REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 9 - MARÇO 1866 - Nº. 3

 

 

Introdução ao estudo dos fluidos espirituais

 

 

 

I

 

Os fluidos espirituais representam um importante papel em todos os fenômenos espíritas, ou melhor, são o princípio mesmo desses fenômenos. Até agora se estava limitado a dizer que tal efeito é o resultado de uma ação fluídica, mas esse dado geral, suficiente no início, não o é mais quando se quer investigar os detalhes. Sabiamente os Espíritos limitaram seu ensinamento no princípio. Mais tarde, chamaram a atenção para a grave questão dos fluidos, e não foi num centro único que a abordaram: foi mais ou menos em todos.

 

Mas o Espírito não nos vem trazer esta ciência, como nenhuma outra, já pronta: eles nos põem no caminho, fornecem-nos os materiais e a nós cabe estudá-los, observá-los, analisá-los, coordená-los e os pôr em obra. Foi o que fizeram para a constituição da doutrina e agiram assim em relação aos fluidos. Em milhares de lugares diversos e do nosso conhecimento, esboçaram o seu estudo. Em toda parte encontramos alguns fatos, algumas explicações, uma teoria parcial, uma idéia, mas em parte alguma um completo trabalho de conjunto. Por que isto? Impossibilidade da parte deles? Certo que não, porque o que teriam podido fazer como homens, com mais forte razão podê-lo-ão como Espíritos. Mas, como dissemos, é que por coisa alguma eles vem libertar-nos do trabalho da inteligência, sem o qual as nossas forças, ficando inativas, estiolar-se-iam, porque acharíamos mais cômodo que eles trabalhassem por nós.

 

Assim, o trabalho foi deixado ao homem, mas a sua inteligência, a sua vida, o seu tempo sendo limitados, a nenhum é dado elaborar tudo o que é necessário para a constituição de uma ciência. Eis porque não há uma só que, em todas as suas peças seja obra de um só homem; nenhuma descoberta que o seu primeiro inventor tenha levado à perfeição. A cada edifício intelectual vários homens e diversas gerações trouxeram seu contingente de pesquisas e de observações.

 

Assim também com a questão que nos ocupa, cujas diversas partes foram tratadas separadamente, depois coligidas num corpo metódico, quando puderam ser reunidos materiais suficientes. Esta parte da ciência espírita mostra, desde já, que não é uma concepção individual sistemática, de um homem ou de um Espírito, mas o produto de observações múltiplas, que tiram sua autoridade da concordância entre elas existente.

 

Pelo motivo que acabamos de exprimir, não poderíamos pretender que esta seja a última palavra. Como temos dito, os Espíritos graduam os seus ensinos e os proporcionam à soma e à maturidade das idéias adquiridas. Não se poderia, pois, duvidar que, mais tarde, elas pusessem novas observações sobre a via. Mas desde agora há elementos suficientes para formar um corpo que, ulteriormente e gradualmente, será completado.


O encadeamento dos fatos nos obriga a tomar nosso ponto de partida de mais alto, a fim de proceder do conhecido para o desconhecido.

 

II

 

Tudo se liga na obra da criação. Outrora consideravam-se os três reinos como inteiramente independentes entre si e teriam rido de quem pretendesse encontrar uma correlação entre o mineral e o vegetal, entre o vegetal e o animal. Urna observação atenta fez desaparecer a solução de continuidade, e provou que todos os corpos formam uma cadeia ininterrupta. De tal sorte que os três reinos não subsistem, na realidade, senão pelos caracteres gerais mais marcados. Mas nos seus limites respectivos eles se confundem, a ponto de se hesitar em saber onde um termina e o outro começa, e em qual certos seres devem ser colocados. Tais são, por exemplo, os zoófitas, ou animais plantas, assim chamados porque tem, ao mesmo tempo de animal e de planta.

 

O mesmo acontece no que concerne à composição dos corpos. Durante muito tempo os quatro elementos serviram de base às ciências naturais: caíram ante as descobertas da química moderna, que reconheceu um número indeterminado de corpos simples. A química nos mostra todos os corpos da natureza formados desse elementos combinados em diversas proporções. É da infinita variedade dessas proporções que nascem as inumeráveis propriedades dos diferentes corpos. É assim, por exemplo, que uma molécula de gás oxigênio e duas de gás hidrogênio, combinadas, formam água. Na sua transformação em água, o oxigênio e o hidrogênio perdem suas qualidades próprias. A bem dizer, não há mais oxigênio, nem hidrogênio, mas água. Decompondo a água, encontram-se novamente os dois gases, nas mesmas proporções. Se, em lugar de uma molécula de oxigênio, houver duas, isto é, duas de cada gás, não será mais água, mas um líquido muito corrosivo. Bastou, pois, uma simples mudança na proporção de um dos elementos para transformar uma substância salutar em outra venenosa.

 

Por uma operação inversa, se os elementos de uma substância deletéria, como, por exemplo, o arsênico, forem simplesmente combinados em outras proporções, sem adição ou subtração de nenhuma outra substância, ela tornar-se-á inofensiva, ou mesmo salutar. Há mais: várias moléculas reunidas de um mesmo elemento, gozarão de propriedades diferentes, conforme o modo de agregação e as condições do meio onde se encontram. A ozona, recentemente descoberta no ar atmosférico, é um exemplo. Reconheceu-se que essa substância não passa de oxigênio, um dos principais constituintes do ar, num estado particular, que lhe dá propriedades distintas das do oxigênio propriamente dito. O ar não deixa de ser formado de oxigênio e de azoto, mas suas qualidades variam conforme contenha maior ou menor quantidade de oxigênio no estado de ozona.

 

Estas observações, que parecem estranhas ao nosso assunto, não obstante a ele se ligam de maneira direta, como se verá mais tarde. Elas são, além disso, essenciais como pontos de comparação.

 

Essas composições e decomposições se obtêm artificialmente e em pequenas doses nos laboratórios, mas se operam em grande e espontaneamente no grande laboratório da natureza. Sob a influência do calor, da luz, da eletricidade, da humanidade, um corpo se decompõe, seus elementos se separam, outras combinações se operam e novos corpos se formam. Assim, a mesma molécula de oxigênio, por exemplo, que faz parte do nosso corpo, após a destruição deste, entra na composição de um mineral, de uma planta, ou de um corpo animado. Em nosso corpo atual acham-se, pois, as mesmas parcelas de matéria, que foram partes constituintes de uma multidão de outros corpos.

 

Citemos um exemplo para tornar a coisa mais clara.


Um pequeno grão é posto na terra, nasce, cresce e torna-se uma grande árvore que, anualmente, dá folhas, flores e frutos. Quer dizer que a árvore se achava inteirinha no grão? Certamente que não, porque ela contém uma quantidade de matéria muito mais considerável. Então de onde lhe veio essa matéria? Dos líquidos, dos sais, dos gases que a planta tirou da terra e do ar, que infiltraram em sua haste e, pouco a pouco, alimentaram o volume. Mas nem na terra nem no ar encontram-se madeira, folhas, flores e frutos. É que esses mesmos líquidos, sais e gases, no ato de absorção, se decompuseram, seus elementos sofreram novas combinações, que os transformaram em seiva, lenho, casca, folhas, flores, frutos, essências voláteis, etc. Estas mesmas partes, por sua  vez, vão destruir-se, decompor-se, seus elementos, misturar-se de novo na terra e no ar; recompor as substâncias necessárias à frutificação, ser reabsorvidos, decompostos e, mais uma vez, transformados em seiva, lenho, casca, etc.

 

Numa palavra, a matéria não sofre aumento nem diminuição. Transforma-se e, por força dessas transformações sucessivas, a proporção das diversas substâncias é sempre em quantidade suficiente para as necessidades da natureza. Suponhamos, por exemplo, que uma dada quantidade de água seja decomposta, no fenômeno da vegetação, para fornecer o oxigênio e o hidrogênio necessários á formação das diversas partes da planta; é uma quantidade de água que existe a menos na massa; mas essas partes da planta, quando de sua decomposição, vão tornar livres o oxigênio e o hidrogênio que elas encerravam, e esses gases, combinando-se entre si, vão formar uma nova quantidade de água equivalente à que havia desaparecido.

 

Um fato que é oportuno assinalar aqui, é que o homem, que pode operar artificialmente as composições e decomposições que se operam espontaneamente na natureza, é impotente para reconstituir o menor corpo organizado, ainda que fosse uma palha de erva ou uma folha morta. Depois de ter decomposto um mineral, pode recompô-lo em todas as suas peças, como era antes. Mas quando separou os elementos de uma parcela de matéria vegetal ou animal, não pode reconstituí-la e, com mais forte razão, dar-lhe a vida. Seu poder pára na matéria inerte: o princípio de vida está na mão de Deus.

 

A maioria dos corpos simples são chamados ponderáveis, porque é possível achar o seu peso, e este está na razão da soma de moléculas contidas num dado volume. Outros são ditos imponderáveis, porque para nós não tem peso e, seja qual for a quantidade em que se acumulem num outro corpo, não aumentam o peso deste. Tais são: o calórico, a luz, a eletricidade, o fluido magnético ou do ímã. Este último não passa de uma variedade da eletricidade. Posto que imponderáveis, nem por isto esses fluidos deixam de ter um grande poder. O calórico divide os corpos mais duros, os reduz a vapor, dá aos líquidos evaporados uma irresistível força de expansão. O choque elétrico quebra árvores e pedras, curva barras de ferro, funde os metais, atira longe enormes massas. O magnetismo dá ao ferro um poder de atração capaz de sustentar pesos consideráveis. A luz não possui esse gênero de força, mas exerce uma ação química sobre a maioria dos corpos, e sob sua influência operam-se incessantemente composições e decomposições. Sem a luz os vegetais e os animais se estiolam, os frutos não têm sabor nem colorido.

 

III

 

Todos os corpos da natureza, minerais, vegetais, animais, animados ou inanimados, sólidos, líquidos ou gasosos, são formados dos mesmos elementos, combinados de maneira a produzir a infinita variedade dos diferentes corpos. Hoje a Ciência vai mais longe. Suas investigações pouco a pouco a conduzem à grande lei da unidade. Agora é geralmente admitido que os corpos reputados simples não passam de modificações, de transformações de um elemento único, princípio universal designado sob os nomes de éter, fluido cósmico ou fluido universal. De tal sorte que, segundo o modo de agregação das moléculas desse fluido, e sob a influência de circunstâncias particulares, adquire propriedades especiais, que constituem os corpos simples.

 

Estes, combinados entre si em diversas proporções, formam, como dissemos, a inumerável variedade de corpos compostos. Segundo esta opinião, o calórico, a luz, a eletricidade e o magnetismo não passariam de modificações do fluido primitivo universal. Assim esse fluido que, segundo toda probabilidade, é imponderável seria ao mesmo tempo o princípio dos fluidos imponderáveis e dos corpos ponderáveis.

 

A química nos faz penetrar na constituição íntima dos corpos, mas, experimentalmente, não vai além dos corpos considerados simples. Seus meios de análise são impotentes para isolar o elemento primitivo e determinar a sua essência. Ora, entre esse elemento em sua pureza absoluta e o ponto onde pára as investigações da Ciência, o intervalo é imenso. Raciocinando por analogia, chega-se a esta conclusão que entre esse dois pontos extremos, esse fluido deve sofrer modificações que escapam aos nossos instrumentos e aos nossos sentidos materiais. É nesse campo novo, até aqui fechado à exploração, que vamos tentar penetrar.

 

IV

 

Até este dia, não se tinham senão idéias muito incompletas sobre o mundo espiritual ou invisível; imaginavam-se os Espíritos como seres fora da Humanidade; os anjos eram também criaturas à parte, de uma natureza mais perfeita. Quanto ao estado das almas depois da morte, os conhecimentos não eram quase nada mais positivos. A opinião mais geral deles fazia seres abstratos, dispersos na imensidão, e não tendo mais relações com os vivos, a não ser que estivessem, segundo a doutrina da Igreja, nas beatitudes do céu ou nas trevas do inferno. Além disto, as observações da ciência, detendo-se na matéria tangível, disto resulta, entre o mundo corpóreo e o mundo espiritual, um abismo que parecia excluir toda aproximação. É este abismo que as novas observações e o estudo de fenômenos ainda pouco conhecidos vêm preencher, pelo menos em parte.

 

O Espiritismo nos ensina primeiro que os Espíritos são as almas dos homens que viveram sobre a Terra; que eles progridem sem cessar, e que os anjos são essas mesmas almas ou Espíritos chegados a um estado de perfeição que os aproxima da Divindade.

 

Em segundo lugar, nos ensina que as almas passam alternativamente do estado de encarnação ao de erraticidade; que neste último estado elas constituem a população invisível do globo, ao qual permanecem ligadas até que tenham nele adquirido o desenvolvi- mento intelectual e moral que comporte a natureza desse globo, depois do que elas o deixam para passar a um mundo mais avançado.

 

Pela morte do corpo, a Humanidade corpórea fornece almas, ou Espíritos, ao mundo espiritual; pelo nascimento, o mundo espiritual alimenta o mundo corpóreo; há, pois, transmutação ou derramamento incessante de um no outro. Esta relação constante os torna solidários, porque são os mesmos seres que entram em nosso mundo e que dele saem alternativamente. Está um primeiro traço de união, um ponto de contato que já diminui a distância que parecia separar o mundo visível do mundo invisível.

 

A natureza íntima da alma, quer dizer, do princípio inteligente, fonte do pensamento, escapa completamente às nossas investigações; mas sabe-se agora que a alma está revestida de um envoltório, ou corpo fluídico, que dela faz, depois da morte do corpo material, como antes, um ser distinto, circunscrito e individual. A alma é o princípio inteligente considerado isoladamente; é a força atuante e pensante que não podemos conceber isolada da matéria senão como uma abstração. Revestida de seu envoltório fluídico, ou perispírito, a alma constitui o ser chamado Espírito, como quando ela está revestida do envoltório corpóreo, constitui o homem; ora, se bem que no estado de Espírito ela goze de propriedades e de faculdades especiais, não deixa de pertencer à Humanidade. Os Espíritos são, pois, seres semelhantes a nós, uma vez que cada um de nós se torna Espírito depois da morte de seu corpo, e que cada Espírito se torna de novo homem pelo nascimento. (*)

 

Esse envoltório não é a alma, porque ele não pensa; não é senão uma veste; sem a alma, o perispírito, do mesmo modo que o corpo, é uma matéria inerte privada de vida e de sensações. Dizemos matéria, porque, com efeito, o perispírito, embora de natureza etérea e sutil, por isto não é menos a matéria tanto quanto os fluidos imponderáveis, e, além disto, matéria da mesma natureza e da mesma origem que a matéria tangível mais grosseira, assim como o veremos dentro em pouco.

 

A alma não reveste unicamente o perispírito no estado de Espírito; ela é inseparável desse envoltório, que a segue na encarnação, como na erraticidade. Na encarnação, é o laço que a une ao envoltório corpóreo, um intermediário com a ajuda do qual ela atua sobre os órgãos e percebe as sensações das coisas exteriores. Durante a vida, o fluido perispiritual se identifica com o corpo, do qual penetra todas as partes; na morte, dele se liberta; o corpo privado de sua vida se dissolve, mas o perispírito, sempre unido à alma, quer dizer, ao princípio vivificante, não perece; unicamente a alma, em lugar de dois envoltórios, não conserva deles senão um: o mais leve, aquele que está mais em harmonia com o seu estado espiritual.

 

Embora esses princípios sejam elementares para os Espíritas, é útil lembrá-los para a compreensão das explicações subseqüentes e a conexão das idéias.

 

V

 

Algumas pessoas contestaram a utilidade do envoltório perispiritual da alma, e, conseqüentemente, a sua existência. A alma, dizem elas, não tem necessidade de intermediário para agir sobre o corpo; e, uma vez separada do corpo, é um acessório supérfluo.

 

A isto respondemos primeiro que o perispírito não é uma criação imaginária, uma hipótese inventada para chegar a uma solução; sua existência é um fato constatado pela observação. Quanto à sua utilidade, seja durante a vida, seja depois da morte, é preciso admitir que, uma vez que existe, é que serve para alguma coisa. Aqueles que contestam a sua utilidade são como um indivíduo que, não compreendendo as funções de certas engrenagens de um mecanismo, disto concluem que não servem senão para complicar a máquina sem necessidade. Não que se a menor peça for suprimida, tudo será desorganizado. Que as coisas, no grande mecanismo da Natureza, parecem inúteis aos olhos do ignorante, e mesmo de certos sábios, que crêem de boa que se tivessem sido encarregados da construção do Universo, o teriam feito muito melhor!

 

O perispírito é uma dessas engrenagens mais importantes da economia; a ciência o observou em alguns de seus efeitos, e, alternativamente, designou-o sob os nomes de fluido vital, fluido ou influxo nervoso, fluido magnético, eletricidade animal, sem se dar conta precisa de sua natureza e de suas propriedades, e ainda menos de sua origem. Como envoltório do Espírito depois da morte, foi suspeitado desde a mais alta antigüidade. Todas as teogonias atribuem aos seres do mundo invisível um corpo fluídico. São Paulo disse em termos precisos que nós renascemos com um corpo espiritual (I Cor., cap. XV: 35 a 44 e 50).

 

Ocorre o mesmo com todas as grandes verdades fundadas sobre as leis da Natureza, e das quais, em todas as épocas, os homens de gênio tiveram intuição. É assim que, desde antes de nossa era, os sábios filósofos supuseram a redondeza da Terra e seu movimento de rotação, o que nada tira ao mérito de Copérnico e de Galileu, supondo mesmo que estes últimos tenham se aproveitado das idéias precedentes. Graças  aos seus trabalhos, o que não era senão uma opinião individual, uma teoria incompleta e sem prova, desconhecida das massas, tornou-se uma verdade científica, prática e popular.

 

A doutrina do perispírito está no mesmo caso; o Espiritismo não foi o primeiro a descobri-la; mas, do mesmo modo que Copérnico para o movimento da Terra, ele a estudou, demonstrou, analisou, definiu, e dela tirou fecundos resultados. Sem os estudos modernos mais completos, essa grande verdade, como muitas outras, estaria ainda no estado de letra morta.

 

VI

 

O perispírito é o traço de união que liga o mundo espiritual ao mundo corpóreo. O Espiritismo no-los mostra em relação tão íntima e tão constante que de um a outro a transição é quase insensível; ora, do mesmo modo que, na Natureza, o reino vegetal se liga ao reino animal por seres semi-vegetais e semi-animais, o estado corpóreo se liga ao estado espiritual não pelo princípio inteligente, que é o mesmo, mas ainda pelo envoltório fluídico, ao mesmo tempo semi-material e semi-espiritual, desse mesmo princípio. Durante a vida terrestre, o ser corpóreo e o ser espiritual se confundem e agem de acordo; a morte do corpo não faz senão separá-los. A ligação desses dois estados é tal, e reagem um sobre o outro com tanta força, que dia virá em que se o reconhecerá que o estudo da história natural do homem não poderia ser completo sem o estudo do envoltório perispiritual, quer dizer, sem colocar um no domínio do mundo invisível.

 

Esta aproximação é ainda maior quando se observa a origem, a natureza, a formação e as propriedades do perispírito, observação que decorre naturalmente do estudo dos fluidos.

 

VII

 

É reconhecido que todas as matérias animais têm por princípios constituintes o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono, combinados em diferentes proporções. Ora, como dissemos, esses corpos simples têm, eles mesmos, um princípio único, que é o fluido cósmico universal; por suas diversas combinações formam todas as variedades de substâncias que compõem o corpo humano, o único do qual falamos aqui, embora o seja do mesmo modo com respeito aos animais e às plantas. Disto resulta que o corpo humano não é, na realidade, senão uma espécie de concentração, de condensação ou, querendo-se, de solidificação do fluido universal, como o diamante é uma solidificação do gás carbônico.  Com efeito, suponhamos a desagregação completa de todas as moléculas do corpo, reencontraremos o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono, em outros termos, o corpo será volatizado. Estes quatro elementos levados ao seu estado primitivo por uma nova e mais completa decomposição, se os nossos meios de análise o permitissem, dariam o fluido cósmico. Este fluido, sendo o princípio de toda matéria, é matéria em si mesmo, se bem que num estado completo de eterização.

 

Um fenômeno análogo se passa na formação do corpo fluídico, ou perispírito: é igualmente uma condensação do fluido cósmico em redor do foco de inteligência, ou alma. Mas aqui a transformação molecular se opera diferentemente, porque o fluido conserva sua imponderabilidade e suas qualidades etéreas. O corpo perispiritual e o corpo humano têm, pois, sua fonte no mesmo fluido; um e o outro são da matéria, embora sob dois estados diferentes. Tivemos, pois, razão em dizer que o perispírito é da mesma natureza e da mesma origem da matéria mais grosseira. Não há, como se vê, nada de sobrenatural, uma vez que se liga por seu princípio às coisas da Natureza, da qual não é senão uma variedade.

 

O fluido universal sendo o princípio de todos os corpos da Natureza, animados e inanimados,  e,  conseqüentemente,  da  terra,  das  pedras,  estando  Moisés  na  verdade quando disse: "Deus forma o corpo do homem do limo da terra." O que não quer dizer que Deus tome da terra, a modele e dela faça o corpo do homem, como se faz uma estátua com a terra argilosa, assim como acreditavam aqueles que tomaram as palavras bíblicas pela letra, mas que o corpo era formado dos mesmos princípios ou elementos que o limo da terra, ou que tinham servido para formar o limo da terra.

 

Moisés acrescenta: "E lhe deu uma alma viva, feita à sua semelhança." Ele fez assim uma distinção entre a alma e o corpo; indica que ela é de uma natureza diferente, que não é matéria, mas espiritual e imaterial como Deus. Ele disse: uma alma viva, para especificar que ela é o princípio da vida, ao passo que o corpo, formado de matéria, não vive por si mesmo. Estas palavras: à sua semelhança, implicam em uma similitudee não uma identidade. Se Moisés tivesse considerado a alma como uma porção da Divindade, teria dito: Deus o anima dando-lhe uma alma tirada de sua própria substância, como disse que o corpo fora tirado da terra.

 

Estas reflexões são uma resposta às pessoas que acusam o Espiritismo de materializar a alma, porque lhe um envoltório semi-material.

 

VIII

 

No estado normal, o perispírito é invisível para nossos olhos, e impalpável para nosso toque, como o são uma infinidade de fluidos e de gases. No entanto, a invisibilidade, a impalpabilidade, e mesmo a imponderabilidade do fluido perispiritual não são absolutas; foi porque dissemos no estado normal. Ele sofre em certos casos, seja talvez uma condensação maior, seja uma modificação molecular de natureza especial que o torna momentaneamente visível ou tangível: é assim que se produzem as aparições. Sem que haja aparição, muitas pessoas sentem a impressão fluídica dos Espíritos pela sensação do toque, o que é o indício de uma natureza material.

 

De qualquer maneira que se opere a modificação atômica do fluido, não coesão como nos corpos materiais; a aparência se forma instantaneamente e se dissipa do mesmo modo, o que explica as aparições e os desaparecimentos súbitos. Sendo as aparições o produto de um fluido material invisível, torna-se invisível em conseqüência de uma mu- dança momentânea em sua constituição molecular, não são mais sobrenaturais do que os vapores tornados alternativamente visíveis ou invisíveis pela condensação ou pela rarefação. Citamos o vapor como ponto de comparação sem pretender que haja semelhança de causa e de efeito.

 

IX

 

Algumas pessoas criticaram a qualificação de semi-material, dada ao perispírito, dizendo que uma coisa é ou não é matéria. Admitindo que a expressão seja imprópria seria preciso tomá-la na ausência de um termo especial para exprimir este estado particular da matéria. Se dele existe um mais apropriado à coisa, os críticos deveriam indicá-lo. O perispírito é matéria, assim como acabamos de ver, filosoficamente falando e por sua essência íntima; ninguém poderia contestá-la; mas ela não tem as propriedades da matéria tangível, tal como é concebida vulgarmente; não pode ser submetida à análise química; porque, se bem que tenha o mesmo princípio que a carne e o mármore, e que possa deles tomar as aparências, não é, em realidade nem da carne nem do mármore. Por sua natureza etérea liga-se ao mesmo tempo à materialidade por sua substância e à espiritualidade pela impalpabilidade, e a palavra semi-material não é mais ridícula do que aquela de semi-dupla, e tantas outras porque pode-se dizer também que uma coisa é ou não é.

 

X

 

O fluido cósmico, enquanto princípio elementar universal, oferece dois estados distintos: o de eterização ou de imponderabilidade, que pode-se considerar como o estado normal primitivo, e o de materialização ou de ponderabilidade, que dele não é, de alguma sorte, senão consecutivo. O ponto intermediário é o da transformação do fluido em matéria tangível; mas aí, ainda, não transição brusca, porque pode-se considerar nossos fluidos imponderáveis como termo médio entre os dois estados.

 

Cada um desses dois estados, necessariamente, lugar a fenômenos especiais; ao segundo pertencem aqueles do mundo visível, e ao primeiro os do mundo invisível. Uns, chamados fenômenos materiais, são da alçada da ciência propriamente dita; os outros,  qualificados  de  fenômenos  espirituais,  porque  se  ligam  à  existência  dos  Espíritos, estão nas atribuições do Espiritismo; mas têm entre si tão numerosos pontos de contato, que servem para se esclarecer mutuamente, e que, como dissemos, o estudo de uns não poderia estar completo sem o estudo dos outros.

 

É a explicação destes últimos que conduz o estudo dos fluidos dos quais faremos, ulteriormente, o assunto de um trabalho especial.

 

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(*) Conheça alguns estudos sobre o tema ALMA acionando os < Link's > abaixo indicados:

ALMA, PERISPÍRITO (Universal e Vital) E PRINCÍPIO VITAL

ALGUMAS FRASES DE ALLAN KARDEC SOBRE A ALMA

A ALMA: SEDE DE TODAS AS PERCEPÇÕES E SENSAÇÕES

O PERISPÍRITO