REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 10 - OUTUBRO 1867 - Nº. 10

 

 

Médicos médiuns

 

 

 

SENHORA CONDESSA ADELAIDE DE CLÉRAMBERT

 

Médium médico.

 

A senhora condessa de Clérambert morava em Saint-Symphorien-sur-Coise, departamento do Loire; ela morreu há alguns anos com uma idade avançada. Dotada de uma inteligência superior, havia, desde a juventude, mostrado um gosto particular pelos estudos médicos, e se comprazia na leitura das obras que tratavam desta ciência. Nos últimos vinte anos de sua vida, esteve consagrada ao alívio do sofrimento com um devotamento todo filantrópico e da mais inteira abnegação. As numerosas curas que ela operava sobre pessoas reputadas incuráveis lhe tinham dado uma certa reputação; mas, tão modesta quanto caridosa, disto ela não tirava nem vaidade nem proveito.

 

Aos seus conhecimentos médicos adquiridos, dos quais ela fazia uso, sem dúvida em seus tratamentos, ela juntava uma faculdade de intuição que não era outra senão uma mediunidade inconsciente, porque ela tratava, freqüentemente, por correspondência, e, sem ter visto os doentes, descrevia perfeitamente a doença; de resto, ela mesma dizia que recebia instruções, sem explicar sobre a maneira pela qual lhe eram transmitidas. Teve muitas vezes manifestações materiais, tais como transportes, deslocamento de objetos e outros fenômenos deste gênero, embora não conhecesse o Espiritismo. Um dia um de seus doentes lhe escreveu que lhe tinha sobrevindo abscesso, e, para lhe dar uma idéia, dele talhou o molde sobre um folha de papel; mas, tendo esquecido de juntá-lo à sua carta, essa senhora lhe respondeu pelo retorno do correio: "O molde do qual me anunciaste o envio não estando em vossa carta, pensei que foi um esquecimento de vossa parte; venho de encontrá-lo uma manhã em minha gaveta, que deve ser semelhante ao vosso e que vos remeto." Com efeito, esse molde reproduzia exatamente a forma e o tamanho do abscesso.

 

Ela não tratava nem pelo magnetismo, nem pela imposição das mãos, nem pela intervenção ostensiva dos Espíritos, mas pelo emprego de medicamentos que, o mais freqüentemente, ela mesma preparava, depois das indicações que lhe eram fornecidas. Sua medicação variava para a mesma doença, segundo os indivíduos; ela não tinha receita secreta de uma eficácia universal, mas se guiava segundo a circunstância.  O resultado era, algumas vezes, quase instantâneo, e, em certos casos, não se obtinha senão depois de um tratamento continuado, mas sempre curto relativamente à medicina comum.  Ela curou radicalmente um grande número de epilépticos e de doentes atingidos de afecções agudas ou crônicas, abandonados pelos médicos.

 

A senhora de Clérambert não era, pois, um médium curador no sentido ligado a esta palavra, mas um médium médico. Ela gozava de uma clarividência que lhe fazia ver o mal, e a guiava nas aplicações dos remédios que lhe eram inspirados, secundada além disto pelo conhecimento que tinha da matéria médica, e, sobretudo, das propriedades das plantas. Por seu devotamento, seu desinteresse moral e material, que jamais foram desmentidos, pela sua inalterável benevolência por aqueles que a ela se dirigiam, a senhora de Clérambert, do mesmo modo que o abade príncipe de Holenlohe, deveu conservar até o fim de sua vida a preciosa faculdade que lhe havia sido concedida, que, sem dúvida, ela teria visto se enfraquecer e desaparecer, se não tivesse perseverado no nobre uso que dela fazia.

 

Sua posição de fortuna, sem ser muito brilhante, era suficiente para tirar todo pretexto a uma remuneração qualquer; ela não pedia, pois, absolutamente nada, mas recebia os recursos, reconhecedores de terem sido curados, o que acreditavam dever dar, e ela o empregava para preverás necessidades daqueles que carecem do necessário.

 

Os documentos da nota acima foram fornecidos por uma pessoa que foi curada pela senhora de Clérambert, e foram confirmados por outras pessoas que a conheceram. Tendo esta notícia sido lida na Sociedade Espírita de Paris, a senhora de Clérambert deu a resposta adiante.

 

(Sociedade Espírita de Paris, 5 de abril de 1867. Méd. Sr. Desliens.) 

Evocação.  - O relato que acabamos de ler nos dá naturalmente o desejo de conversar convosco, e de vos contar entre os Espíritos que consentem concorrer à nossa instrução. Esperamos que consintais atender ao nosso chamado, e, neste caso, tomamos a liberdade de vos dirigir as perguntas seguintes:

 

1º. Que pensais da notícia que se acaba de ler e das reflexões que a acompanham?

2º. Qual é a origem do vosso gosto inato pelos estudos médicos?

3º. Por que via recebíeis as inspirações que vos eram dadas para o tratamento dos doentes?

4º. Podeis, como Espírito, continuar a prestar os serviços que prestáveis como encarnada, quando fordes chamada por um doente, com a ajuda de um médium?

 

Reposta. - Eu vos agradeço, senhor presidente, pelas palavras benevolentes que consentistes pronunciar em minha intenção, e aceito de boa vontade o elogio que fizestes de meu caráter. É, creio, a expressão da verdade, e não teria o orgulho ou a falsa modéstia de recusá-lo. Instrumento escolhido pela Providência, sem dúvida, por causa de minha boa vontade e da aptidão particular que favorecia o exercício de minha faculdade, não fiz senão o meu dever em me consagrando ao alívio daqueles que reclamavam o meu socorro. Recebendo algumas vezes pelo reconhecimento, freqüentemente pelo esquecimento, meu coração não mais se orgulhava dos apoios de um que não sofreu da ingratidão dos outros, tendo em vista que já sabia muito bem ser indigna de uns e me colocar acima dos outros.

 

Mas bastante se ocupou de minha pessoa; vejamos a faculdade que me valeu a honra de ser chamada no meio desta Sociedade simpática, onde se gosta de repousar sua visão, sobretudo quando se esteve como eu alvo da calúnia e dos ataques malévolos daqueles aos quais se melindrou as crenças ou embaraçou seus interesses. Que Deus os perdoe como eu mesma o fiz!

 

Desde a minha mais tenra infância, e por uma espécie de atração natural, ocupei-me do estudo das plantas e de sua ação salutar sobre o corpo humano. De onde me veio este gosto comumente pouco natural ao meu sexo? Eu o ignorava então, mas sei hoje que não foi a primeira vez que a saúde humana foi objeto das minhas mais vivas preocupações: eu havia sido médico. Quanto à faculdade particular que me permitia ver à distância o diagnóstico das afecções de certos doentes (porque eu não via por todo o mundo), e de prescrever os medicamentos que deveriam restituir a saúde, ela era muito semelhante à de vossos médiuns médicos atuais; como eles, eu estava em relação com um ser oculto que se dizia Espírito, e cuja influência salutar me ajudou poderosamente a aliviar os infortunados que reclamavam a mim. Ele me havia prescrito o desinteresse mais completo, sob pena de perder instantaneamente uma faculdade que fazia a minha felicidade. Não sei por qual razão, talvez porque teria sido prematuro revelar a origem de minhas prescrições, ele havia igualmente me recomendado, da maneira mais formal, não dizer de quem eu tinha a receita que dirigia aos meus doentes. Enfim, considerou o desinteresse moral, a humildade e abnegação como uma das condições essenciais à perpetuação de minha faculdade. Segui seus conselhos, e com isto me achei muito bem.

 

Tendes razão, senhor, de dizer que os médicos serão chamados um dia a desempenharem um papel da mesma natureza que o meu, quando o Espiritismo tiver tomado influência considerável que o fará, no futuro, o instrumento universal do progresso e da felicidade dos povos!  Sim, certos médicos terão faculdades dessa natureza, e poderão prestar serviços tanto maiores quanto seus conhecimentos adquiridos lhes permitirão as- similar espiritualmente mais facilmente as instruções que lhes serão dadas.  Há um fato que deveis ter notado, é que as instruções que tratam de assuntos especiais são tanto mais facilmente e tanto mais largamente desenvolvidas, quanto os conhecimentos pessoais do Médium estejam mais aproximados da natureza daquelas que está chamado a transmitir. Também, certamente, eu poderia prescrever os tratamentos aos doentes que a mim se dirigissem para obter sua cura, mas eu não o faria com a mesma facilidade com todos os instrumentos; ao passo que uns transmitiriam facilmente minhas receitas, outros não poderiam fazê-lo senão incorretamente ou incompletamente. No entanto, se meu concurso puder vos ser útil, em qualquer circunstância que seja, me farei um prazer vos ajudar em vossos trabalhos segundo a medida de meus conhecimentos, ai!   bem limitados fora de certas atribuições especiais.

 

ADÉLE DE CLÉRAMBERT.

Nota. O Espírito assina Adéle, ao passo que, quando viva, ela se chamava Adelaide; tendo-lhe perguntado a razão, ela respondeu que Adéle era seu verdadeiro nome, e que não era senão por um hábito de infância que se a chamava Adelaide.

 

* * *

 

A sra. Condessa de Clérambert, da qual falamos no artigo anterior, oferecia uma das variedades da faculdade de curar, que se apresenta sob uma infinidade de aspectos e de nuanças, apropriadas às aptidões especiais de cada indivíduo. Em nossa opinião, era o tipo do que poderia ser entre muitos médicos, de que muitos poderão ser, sem dúvida, quando entrarem na via da espiritualidade, que lhes abre o Espiritismo, porque muitos verão desenvolver-se em si faculdades intuitivas, que lhes serão um precioso auxílio na prática.

 

Dissemos, e repetimo-lo, seria um erro crer que a mediunidade curadora venha destronar a medicina e os médicos. Ela vem lhes abrir uma nova via, mostrar-lhes, na natureza, recursos e forças que ignoravam e com as quais podem beneficiar a ciência e os doentes, numa palavra, provar-lhes que não sabem tudo, desde que há pessoas que, fora da ciência oficial, conseguem o que eles mesmos não conseguem. Assim, não temos a menor dúvida de que um dia haja médicos-médiuns, como há médiuns-médicos que, à ciência adquirida, juntarão o dom de faculdades mediúnicas especiais.

 

Apenas como essas faculdades só tem valor efetivo pela assistência dos Espíritos, que podem paralisar os seus efeitos pela retirada de seu concurso, que frustam à sua vontade os cálculos do orgulho e da cupidez, é evidente que não prestarão sua assistência aos que os renegarem e entenderem servir-se deles secretamente, em proveito de sua própria reputação e de sua fortuna. Como Espíritos trabalham para a humanidade e não vêm para servir a interesses egoístas individuais; como, em tudo o que fazem, agem em vista da propagação das doutrinas novas, são-lhes necessários soldados corajosos e devotados, e nada têm que fazer com poltrões, que tem medo da sombra da verdade. Assim, secundarão os que, sem resistência e sem premeditação, colocarem suas aptidões ao serviço da causa que se esforçam por fazer prevalecer.

 

O desinteresse material, que é um dos atributos essenciais da mediunidade curadora, será, também, uma das condições da medicina mediúnica? Então, como conciliar as exigências da profissão com uma abnegação absoluta? Isto requer algumas explicações, porque a posição não é a mesma.

 

A faculdade do médium curador nada lhe custou. Não lhe exigiu estudo, nem trabalho, nem despesas. Recebeu-a gratuitamente, para o bem dos outros, e deve usá-la gratuitamente. Como antes de tudo é preciso viver, se, por si mesmo, não tem recursos que o tornem independente, deve achar os seus meios no seu trabalho ordinário, como o teria feito antes de conhecer a mediunidade. Não dá ao exercício de sua faculdade senão o tempo que lhe pode consagrar materialmente. Se tira esse tempo de seu repouso e se emprega em tornar-se útil aos seus semelhantes o que teria consagrado a distrações mundanas, é o verdadeiro devotamento, e nisto só tem mais mérito. Os Espíritos não pedem mais e não exigem nenhum sacrifício desarrazoado.

 

Não se poderia considerar devotamento e abnegação o abandono de seu trabalho para entregar-se a um trabalho menos penoso e mais lucrativo. Na proteção que eles concedem, os Espíritos, aos quais a gente não se pode impor, sabem perfeitamente distinguir os devotamentos reais dos devotamentos fictícios.

 

Muito outra seria a posição dos médicos-médiuns. A medicina é uma das carreiras sociais que se abraça para dela fazer uma profissão, e a ciência médica só se adquire a título oneroso, por um trabalho assíduo, por vezes penoso. O saber do médico é, pois, uma conquista pessoal, o que não é o caso da mediunidade. Se, ao saber humano, os Espíritos juntam seu concurso pelo dom de uma aptidão mediúnica, é para o médico um meio a mais para se esclarecer, para agir mais segura e eficazmente, pelo que deve ser reconhecido, mas não deixa de ser sempre médico; é a sua profissão, que não deixa para fazer-se médium. Nada há, pois, de repreensível em que continue a dela viver, e isto com tanto mais razão quanto a assistência dos Espíritos por vezes é inconsciente, intuitiva, e sua intervenção se confunde, às vezes, com o emprego dos meios ordinários de cura.

 

Porque um médico tornou-se médium e é assistido por Espíritos no tratamento de seus doentes, não se segue que deva renunciar a toda remuneração, o que o obrigaria a procurar os meios de subsistência fora da medicina e, assim, renunciar sua profissão. Mas se for animado do sentimento das obrigações que lhe impõe o favor que lhe é concedido, saberá conciliar seus interesses com os deveres de humanidade.

 

Não se dá o mesmo com o desinteresse moral que, em todos os casos, pode e deve ser absoluto. Aquele que, em vez de ver na faculdade mediúnica um meio a mais de tornar-se útil aos seus semelhantes, nela só procurasse uma satisfação ao amor-próprio; que considerasse um mérito pessoal os sucessos obtidos por esse meio, dissimulando a causa verdadeira, faltaria ao seu primeiro dever. Aquele que, sem renegar os Espíritos, não visse em seu concurso, direto ou indireto, senão um meio de suplementar a deficiência de sua clientela produtiva, com alguma aparência filantrópica que se cobre aos olhos dos homens, faria, por isso mesmo, ato de exploração. Num caso, como no outro, tristes decepções seria a sua conseqüência inevitável, porque os simulacros e as saídas falsas não podem enganar os Espíritos, que lêem no fundo do pensamento.

 

Dissemos que a mediunidade curadora não matará a medicina nem os médicos, mas não pode deixar de modificar profundamente a ciência médica. Sem dúvida haverá sempre médiuns curadores, porque sempre os houve, e esta faculdade está na natureza, mas serão menos numerosos e menos à medida que aumentar o número de médicos-médiuns, e quando a ciência e a mediunidade se prestarem mútuo apoio. Ter-se-á mais confiança nos médicos quando forem médiuns, e mais confiança nos médiuns quando forem médicos.

 

Não podem ser contestadas as virtudes curativas de certas plantas e de outras substâncias que a Providência pôs ao alcance do homem, colocando o remédio ao lado do mal. O estudo dessas propriedades é do campo da medicina. Ora, como os médiuns curadores só agem por influência fluídica, sem o emprego de medicamentos, se um dia devessem suplantar a medicina, resultaria que, dotando as plantas de propriedades curativas, Deus teria feito uma coisa inútil, o que é inadmissível. Há, pois, que considerar a mediunidade curadora como um modo especial e não como meio absoluto de cura. O fluido, como um novo agente terapêutico aplicável em certos casos e vindo juntar um novo recurso à medicina. Por conseqüência, a mediunidade curadora e a medicina como devendo de agora em diante marchar concurrentemente, destinadas a se auxiliarem mutuamente, a se suplementar e a se completar uma a outra. Eis porque se pode ser médico sem ser médium curador, e médium curador sem ser médico.

 

Então porque esta faculdade hoje se desenvolve quase que exclusivamente nos ignorantes, em vez de nos homens de ciência? Pela razão muito simples que, até agora, os homens de ciência a repelem. Quando a aceitarem, vê-la-ão desenvolver-se entre si, como entre os outros. Aquele que hoje a possuísse iria proclamá-la? Não: oculta-la-ia com o maior cuidado. Desde que ela é inútil em suas mãos, porque lha dar? Seria o mesmo que dar um violão a um homem que não sabe e não quer tocar.

 

A este estado de coisas junta-se outro motivo capital. Dando aos ignorantes o dom de curar males que os sábios não podem curar, é para provar e estes que nem tudo sabem, e que há leis naturais além das que a ciência reconhece. Quando maior a distância entre a ignorância e o saber, mais evidente é o fato. Quando se produz naquele que nada sabe, é uma prova certa de que ali em nada participou o saber humano.

 

Mas como a ciência não pode ser um atributo da matéria, o conhecimento do mal e dos remédios por intuição, como a faculdade de vidência, só podem ser atribuídos ao Espírito. Elas provam no homem a existência do ser espiritual, dotado de percepções independentes dos órgãos corporais e, muitas vezes, de conhecimentos adquiridos anteriormente, numa precedente existência. Esses fenômenos tem pois, ao mesmo tempo, a conseqüência de serem à humanidade, e de provar a existência do princípio espiritual.

 

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