REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 4- OUTUBRO 1861 - Nº. 10

 

 

O Espiritismo em Lyon

 

 

 

Fomos de novo, este ano, a Lyon, tendo em vista insistente convite que nos foi feito pelos Espíritas, se bem que conhecêssemos, pela correspondência, os progressos do Espiritismo nessa cidade, o resultado ultrapassou e muito a nossa expectativa. Nossos leitores nos serão agradecidos, sem dúvida, por lhes darmos algumas notícias a esse respeito; ali verão um indício da marcha irresistível da Doutrina, e uma prova patente de suas conseqüências morais.

 

Mas antes de falar dos Espíritas de Lyon, não devemos nos esquecer dos de Sens e de Mâcon, que visitamos em nosso percurso, e agradecer-lhes pela sua simpática acolhida. Lá também pudemos constatar um progresso muito notável, seja no número de adeptos, seja na opinião que se faz do Espiritismo, em geral; por todas as classes dos galhofeiros se esclarecem, e mesmo aqueles que não crêem ainda observam uma prudente reserva, comandada pelo caráter e a posição daqueles que não mais temem hoje se confessarem claramente partidários e propagadores de novas idéias; em presença da opinião que se pronuncia e se generaliza, os incrédulos se dizem que aí poderia bem ter alguma coisa, e que, em resumo, cada um é livre em suas crenças; se quer tudo ao menos saber do que se trata, antes de falar, ao passo que antes falava-se primeiro, antes de saber sobre o quê; não se pode negar que, para muita gente, não esteja aí um verdadeiro progresso. Retornaremos mais tarde sobre esses dois centros, ainda jovens, numericamente falando, ao passo que Lyon já atingiu a virilidade.

 

Com efeito, não é mais por centenas que ali se contam os Espíritas, como há um ano: é por milhares; ou, para melhor dizer, não mais se os conta, e se estima que, seguindo as mesmas progressões, em um ou dois anos serão mais de trinta mil. O Espiritismo ali está recrutado em todas as classes, mas é sobretudo na classe operária que ele se propagou com mais rapidez, e isso não é espantoso; esta classe, sendo a que sofre mais, volta-se do lado onde ela encontra mais consolação. Vós que gritais contra o Espiritismo, por que não lhe dais tanto! Ela se voltaria para vós; mas em lugar disso quereis lhe tirar o que a ajuda a carregar seu fardo de miséria; é o mais seguro meio de vos alienar as suas simpatias e engrossar as fileiras que vos são opostas. O que vimos com os nossos olhos é de tal modo característico, que encerra em si um grande ensinamento, que cremos dever dar aos trabalhadores a mais larga parte em nosso relatório.

 

O ano passado não havia senão um único centro de reunião, o de Brotteaux, dirigido pelo Sr. Dijoud, chefe de oficina, e sua mulher; depois se formaram em diversos pontos da cidade, na Guillotière, em Perrache, na Croix-Rousse, em Vaise, Saint-Just, etc., sem contar um grande número de reuniões particulares. Ali havia apenas ao todo dois ou três médiuns bastante novatos; hoje os há em todos os grupos, e vários são de primeira força; em um único grupo vimos cinco escreverem simultaneamente. Vimos igualmente uma pessoa jovem, muito bom médium vidente, e na qual pudemos constatar essa faculdade desenvolvida em um grau muito alto.

 

Trouxemos uma coleção de desenhos extremamente notáveis de um médium desenhista que não sabe desenhar; eles rivalizam, pela execução e complicação, com os desenhos de Júpiter, embora num outro gênero. Não devemos esquecer um médium curador, tão recomendável pelo seu devotamento quanto pelo poder de sua faculdade.

 

Sem dúvida, os adeptos se multiplicam muito, mas o que vale mais ainda, do que o número, é a qualidade. Pois bem! Nós declaramos claramente que não vimos, em nenhuma parte, reuniões Espíritas mais edificantes que as dos operários Lioneses, sob o aspecto da ordem, do recolhimento e da atenção que eles dão às instruções de seus guias Espirituais; ali há homens, velhos, mulheres, pessoas jovens, mesmo crianças, cuja atitude respeitosa e recolhida contrasta com a sua idade; jamais um único perturbou um instante de silêncio de nossas reuniões, freqüentemente muito longas; pareciam quase tão ávidos quanto seus pais para recolherem as nossas palavras. Isto não é tudo; o número das metamorfoses morais, entre os operários, é quase tão grande quanto o dos adeptos: hábitos viciosos reformados, paixões acalmadas, ódios apaziguados, interiores tornados pacíficos, em uma palavra, as virtudes mais cristãs desenvolvidas, e isso pela confiança, doravante inabalável, que as comunicações Espíritas lhes dão em um futuro no qual não acreditavam; é uma felicidade para eles assistirem a essas instruções, de onde saem reconfortados contra a adversidade; também se vê que chegam ali de mais de uma légua, com qualquer tempo, inverno como verão, e que desafiam tudo para não faltar a uma sessão; é que não há neles uma fé vulgar, mas uma fé baseada sobre uma convicção profunda, raciocinada e não cega.

 

Os Espíritos que os instruem sabem admiravelmente se colocar à altura de seus ouvintes. Seus ditados não são trechos de eloqüência, mas boas instruções familiares, sem pretensão, e que, por isso mesmo, vão ao coração. As conversas com os parentes e os amigos defuntos aí desempenham um grande papel, e delas saem, quase sempre lições úteis. Freqüentemente, uma família se reúne, e o serão se passa numa doce expansão com aqueles que não estão mais; quer se ter novidades de tios, de tias, de primos e de primas; saber se são felizes; ninguém é esquecido; cada um quer que o avô lhe diga alguma coisa; ele dá a todos um conselho. - E eu, avô, dizia um dia um jovem, não me direis, pois, nada? -Tu, meu filho, eu te direi alguma coisa: não estou contente contigo; outro dia querelastes no caminho por uma bobagem, em lugar de ir direto para a tua obra; isso não está bem. - Como, avô, sabeis disso? - Sem dúvida, eu o sei; é que nós outros, Espíritos, não vemos tudo o que fazeis, uma vez que estamos ao vosso lado? - Perdão, avô, eu vos prometo que não recomeçarei mais.

 

Não há alguma coisa de tocante nessa comunhão dos mortos com os vivos? A vida futura aí está, palpitante sob os olhos; não há mais morte, não mais separação eterna, não mais o nada; o céu está mais perto da Terra, e se o compreende melhor. Se está aí uma superstição, praza a Deus que jamais tivesse havido outras!

 

Um fato digno de nota e que constatamos, é a facilidade com que esses homens, a maioria iletrados, e endurecidos pelos mais rudes trabalhos, compreendem a importância da Doutrina, pode-se dizer que não vêem nela senão o lado sério. Nas instruções que demos, nos diferentes grupos, foi em vão que procuramos excitar a curiosidade pelo relato das manifestações físicas, e no entanto, ninguém viu uma mesa girar; ao passo que, tudo o que se referia às apreciações morais, captava no mais alto ponto o seu interesse.

 

A alocução seguinte nos foi dirigida quando de nossa visita ao grupo de Saint-Just; nós a reportamos, não para satisfazer uma tola e pueril vaidade, mas como prova dos sentimentos que dominam nas oficinas onde o Espiritismo penetrou, e porque sabemos ser agradável àqueles que consentiram em nos dar esse testemunho de simpatia. Transcrevê-la-emos textualmente, porque nos seria fazer um escrúpulo acrescentar-lhe uma única palavra; só a ortografia foi retificada.

 

"Senhor Allan Kardec, discípulo de Jesus, intérprete do Espírito de Verdade, sois nosso irmão em Deus; estamos todos reunidos em um mesmo coração, sob a proteção de São João Batista, protetor da Humanidade, precursor do grande mestre Jesus, nosso Salvador.

 

"Nós vos pedimos, nosso caro mestre, para mergulhar os vossos olhares no fundo de nossos corações, a fim de que possais vos dar conta das simpatias que temos por vós. Somos pobres trabalhadores, sem artes; uma espessa cortina, desde a nossa infância, foi estendida sobre nós para sufocar a nossa inteligência; mas vós, caro mestre, pela vontade do Todo-Poderoso, despedaçastes a cortina. Essa cortina, que acreditaram impenetrável, não pôde resistir à vossa digna coragem. Oh! Sim, nosso irmão, pegastes a pesada picareta para descobrir a semente do Espiritismo, que fora encerrada num terreno de granito; vós a semeastes aos quatro cantos do globo, e até em nossos pobres bairros de ignorantes, que começam a saborear o pão da vida.

 

"Todos nós te dizemos isto, do fundo do coração; estamos animados pelo mesmo fogo e repetimos todos: Glória a Allan Kardec e aos bons Espíritos que o inspiraram! e vós, bravos irmãos, Sr. e Sra. Dijoud, os benditos de Deus, de Jesus e de Maria, estais gravados em nossos corações para deles não sair jamais, porque sacrificastes por nós os vossos interesses e os vossos prazeres materiais. Deus o sabe; nós o agradecemos por vos ter escolhido para essa missão, e agradecemos também o nosso protetor superior São João Batista. "Obrigado, senhor Allan Kardec; mil vezes obrigado, em nome do grupo de Saint-Just, por ter vindo entre nós, simples operários, e ainda bem imperfeitos em Espiritismo; a vossa presença nos causa uma grande alegria em meio de nossas tribulações, que são grandes neste momento de crise comercial; nos trouxestes o bálsamo benfazejo que se chama esperança, que acalma os ódios, e reacende no coração do homem o amor e a caridade. Nós nos aplicaremos, caro mestre, em seguir os vossos bons conselhos, e aqueles dos Espíritos superiores que terão a bondade de nos ajudar e de nos instruir, a fim de que todos nos tornemos verdadeiros e bons Espíritas. Caro mestre, ficai seguro de que levareis convosco a simpatia de nossos corações pela eternidade; nós o prometemos; somos e seremos sempre vossos adeptos sinceros e submissos. Permiti ao médium, e a mim, vos dar o beijo de amor fraternal, em nome de todos os irmãos e irmãs que estão aqui. Ficaríamos bem felizes se quisésseis brindar conosco."

 

Vínhamos de longe, e havíamos subido as alturas de Saint-Just com um calor acabrunhante. Alguns refrescos tinham sido preparados no meio dos instrumentos de trabalho; pão, queijo, algumas frutas, um copo de vinho; verdadeiros ágapes oferecidos com a simplicidade antiga e um coração sincero. Um copo de vinho! Ai de mim! em nossa intenção; porque essas bravas pessoas não o bebem todos os dias; mas era festa para eles: ia-se falar do Espiritismo. Oh! Foi de grande coração que brindamos com eles, e sua modesta merenda tinha, aos nossos olhos, cem vezes mais valor do que os mais esplêndidos repastos. Que disso recebam aqui a certeza.

 

Alguém nos dizia em Lyon: "O Espiritismo penetra entre os operários pelo raciocínio, não seria tempo de procurar fazê-lo penetrar pelo coração?" Essa pessoa, seguramente, não conhece os operários; seria desejável que se encontrasse tanto de coração em todo o mundo. Se uma tal linguagem não está inspirada pelo coração; se o coração não está por nada naquele que encontra no Espiritismo a força para vencer suas tendências, lutar com resignação contra a miséria, abafar seus rancores e suas animosidades; naquele que partilha seu pedaço de pão com um mais infeliz, confessamos não saber onde está o coração.

 

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