REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 3 - SETEMBRO/DEZEMBRO 1860 - Nºs. 9 e 12

 

 

HISTÓRIA DO MARAVILHOSO E DO SOBRENATURAL

 

 

 

setembro de 1860

 

pelo Sr. Louis Figuier.

 

(Primeiro artigo.)

 

É um pouco da palavra maravilhoso como da palavra alma; há um sentido elástico que pode dar lugar a interpretações diversas; por isso, acreditamos útil colocar alguns princípios gerais no artigo precedente, antes de abordar o exame da história que nos dá p Sr. Figuier. Quando essa obra apareceu, os adversários do Espiritismo bateram as mãos dizendo que, sem dúvida, teríamos pela frente um forte adversário; em seu caridoso pensamento, já nos viam mortos sem retorno; tristes efeitos da cegueira passional e irrefletida; porque, se se dessem ao trabalho de observar o que querem demolir, veriam que o Espiritismo será um dia, e isso mais cedo do que creem, a salvaguarda da sociedade, e talvez mesmo lhe deverão a sua salvação, não dizemos no outro mundo, com o qual pouco se inquietam, mas neste! Não é levianamente que dizemos estas palavras; não chegou ainda o tempo de desenvolvê-las; mas muitos já nos compreendem.

 

Voltando ao Sr. Figuier, nós mesmos pensamos encontrar nele um adversário verdadeiramente sério, trazendo enfim argumentos peremptórios que valessem o trabalho de uma refutação séria. Sua obra compreende quatro volumes; os dois primeiros contêm de início uma exposição de princípios num prefácio e uma introdução, depois um relato de fatos perfeitamente conhecidos, que se lera, contudo, com interesse, por causadas pesquisas eruditas que ocorreram da parte do autor; é, nós o cremos, o relato mais completo que disso se publicou. Assim, o primeiro volume é quase inteiramente consagrado à história de Urbain Grandier e dos religiosos de Loudun; vêm em seguida os convulsionários de Saint-Médard, a história dos profetas protestantes, a varinha adivinhatória, o magnetismo animal. O quarto volume, que acaba de aparecer, trata especialmente das mesas girantes e dos Espíritos batedores. Retornaremos mais tarde sobre este último volume, nos limitando, por hoje, a uma apreciação sumária do conjunto.

 

A parte crítica das histórias que os dois primeiros volumes encerram consiste em provar, por testemunhos autênticos, que a intriga, as paixões humanas, o charlatanismo, aí desempenharam um grande papel; que certos fatos levam uma marca evidente de malabarismos; mas é o que ninguém contesta; ninguém nunca garantiu a integridade de todos esses fatos; os Espíritas, menos que os outros, devem mesmo agradecer ao Sr. Figuier por ter juntado provas que evitarão numerosas compilações; eles têm interesse em que a fraude seja desmascarada, e todos aqueles que as descobrirem nos fatos falsamente qualificados de fenômenos espíritas, lhes prestarão serviço; ora, para prestar semelhantes serviços, nada melhor que os inimigos; vê-se, pois, que os próprios inimigos são bons para alguma coisa; somente neles, o desejo da crítica os arrasta, algumas vezes, muito longe, e em seu ardor para descobrir o mal, frequentemente, veem-no onde ele não está, por falta de examinar a coisa com bastante atenção ou imparcialidade, o que é ainda mais raro. O verdadeiro crítico deve se defender de ideias preconcebidas, se despojar de todo preconceito, de outro modo ele julga sob seu ponto de vista que, talvez, nem sempre é justo. Tomemos um exemplo: suponhamos a história política dos acontecimentos contemporâneos escrita com a maior imparcialidade, quer dizer, com uma inteira verdade, e suponhamos essa história comentada por dois críticos de opiniões contrárias; por serem todos os fatos exatos, eles melindrarão forçosamente a opinião de um dos dois; daí dois julgamentos contraditórios: um que levará a obra às nuvens, o outro que a dirá boa para se lançar ao fogo; e todavia a obra não continha senão a verdade. Se assim é para fatos patentes como os da história, com mais forte razão quando se trata da apreciação de doutrinas filosóficas; ora, o Espiritismo é uma doutrina filosófica, e aqueles que não o vêm senão no fato das mesas girantes, ou que o julgam sobre contos absurdos, sobre o abuso que dele se pode fazer, que o confundem com os meios de adivinhação, provam que não o conhecem. O Sr. Figuier está nas condições requeridas para julgá-lo com imparcialidade? É o que se trata de examinar.

 

O Sr. Figuier inicia assim em seu prefácio:

 

"Em 1854, quando as mesas girantes e falantes, importadas da América, fizeram a sua aparição na França, elas aí produziram uma impressão que ninguém esqueceu. Muitos espíritos sábios e refletidos ficaram assustados com esse excesso imprevisto da paixão do maravilhoso. Não podiam compreender um tal descaminho em pleno décimo-nono século, com uma filosofia avançada e no meio desse magnífico movimento científico que dirige tudo hoje para o positivo e o útil."

 

Seu julgamento está pronunciado: a crença nas mesas girantes é um descaminho. Como o Sr. Figuier é um homem positivo, deve-se pensar que, antes de publicar o seu livro, tudo viu, tudo estudou, tudo aprofundou, em uma palavra, que fala com conhecimento de causa. Se o fora de outro modo, cairia no erro dos Srs. Schiff e Jobert (deLamballe)com a sua teoria do músculo estalante. (Ver a Revista do mês de junho de 1859.) E, todavia, é do nosso conhecimento que, há um mês apenas, ele assistiu a uma sessão onde provou que é estranho aos princípios mais elementares do Espiritismo. Dir-se-á suficientemente esclarecido porque assistiu a uma sessão? Certamente não duvidamos de sua perspicácia, mas. Por grande que seja, não poderíamos admitir que ele possa conhecer e, sobretudo, compreender o Espiritismo em uma sessão, que não aprendeu a física em uma lição; se o Sr. Figuier pudesse fazê-lo, teríamos o fato por um dos mais maravilhosos. Quando ele tiver estudado o Espiritismo com tanto cuidado como se tem com o estudo de uma ciência, que tiver consagrado um tempo moral necessário, que tiver assistido a alguns milhares de experiências, que se tiver dado conta de todos os fatos sem exceção, que tiver comparado todas as teorias, então somente poderá fazer uma crítica judiciosa; até lá o seu julgamento é uma opinião pessoal, que não terá mais peso no pró que no contra.

 

Tomemos a coisa de um outro ponto de vista. Dissemos que o Espiritismo repousa inteiramente sobre a existência, em nós, de um princípio imaterial, dito de outro modo, sobre a existência da alma. Aquele que não admite um Espírito em si, não pode admiti-lo fora de si; por consequência, não admitindo a causa, não pode admitir o efeito. Gostaríamos, pois, de saber se o Sr. Figuier poderia colocar, na cabeça de seu livro, a profissão de fé seguinte: 

1.ª Eu creio em Deus, autor de todas as coisas, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, e infinito em suas perfeições;

 

2.ª Eu creio na providência de Deus;

 

3.ª Eu creio na existência da alma sobrevivente ao corpo, e em sua individualidade depois da morte. Nisso creio não como uma probabilidade, mas como uma coisa necessária e consequente dos atributos da Divindade;

 

4.ª Admitindo a alma e a sua sobrevivência, eu creio que não seria nem segundo a justiça, nem segundo a bondade de Deus, que o bem e o mal fossem tratados no mesmo pé depois da morte, então que, durante a vida, tão raramente recebem a recompensa ou o castigo que merecem;

 

5.ª Se a alma do mau e do bom não são tratadas do mesmo modo, há, pois, as que são felizes ou infelizes, quer dizer, que são recompensadas ou punidas segundo as suas obras.

Se o Sr. Figuier fizer uma tal profissão de fé, nós lhe diremos: Essa profissão é a de todos os Espíritas, porque sem isso o Espiritismo não teria nenhuma razão de ser; somente que, o que credes teoricamente o Espiritismo o demonstra pelos fatos; porque todos os fatos espíritas são a consequência desses princípios. Os Espíritos que povoam os espaços, não sendo outra coisa que as almas daqueles que viveram sobre a Terra, ou em outros mundos, do momento que se admite a alma, a sua sobrevivência e a sua individualidade, admite-se, por isso mesmo, os Espíritos. Estando a base reconhecida, toda a questão é saber se esses Espíritos, ou essas almas, podem se comunicar com os vivos; se têm uma ação sobre a matéria; se influem sobre o mundo físico e o mundo moral; ou bem se estão devotadas a uma inutilidade perpétua, ou a não se ocuparem senão delas mesmas, o que é pouco provável, se se admite a providência de Deus, e se se considera a admirável harmonia que reina no Universo, onde o menor ser desempenha o seu papel.

 

Se a resposta do Sr. Figuier fosse negativa, ou somente polidamente dúbia, para nos servir da expressão de certas pessoas, a fim de não chocar muito bruscamente preconceitos respeitáveis, nós lhe diríamos: não sois juiz mais competente em relação ao Espiritismo do que um muçulmano com respeito à religião católica; o vosso julgamento não seria imparcial, e seria em vão que vos defenderíeis de trazer ideias preconcebidas, porque estas ideias estão em vossa opinião, mesmo tocando o princípio fundamental que rejeitais a priori, e antes de conhecer a coisa.

 

Se um corpo sábio nomeasse um relator para examinar a questão do Espiritismo, e que esse relator não fosse francamente Espiritualista, valeria tanto quanto se um concilio escolhesse Voltaire para tratar de uma questão de dogma. Espanta-se, diga-se de passagem, que os corpos sábios não hajam dado o seu parecer; mas esquece-se de que a sua missão é o estudo das leis da matéria e não as dos atributos da alma, e ainda menos de decidir se a alma existe. Sobre tais assuntos eles podem ter opiniões individuais, como podem tê-las sobre a religião; mas, como corporação, nunca terão que se pronunciar.

 

Não sabemos o que o Sr. Figuier responderia às perguntas formuladas na profissão de fé acima, mas seu livro pode fazê-lo pressentir. Com efeito, o segundo parágrafo de seu prefácio está assim concebido:

 

"Um conhecimento exato da história do passado teria prevenido, ou ao menos muito diminuído, esse espanto. Seria, com efeito, um grande erro imaginar que as ideias que geraram em nossos dias a crença nas mesas falantes e nos Espíritos batedores, são de origem moderna. Esse amor do maravilhoso não é particular à nossa época; ele é de todos os tempos e de todos os países, porque se prende à própria natureza do espírito humano. Por uma instintiva e injusta desconfiança de suas próprias forças, o homem é levado a colocar, acima dele, invisíveis forças se exercendo numa esfera inacessível. Essa disposição nativa existiu em todos os períodos da história da Humanidade, e revestindo, segundo os tempos, os lugares e os costumes, aspectos diferentes, ela deu nascimento a manifestações variáveis em sua forma, mas tendo no fundo o mesmo princípio."

 

Uma vez que disse que é por uma instintiva e injusta desconfiança de suas próprias forças que o homem é levado a colocar, acima dele, invisíveis forças se exercendo numa esfera inacessível, é reconhecer que o homem é tudo, que ele pode tudo, e que acima dele nada há; se não nos enganamos, isso não é somente do materialismo, mas do ateísmo. Estas ideias, de resto, ressaltam de uma multidão de outras passagens de seu prefácio e de sua introdução, sobre os quais chamamos toda a atenção de nossos leitores, e estamos persuadidos de que elas os levarão ao mesmo julgamento nosso. Dir-se-á que essas palavras não se aplicam à Divindade mas aos Espíritos? Nós lhes responderemos que, então, eles não conhecem a primeira palavra do Espiritismo, uma vez que negar os Espíritos é negar a alma: sendo os Espíritos e as almas uma só e mesma coisa; que os Espíritos não exercem a sua força numa esfera inacessível, uma vez que estão ao nosso lado, nos tocando, agindo sobre a matéria, a exemplo de todos os fluidos imponderáveis e invisíveis que, contudo, são os mais poderosos motores e os agentes mais ativos da Natureza. Só Deus exerce o seu poder numa esfera inacessível aos homens; negar esse poder, é, pois, negar a Deus. Dir-se-á, enfim, que esses efeitos, que atribuímos aos Espíritos, sem dúvida, são devidos a alguns desses fluidos? Isso seria possível; mas, então, nós lhes perguntaremos como fluidos ininteligentes podem dar efeitos inteligentes.

 

O Sr. Figuier constata um fato capital em dizendo que esse amor do maravilhoso é de todos os tempos e de todos os países, porque ele se prende à própria natureza do espírito humano. O que ele chama amor do maravilhoso é muito simplesmente a crença instintiva, nativa, como ele disse, na existência da alma e em sua sobrevivência ao corpo, crença que revestiu formas diversas segundo os tempos e os lugares, mas tendo no fundo um princípio idêntico. Esse sentimento inato, universal no homem, Deus ter-lhe-ia inspirado para se divertir com ele? Para lhe dar aspirações impossíveis de se realizarem? Crer que isso possa ser assim, é negar a bondade de Deus, é mais, é negar o próprio Deus.

 

Se quer outras provas daquilo que avançamos? Vejamos ainda algumas passagens de seu prefácio:

 

"Na Idade Média, quando uma religião nova transformou a Europa, o maravilhoso tomou domicílio nessa mesma religião. Crê-se nas possessões diabólicas, nos feiticeiros e nos mágicos. Durante uma série de séculos, essa crença foi sancionada por uma guerra sem trégua e sem misericórdia, feita aos infelizes que eram acusados de um secreto comércio com os demônios ou com os mágicos seus cúmplices.

 

"Pelo fim do décimo-sétimo século, na aurora de uma filosofia tolerante e esclarecida, o diabo caiu em desuso, e a acusação de magia começa a ser um argumento usado, mas o maravilhoso não perde os seus direitos por isso. Os milagres floresceram a porfia nas igrejas das diversas comunhões cristãs; crê-se, ao mesmo tempo, na varinha adivinhatória, ou se reporta aos movimentos de um bastão em forquilha para procurar os objetos do mundo físico e se esclarecer sobre as coisas do mundo moral. Continua-se, nas diversas ciências, a admitir a intervenção de influências sobrenaturais, precedentemente introduzidas por Paracelso.

 

"No décimo-oitavo século, apesar da voga da filosofia cartesiana, ao passo que, sobre as matérias filosóficas, todos os olhos se abriram as luzes do bom senso e da razão, no século de Voltaire e da enciclopédia, só o maravilhoso resiste à queda de tantas crenças até aqui veneradas. Os milagres pululam ainda."

 

Se a filosofia de Voltaire, que abriu os olhos à luz do bom senso e da razão, e solapou tantas superstições, não pôde desarraigar a ideia nativa de um poder oculto, não seria porque essa ideia é inatacável? A filosofia do décimo-oitavo século flagelou os abusos, mas se deteve contra a base. Se esta ideia triunfou dos golpes que lhe deu o apóstolo da incredulidade, o Sr. Figuier espera ser mais feliz? Nós nos permitimos disso duvidar.

 

O Sr. Figuier faz uma singular confusão de crenças religiosas, milagres e da varinha adivinhatória; tudo isto, para ele, sai da mesma fonte: a superstição, a crença no maravilhoso.

 

Não empreenderemos defender aqui esse pequeno bastão em forquilha que teria a singular propriedade de servir para a procura do mundo físico, pela razão de que não aprofundamos a questão, e que temos por princípio não louvar ou criticar senão o que conhecemos; mas, se quiséssemos raciocinar por analogia, perguntaríamos ao Sr. Figuier se a pequena agulha de aço com a qual o navegador encontra a sua rota, não tem uma virtude tão maravilhosa quanto o pequeno bastão forquilhado? Não, direis, porque conhecemos a causa que a faz agir, e essa causa é toda física. Antes que se conhecesse a teoria da bússola, que teríeis pensado, se vivêsseis nessa época, então que os marinheiros não tinham por guia senão as estrelas, que, frequentemente, lhes faltavam, que teríeis pensado, dizemos, de um homem que viesse dizer: Tenho ali, numa pequena caixa, não maior que uma bomboneira, uma pequenina agulha com a qual os maiores navios podem se dirigir com certeza; que indica a rota para todos os tempos com a precisão de um relógio? Ainda uma vez, não defendemos a varinha adivinhatória, e ainda menos o charlatanismo que dela se apoderou; mas perguntamos somente o que haveria de mais sobrenatural em que um pequeno pedaço de madeira, em circunstâncias dadas, fosse agitado por um eflúvio terrestre invisível, como a agulha imantada o é pela corrente magnética, que não se vê mais? É que esta agulha não serve também para a procura das coisas do mundo físico? É que ela não está influenciada pela presença de uma mina de ferro subterrânea? O maravilhoso é ideia fixa do Sr. Figuier; é seu pesadelo; ele o vê por toda parte onde haja alguma coisa que ele não compreenda. Mas pode somente, ele, sábio, dizer como germina e se reproduz o menor grão? Qual é a força que faz a flor girar para a luz? o que, sob a terra, atrai as raízes para um terreno propício, e isso através dos obstáculos mais duros? Estranha aberração do espírito humano, que crê tudo saber e não sabe nada; que esmigalha sob os pés maravilhas sem nome, e nega um poder sobre-humano!

 

Estando a religião fundada sobre a existência de Deus, essa força sobre-humana que se exerce numa esfera inacessível; sobre a alma que sobrevive ao corpo, em conservando a sua individualidade, e por consequência a sua ação, tem por princípio o que o Sr. Figuier chama de maravilhoso. Se tivesse se limitado a dizer que entre os fatos chamados maravilhosos há ridículos, absurdos, dos quais a razão faz justiça, nós o aplaudiríamos por isso, com todas as nossas forças, mas não poderíamos ser do seu parecer quando ele confunde, na mesma reprovação o princípio e o abuso do princípio; quando nega a existência de todo poder acima da Humanidade. Esta conclusão, aliás, está formulada de maneira inequívoca na passagem seguinte:

 

"Destas discussões, cremos que resultará para o leitor a perfeita convicção da não existência de agentes sobrenaturais, e a certeza de que todos os prodígios que excitaram, em diversos tempos, a surpresa ou a admiração dos homens, se explicam com o só conhecimento de nossa organização fisiológica. A negação do maravilhoso, tal é a conclusão a tirar deste livro, que poderia se chamar o maravilhoso explicado; e se chegarmos ao objetivo que nos propusemos alcançar, teremos a convicção de ter prestado um verdadeiro serviço para o bem das pessoas."

 

Fazer conhecer os abusos, desmascarar a fraude e a hipocrisia por onde se encontrem, sem contradita, é prestar um grande serviço; mas cremos que é prestar um muito mau serviço à sociedade, tanto quanto aos indivíduos, em atacar o princípio porque se pôde dele abusar; é querer cortar uma boa árvore, porque deu um fruto vidrado. O Espiritismo bem compreendido, dando a conhecer a causa de certos fenômenos, mostra o que é possível e o que não o é, e, por isso mesmo, tende a destruir as ideias verdadeiramente supersticiosas; mas, ao mesmo tempo, mostrando o princípio, dá um objetivo ao bem; fortifica nas crenças fundamentais que a incredulidade procura atacar vivamente sob o pretexto de abuso; ele combate a praga do materialismo, que é a negação do dever, da moral e de toda esperança, e é nisso que dizemos que será um dia a salvaguarda da sociedade.

 

Estamos, de resto, longe de nos lamentar da obra do Sr. Figuier; sobre os adeptos não pode ter nenhuma influência, porque reconhecerão togo os pontos vulneráveis; sobre os outros, terá o efeito de todas as críticas: o de provocar a curiosidade. Depois da aparição, ou melhor, da reaparição do Espiritismo, muito se escreveu contra; não lhe pouparam nem os sarcasmos nem as injúrias; não há senão uma coisa da qual não teve a honra, é a fogueira, graças aos costumes do tempo; isso o impediu de progredir? De nenhum modo, porque ele conta hoje adeptos aos milhões em todas as partes do mundo, e todos os dias eles aumentam. Para isso a crítica, sem o querer, tem muito contribuído, porque o seu efeito, como dissemos, é provocar o exame; quer-se ver o pró e o contra, e se espanta em encontrar uma doutrina racional, lógica, consoladora, acalmando as angústias da dúvida, resolvendo o que nenhuma filosofia pôde resolver, ali onde se esperava não encontrar senão uma crença ridícula. Quanto mais o nome do contraditor é conhecido, mais a sua critica repercute, e mais ela pode fazer de bem em chamando a atenção dos indiferentes. Sob este aspecto, a obra do Sr. Figuier está nas melhores condições; por outro lado, ele escreveu de maneira séria, e não se arrasta na lama de injúrias grosseiras e de personalismos, únicos argumentos dos críticos de baixa classe. Uma vez que pretende tratar a coisa do ponto de vista científico, e a sua posição lho permite, ver-se-á, pois, aí a última palavra da ciência contra esta doutrina, e então o público saberá a que se prender. Se a sábia obra do Sr. Figuier não tiver o poder de lhe dar o golpe de misericórdia, duvidamos que outros sejam mais felizes; para combatê-la com eficácia, não há senão um meio, e com prazer lho indicamos. Não se destrói uma árvore cortando-lhe os ramos, mas cortando-lhe a raiz. É necessário, pois, atacar o Espiritismo pela raiz e não pelos ramos que renascem à medida que são cortados; ora, as raízes do Espiritismo, deste descaminho do décimo-nono século, para nos servir de sua expressão, são a alma e seus atributos; que ele prove, pois, que a alma não existe, e nem pode existir, porque sem almas não haverá mais Espíritos. Quando ele tiver provado isto, o Espiritismo não terá mais razão de ser e nos confessaremos vencidos. Se o seu ceticismo não vai até aí, que ele prove, não por uma simples negação, mas por uma demonstração matemática, física, química, mecânica, fisiológica ou qualquer outra: 

1.ª

1.ª Que o ser que pensa durante a sua vida não deve mais pensar depois de sua morte;

 

2.ª Que se ele pensa, não deve mais querer se comunicar com aqueles que amou;

 

3.ª Que se ele pode estar por toda a parte, não pode estar ao nosso lado;

 

4.ª Que se está ao nosso lado, não pode se comunicar conosco;

 

5.ª Que pelo seu envoltório fluídico ele não pode agir sobre a matéria inerte;

 

6.ª Que se ele pode agir sobre a matéria inerte, ele não pode agir sobre um ser animado;

 

7.ª Que se ele pode agir sobre um ser animado, não pode dirigir a sua mão para fazê-lo escrever;

 

8.ª Que podendo fazê-lo escrever, não pode responder às suas perguntas e transmitir-lhe o seu pensamento.

Quando os adversários do Espiritismo nos tiverem demonstrado que isso não se pode, por razões tão patentes como aquelas pelas quais Galileu demonstrou que não é o Sol que gira ao redor da Terra, então poderemos dizer que as suas dúvidas são fundadas; infelizmente, até este dia, toda a sua argumentação se resume nestas palavras: Eu não creio, portanto, isto é impossível. Eles nos dirão, sem dúvida, que cabe anos provar a realidade das manifestações; nós lhas provamos pelos fatos e peto raciocínio; se não admitem nem a uns nem ao outro, se negam o que veem, cabe a eles provar que o nosso raciocínio é falso e que os fatos são impossíveis.

 

Num outro artigo examinaremos a teoria do Sr. Figuier; desejamos por ele que ela seja de melhor quilate que a do músculo es-talante de Jobert (de Lamballe).

 

HISTÓRIA DO MARAVILHOSO

 

dezembro de 1860

 

pelo Sr. Louis Figuier.

 

(Segundo artigo)

 

Falando do Sr. Louis Figuier, em nosso primeiro artigo, procuramos, antes de tudo, qual fora o seu ponto de partida, e demonstramos, citando textualmente as suas palavras, que ele se apoia sobre a negação de todo poder fora da humanidade corpórea; as suas premissas devem fazer pressentir a sua conclusão. Ó seu quarto volume, aquele que deveria tratar especialmente a questão das mesas girantes e dos médiuns, não aparecera ainda, e nós o esperamos para ver se daria, desses fenômenos, uma explicação mais satisfatória do que aquela do Sr. Jobert (de Lambale). Nós o lemos com cuidado, e o que dele ressalta mais claro para nós, é que o autor tratou de uma questão que ele não conhecia de modo nenhum; para isso não queremos outra prova senão as duas primeiras linhas assim concebidas: Antes de abordar a história das mesas girantes e dos médiuns, cujas manifestações são todas modernas, etc. Como o Sr. Figuier não sabe que Tertuliano fala em termos explícitos das mesas girantes e falantes; que os Chineses conhecem esse fenômeno de tempos imemoriais; que é praticada entre os Tártaros e os Siberianos; que há médiuns entre os Tibetanos; que os havia entre os Assírios, os Gregos e os Egípcios; que todos os princípios fundamentais do Espiritismo se encontram nos filósofos sânscritos? É falso, pois, avançar que essas manifestações são todas modernas; os modernos nada inventaram a esse respeito, e os Espíritas se apoiam sobre a antiguidade e a universalidade de sua doutrina, o que o Sr. Figuier deveria saber antes de ter a pretensão de fazer-lhe um tratado ex professo. Sua obra não teve menos as honras da imprensa, que se apressou em render homenagem a esse campeão das ideias materialistas.

 

Aqui se apresenta uma reflexão, cuja importância não escapará a ninguém. Nada, diz-se, é brutal como um fato: ora, eis aqui um que tem bem o seu valor, é p progresso inaudito das ideias espíritas, às quais certamente a imprensa, nem pequena e nem grande, não prestou o seu concurso. Quando ela se dignou falar desses pobres imbecis que creem ter uma alma, e que essa alma, depois da morte, se ocupa ainda dos vivos, não foi senão para gritar alto lá! sobre eles, e os enviar aos manicômios, perspectiva pouco encorajadora para o público ignorante da coisa. Portanto, o Espiritismo não entoou a trombeta da publicidade; não encheu os jornais de faustosos anúncios; como ocorre, pois, que, sem ruído, sem estrondo, sem o apoio daqueles que se colocam como árbitros da opinião, ele se infiltra nas massas, e que depois de ter, segundo a graciosa expressão de um crítico, do qual não nos lembramos o nome, infestado as classes esclarecidas, penetra, agora, nas classes trabalhadoras? Que nos digam como, sem o emprego dos meios comuns de propaganda, a segunda edição de O Livro dos Espíritos se esgotou em quatro meses? Apaixona-se, diz-se, das coisas mais ridículas; seja, mas apaixona-se com o que diverte, de uma história, de um romance; ora, O Livro dos Espíritos, de nenhum modo tem a pretensão de ser divertido. Não seria que a opinião encontra, nessas crenças, alguma coisa que desafia a crítica?

 

O Sr. Figuier encontrou a solução desse problema: é, disse, o amor do maravilhoso, e ele tem razão; tomemos a palavra maravilhoso na acepção que ele lhe dá, e seremos da sua opinião. Segundo ele, toda a Natureza estando na matéria, todo fenômeno extra-material é do maravilhoso: fora da matéria não há salvação; consequentemente, a alma, depois de tudo o que se lhe atribui, seu estado depois da morte, tudo isso é do maravilhoso; chamemo-lo, pois, como ele do maravilhoso. A questão é de saber se o maravilhoso existe ou não existe. O Sr. Figuier, que não gosta do maravilhoso, e não o admite senão nos contos de Barba-Azul, diz que não. Mas se o Sr. Figuier não deseja sobreviver ao seu corpo; se despreza a sua alma e a vida futura, nem todo o mundo partilha os seus gostos, e não é preciso que, com isso, desgoste os outros; há muitas pessoas para as quais a perspectiva do nada tem muito poucos encantos, e que muito esperam reencontrar, lá em cima ou lá embaixo, seu pai, sua mãe, seus filhos ou seus amigos; o Sr. Figuier não o deseja; não se podem disputar os gostos.

 

Instintivamente, o homem tem horror à morte, e o desejo de não morrer inteiramente é bastante natural, com isso se convirá; pode-se mesmo dizer que essa fraqueza é geral; ora, como sobreviver ao corpo se não se possui esse maravilhoso que se chama alma? Se temos uma alma, ela tem algumas propriedades, porque sem propriedades ela não poderia ser alguma coisa; estas não são, infelizmente para certas pessoas, as propriedades químicas; não se pode colocá-la num frasco para conservá-la num museu anatômico, como se conserva um crânio; nisso, a grande Causa, verdadeiramente errou em não fazê-la mais agarrável: é que, provavelmente, não pensou no Sr. Figuier.

 

Qualquer que ela seja, de suas coisas uma: essa alma, se alma há, vive ou não vive depois da morte; é alguma coisa ou é o nada, não há meio termo. Ela vive para sempre ou por um tempo? Se ela deve desaparecer em um tempo dado, antes valeria que o fosse logo em seguida; um pouco mais cedo, ou um pouco mais tarde, com isso o homem não seria mais adiantado. Se ela vive, faz alguma coisa ou não faz nada; mas como admitir um ser inteligente que não faça nada, e isso durante a eternidade? Sem ocupação, a existência futura seria muito monótona. O Sr. Figuier, não admitindo que uma coisa inapreciável aos sentidos possa produzir quaisquer efeitos, é conduzido, em razão de seu ponto de partida, a esta conclusão, de que todo efeito deve ter uma causa material; por isso ele classifica no domínio do maravilhoso, quer dizer, da imaginação, todos os efeitos atribuídos à alma, e, por consequência, a própria alma, ela mesma, as suas propriedades, os seus fatos e os seus gestos de além-túmulo. Os simples, que têm a tolice de querer viver depois da morte, amam naturalmente tudo o que agrada aos seus desejos e vêm confirmar as suas esperanças; por isso, amam o maravilhoso. Até o presente se estava contente em dizer: "Tudo não morre com o corpo, ficai tranquilos, disso vos damos a nossa palavra de honra." Era muito confortador, sem dúvida, mas uma pequena prova nada teria de perturbadora para o assunto; ora, eis que o Espiritismo, com os seus fenômenos, veio dar-lhes esta prova, a aceitam com alegria; eis todo o segredo da sua rápida propagação; ele dá a realidade a uma esperança: a de viver, e melhor do que isso, a de viver mais feliz; ao passo que vós, Sr. Figuier, vos esforçais para lhes provar que tudo isso não é senão quimera e ilusão; ele eleva a coragem, e vós a abateis; credes que, entre os dois, a escolha será duvidosa?

 

O desejo de reviver depois da morte é, pois, no homem, a fonte de seu amor pelo maravilhoso, quer dizer, por tudo o que se liga à vida de além-túmulo. Se alguns homens, seduzidos petos sofismas, puderam duvidar do futuro, não crede que isso seja deliberadamente; não, essa ideia lhes inspira pavor, e é com esse terror que sondam as profundezas do nada; o Espiritismo acalma as suas inquietações, dissipa as suas dúvidas; o que é vago, indeciso, incerto, toma uma forma, torna-se uma realidade consoladora; eis porque, em alguns anos, deu a volta ao mundo, porque todos querem viver, e o homem preferirá sempre as doutrinas que o confortam àquelas que o apavoram.

 

Voltemos à obra do Sr. Figuier, e digamos primeiro que o seu quarto volume, dedicado às mesas girantes e aos médiuns, tem as três quartas partes cheias de histórias que não lhe têm nenhuma relação, tão bem que o principal ali se torne o acessório. Cagliostro, o negócio do colar, que ali figura não se sabe porquê, a moça elétrica, os caracóis simpáticos, nele ocupam treze capítulos em dezoito; é verdade que essas histórias ali são tratadas com um verdadeiro luxo de detalhes e de erudição, que as fará lidas com interesse, toda opinião espírita à parte. Sendo o seu objetivo provar o amor do homem pelo maravilhoso, procura ele todos os contos que o bom senso, de todos os tempos, tem tomado pelo que eles valem, e se esforça por provar que são absurdos, o que ninguém contesta, e exclama: "Eis o Espiritismo fulminado!" Ao ouvi-lo, crê-se que as proezas de Cagliostro e os contos de Hoffmann são, para os espíritas, artigos de fé, e que os caracóis simpáticos têm todas as suas simpatias.

 

O Sr. Figuier não rejeita todos os fatos, muito longe disso; ao contrário de outros críticos que negam tudo sem cerimônia, o que é mais cômodo, porque isso dispensa de toda explicação, ele admite perfeitamente as mesas girantes e os médiuns, tudo fazendo uma larga parte à velhacaria; as Senhoritas Fox, por exemplo, são insignes escamoteadoras, porque elas foram achincalhadas por jornais americanos pouco galantes; ele admite mesmo o magnetismo, como agente material, bem entendido, a força fascinadora da vontade e do olhar, o sonambulismo, a catalepsia, o hipnotismo, todos os fenômenos de biologia; que disso se guarde! vai passar por um iluminado aos olhos de seus confrades. Mas, consequente consigo mesmo, ele quer reconduzir tudo às leis da física e da fisiologia. Ele cita, é verdade, alguns testemunhos autênticos e dos mais honrosos em apoio dos fenômenos espíritas, mas se estende com complacência sobre todas as opiniões contrárias, sobretudo as dos sábios que, como o Sr. Chevreul e outros, procuraram as provas na matéria; ele tem em grande estima a teoria do músculo mentiroso dos Srs. Jobert e participantes. A sua teoria, como a lanterna mágica da fábula, peca por um ponto capital, e é que se perde numa complicação de explicações que pedem, elas mesmas, explicações para serem compreendidas. Um outro defeito, é que é, a cada passo, contraditada petos fatos dos quais não pode dar conta e que o autor passa em silêncio, por uma razão muito simples, é que não os conhece; ele nada viu, ou pouco viu, por si mesmo; em uma palavra, ele nada aprofundou, de visu, com a sagacidade, a paciência e a independência de ideias do observador consciencioso; contenta-se com relatos mais ou menos fantásticos que encontrou em certas obras que não brilham pela imparcialidade; não tem em nenhuma conta os progressos da ciência em alguns anos; toma-a em seu início, quando caminhava tateante, e cada um lhe trazia uma opinião incerta e prematura, e quando ela estava longe de conhecer todos os fatos; absolutamente como se se quisesse julgar a química de hoje peto que ela era ao tempo de Nicolas Flamel. Em nossa opinião, por sábio que ele seja, ressente-se, pois, da primeira qualidade de um crítico, a de conhecer a fundo a coisa da qual fala, condição ainda mais necessária quando se quer explicá-la.

 

Não o seguiremos em todos os seus raciocínios; preferimos remeter à sua obra que todo espírita pode ler sem o menor perigo para as suas convicções; não citaremos senão a passagem onde ele explica a sua teoria das mesas girantes, que quase resume a de todos os outros fenômenos.

 

"Vem em seguida a teoria que explica os movimentos da mesa pelos Espíritos. Se a mesa gira depois de um quarto de hora de recolhimento e de atenção da parte dos experimentadores, é, diz-se, que os Espíritos, bons ou maus, anjos ou demônios, entraram na mesa e a puseram em oscilação. O leitor deseja que discutamos esta hipótese? Não pensamos fazê-lo. Se empreendêssemos provar, à força de argumentos lógicos, que o diabo não entra nos móveis para fazê-los dançar, nos seria preciso igualmente empreender demonstrar que não são os Espíritos que, introduzidos no nosso corpo, nos fazem agir, falar, sentir, etc. (1) Não são os Espíritos que nos fazem agir e pensar, mas um Espirito que é a nossa alma. Negar este Espirito, é negar a alma; negar a alma é proclamar o materialismo puro. Parece que o Sr. Figuier pensa que, como ele. ninguém crê ter uma alma imortal, ou que ele crê ser todo o mundo.). Todos esses fatos são da mesma ordem, e aquele que admite a intervenção do demônio para fazer girar uma mesa, deve recorrer à mesma influência sobrenatural para explicar os atos que não ocorrem senão em virtude da nossa vontade e pelo socorro dos nossos órgãos. Ninguém nunca quis atribuir seriamente os efeitos da vontade sobre os nossos órgãos, por misteriosa que seja a essência desse fenômeno, à ação de um anjo ou de um demônio. Todavia, é a essa consequência que são conduzidos aqueles que querem informar a rotação das mesas a uma causa sobre-humana.

 

"Dizemos, para terminar esta discussão, que a razão proíbe recorrer a uma causa sobrenatural, em toda parte onde uma causa natural pode bastar. Uma causa natural, normal, fisiológica, pode ser invocada para a explicação do giro das mesas? Aí está toda a questão.

 

"Eis, pois, que somos conduzidos a expor o que nos parece dar conta do fenômeno estudado nesta última parte do nosso livro.

 

"A explicação do fato das mesas girantes, considerado em sua maior simplicidade, nos parece ser fornecida por esses fenômenos cujo nome variou muito até aqui, mas cuja natureza é, no fundo, idêntico, quer dizer, porque alternativamente se chamou hipnotismo, com o doutor Braid, biologismo com o Sr. Philips, sugestão como Sr. Carpenter. Lembremos que, em conseqüência da forte tensão cerebral resultante da contemplação, muito tempo mantida, de um objeto imóvel, o cérebro cai num estado particular, que recebeu, sucessivamente, os nomes de estado magnético, de sono nervoso e de estado biológico, nomes diferentes que designam certas variantes particulares de um estado geralmente idêntico.

 

"Uma vez levado a este estado, seja pelos passes de um magnetizador, como se faz desde Mesmer, seja pela contemplação de um corpo brilhante, como operava Braid, imitado depois pelo Sr. Philips, e como operam ainda os os feiticeiros árabes e egípcios, seja simplesmente, enfim, por uma forte contenção moral, como disso citamos mais de um exemplo, o indivíduo cai nessa passividade automática que constitui o sono nervoso. Ele perdeu o poder de dirigir e de controlar a sua própria vontade, e está em poder de uma vontade estranha. Se lhe apresenta um copo de água afirmando, com autoridade, que é uma deliciosa bebida, ele a bebe crendo beber vinho, um licor ou leite, segundo a vontade daquele que se apoderou fortemente do seu ser. Assim, privado do socorro do seu próprio julgamento, o indivíduo permanece quase estranho às ações que executa, e uma vez retornado ao seu estado natural, perdeu a lembrança dos atos que realizou durante essa estranha e passageira abdicação de seu eu. Está sob a influência de sugestões, quer dizer que, aceitando sem poder repeli-la, uma ideia fixa que lhe é imposta por uma vontade exterior, ele age, e é forçado a agir sem ideia e sem vontade própria, por consequência, sem consciência. Esse sistema levanta uma grave questão de psicologia, porque o homem, assim influenciado, perdeu seu livre arbítrio, e não tem mais a responsabilidade pelas ações que executa. Ele age, determinado por imagens intrusas que obsidiam seu cérebro, análogas a essas visões que Cuviers supôs fixadas no sensorium da abelha, e que lhe representam a forma e as proporções da célula que um instinto a impele construir. O princípio das sugestões dá perfeitamente conta dos fenômenos, tão variados e às vezes tão terríveis da alucinação, e mostra, ao mesmo tempo, o pouco de intervalo que separa a alucinação da monomania. Não será necessário mais espantar-se se, num número bastante grande de giradores de mesas, a alucinação sobreviveu à experiência e se transformou em loucura definitiva.

 

"Esse princípio das sugestões, sob a influência do sono nervoso, nos parece fornecer a explicação do fenômeno da rotação das mesas, tomado em sua maior simplicidade. Consideremos o que se passa numa cadeia de pessoas que se entregam a uma experiência desse gênero. Essas pessoas estão atentas, preocupadas, fortemente emocionadas pela espera do fenômeno que se deve produzir. Uma grande atenção, um recolhimento completo de Espírito é recomendado. À medida que essa tensão se prolonga, e que a contenção moral permanece muito tempo mantida entre os experimentadores, seu cérebro se fatiga cada vez mais, suas ideias sentem uma ligeira perturbação. Quando assistimos, durante o inverno do ano 1860, às experiências feitas em Paris pelo Sr. Philips; quando vimos as dez ou doze pessoas às quais ele confiava um disco metálico, com a injunção de considerar fixa e unicamente esse disco colocado no côncavo da mão durante uma meia hora, não pudemos nos negar de encontrar, nessas condições reconhecidas indispensáveis para a manifestação do estado hipnótico, a fiel imagem do estado em que se encontram as pessoas formando silenciosa cadeia, para obter a rotação da mesa. Num e noutro caso, há uma forte contenção do Espírito, uma ideia exclusivamente perseguida durante um tempo considerável. O cérebro humano não pode resistir, por muito tempo, a essa excessiva tensão, a essa acumulação anormal do influxo nervoso. Sobre as dez ou doze pessoas que se entregaram a essa alteração, a maioria abandona a experiência, forçada em renunciá-la pela fatiga nervosa que sentem. Somente alguns, um ou dois, que nela perseveram, caem vítimas do estado hipnótico ou biológico, e dão, então, lugar aos fenômenos diversos que examinamos falando no curso desta obra, do hipnotismo e do estado biológico.

 

"Nessa reunião de pessoas fixamente ligadas, durante vinte minutos ou meia hora, para formarem a cadeia, as mãos postas espalmadas sobre uma mesa sem terem a liberdade de distrair um instante a sua atenção da operação da qual tomam parte, o maior número não sente nenhum efeito particular. Mas é muito difícil que uma delas, uma só se se quer, não caia, por um momento, vítima do estado hipnótico biológico. Não seria preciso talvez senão um segundo de duração desse estado, para que o fenômeno esperado se realize. O membro da cadeia caído nesse semissono nervoso, não tendo mais consciência de seus atos, e não tendo outro pensamento senão a ideia fixa da rotação da mesa, imprime, com o seu desconhecimento o movimento ao móvel; ele pode, nesse momento, desdobrar uma força muscular relativamente considerável e a mesa se arremessa. Dado esse impulso, realizado esse ato inconsciente, nada lhe é mais necessário. O indivíduo, assim passageiramente biotogizado, pode em seguida retornar ao seu estado ordinário; porque apenas esse movimento de deslocamento mecânico se manifestou na mesa que logo todas as pessoas compondo a cadeia se levantam e seguem os seus movimentos, de outro modo dito, fazem a mesa caminhar crendo somente segui-la. Quanto ao indivíduo, causa involuntária, inconsciente, do fenômeno como não conserva nenhuma lembrança dos atos que realizou no estado de sono nervoso, ele mesmo ignora o que fez e se indigna, de muito boa fé, sendo acusado de ter empurrado a mesa. Supõe mesmo os outros membros da cadeia não terem agido com a má fé de que são acusados. Daí essas frequentes discussões e mesmo essas disputas sérias às quais, muito frequentemente, deram lugar a distração das mesas girantes.

 

"Tal é a explicação que cremos poder apresentar no que concerne ao fato da rotação das mesas, tomado em sua maior simplicidade. Quanto aos movimentos da mesa respondendo a perguntas: os pés que se erguem aos comandos, e que, pelo número de golpes, respondem às perguntas feitas, o mesmo sistema disso dá conta, admitindo-se que, entre os membros da cadeia, há um cujo estado nervoso conserva uma certa duração. Esse indivíduo, hipnotizado com seu desconhecimento, responde às perguntas e às ordens que lhes são dadas, inclinando a mesa, ou fazendo-a bater pancadas, de conformidade com as perguntas. Retornado em seguida ao seu estado natural, esqueceu todos os atos assim realizados, do mesmo modo que todo indivíduo magnetizado, hipnotizado, perdeu as lembranças dos atos que executou nesse estado. Ó indivíduo que desempenha esse papel com o seu desconhecimento, é, pois, uma espécie de dorminhoco desperto; ele não está sui compôs, está num estado mental que participa do sonambulismo e da fascinação. Ele não dorme, está encantado ou fascinado em consequência da forte concentração moral que se impôs: é um médium. Como esse último exercício é de uma ordem superior ao primeiro, não pode ser obtido em todos os grupos. Para que a mesa responda às perguntas feitas, é necessário que os indivíduos que operam hajam praticado com continuidade o fenômeno da mesa girante, e que, entre eles, se encontre um sujeito particularmente apto a cair nesse estado, que nele cai mais depressa pelo hábito e nele persevera por mais tempo: é preciso, em uma palavra, um médium experimentado.

 

"Mas, dir-se-á, vinte minutos ou meia hora não são necessários para obter a rotação de uma mesinha redonda de pé único ou de uma mesa. Frequentemente, ao cabo de quatro ou cinco minutos, a mesa se coloca em movimento. A esse respeito, respondemos que um magnetizador, quando opera com seu sujeito habitual ou com um sonâmbulo de profissão, faz esse cair em sonambulismo em um minuto ou dois, sem passes, sem aparelhos, e unicamente com a imposição fixa de seu olhar. Aqui, foi o hábito que tornou o fenômeno fácil e rápido. Do mesmo modo, os médiuns exercitados podem, em muito pouco tempo, chegar a esse estado de semissono nervoso, que deve tornar inevitável o fato da rotação da mesa ou o movimento impresso por ele a esse móvel, de conformidade com a pergunta feita."

 

Não sabemos como o Sr. Figuier aplicaria sua teoria aos movimentos que ocorre, aos ruídos que se fazem ouvir, ao deslocamento dos objetos, sem o contato do médium, sem a participação da vontade, contra a sua vontade; mas há muitas outras coisas que ele não explica. De resto, mesmo aceitando a sua teoria, ela revelaria um fenômeno fisiológico dos mais extraordinários e bem digno da atenção dos sábios; porque, pois, o desdenharam?

 

O Sr. Figuier termina seu Tratado do Maravilhoso por uma curta notícia sobre O Livro dos Espíritos. Ele o julga naturalmente sob o seu ponto de vista: "A filosofia, disse ele, nele está fora de moda, e a moral dormente." Teria, sem dúvida gostado de uma moral galhofeira e despertante; mas que fazer dela? É uma moral para uso da alma; de resto sempre terá tido uma vantagem: a de fazê-lo dormir; é para ele uma receita em caso de insônia.

 

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