolve sua opinião pessoal; é uma obra de pesquisas, destinada a ser consultada, e que se dirige a todas as opiniões. Procurando-se nela uma palavra, é para saber o que significa em realidade, e não para ter a apreciação do redator, que pode ser justa ou falsa. Um judeu, um muçulmano, devem ali encontrar ali a idéia judia ou muçulmana exatamente reproduzida, o que não obriga esposar essa idéia. O dicionário não tem que decidir se ela é boa ou má, absurda ou racional, porque o que é aprovado por uns pode ser censurado por outros; apresentando-a em sua integridade, dela não assume a responsabilidade. Tratando-se de uma questão científica que divide os sábios, da homeopatia e da alopatia, por exemplo, tem por missão dar a conhecer os dois sistemas, mas não de preconizar um às expensas do outro. Tal deve ser o caráter de um dicionário enciclopédico; só nestas condições pode ser consultado com proveito, em todos os tempos e por todo o mundo; com a universalidade ele adquire a perpetuidade.
Tal é, e tal deverá ser, o sentimento que presidiu à parte que concerne ao Espiritismo. Que os críticos emitam sua opinião nas obras especiais, nada de melhor, é seu direi- to; mas um dicionário é um terreno neutro onde cada coisa deve estar apresentada com suas cores verdadeiras, e onde se deve poder haurir toda espécie de informações com a certeza de ali encontrar a verdade.
Em tais condições, o Espiritismo, tendo achado lugar numa obra tão importante e tão popular quanto o Novo Dicionário Universal , tomou lugar entre as doutrinas filosóficas e os conhecimento usuais; seu vocabulário, já aceito pelo uso, recebeu sua consagração, e doravante nenhuma obra do mesmo gênero poderá omiti-lo sem estar incompleta. Está ainda aí um dos produtos do ano de 1865, que o Sr. vice-presidente Jaubert deixou de mencionar em sua nomenclatura dos resultados deste ano.
Em apoio às observações acima e como espécime da maneira pela qual as questões espíritas são tratadas nessa obra, citaremos a explicação que se encontra para a palavra ALMA. Depois de ter longamente e imparcialmente desenvolvido as diferentes teorias da alma, segundo Aristóteles, Platão, Leibniz, Descartes e outros filósofos, que não podemos reproduzir por causa de sua extensão, o artigo termina assim:
"SEGUNDO A DOUTRINA ESPÍRITA, a alma é o princípio inteligente que anima os seres da criação e lhes dá o pensamento, a vontade e a liberdade de agir . Ela é imaterial, individual e imortal; mas sua essência íntima é desconhecida: não podemos concebê-la absolutamente isolada da matéria senão como uma abstração. Unida ao envoltório fluídico etéreo ou perispírito , ela constitui o ser espiritual concreto, definido e circunscrito chamado Espírito . (V. ESPÍRITO, PERISPÍRITO.) Por metonímia, emprega-se freqüentemente as palavras alma e espírito uma pela outra; diz-se: as almas sofredoras e os espíritos sofredores; as almas felizes e os espíritos felizes; evocar a alma ou o espírito de alguém; mas a palavra alma desperta antes a idéia de um princípio, de uma coisa abstrata, e a palavra espírito a de uma individualidade.
"O espírito unido ao corpo material pela encarnação constitui o homem ; de sorte que no homem há três coisas: a alma propriamente dita, ou princípio inteligente ; o perispírito , ou envoltório fluídico da alma; o corpo , ou envoltório material . A alma é assim um ser simples ; o espírito , um ser duplo composto da alma e do perispírito ; o homem , um ser triplo composto da alma , do perispírito e do corpo . O corpo separado do espírito é uma matéria inerte ; o perispírito separado da alma é uma matéria fluídica sem vida e sem inteligência.
A alma é o princípio da vida e da inteligência; foi, pois, erradamente que algumas pessoas pretenderam que dando à alma um envoltório fluídico semi-material, o Espiritismo dela fez um ser material.
"A origem primeira da alma é desconhecida, porque o princípio das coisas está nos segredos de Deus, e que não é dado ao homem, em seu estado atual de inferioridade, tudo compreender. Não se pode, sobre este ponto, formular senão sistemas. Segundo uns, a alma é uma criação espontânea da Divindade; segundo outros é mesmo uma emanação, uma porção, uma centelha do fluido divino. Aí está o problema sobre o qual não se pode estabelecer senão hipóteses, porque há razões pró e contra. A segunda opinião se opõe, no entanto, esta objeção fundada: sendo Deus perfeito, se as almas são porções da Divindade, elas deveriam ser perfeitas, em virtude do axioma de que a parte é da mesma natureza que o todo; desde então, não se compreenderia que as almas fossem imperfeitas e que tivessem necessidade de se aperfeiçoar. Sem nos deter nos diferentes sistemas tocando a natureza íntima e a origem da alma, o Espiritismo a considera na espécie humana ; ele constata, pelo fato de seu isolamento e de sua ação independente da matéria, durante a vida e depois da morte, sua existência, seus atributos, sua sobrevivência e sua individualidade. Sua individualidade ressalta da diversidade que existe entre as idéias e as qualidades de cada um no fenômeno das manifestações, diversidade que acusa para cada uma existência própria.
Um fato não menos capital ressalta igualmente das observações: é que a alma é essencialmente progressiva , e que adquire sem cessar em saber e em moralidade , uma vez que se as vê em todos os graus de desenvolvimento . Segundo o ensino unânime dos Espíritos, ela é criada simples e ignorante , quer dizer, sem conhecimentos, sem consciência do bem e do mal, com uma igual aptidão para um e para outro e para tudo adquirir. Sendo a criação incessante e por toda a eternidade, há almas chegadas ao cume da escala, enquanto que outras nascem para a vida; mas, tendo todas o mesmo ponto de partida , Deus não as criou melhor dotadas umas do que as outras, o que é conforme a sua soberana justiça: uma perfeita igualdade presidindo a sua formação, elas avançam mais ou menos rapidamente, em virtude de seu livre arbítrio e segundo seu trabalho.
Deus deixa assim a cada uma o mérito e o demérito de seus atos , e a responsabilidade cresce à medida que se desenvolve o senso moral . De sorte que, de duas almas criadas ao mesmo tempo, uma pode chegar ao objetivo mais depressa do que a outra, se trabalha mais ativamente para a sua melhoria; mas aquelas que permaneceram atrasadas chegarão igualmente, embora mais tarde e depois de rudes provas, porque Deus não fecha o futuro para nenhum de seus filhos .
A encarnação da alma num corpo material é necessária para o seu aperfeiçoamento ; pelo trabalho de que a existência corpórea necessita, a inteligência se desenvolve . Não podendo, numa única existência, adquirir todas as qualidades morais e intelectuais que devem conduzi-la ao objetivo, ela ali chega passando por uma série ilimitada de existências, seja sobre a Terra, seja em outros mundos , em cada um dos quais ela dá um passo no caminho do progresso e se despoja de algumas imperfeições. Em cada existência a alma leva o que adquiriu nas existências precedentes . Assim se explica a diferença que existe nas aptidões inatas e no grau de adiantamento das raças e dos povos. (V. ESPÍRITO, REENCARNAÇÃO.) "
ALLAN KARDEC.
DESTAQUE DO TEXTO:
O
espírito
unido ao
corpo
material
pela
encarnação
constitui o
homem ;
De sorte que no homem há
três coisas:
A
alma
propriamente dita, ou
princípio inteligente ;
O
perispírito ,
ou
envoltório fluídico
da
alma ;
O
corpo ,
ou
envoltório material .
A
alma
é assim
um
ser
simples ;
O
espírito ,
um
ser
duplo
composto
da
alma
e do
perispírito ;
O
homem ,
um
ser
triplo
composto
da
alma ,
do
perispírito
e do
corpo .
O
corpo
separado
do
espírito
é
uma
matéria
inerte ;
O
perispírito
separado
da
alma
é
uma
matéria
fluídica
sem
vida
e
sem
inteligência .
TEXTOS SEMELHANTES PODEM
SER ENCONTRADOS IN:
Cap. II,
item 9, 10 e 14 - (obra
de Allan Kardec ).
9. Quando a
alma está ligada
ao corpo , durante a
vida, tem duplo
envoltório : um pesado e
grosseiro e perecível, que é
o
corpo ; o outro
fluídico, leve e
indestrutível, chamado
perispírito .
10. Existem, portanto, no
homem, três elementos
essenciais: 1º. A
alma
ou
E spírito ,
princípio inteligente
onde residem o pensamento, a
vontade e o senso moral
(vide qq. 23, 25 e 26 de
LE);
2º. O
corpo ,
envoltório material que põe
o
espírito em
relação com o mundo
exterior; (vide q. 25 de LE)
3º. O
perispírito ,
invólucro fluídico, leve,
imponderável, servindo de
liame e de intermediário
entre o
espírito (alma)
e o
corpo .”
14. A união da
alma , do
perispírito , e do
corpo material
constitui o
h omem . A
alma e o
perispírito
separados do
corpo constituem
a ser a que chamamos
Espírito .
(vide qq. 27, 135 e 135a
de LE)
NOTA DE ALLAN KARDEC
referindo-se aos itens acima
citados:
• A
alma
é assim
um ser simples; • O
Espírito
um ser
duplo, e • O
homem um ser
triplo.
Seria
portanto mais exato reservar
a palavra
alma
para designar o
princípio inteligente ,
e a palavra
Espírito
para o
ser semimaterial
formado desse princípio e do
corpo fluídico. Mas como não
se pode conceber o
princípio inteligente
sem ligação material, as
palavras
alma
e
Espírito são, no
uso comum, indiferentemente
empregadas uma pela outra; é
a figura que consiste em
tomar a parte pelo todo, da
mesma forma que se diz que
uma cidade é habitada por
tantas almas, uma vila
composta de tantas casas;
porém,
filosoficamente é essencial
fazer-se a diferença .
(Jornal
de Estudos Psicológicos
publicado sobre a
direção de Allan
Kardec),
Ano VII, maio de 1864,
pág. 138 e 139 - EDICEL.
As palavras
alma e
Espírito , posto
que sinônimos e empregados
indiferentemente, não
exprimem exatamente a mesma
idéia. A
alma
é, a bem dizer, o
princípio inteligente ,
imperceptível e indefinido
como o pensamento. No estado
dos nossos conhecimentos,
não podemos concebê-lo
isolado da matéria de
maneira absoluta. Posto que
formado de matéria sutil, o
perispírito , dele
faz um ser limitado,
definido e circunscrito a
sua individualidade
espiritual. De onde se pode
formular esta proposição:
•
A união da
alma , do
perispírito e do
corpo material
constitui o
HOMEM ;
• A
alma
e o
perispírito
separados do corpo
constituem o ser chamado
ESPÍRITO .
Nas manifestações espíritas
não é, pois, a
alma que se
apresenta só; esta sempre
revestida de seu
envoltório fluídico ;
esse
envoltório
é o
necessário intermediário,
através do qual ela age
sobre a matéria compacta.
Nas aparições não é a
alma
que se vê,
mas o
perispírito ;
do mesmo modo que quando se
vê um homem vê-se seu corpo,
mas não o pensamento, a
força, o princípio que o faz
agir.
Em resumo,
• A
alma
é um ser simples, primitivo;
• o
Espírito
o ser
duplo e
• o
homem
o ser
triplo.
Se se confundir o homem com
roupas, teremos um ser
quádruplo. Na circunstância
de que se trata, o vocábulo
Espírito
é o que
melhor corresponde à coisa
expressa.
Pelo
pensamento representa-se um
Espírito ,
mas não se representa uma
alma .
(vide q. 26 de LE)
* * *