REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 11 - FEVEREIRO 1868 - Nº. 2

 

 

EXTRATO DOS MANUSCRITOS

DE UM JOVEM MÉDIUM BRETÃO

 

 

 

Nossos  leitores  se  lembram  de  ter  lido,  no  correr  de  julho  de  1867,  a  análise  do Roman de l'Avenir, que o Sr. Bonnemère havia emprestado, aos manuscritos de um jovem médium bretão, que lhe havia entregue seus trabalhos.

 

Foi, ainda, na volumosa coletânea dos manuscritos que o autor encontrou essas páginas  escritas  na  hora  da  inspiração,  e  que  vem  submeterá  apreciação  dos  leitores  da Revista Espírita. Vai sem dizer que deixamos ao médium, ou antes ao Espírito que o inspira, a responsabilidade das opiniões emitidas, nos reservando apreciá-las mais tarde. Do mesmo modo que Roman de l'Avenir, é um curioso espécime de mediunidade inconsciente.

 

I

 

OS ALUCINADOS

 

Temos  pouca  coisa  a  dizer  sobre  a  alucinação,  estado  provocado  por  uma  causa moral que influi sobre o físico, e ao qual se mostram mais voluntariamente acessíveis as naturezas nervosas, sempre mais prontas a se impressionarem.

 

As mulheres sobretudo, por  sua organização íntima, são  levadas à exaltação, e a febre se apresenta mais freqüentemente nelas, acompanhada de delírio que toma as aparências de loucura momentânea.

 

A alucinação, é preciso reconhecê-lo, toca  por  um  pequeno  lado  à  loucura,  assim como todas as super excitações cerebrais, e ao passo que o delírio se exala sobretudo em palavras incoerentes, ela representa mais particularmente a ação, a encenação. Mas, no entanto, é errado que, às vezes, sejam as confundidas juntas.

 

Presa de uma espécie de febre interior que não se traduz fora por nenhuma perturbação aparente dos órgãos, o alucinado vive no meio do mundo imaginário que cria, por um momento, sua imaginação perturbada; tudo está em desordem nele como ao seu redor; leva tudo ao extremo: a alegria por vezes, a tristeza quase sempre, e lágrimas rolam em seus olhos enquanto que seus lábios dissimulam um sorriso doentio.

 

Essas vies fantásticas existem para ele; ele as vê, as toca, delas está amedrontado. Mas, no entanto, conserva o exercício de sua vontade; conversa com seus interlocutores e lhes esconde o objeto de seus terrores ou de suas sombrias preocupações.

 

Conhecemos um deles que, durante mais ou menos seis meses, assistia todas as manhãs ao enterro de seu corpo, tendo plenamente consciência de que sua alma sobrevivia. Nada parecia mudado nos hábitos de sua vida, e, no entanto, esse pensamento incessante, essa visão, às vezes, o seguia mesmo em todos os lugares. A palavra morte ressoava  incessantemente  em  seu  ouvido. Quando  o  sol  brilhava,  dissipava  a  noite  ou atravessava a nuvem, a assustadora visão se apagava pouco a pouco e desaparecia no fim. À noite, ele dormia triste e desesperado, porque sabia que horrível despertar o esperava no dia seguinte.

 

Por vezes, quando o excesso do sofrimento físico impunha silêncio à sua vontade e lhe levantava essa força de dissimulação que conservava comumente, exclamava de repente: - Ah! hei-los!... eu os vejo!... E, então, descrevia ao seu redor os mais íntimos detalhes da lúgubre cerimônia, contava as cenas sinistras que se desenrolavam sob seus olhares, onde a ronda de personagens fantásticos desfilava diante dele.

 

O alucinado vos dirá as loucas percepções de seu cérebro doente, mas nada tem a vos repetir daquilo que os outros viriam revelar-lhe; porque, para ser inspirado, é preciso que a paz e a harmonia reine em vossa alma, e que estejais desligados de todo pensa- mento material ou mesquinho; algumas vezes a disposição doentia provoca a inspiração, é então como um socorro que os amigos que partiram primeiro vêm vos trazer para vos aliviar.

 

Esse louco, que ontem gozava da plenitude de sua razão, não apresenta desordens exteriores perceptíveis ao olhar do observador; são numerosos, no entanto, existem e são reais. O mal, freqüentemente, está na alma, lançado fora dela mesma pelo excesso do trabalho, da alegria, da dor; o homem físico não está mais em equilíbrio com o homem moral; o choque moral foi mais violento do que o podia suportar o físico: daí o cataclismo.

 

O alucinado sofre igualmente as conseqüências de uma perturbação grave em seu organismo nervoso. Mas o que raramente ocorre na loucura - nele essas desordem são intermitentes e tanto mais facilmente curáveis, quanto sua vida, de alguma sorte, é dupla, que pensa com a vida real e sonha com a vida fantástica.

  

Esta última, freqüentemente, é o despertar de sua alma doente, e escutando-o com inteligência, chega-se a descobrir a causa do mal que, freqüentemente, ele quer esconder. Entre o fluxo de palavras incoerentes que uma pessoa em delírio lança fora, e que parecem não se reportar em nada às causas prováveis de sua doença, nela se encontra uma que retornará sem cessar e como apesar dele, que queria reter, e que, no entanto, escapa. Aquela é a causa verdadeira que é preciso combater.

 

Mas o trabalho é longo e difícil, porque o alucinado é um hábil comediante, e, percebendo que é observado, seu espírito se lança em estranhos desvios e toma as aparências da loucura para escapar a essa pressão inoportuna que vos  parece decidida a exercer sobre ele. É preciso, pois, estudá-lo com um tato extremo, sem contradizê-lo nunca, ou tentar retificar os erros de seu cérebro em delírio.

 

Estão as diversas fases de excitações cerebrais, ou antes, de excitações do ser inteiramente, porque não é preciso localizara sede da inteligência. A alma humana, que a dá, plana por toda parte; é o sopro do alto que faz vibrar e agir toda a máquina. O alucinado pode, de boa fé, se acreditar inspirado, e profetizar, seja que tenha consciência da- quilo que diz, seja que aqueles que o cercam possam sozinhos, com o seu desconhecimento, recolher suas palavras. Mas juntar às indicações de um alucinado seria se preparar estranhas decepções, e foi assim que, muito freqüentemente, se levou ao passivo da inspiração, os erros que não eram senão o fato da alucinação.

 

O físico é coisa material, sensível, exposta à luz, que cada um pode ver, admirar, criticar, cuidar ou tentar endireitar. Mas quem pode conhecer o homem moral? Quando nós mesmos ignoramos, como os outros nos julgariam? Se lhe entregarmos alguns de nossos pensamentos ocorre bem mais ainda que ocultaremos, aos seus olhares, e que gostaríamos de esconder de nós mesmos.

 

Essa dissimulação é quase um crime social. Criada para o progresso, nossa alma, nosso  coração,  nossa  inteligência  são  feitos  para  expandir  sobre  todos  os  irmãos  da grande família, para lhes prodigalizar tudo o que está em s, como para se enriquecer, aos mesmo tempo, de tudo o que podem nos comunicar.

 

A expansão recíproca é, pois, a grande lei humanitária, e a concentração, quer dizer, a dissimulação de nossas ações, de nossos pensamentos, de nossas aspirações é uma espécie de roubo que cometemos em prejuízo de todo o mundo. Que progresso se fará, se guardarmos em nós tudo o que a Natureza e a educação colocaram em nós, e se cada um agir do mesmo modo a nosso respeito?

 

Exilados voluntários e nos mantendo fora do comércio de nossos irmãos, nós nos concentramos em uma idéia fixa; a imaginação obsidiada procura a isto subtrair-se perseguindo todas as espécies de pensamentos sem continuidade, e pode-se chegar assim até a loucura, justo castigo que nos é infligido por não querer caminhar nas vias naturais.

 

Vivamos, pois, nos outros, e eles em nós, a fim de que todos nós não façamos senão  um.  As  grandes  alegrias,  como  as  grandes  dores,  nos  cansam  quando  não  estão confiadas a um amigo. Toda solidão é e condenada, e toda coisa contrária ao voto da Natureza conduz à sua conseqüência de inevitáveis, de imensas desordens interiores.

 

lI

 

OS INSPIRADOS

 

A inspiração é mais rara do que a alucinação, porque ela não se prende ao estado físico, mas ainda e sobretudo à situação moral do indivíduo predisposto a recebê-la.

 

Todo homem não dispõe senão de uma certa parte de inteligência que lhe é dado desenvolver pelo seu trabalho. Chegado ao ponto culminante onde lhe é permitido atingir, se detém um momento, depois retorna ao estado primitivo, ao estado de criança, menos essa própria inteligência que, num cresce cada dia, e no velho diminui, se extingue e desaparece. Então, tendo tudo dado, e não podendo mais nada acrescentar à bagagem de seu século, ele parte, mas para ir continuar em outra parte sua obra interrompida neste mundo; ele parte, mas deixando o lugar rejuvenescido a um outro que, chegando à idade viril, terá a força de cumprir, a seu turno, uma missão maior e mais útil.

 

O que chamamos a morte não é senão o devotamento ao progresso e à Humanidade. Mas nada morre, tudo sobrevive e se reencontra pela transmissão do pensamento dos seres que partiram primeiro que têm ainda, pela parte mais etérea de si mesmos, a pátria deixada, mas não esquecida, que amam sempre, uma vez que é habitada pelos continua- dores de sua vida, pelos herdeiros de suas idéias, aos quais se comprazem em insuflar por momentos as que não tiveram tempo de semear em torno deles, ou que não puderam ver progredir ao gosto de suas esperanças.

 

Não tendo mais órgãos ao serviço de sua inteligência, vêm pedir aos homens de boa vontade que apreciam, de lhes ceder, por um momento, o lugar. Sublimes benfeitores ocultos, impregnam seus irmãos da quintessência de seus pensamentos, a fim de que sua obra esboçada prossiga e termine passando pelo cérebro daqueles que podem lhe mandar fazer seu caminho no mundo.

 

Entre os amigos desaparecidos e nós, o amor continua, e o amor é a vida. Eles nos falam com a voz de nossa consciência posta em alerta. Purificados e melhores, não nos trazem  senão  coisas  puras,  libertos  que  são  de  toda  parte  material  como  de  todas  as mesquinharias  de  nossa  pobre  existência. Eles  nos  inspiram  no sentimento que tinham neste mundo, mas nesse sentimento livre de toda mistura.

 

Resta-lhes ainda uma parte de si mesmos para dar: eles no-la trazem, e nos deixando crer que a obtivemos unicamente pelo nosso trabalho pessoal. Daí vêm essas revelações inesperadas que confundem a ciência. O espírito de Deus sopra onde quer... Desconhecidos fazem as grandes descobertas, e o mundo oficial das academias está para entravar-lhes a passagem.

 

Não pretendemos dizer que, por ser inspirado, seja indispensável nos manter incessantemente  nos  caminhos  estreitos  do  bem  e  da  virtude;  mas,  no  entanto,  comumente são seres morais aos quais se vem, freqüentemente como compensações dos males que sofreram pelo fato dos outros, conceder manifestações que lhes permitem se vingarem à sua maneira, trazendo o tributo de alguns benefícios que os menosprezava os escárnios e as calúnias.

 

Encontram-se tantas categorias de inspirações, e de inspirados conseqüentemente, quanto existem faculdades no cérebro humano para assimilar conhecimentos diferentes.

 

A luta assusta os Espíritos depurados partidos para os mundos mais avançados, e desejam  que  sejam  escutados  com  docilidade. Também  os  inspirados  são  geralmente seres puros, ingênuos e simples, sérios e refletidos, formados de abnegação e de devotamento, sem personalidade revelada, de impressões profundas e duráveis, acessíveis às influências exteriores, sem tomar partido sobre as coisas que ignoram, bastante inteligentes para assimilar os pensamentos de outrem, mas não bastante fortes moralmente para discuti-los.

 

Se o inspirado se prender às suas próprias convicções, ele toma, de boa fé, seu eco pela advertência das vozes que falam nele,  e, de boa também, engana em lugar de esclarecer. A bondade preside às revelações, que jamais ocorrem senão com um objetivo

útil e moral ao mesmo tempo.

 

Quando  uma  dessas  organizações  simpáticas  e  sofredoras,  em  conseqüência  de uma decepção cruel, ou de um mal físico, um amigo se interessa por ela e vem, dando um outro alimento ao seu pensamento, trazer-lhe alívio por  ela mesma, mas sobretudo por aqueles que lhe são caros.

 

Não é raro que o inspirado haja começado por ser um alucinado. É como um noviciado, uma preparação de seu cérebro para concentrar seu espírito e com poder de aceitar a coisa que lhe será dita.

 

Por que um inspirado não possa nada formular de concludente, em um certo momento,  não  é  para  dizer  por  isto  que  não  o  poderá  fazerem  outros. As  manifestações permanecem livres, espontâneas; vêm quando são necessárias. Também os inspirados, mesmo os melhores, não o são em dia e hora fixos, e as sessões anunciadas antecipada- mente, freqüentemente, preparam inevitáveis decepções.

 

Fazendo-se evocações muito freqüentes, corre-se o risco de não se chegar senão a um  estado  de  superexcitação  mais  vizinho  da  alucinação  do  que  da  inspiração.  Então, não são mais que os jogos de nossa imaginação em delírio, em lugar dessas luzes de um outro mundo destinadas a esclarecer os passos da Humanidade em seu caminho providencial.

 

Isto explica esses erros dos quais a incredulidade faz uma arma para negar, de maneira absoluta, a intervenção dos Espíritos superiores.

 

Os inspirados o são portados aqueles que, partidos antes da hora, têm alguma coisa a nos ensinar.

 

Pode ocorrer que a mulher mais simples, a menos instruída, tenha revelações médicas. Vimos uma delas que, sem mesmo saber ler e escrever, achava nela diferentes nomes de plantas que podiam curar. A credulidade popular a tinha quase forçado a explorar essa  faculdade.  Também  não  era  sempre  igualmente  bem  esclarecida,  ainda  que  sondando a pessoa doente, se coloca em relação com ela: porque ela era também desses fluídicos dos quais falaremos dentro em pouco. Se bem que fraca e delicada, ela podia, por seu contato, restituir o equilíbrio àquele a quem faltava e pôr em circulação os princípios vitais parados sem disto se dar conta, ela fazia, freqüentemente, por um simples toque, sobre certas pessoas cujo fluido era idêntico ao seu, mais bem do que pelos remédios que prescrevia, algumas vezes pelo hábito somente, e com variantes insignificantes, qualquer que fosse o mal para o qual era consultada.

 

A Providência colocou junto de cada homem um remédio para cada doença. Somente  existem  tantas  naturezas  diferentes  quanto  indivíduos. Os  remédios  agem  diferentemente também sobre cada organismo, o qual influi sobre os caracteres do mal; é o que faz que seja quase impossível ao médico prescrever o remédio eficaz. Ele conhece seus efeitos gerais, mas ignora absolutamente em que sentido agirá sobre tal sujeito que se lhe apresenta.

 

É aqui que se manifesta a superioridade dos fluídicos e dos sonâmbulos, uma vez que, quando se acham em certas condições de simpatia com aqueles que vêm consulta-los, os seres superiores os guiam com uma infalibilidade quase certa.

 

Freqüentemente essa inspiração é inconsciente em si mesma; freqüentemente um doutor, mas somente junto de certos doentes, encontra subitamente o remédio que pode curá-los. Não foi a ciência que o guiou, foi a inspiração. A ciência punha à sua disposição vários modos de tratamento, mas uma voz interior lhe gritava um nome; ele foi forçado a dize-lo, e esse nome era o do remédio que deveria agir, com exclusão de qualquer outro.

 

O que dizemos da medicina existe com o mesmo título em todos os outros ramos de trabalho humano. A certas horas, o fogo da inspiração nos devora, é preciso ceder; e se pretendemos concentrar em nós mesmos o que deve sair, um verdadeiro sofrimento se torna o castigo de nossa revolta.

 

Todos aqueles a quem Deus concedeu o dom sublime da criação, os poetas, os sábios, os artistas, os inventores, todos têm dessas iluminações inesperadas, às vezes numa ordem de fatos bem diferentes de seus estudos comuns, se se pretendesse violentar a sua vocação. Mas os Espíritos sabem o que devemos e o que podemos fazer, eles vêm incessantemente despertarem nós as nossas atrações abafadas.

 

Sabe-se como Molière explicava essas desigualdades que desenfeitam as mais belas peças de Corneille: "Esse diabo de homem, dizia, tem um gênio familiar que vem, por momentos, lhe soprarão ouvido as coisas sublimes; depois, de repente, ele planta ali, dizendo-lhe: "Saia daí como puderes!" e então não fez mais nada que valha." Molière estava na verdade. O orgulhoso gênio de Corneille não tinha a dócil passividade necessária para sofrer sempre a inspiração do alto. Os Espíritos o abandonaram, e então ele adormeceu, como o próprio Homeroofazia algumas vezes.

 

Assim  o  é,  - Sócrates  e  Jeanne  d'Arc  eram  daqueles, - quem ouve vozes interiores que falam neles. Outros não ouvem nada, mas são constrangidos a obedecer a uma força vitoriosa que os domina.

 

Outras vezes, um nome vem ferir o ouvido do inspirado; é o de um amigo, de um indivíduo  que  nem  mesmo  conhecia,  do  qual  apenas  ouviu  falar.  A  personalidade  desse amigo desconhecido o penetra, se introduz nele; pensamentos estranhos vêm substituir pouco  a  pouco  aos  seus.  Tem  por  um  momento  o  espírito  daquele;  obedece,  escreve, com o seu desconhecimento, apesar de si, se o faz, coisas que não sabe e como se essa obediência passiva ao qual está condenado lhe era amarga para suportar no estado de vigília, foram essas coisas escritas sob uma inspiração opressiva, e não quer lê-las.

 

Esses pensamentos podem estarem desacordo formal com suas crenças, com seus sentimentos, ou antes com aqueles que a educação impôs, porque, para que certos Espíritos venham a ele, é preciso que existam algumas relações entre eles. Dão-lhe o pensamento deixando-lhe o cuidado de encontrar a forma; é preciso, pois, que saibam que sua inteligência  pode  compreendê-los,  e  assimilar  momentaneamente  suas  idéias,  para  as traduzir.

 

É  que  é  raro  que  as  circunstâncias  nos  tenham  permitido  de  nos  desenvolver  no sentido de nossas aptidões inatas. Os Espíritos mais avançados sabem que corda é preciso tocar para que ela entre em vibração. Tinha permanecido muda, porque se lhe havia atacado as outras em negligenciando aquela. Por um momento, ele lhe restitui a vida. É um  germe  por  longo  tempo  abafado  que  eles  fecundam.  Depois  o  inspirado  retorna  ao seu estado habitual, não se lembra mais, porque vive uma existência dupla, da qual cada uma é absolutamente independente da outra.

 

Ocorre, no entanto, também que ele conserva com uma maior facilidade de compreensão,  e  conquista  um  maior  grau  de  desenvolvimento  intelectual.  É  a  recompensa  do esforço que fez para dar uma forma compreensível aos pensamentos que outros vieram lhe revelar.

 

Não cremos que todo inspirado possa tudo conhecer. Cada um, segundo suas predisposições naturais, mas permanecidas freqüentemente desconhecidas a si mesmo como aos outros, é inspirado por tal ou tal coisa, mas não o é igualmente por todas. Existem, com efeito, naturezas de tal modo antipáticas a certos conhecimentos, que os Espíritos não virão jamais bater numa porta que sabem não poder abrir.

 

O futuro não é conhecido dos inspirados senão em uma certa medida. Também não é verdadeiro dizer que um inspirado predisse em que mundo tal pessoa irá depois de sua morte, e que julgamento Deus pronunciará sobre ela. Isto é um jogo da imaginação alucinada. O homem, tão alto que tenha subido na escala dos mundos, não conhece qual será o destino de seu irmão. É a parte reservada a Deus: jamais a criatura poderá intrometer-se em seus direitos.

 

Sim, manifestações, mas não são continuadas, e nossa impaciência, a seu respeito, freqüentemente, é culpada.

 

Sim, tudo se mantém, e nada se rompe no imenso Universo. Sim, existe entre esta existência e as outras um laço simpático e indissolúvel que liga e une uns aos outros todos os membros da família humana, e que permite aos melhores virem nos dar o conhecimento daquilo que não sabemos. É por esse labor que se realiza o progresso. Que se chame trabalho da inteligência ou inspiração, é a mesma coisa. A inspiração é o progresso superior, é o fundo: o trabalho pessoal lhe a forma, acrescentando-lhe ainda a quintessência dos conhecimentos anteriormente adquiridos.

 

Nem uma única invenção nos pertence propriamente, porque outros lançaram, antes de nós, a semente que recolhemos. Apliquemo-nos à obra que queremos prosseguir, as forças e o trabalho da Natureza que está para todos, e sem a ajuda da qual nada se faz, depois as forças e o trabalho acumulados pelos outros que nos prepararam os meios de triunfar.

 

A bem dizer, tudo é obra comum e coletiva, para confirmar ainda esse grande princípio de solidariedade e de associação que á a base das sociedades e inteiramente a lei da criação.

 

O trabalho do homem jamais se tornará inútil pela inspiração. O Espírito que vem traze-lo respeitará sempre essa parte reservada ao indivíduo; respeitá-la-á como uma coisa nobre e santa, uma vez que o trabalho coloca o homem na posse das faculdades que Deus depositou em germe em sua alma, a fim de que o objetivo de sua vida fosse de fecundá-las. Foi pelo seu desenvolvimento que aprendeu a bem se conhecer, e que mereceu se aproximar dele.

 

A inspiração vem indiferentemente de dia, de noite, na vigília ou durante o sono. Ela só exige o recolhimento. Necessita encontrar naturezas que possam se abstrair de toda preocupação do mundo real, para dar o lugar livre e vago ao ser que virá envolvê-lo inteiramente e lhe infundir seus pensamentos.

 

Nas horas da inspiração, o homem se torna muito mais acessível a todos os ruídos exteriores, e tudo o que vem do mundo real o perturba. Ele não é mais deste mundo, está num meio transitório entre este e o outro, uma vez que, de alguma sorte, está embebido da personalidade moral e intelectual de um ser subido em uma outra esfera, e que, no entanto, seu corpo se prende a este.

 

Se bem que ela se dirija a todos, a inspiração descerá, mais geralmente, sobre as naturezas  doentias  ou  gastas  por  uma  sucessão  de  sofrimentos,  materiais  ou  morais. Uma vez que ela é um benefício, não é justo que aqueles que sofrem estejam mais facilmente aptos a recebê-la?

 

A alucinação é um estado doentio que o magnetismo pode modificar de um modo salutar. A inspiração é uma assimilação moral que é preciso se guardar de provocar por passes magnéticos. O alucinado se entrega voluntariamente aos arrebatamentos, a contorções ridículas. O inspirado é calmo.

 

Os inspirados são melancólicos. Têm necessidade de ser refletidos; para ser jovial, não é preciso refletir muito; é preciso gozar, em sua saúde, de um equilíbrio que os inspirados  nem  sempre  possuem.  Mas  não  vamos  crer  que  sejam  difíceis  e  fantásticos.  Ao contrário, eles se mostram dóceis e fáceis com aqueles que amam.

 

inspirados de vários graus. Uns vêm vos dizer coisas palpáveis, fatos de segunda vista, para que se possa constatar a realidade da iniciação. Os outros, mais clarividentes e pouco cuidadosos dos procedimentos materiais dos quais não são chamados a divulgar  os  segredos,  repetem,  como  lhe  vêm,  os  pensamentos  trazidos  por  Espíritos  de progresso. Os primeiros curam o corpo, os segundos são os médicos da alma.

 

A missão dos mais modestos se limita a revelar como essas coisas lhes vêm. É um fato constatado que forças avançadas de muitos graus sobre nós, vêm nos dominar e nos inspirar. Para que repeti-lo? Crera quem quiser. Mas as constatações estando bem estabelecidas, não é preciso tomar do inspirado senão o lado útil e sério. Pouco importa, se as idéias são boas, de que fontes elas vêm. 

 

EUGÈNE BONNEMÈRE.

 

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Junho de 1869

 

(Segundo artigo, ver a Revista de fevereiro de 1868 )

 

Nossos leitores se lembram, sem dúvida, ter lido no número da Revista de fevereiro de 1868, a primeira parte deste estudo interessante em mais de um ponto de vista. Publicamos hoje a sua continuação, deixando ao Espírito que a inspirou toda a responsabilidade de suas opiniões, e nos reservando analisá-las um pouco mais tarde.

 

Entregamos esses documentos ao exame de todos os espíritas sérios, e seremos reconhecidos àqueles que quiserem nos transmitir sua apreciação, ou as instruções das quais poderão ser objetos da parte dos Espíritos. A Revista Espírita é, antes de tudo, um jornal de estudo, e, a este título, ela se apressa em recolher todos os elementos de natureza a esclarecer a marcha de nossos trabalhos, deixando ao controle universal, apoiado sobre os conhecimentos adquiridos o cuidado de julgá-los em última instância.

 

III

 

OS FLUÍDICOS.

 

Chama-se Fluido esse nada e esse tudo não analisável, no meio do qual o mundo espiritual se coloca em comunicação com o mundo material, e que mantém o nosso físico em harmonia, seja com ele mesmo, seja com o que está fora dele.

 

Se bem que ele nos envolva e que nos cerque, e que vivamos nele e por ele, é na alma que ele se reúne e se condensa. É não essa porção de nossa alma que nos coloca em ação, nos dirige e nos guia, mas ainda é ele, por assim dizer, a alma geral que plana sobre nós todos; é o laço misterioso e indispensável que estabelece a unidade em nós mesmos e fora de nós; e, se vem a se quebrar momentaneamente, é então que se manifesta essa modificação imensa a que chamamos morte.

 

O fluído é, pois, a própria vida: É o movimento, a energia, a coragem, o progresso; é o bem e o mal. É essa força que parece animar, por sua vez, pelo sopro de sua vontade, seja a charrua benfazeja que fertiliza a terra e faz de nós os alimentadores do nero humano,  seja  o  fuzil  maldito  que  a  despovoa  e  nos  transforma  em  assassinos  de  nossos irmãos.

 

O fluido facilita entre o Espírito do inspirador e do inspirado, as relações que, sem ele, seriam impossíveis.

 

Os alucinados são nervosos, mas não fluídicos, nesse sentido de que nada se liberta deles. É essa falta de liberação, esse excesso ou essa falta de fluido, essa ruptura violenta de equilíbrio neles que os exalta até a loucura, até o delírio, ou pelo menos até a divagação momentânea, e faz desfilarem, diante deles, os fantasmas imaginários, ou que se  prendem  mais  ou  menos  ao  pensamento  dominante,  que,  excitando  as  fibras  cerebrais, fez entrar em revolta a quintessência do fluido circulante, excedente dessa noção impressionável que tende incessantemente dele se libertar.

 

Que um louco, que um alucinado morra; que se faça a autópsia do cadáver, e tudo parecerá são em sua natureza física; não se descobrirá nada de particular em seu cérebro. Poder-se-á, no entanto, observar o mais comumente, uma lesão no coração, a parte moral prejudicada exercendo uma poderosa influência material sobre este órgão.

 

Pois bem! essas desordens que o escalpelo não mostra a nu, que o dedo não toca, que o olho não vê, existem no fluido, que a ciência, sempre muito materialista, nega para não ter que estudá-lo.

 

O vapor não tinha necessidade por ser uma força, que Salomon de Caus ou Papin adivinhasse o seu emprego, assim como, para existir, a eletricidade não tinha esperado que Galvani viesse lhe conceder seus direitos de cidadania no meio dos sábios oficiais. O fluido não se mostra mais reverente em relação aos seus doutros decretos. A eletricidade e o vapor que não são senão o de ontem, revolucionaram o mundo material. O Espiritismo, em afirmando a realidade do fluido, modificará muito mais profundamente ainda o mundo intelectual e moral.

 

Não o fluido existe, mas ele é duplo, apresenta-se sob dois aspectos diferentes, pelo menos, suas manifestações são de duas ordens muito diferentes.

 

o fluido latente, que cada um possui, e que, com o nosso desconhecimento, põe em  movimento  toda  a  máquina.  Aquele  permanece  em  nós  sem  que  disto  tenhamos consciência, porque não o sentimos, e as naturezas linfáticas vivem sem desconfiar que

ele existe.

 

Depois, fluidos circulantes que estão em ação perpétua e em ebulição constante nos  organismos  nervosos  e  impressionáveis.  Quando  não  servem  senão  para  nos  dar uma atividade extrema, nós o deixamos agir ao acaso, e não excitam nossa preocupação senão quando, por falta de equilíbrio, ou por uma causa qualquer, sua ação se traduz por ataques de nervos ou outras desordens aparentes, das quais importa procurar a causa.

 

Ocorre muito freqüentemente que, quando a crise nervosa se acalma e depois do abatimento que a segue, um fluido se liberta de certos sensitivos, que lhes permite exercer uma ação curativa sobre outros seres mais fracos e atingidos de um mal contrário ao seu. Um simples toque sobre a parte sofredora basta para as aliviar. É uma espécie de magnetismo circulante, momentâneo, inconsciente, porque a ação fluídica se produz imediatamente ou não se produz de todo.

 

Quando  os  inspirados  são  fluídicos  de  nascença,  gozam  no  mais  alto  grau  dessa preciosa faculdade curativa. Mas é uma rara exceção.

 

Comumente o estado fluídico se desenvolve na hora da puberdade, nesse momento transitório em que não se é muito forte, mas onde se vai torná-lo para suportar a luta da vida.

 

Viram-se  certos  seres  se  tornarem  fluídicos  durante  alguns  anos,  alguns  meses mesmo, e deixar de sê-lo depois que tudo havia retomado neles sua situação normal e regular.

 

Algumas vezes mesmo, e notadamente entre as mulheres, esse estado se manifesta no momento crítico em que a fraqueza começa a se fazer sentir.

 

Ocorre, às vezes mesmo, que as crianças dele são dotadas numa idade ainda muito tenra. Um instinto secreto nos aproxima deles. Dir-se-ia que uma auréola de pureza irradia em torno dessas louras cabeças de querubins. Ainda tão perto de Deus, são sadios de corpo, de coração e de alma; a saúde se liberta deles, e sua visão, sua presença, seu contato serenam nosso ser inteiramente.

 

Vós vos sentis bem com seu beijo, vos sentis felizes de as embalar em vossos braços. nelas alguma coisa a mais do que o encanto que se liga às doces carícias da criança, uma liberação que acalma vossas agitações, vos rejuvenesce e restabelece em vós a harmonia, por um momento comprometida. Vós vos sentis atraídos para esta e não para aquelas. Não sabeis porque, e é porque a primeira vos proporciona um bem-estar que não sentis junto de qualquer outra.

 

Quem de nós não procurou, freqüentemente durante muito tempo e sem encontrá-lo, ai! o ser que deve nos aliviar! No entanto, ele existe, assim como o remédio que pode nos curar.

 

Procuremos sem nos desencorajar, e nós descobriremos. Batamos e se nos abrirá. Tão enfermos que sejamos, no entanto, há, em alguma parte, uma alma que responderá à nossa alma. Fracos, ela levantará o nosso desfalecimento; fortes, ela abrandará as nossas asperezas. Nós nos completaremos com ela, e ambos se esperam para mutuamente fazerem o bem.

 

As naturezas fortemente temperadas exercem uma ação magnética sobre os caracteres mais fracos Para magnetizar frutiferamente. é preciso um grande esforço de vontade concentrada, por conseqüência, uma liberação de nós mesmos, e essa liberação não pode ter uma ação curativa senão quando se lhe acrescenta uma força poderosa à fraqueza que combatemos e que faz sofrer aquele que se magnetiza.

 

Os magnetizadores não podem, senão raramente, ser magnetizados por outros. Parece que esse esforço de vontade que lhe é preciso realizar, escava uma espécie de reserva na qual se acumula o fluido em estado latente, que derrama seu excedente sobre os outros; mas não fica mais lugar para poder receber deles.

 

A intuição é a irradiação do fluido que, se liberando daquele sobre o qual queremos agir, vem despertar o nosso e fazê-lo se derramar sobre o ser que queremos aliviar. Desse choque de dois agentes contrários, uma faísca desprende-se vivaz; ela clareia o nosso Espírito e nos mostra o que convém fazer para atingir esse objetivo. É a caridade posta em ação. Esse fluido atuante, sempre pronto a despertar ao primeiro apelo do sofrimento, se encontra sobretudo nas almas sensíveis e ternas, mais preocupadas com o bem dos outros do que com o seu próprio.

 

Existem certos médicos nos quais essa liberação fluídica, se opera mesmo que não se dêem conta dela, e que receberam de Deus o dom de curar mais seguramente aqueles que sofrem.

 

Depois, enfim, naturezas verdadeiramente fluídicas, cujo excedente exige uma liberação contínua sob pena de reagir contra elas. A ação que exercem sobre aqueles que lhes são simpáticos é sempre salutar, mas pode ela se tornar funesta àqueles que lhes são antipáticos.

 

É entre aquelas que se encontram os sensitivos que, na obscuridade, percebem os clarões que se liberam de certos corpos, ao passo que os outros não percebem nada.

 

O fluídicos e os sensitivos são os mais sujeitos a esses sentimentos instintivos de simpatia ou de antipatia, em presença daqueles cujo contato, ou a vista somente, lhes faz sentir o bem ou o mal.

 

Certas crianças exercem uma pressão física ou moral sobre seus irmãos ou sobre seus camaradas. É o fluido de desprendimento que vai até estes últimos e os domina.

 

Cada um de nós exerce, sobre outrem, um poder atrativo ou repulsivo de graus diferentes, porque a natureza é múltipla e infinita em suas combinações.

 

 

Quem não sentiu o efeito de um simples aperto de mão para levar o ser em equilíbrio ou para destruir nele esse equilíbrio; para nos unir à pessoa que no-lo dá, ou para nos repelir para longe dela; para nos fazer sentir uma sensação de bem-estar ou de sofrimento?

 

Quem não sentiu o frio ou o calor de um beijo?

 

Quem não sentiu esse tremor interior que abala todo o nosso ser no momento em que somos colocados em relação com um outro, e que nos faz dizer: É um amigo!... ou bem um inimigo?

 

As pessoas cujas mãos são frias e úmidas são de compleição fraca; de uma sensibilidade pouco desenvolvida; elas não dão o fluido e têm necessidade que se lhos prodigalize.

 

Os  inspirados  gozam  habitualmente  do  privilégio  de  poder  socorrer,  por  um  fluido que se lhes libera, aqueles que dele têm necessidade. Mas raramente eles gozam de boa saúde, raramente o equilíbrio e a harmonia reinam em sua pessoa.

 

Eles têm muito ou não bastante fluido, e não é quase senão no momento da inspiração que se acham em completa harmonia. Mas, então, não sentem os benefícios, uma vez que outra individualidade está unida à sua e que ela os abandona momentaneamente, depois que deram o que tinham como reserva.

 

Os curadores do campo, os feiticeiros, aqueles que fazem desaparecer as entorses, são geralmente os fluídicos. Seu poder é real; eles o exercem sem saber como. Mas enganar-se-ia crendo que possam agir igualmente sobre todo mundo. É preciso que o fluido que  se  libera  deles  esteja  em  harmonia  com  o  da  pessoa  que  deve  absorvê-lo,  doutro modo o efeito contrário se produz. Daí vem o mal, muito real, que se sente, às vezes, depois de uma visita à casa de um desses pretensos feiticeiros.

 

Não nem remédios nem fluidos cuja ação seja universal. Toda ação é modificada pela natureza daquele que a recebe. É preciso que a centelha atinja justo, senão choque e agravamento no mal que se pretende aliviar.

 

O magnetismo sofre a mesma lei e não pode mais ser eficaz em todos os casos.

 

Os sensitivos e os fluídicos são as mais generosas naturezas, as que sentem melhor todos esses mil nadas que compõem o ser humano em sua parte moral, física e intelectual. Mas são também os mais infelizes, porque dão mais aos outros do que estes lhe dão.

 

Os mais fluídicos têm geralmente um grande desgosto de sua personalidade. Eles pensam nos outros, jamais em si mesmos. Isso prende-se talvez também a uma espécie de  intuição  secreta;  eles  sentem  sem  essa  liberação  de  seu  excedente  que  derramam sobre outros, não poderiam ter repouso.

 

Lamentemos os fluídicos e os sensitivos. A vida para eles tem mais dores do que alegrias; não têm senão um continuo sofrimento.

 

Mas admiremo-los, ao mesmo tempo, porque eles são bons, generosos e dotados da caridade humanitária. Uma força deles se desprende para consolar os seus irmãos, e por serem mais completamente tudo para todos, que são tão pouco para si mesmo.

 

Talvez o seu adiantamento seja mais rápido, e maior num outro mundo, porque passaram por este aplicando-se em fazer o bem aos outros.

 

Às vezes, depois de um grande desprendimento, o fluídico sofre e chega a um extremo grau de fraqueza, até o momento em que entre, de novo, na posse de sua força. Quando uma pessoa sofre, ele não calcula, e se  inclina para ela. O coração o arrasta, vitoriosamente,  adivinha  o  que  possa!  Não  é  mais  um  homem  detido  por  frias  conveniências; é uma alma que desperta ao primeiro grito do sofrimento, e que se lembra de- pois que o alívio tenha chegado!

 

IV

 

OS SONÂMBULOS

 

O sonambulismo, que pode ser dividido em três categorias, não se refere diretamente a nenhuma e nem a outra das três fases que acabamos de descrever.

 

1°- O sonâmbulo natural será muito raramente um bom magnetizador. Ele não é acessível nem à inspiração e nem ao fluido forçado e concentrado num ponto pela sua vontade. De outras vezes, seu estado apresenta uma predisposição favorável a receber uma impulsão.

 

O sonambulismo natural é o sonho em ação. O pensamento segue seu curso durante o sono dos órgãos. Esta ainda é uma prova de que qualquer coisa vive em nós além da matéria, de que pensamos e de que vivemos durante o sono, da vida ativa do Espírito, inobstante tenhamos por algum tempo todas as aparências do aniquilamento.

 

A vida ativa continua, pois, no sonâmbulo; somente ela muda de forma, tomando a de um sonho. O espírito agita a matéria, que os órgãos físicos são postos em ação, por uma força enérgica, da qual ao despertar o indivíduo perdeu até mesmo a lembrança.

 

O inspirado verdadeiro estando impregnado de uma força poderosa e desconhecida, tem alguma coisa do sonâmbulo natural, no sentido que obedece a um impulso que lhe é estranho, e que cessa de sentir logo que reentra em seu estado natural.

 

O sonâmbulo age sob a simples inspiração que dele emana; ele está concentrado sobre um único objeto, é porque, em todos os atos que realiza então, parece muito superior a si mesmo. Sendo despertado, ele se perturba, grita como no meio de um pesadelo e essa brusca transição não é sem perigo para ele.

 

Esse estado estranho não ataca nem cansa os órgãos. Esses seres se portam muito bem, porque, enquanto agem, o ser físico dorme, repousa enquanto que a imaginação trabalha.

 

- No inspirado, pode-se dizer que sempre uma grande soma de repouso físico. Marcado de uma outra individualidade, seu corpo não participa da ação que realiza, e seu próprio Espírito de um certo modo dormita, uma vez que se vem forçá-lo a assimilar os pensamentos de um outro do qual perde, em seguida, até o mais leve traço, à medida que desperta para a vida comum.

 

Nas naturezas dóceis (e todos os sonâmbulos não o são), esse trabalho de concentração, de posse do ser, se faz sem luta, é porque seus pensamentos lhes são mais particularmente  dados,  precisamente  porque  não  interrompem  o  repouso  naqueles  a  quem são trazidos.

 

Às vezes, confundem-se os sonâmbulos com os inspirados, porque semelhança nos resultados.

 

Uns e os outros prescrevem remédios. Mas um inspirado é um revelador; é nele que reside o progresso, porque só ele é o eco, o instrumento passivo de um outro Espírito diversos do seu, e mais avançado.

 

O magnetismo desperta no sonâmbulo, superexcita e desenvolve um instinto que a Natureza deu a todos os seres para sua cura, e que a civilização incompleta no meio da qual nos debatemos, abafou-o em nós para substituí-lo por falsos lampejos da Ciência.

 

Os inspirados não tem de nenhum modo necessidade do socorro do fluido magnético. Eles vivem pacificamente, não pensam em nada. De repente uma palavra, obscura e indistinta de início, é murmurada a seu ouvido; essa palavra os penetra; tomam sentido, cresce, se amplia, torna-se um pensamento; outras se agrupam ao seu redor, depois a elaboração  íntima  tendo  chegado  à  maturidade,  uma  força  irresistível  os  domestica,  e, seja pela palavra, seja pela escrita, é preciso que ponham para fora a verdade que os obsidia.

 

Eles são de tal modo impregnados de seu objeto, de tal modo possuídos por ele, que, durante essas horas de elaboração e de diversão, não são mais acessíveis aos sofrimentos do corpo, uma vez que não o sentem mais e que não têm mais consciência de si mesmos, uma vez que, enfim, um outro vive neles em seu lugar.

 

Pouco a pouco, à medida que o sopro inspirador os abandona, a dor retorna; eles retomam posse de si mesmos, vivem de sua vontade própria, subordinada às suas percepções pessoais, e não resta mais, da aparição desfeita, nada senão uma espécie de vazio no cérebro, segundo a expressão consagrada, mas vazio que existe em realidade no organismo inteiro.

 

Freqüentemente,  o  inspirado  se  encontra  inconscientemente  impregnado   muito tempo do Espírito do outro. Tem, com seu desconhecimento, instantes de recolhimento forçado; ele sabe e pode melhor concentrar as idéias, tudo em parecendo viver da vida comum e trocar com os outros seus pensamentos comuns. Mas suas distrações são mais freqüentes,  mesmo  sem  que  seu  Espírito  tenha  ainda  se  concentrado  sobre  uma  coisa antes  que  sobre  uma  outra.  Ele  flutua  no  vago;  deixar-se  embalar  por  uma  espécie  de entorpecimento que é o começo da infusão de comunicações ainda no primeiro trabalho de transmissão.

 

Por si mesmo, o magnetismo não a inspiração: quando muito a provoca, a torna mais fácil. O fluido é como um ímã que atrai os mortos bem-amados para aqueles que ficam. Liberta-se abundantemente dos inspirados e vai despertar a atenção dos seres que partiram primeiro e que lhe são similares. Estes, de seu lado, depurados e esclarecidos por  uma  vida  mais  completa  e  melhor,  julgam  melhor  e  conhecem  melhor  aqueles  que podem lhes servir de intermediários na ordem de fatos que crêem úteis nos revelar.

 

É assim que estes seres mais avançados descobrem, freqüentemente, naquele que adotam  por  seu  eleito,  disposições  que  ele  mesmo  não  conhecia.  Eles  o  desenvolvem nesse sentido, apesar dos obstáculos que lhes opõem os preconceitos do meio social, ou as prevenções da família, sabendo bem que a Natureza preparou o terreno para receber a semente que querem espalhar.

 

Eis um médico permanecido medíocre porque considerações mais fortes do que a sua vontade lhe impuseram uma vocação factícia: a inspiração jamais fará dele um revelador em medicina O Espírito jamais virá lhe comunicar as coisas tratadas no ofício que o constrangeram a exercer, mas bem aquelas que estão em relação com as faculdades naturais que, em sua chegada sobre a Terra, lhe foram repartidas para que as desenvolves-se pelo trabalho, e que permaneceram em estado latente. Estava a obra que deveria realizar. O Espírito a colocou no caminho, e lhe fez compreender sua verdadeira missão.

 

O magnetismo, no que respeita à inspiração, nada pode para esta criatura fatalmente desencaminhada. Somente, como desacordo entre as tendências que lhe imprimem seus fluidos e as funções que os circunstantes o condenaram a exercer, ele está descontente, infeliz; sofre, e, deste ponto de vista, o magnetismo pode vira acalmar, por um momento, os pesares que sente em presença de seu futuro frustrado.

 

É, pois, muito errado que se o creia geralmente no mundo que, por ser inspirado, é preciso ser magnetizado. Ainda uma vez, o magnetismo não a inspiração; ele faz circular o fluido e nos coloca em equilíbrio, eis tudo. Além disto, é incontestável que ele desenvolve o poder de concentração.

 

Os sonâmbulos do mais alto título, aqueles que derramam ao seu redor luzes novas, são ao mesmo tempo inspirados; somente não se deve crer que eles o são igualmente em todas as horas.

 

- Os sonâmbulos são mais geralmente fluídicos do que inspirados; então, concebe-se a oportunidade na ação magnética. O toque, seja do magnetizador, seja de uma coisa que lhe pertenceu, pode lhe dar esse poder de concentração provocada e preliminarmente  aumentada  pelos  passes  magnéticos.  Unido  à  predisposição  sonambúlica,  o magnetismo desenvolve a segunda vista e produz resultados extraordinários, sobretudo do ponto de vista das consultas médicas.

 

O sonâmbulo é de tal modo concentrado pelo desejo de curar a pessoa cujo fluido está em relação com o seu, que no seu ser interior.

 

Acrescentando-se  a  esta  disposição  a  de  ser  inspirado,  coisa  extremamente  rara, então é que se torna completo. Ele vê o mal; e indicam-lhe o remédio!

 

Os Espíritos que vêm impregnar o inspirado não são seres sobrenaturais. Eles viveram em nosso mundo; vivem num outro, eis tudo. Pouco importa a forma física que revestem; sua alma, seu sopro é idêntico ao nosso, porque a lei que rege o Universo é una e imutável.

 

Sendo o fluido o princípio de vida, a animação, nossa alma tendo, graças a fluidos diferentes,  atrações  e,  conseqüentemente,  destinos  múltiplos  e  diversos,  se,  pela  ação magnética,  desvia-se  de  sua  espontaneidade  o  poder  de  concentração  sobre  o  pensamento que nos deve ser transmitido, o Espírito não pode mais exercer sua ação, conservar sobre nós sua mesma força, sua vontade intacta para nos fazer escrever, ou ler em alta voz, ao mundo de que tem necessidade, o que ele veio nos trazer.

 

Também os médicos que dirigem os sonâmbulos devem evitar, tanto quanto possível,  de  magnetizá-los,  sob  pena  de  substituir  a  verdadeira  inspiração  por  uma  simples transmissão de seu próprio pensamento.

 

Os sonâmbulos, não mais do que os inspirados ou os fluídicos, não podem agir sobre todos os seus irmãos encarnados. Cada um não tem poder senão sobre um pequeno número. Mas todos, em suma, ali encontrarão a sua parte, quando não se tiver mais medo dessas forças generosas que se liberam de nós em graus mais ou menos intensos.

 

Para os sonâmbulos fluídicos, o emprego do magnetismo é útil em exercendo sobre eles sua influência de concentração. Somente há, nesse estado, mais ainda do que em outro, uma força de atração ou de repulsão, contra a qual jamais se deve lutar.

 

Os  mais  ricamente  dotados  são  acessíveis  a  antipatias  muito  extremas  para  que possam abafá-los. Eles a sentem como as inspiram. Suas prescrições são então raramente boas. Mas dotados, comumente, de uma grande força moral, ao mesmo tempo que de uma excessiva benevolência, eles adquirem um grande poder de moderação sobre sua pessoa, e se não lhes é sempre permitido fazer o bem, pelo menos jamais farão o mal.

 

EUGÈNE BONNEMÈRE