REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 3 - MARÇO 1860 - Nº. 3

 

 

ESTUDOS SOBRE O ESPÍRITO DE PESSOAS VIVAS

 

 

 

O DOUTOR VIGNAL.

 

O senhor doutor Vignal, membro titular da Sociedade, tendo se oferecido para servir num estudo sobre uma pessoa viva, como isto ocorreu com o senhor conde R..., ele foi evocado na sessão de 3 de fevereiro de 1860.

 

1. (A São Luís.) Podemos evocar o senhor doutor Vignal?

- R. Sem nenhum perigo, uma vez que para isso ele está preparado.

 

2. Evocação.

- R. Estou aqui; eu o afirmo em nome de Deus, o que não faria se respondesse por um outro.

 

3. Embora estejais vivo, julgas necessário que a evocação seja feita em nome de Deus?

- R. Deus não existe para os vivos como para os mortos?

 

4. Vede-nos tão claramente como quando assistíeis em pessoa às nossas sessões?

- R. Mas, antes mais claramente que menos.

 

5. Em que lugar estais aqui?

- R. Naturalmente no lugar que a minha ação necessita: à direita e um pouco atrás do médium.

 

6. Para vir de Souilly até aqui, tivestes consciência do espaço que atravessastes; vistes o caminho que percorrestes?

- R. Não mais que a viatura que me conduziu.

 

7. Poder-se-ia vos oferecer uma assento?

- R. Sois muito bom; não estou tão fatigado quanto vós.

 

8. Como constatais a vossa individualidade aqui presente?

- R. Como os outros.

 

NOTA. - Ele faz alusão àquilo que já foi dito em semelhante caso, a saber: que o Espírito constata sua individualidade por meio de seu perispírito, que é para ele a representação de seu corpo.

 

9. Entretanto, vos estimulamos de nos dar, vós mesmo, a explicação.

- R. É uma repetição que me pedis.

 

10. Uma vez que não quereis repetir o que foi dito, é porque pensais do mesmo modo?

 - R. Mas está bem claro.

 

11. Assim, vosso perispírito é para vós uma espécie de corpo circunscrito e limitado?

- R. É pueril; isto vai sem dizer.

 

12. Podeis ver o vosso corpo dormindo?

- R. Não daqui; vi-o deixando-o; deu-me vontade de rir.

 

13. Como a relação está estabelecida entre o vosso corpo, que está em Souilly, e o vosso Espírito que está aqui?

- R. Como vos disse, por um cordão fluídico.

 

14. Quereis nos descrever, o melhor possível, a fim de nos fazer compreender a maneira pela qual vos vedes, abstração feita de vosso corpo?

- R. É muito fácil; vejo-me como durante a vigília, ou antes, a comparação será mais justa, como se vê a si mesmo em sonho; tenho meu corpo, mas tenho consciência que ele está organizado de outro modo e é mais leve do que o outro; não sinto o peso, a força atrativa que me prende à terra durante a vigília; em uma palavra, como vos disse, não me sinto fatigado.

 

15. A luz vos parece com a mesma cor que no estado normal?

- R. Não; ela é aumentada de uma luz que não é acessível aos vossos sentidos grosseiros; entretanto, não infirais disso que a sensação que as cores produzem sobre o nervo ótico seja diferente para mim: o que é vermelho é vermelho, e assim por diante; somente os objetos que eu não veria, no estado de vigília, na obscuridade, são luminosos, por si mesmos, e são perceptíveis para mim. Assim é que a obscuridade não existe absolutamente para o Espírito, se bem que ela possa estabelecer uma diferença entre o que, para vós, é claro e o que não o é.

 

16. Vossa visão é indefinida, ou limitada ao objeto sobre o qual levais vossa atenção?

- R. Não é nem uma e nem outra. Eu não sei absolutamente o que ela pode provar de modificações para o Espírito inteiramente liberto; mas, para mim, sei que os objetos materiais são perceptíveis em seu interior; que minha visão os atravessa; entretanto, não poderia ver por toda parte ou ao longe.

 

17. Queríeis vos prestar para uma pequena experiência de prova que não é motivada pela curiosidade, mas pelo desejo de nos instruirmos?

- R. De modo nenhum; isso me é expressamente proibido.

 

18. Sois capaz de ler a pergunta que acabam de me passar, e respondê-la sem que eu tenha necessidade de articulá-la?

- R. Eu o poderia, mas, repito-o, isto me está proibido.

 

19. Como tendes consciência da proibição que vos é feita?

- R. Pela comunicação do pensamento do Espírito que mo proíbe.

 

20. Pois bem! Eis esta pergunta. Vedes num espelho?

- R. Não. Que vedes num espelho? O reflexo de um objeto material e não posso produzir o reflexo senão com a ajuda da operação que me torna o perispírito tangível.

 

21. Assim um Espírito que se encontrasse nas condições de um agênere, por exemplo, poderia ver-se num espelho?

- R. Certamente.

 

22. Poderíeis, neste momento, julgar quanto à saúde ou à enfermidade de uma pessoa tão judiciosamente como no vosso estado normal?

- R. Mais judiciosamente.

 

23. Poderíeis dar-nos uma consulta se alguém vos pedisse uma?

- R. Eu o poderia, mas não quero fazer concorrência com os sonâmbulos e os Espíritos benfazejos que os guiam. Quando estiver morto, eu não digo.

 

24. O estado em que estais agora é idêntico àquele em que estareis quando morrerdes?

- R. Não; terei certas percepções muito mais precisas; não olvideis que, AINDA, estou ligado à matéria.

 

25. Vosso corpo poderia morrer, enquanto estais aqui, sem que disso suspeitásseis?

- R. Não; morre-se como isso todos os dias.

 

26. Isto se concebe para uma morte natural, sempre precedida de alguns sintomas; mas suponhamos que alguém vos fira e vos mate instantaneamente, como o saberíeis?

- R. Eu estaria pronto para receber o golpe antes que o braço abaixasse.

 

27. Que necessidade haveria em que vosso Espírito retornasse para o vosso corpo, uma vez que nele nada mais teria a fazer?

- R. É uma lei muito sábia, sem a qual, uma vez saído, hesitar-se-ia, frequentemente, tão bem nele reentrar que disso se faria um pretexto para se suicidar... hipocritamente.

 

28. Suponhamos que vosso Espírito não estivesse aqui, mas em vossa casa, a passear, enquanto o corpo dorme, deveríeis ver tudo o que ali se passa?

- R. Sim.

 

29. Neste caso, suponhamos que se cometa uma ação má qualquer, da parte de algum dos vossos ou de um estranho, serieis, pois, disso testemunha?

- R. Sem dúvida, mas nem sempre livre Para a isto me opor; todavia, isto ocorre mais frequentemente do que supondes.

 

30. Que impressão a visão dessa má ação vos faria; estaríeis tão afetado como se dela fósseis testemunha ocular?

- R. Algumas vezes mais, algumas vezes menos, segundo as circunstâncias.

 

31. Sentiríeis o desejo de vos vingar?

- R. Vingar-me, não; impedir, sim.

 

NOTA. - Resulta do que acaba de ser dito e, de resto, é a consequência do que já sabemos, que o Espírito de uma pessoa que dorme sabe perfeitamente o que se passa ao seu redor; e aquele que quisesse se aproveitar de seu sono para cometer uma ação má, em seu prejuízo, engana-se quando crê que não é visto. Não deveria mesmo sempre contar com o esquecimento que acompanha o sonho, porque a pessoa pode dele guardar uma intuição, algumas vezes bastante forte, para inspirar-lhe suposições. Os sonhos de pressentimentos não são outra coisa senão uma lembrança mais precisa do que se viu. Está ainda aí uma das consequências morais do Espiritismo; dando a convicção deste fenômeno, pode ser um freio para muitas pessoas. Eis um fato que vem em apoio a esta verdade. Uma pessoa recebe um dia uma carta sem assinatura e muito descortês; ela escavaria inutilmente a cabeça para descobrir-lhe o autor. É necessário crer que durante a noite aprende o que desejaria saber, porque no dia seguinte, no seu despertar, e sem que tivesse um sonho, seu pensamento cai sobre alguém que ela não havia suposto, e depois de verificação, adquire a certeza de que não estava enganada.

 

32. Voltemos às vossas sensações e às vossas percepções. Por onde vedes?

- R. Por todo o meu ser.

 

33. Percebeis os sons e por onde?

- R. É a mesma coisa; uma vez que a percepção é transmitida ao Espírito enclausurado por seus órgãos imperfeitos, deve estar claro para vós que sente, quando está livre, numerosas percepções que vos escapam.

 

34. (Bate-se sobre uma campainha) Ouvis perfeitamente este som?

- R. Mais do que vós.

 

35. Se vos fizesse ouvir uma música discordante, nisto sentiríeis uma sensação semelhante à que sentiríeis no estado de vigília?

- R. Eu não disse que as sensações eram análogas; há uma diferença; mas há percepção muito mais completa.

 

36. Percebeis os odores?

- R. Sem dúvida; sempre do mesmo modo.

 

NOTA. - Poder-se-ia dizer, segundo isto, que a matéria que envolve o Espírito é uma espécie de abafador que amortece a acuidade da percepção. O Espírito liberto, recebendo esta percepção sem intermediário, pode apanhar nuanças que escapam àquele que a ela chega passando por um meio mais denso que o perispírito. Concebe-se, desde então, que os Espíritos sofredores possam ter dores que, por não serem físicas, do nosso ponto de vista, são mais pungentes que as dores corpóreas, e que os Espíritos felizes têm gozos dos quais as nossas sensações não podem dar-nos uma ideia.

 

37. Se tivésseis, diante dos vossos olhos iguarias apetitosas, sentiríeis o desejo de comê-las?

- R. O desejo seria uma distração.

 

38. Suponhamos que, neste momento, enquanto o vosso Espírito está aqui, vosso corpo tenha fome, que efeito a visão dessas iguarias produziria sobre vós?

- R. Isto me faria partir para satisfazer uma necessidade irresistível.

 

39. Poderíeis nos dar a compreender o que se passa em vós quando deixais vosso corpo para vir aqui, ou quando nos deixais para reentrar em vosso corpo? Como percebeis que estais aqui?

- R. Isto ser-me-ia bem difícil; nele entro como dele saio, sem disto me aperceber, ou, dizendo melhor, sem me dar conta da maneira como se opera este fenômeno. Todavia, não credes que quando o Espírito entra no corpo, esteja enclausurado como no seu quarto; ele irradia sem cessar ao seu redor, de tal sorte que, pode-se dizer, está frequentemente mais fora do que dentro; somente a união é mais íntima, e os laços são mais cerrados.

 

40. Vedes outros Espíritos?

- R. Aqueles que querem bem que eu veja.

 

41. Como os vedes?

- R. Como eu mesmo.

 

42. Vede-os aqui ao vosso redor?

- R. Em multidão.

 

43. Evocação de Charles Dupont (Espírito de Castelnaudary).

- R. Venho ao vosso chamado.

 

44. (Ao mesmo.) Estais mais tranquilo hoje que da última vez que vos chamamos?

- R. Sim; eu progrido no bem.

 

45. Compreendeis agora que as vossas penas não durarão para sempre?

- R. Sim.

 

46. Entrevedes o fim de vossas penas?

- R. Não; Deus, para minha punição, não me permite ver esse fim.

 

47. (Ao senhor Vignal.) Vedes o Espírito que acaba de nos responder?

- R. Sim; ele não é belo.

 

48. Quereis descrevê-lo?

- R. Eu o vejo como o vi, com a diferença que não há nem sangue e nem punhal, e que a sua fisionomia respira antes de tristeza que de embrutecimento feroz que apresentava em sua primeira aparição.

 

49. Desperto, tendes conhecimento do retrato que foi feito deste Espírito?

- R. Sim, e de mais estou informado.

 

50. Como reconheceis, vendo um Espírito, se o seu corpo está morto ou vivo?

- R. Pelo seu cordão fluídico.

 

51. Como julgais o moral deste? 

- R. Seu moral deve ser bem triste; mas ele se aprimora.

 

52. (A Charles Dupont.) Ouvistes o que se disse de vós; isto teve vos encorajar para perseverar no caminho do progresso, onde errastes?

- R. Obrigado; é o que eu trato de fazer.

 

53. Vedes o Espírito do doutor com o qual conversamos?

- R. Sim.

 

54. Como o vedes?

- R. Eu o vejo com um envoltório menos transparente que dos outros Espíritos.

 

55. Como julgais que ele ainda está vivo?

- R. Os Espíritos comuns são sem forma aparente; este tem como uma forma humana; ele está envolvido por uma matéria semelhante a uma nuvem que repete sua forma humana terrestre; o Espírito dos mortos não tem este envoltório: dele está desligado.

 

56. (Ao senhor Vignal). Se evocássemos um louco, o reconheceríeis e como?

- R. Eu não reconheceria se sua loucura fosse recente, porque não teria tido nenhuma ação sobre o Espirito; mas se está alienado há muito tempo, a matéria exerceria uma certa influência sobre ele, isto, pois, lhe daria alguns sinais que lhe serviriam para reconhecê-lo como durante a vigília.

 

57. Podeis nos descrever as causas da loucura?

- R. Não é outra coisa senão uma alteração, uma perversão de órgãos que não recebem mais as impressões de um modo regular, e transmitem sensações falsas, e por isso mesmo executam atos diametralmente opostos à vontade do Espírito.

 

NOTA. - Ocorre, frequentemente, que certas pessoas, cujo Espírito é perfeitamente são, têm nos membros ou em outras partes do corpo, movimentos involuntários independentes de sua vontade, como, por exemplo, aqueles que são designados sob o nome de fiques nervosos. Compreende-se que se a alteração, em lugar de estar no braço ou nos músculos da face, estiver no cérebro, a emissão de ideias sofreria com isto; a impossibilidade de dirigir ou de dominar esta emissão constitui a loucura.

 

58. Depois da última resposta do senhor Vignal, o médium que serviu de intérprete a Charles Dupont, escreveu espontaneamente: Reconhecem-se esses Espíritos (o dos loucos) em sua chegada entre nós, naquilo que eles giram em todos os sentidos sem terem uma ideia fixa nem de Deus, nem de preces; é lhes preciso tempo para poderem se fixar. Assinado CAUVIÈRE.

 

Ninguém tendo pensado em chamar esse Espírito, o senhor Belliol perguntou se seria o do doutor Cauviére, de Marselha, do qual fora outrora aluno.

- R. Sim, sou eu, morto há um ano e meio.

 

NOTA. - O senhor Belliol reconhece a assinatura como a do doutor Cauviére; mais tarde pôde-se compará-la a uma assinatura original, e constatar à perfeita semelhança da escrita e da rubrica.

 

59. (Ao senhor Cauviére.) O que foi que nos proporcionou a vantagem da vossa visita inesperada?

- R. Não é a primeira vez que venho entre vós; hoje, achei uma ocasião favorável para comunicar-me, e aproveitei-a.

 

60. Vedes vosso colega, o doutor Vignal, que está aqui em Espírito?

- R. Sim, eu o vejo.

 

61. Como reconheceis que ele está ainda vivo?

- R. Pelo seu envoltório menos transparente que o nosso.

 

62. Esta resposta concorda com as que Charles Dupont acaba de nos dar, e que nos pareceu ultrapassar o nível de sua inteligência; fostes vós que lha ditastes?

- R. Eu bem que poderia influenciá-lo, uma vez que lá estava.

 

63. Em que estado estais como Espírito?

- R. Não estou ainda reencarnado, mas sou um Espírito avançado, e entretanto, estava longe, na Terra, de crer naquilo que chamais o Espiritualismo; foi necessário que eu fizesse a minha educação aqui onde estou; mas minha inteligência aperfeiçoada pelo estudo aí chegou imediatamente.

 

64. Nós vamos, se consentirdes, dirigir-vos uma pergunta preparada pelo senhor Vignal, e pedimos consentir em respondê-las, cada um de vosso lado com a ajuda de vossos intérpretes particulares. Como encarais agora a diferença entre o espírito dos animais e o do homem?

- R. Do senhor Vignal. Não me é muito mais fácil de fazê-lo do que no estado de vigília; meu pensamento atual é de que o animal dorme, está entorpecido moralmente, e que no homem, em seu início, ele desperta penosamente.

 

R. Do senhor Cauviére. - Ó Espírito do homem está chamado a uma maior perfeição que o dos animais; a diferença neles é sensível pela razão de que, entre estes últimos, não existe ainda senão o estado de instinto; mais tarde, esse instinto pode-se aperfeiçoar.

 

65. Pode aperfeiçoar-se ao ponto de se tornar um Espírito humano?

- R. Ele o pode, mas depois de passar por muitas existências animais, seja no nosso planeta terrestre, seja em outros.

 

66. Quereis ser bastante bons, um e outro, para nos ditarem, cada um de vosso lado, uma pequena alocução espontânea sobre assunto à vossa escolha.

 

Ditado do Sr. Cauviére.

 

Meus bons amigos, eu estou tão feliz em poder conversar um pouco convosco que quero vos dar um conselho, não a vós particularmente que sois crentes, mas àqueles cuja fé ainda é vacilante, ou que não a têm ainda e a repelem. Que não posso ver aqui todos os meus colegas vivos, que não creram em mim, é verdade; entretanto, eu lhes diria que quando vivo, repeli com veemência a verdade, embora eu a sentisse no fundo de meu coração. A maioria dentre eles fazem como eu: por um falso amor-próprio, não Querem convir no que às vezes sentem; erram, porque a indecisão tez sofrer na Terra, sobretudo no momento de deixá-la. Instruí-vos, Pois; sede de boa fé, sereis assim mais felizes em vossa vida bem como no mundo onde estou agora. Se quiserdes, virei, algumas vezes, conversar convosco. - CAUVIÈRE.

 

Ditado do Sr. Vignal.

 

Por que a astronomia, e que nos importa o tempo que gastará uma bala de canhão para percorrer a distância que existe entre a Terra e o Sol? Assim raciocinam pessoas honestas que não veem outro resultado, nas ciências, senão a aplicação que dela podem fazer à indústria ou ao seu bem-estar; mas sem a astronomia, qual razão teríeis para adotar antes o admirável sistema que nos foi desenvolvido, que tal ou tal outro posto em dia ao nosso redor por Espíritos ignorantes ou ciumentos?

 

Se a Terra fosse, como se acreditou por muito tempo, o ponto central do Universo; se os numerosos sóis que povoam o espaço não fossem senão pontos brilhantes fixos numa abóbada de cristal, qual razão teríamos para admitir o passado e o futuro do Espírito? A astronomia, ao contrário, vem nos demonstrar que a vida planetária que circula ao redor de nosso sol, é refletida ao redor de todos aqueles que compõem a nebulosa da qual o nosso mundo faz parte; que todos esses planetas estão organizados de maneira diferentes uns dos outros, e que, consequentemente, as condições de vida neles não são as mesmas. Sois então conduzidos a vos perguntarem, se Deus criou instantaneamente e para cada corpo, o Espírito que deve animá-lo, por qual razão não teria achado justo de criá-lo aqui antes que ali, antes na Terra que num outro mundo, e antes numa condição que numa outra.

 

Uma lógica inflexível vos conduz, pois, a admitir como a expressão da maior verdade, a habitabilidade dos mundos, a preexistência das almas e a reencarnação.

 

A astronomia é, pois, útil, uma vez que vos coloca em condições de receberem o esboço de sublimes verdades que se desenvolverão, para vós, em conseqüência do progresso que o Espiritismo terá, e a própria ciência; porque, com a ajuda da indústria, ela está chamada a vos fazer descobrir muitas outras maravilhas que aquelas que apenas podeis entrever: doravante a astronomia e a teologia são irmãs e vão caminhar de mãos dadas. - VIGNAL, por Arago.

 

SENHORITA INDERMUHLE.

 

SURDA-MUDA DE NASCENÇA, IDADE DE TRINTA E DOIS ANOS, VIVA, MORANDO EM BERNA.

 

(Sessão de 10 de fevereiro de 1860.)

 

1. (A São Luís.) Podemos entrar em comunicação com o Espírito da senhorita Indermuhle?

- R. Vós o podeis.

 

2. Evocação.

- R. Estou aqui, e o afirmo em nome de Deus.

 

3. (A São Luís.) Quereis nos dizer se o Espírito que respondeu foi mesmo o da senhorita Indermuhle?

- R. Posso afirmá-lo e vos afirmo; mas sois mais avançados que ela, e crede que, se for útil que um outro responda em seu lugar, isso seja embaraçador? A afirmação vos prova que ela está aqui; cabe a vós assegurar-vos uma boa comunicação pela natureza e o móvel das vossas perguntas.

 

3. Sabeis bem onde estais neste momento?

- R. Perfeitamente; credes que disso não fui instruída?

 

4. Como ocorre que possais nos responder aqui, enquanto o vosso corpo está na Suíça?

- R. Porque não é meu corpo que vos responde; de resto, ele está perfeitamente incapaz, vós o sabeis.

 

5. Que faz o vosso corpo neste momento?

- R. Ele dorme.

 

6. Ele está com boa saúde?

- R. Excelente.

 

NOTA. - O irmão da senhorita Indermuhle, que está presente, confirma que com efeito ela está com boa saúde.

 

7. Quanto tempo gastastes para vir da Suíça até aqui?

- R. Um tempo inapreciável para vós.

 

8. Vistes o caminho que percorrestes para vir aqui?

- R. Não.

 

9. Estais surpresa por vos encontrardes nesta reunião?

- R. Minha primeira resposta vos prova que não.

 

10. O que ocorreria se o vosso corpo viesse a despertar enquanto nos falais?

- R. Ali eu estaria.

 

11. Há entre o vosso Espírito, que está aqui, e o vosso corpo que está lá embaixo, um laço qualquer?

- R. Sim, sem isto quem me advertiria que devo nele reentrar?

 

12. Vede-nos bem distintamente?

- R. Sim, perfeitamente.

 

13. Compreendeis que podeis nos ver, e que nós não podemos vos ver?

- R. Mas sem dúvida.

 

14. Ouvis o ruído que f aço neste momento batendo?

R. Eu não sou surda aqui.

 

15. Como disso vos dais conta, uma vez que não tendes, para comparação, a lembrança do ruído no estado de vigília?

- R. Eu não nasci ontem.

 

NOTA. - A lembrança da sensação do ruído vinha-lhe de existências onde ela não era surda. Esta resposta é perfeitamente lógica.

 

16. Ouvis a música com prazer?

- R. Com tanto mais prazer como isto há muito tempo não me ocorre; cantai-me, pois, alguma coisa.

 

17. Lamentamos não poder fazê-lo neste momento, e que não haja aqui um instrumento para vos proporcionar este prazer; mas nos parece que vosso Espírito, libertando-se todos os dias durante o sono, deveis transportai-vos para lugares onde possais ouvir a música?

- R. Isto me acontece bastante raramente.

 

18. Como podeis nos responder em francês, uma vez que estais na Alemanha, e que não sabeis a nossa língua?

- R. O pensamento não tem língua; eu o comunico ao guia do médium, que o traduz na língua que lhe é familiar.

 

19. Qual é esse guia do qual falais?

- R. Seu Espírito familiar; é sempre assim que recebeis as comunicações de Espíritos estranhos, e é assim que os Espíritos falam todas as línguas.

 

NOTA. - Deste modo as respostas não nos chegam, frequentemente, senão de terceira mão; o Espírito interrogado transmite o pensamento ao Espírito familiar, este ao médium, e o médium o traduz pela escrita ou pela palavra; ora, o médium, podendo estar assistido por Espíritos mais ou menos bons, isto explica como, em muitas circunstâncias, o pensamento do Espírito interrogado pode ser alterado; também São Luís disse, em começando, que a presença do Espírito evocado não basta sempre para assegurar a integridade das respostas. Cabe-nos apreciá-las, e julgar se são lógicas e em relação com a natureza do Espírito. De resto, segundo a senhorita Indermuhle, esta tripla fileira não ocorreria senão para os Espíritos estrangeiros.

 

20. Qual é a causa da enfermidade que vos afeta?

- R. Uma causa voluntária.

 

21. Por qual singularidade vossos seis irmãos e irmãs sofrem da mesma enfermidade?

- R. Pelas mesmas causas que eu.

 

22. Assim, foi voluntariamente que todos vós escolhestes essa prova; pensamos que esta reunião, numa mesma família, deveria ter ocorrido tendo em vista uma prova para os parentes; esta razão é boa?

- R. Ela aproxima da verdade.

 

23. Vedes aqui o vosso irmão?

- R. Bela pergunta!                                                  

 

24. Estais contente por vê-lo?

- R. A mesma resposta.

 

NOTA. - Sabe-se que os Espíritos não gostam de repetir; nossa linguagem é tão lenta para eles que evitam tudo o que lhes pareça inútil. Está aí um ponto que caracteriza os Espíritos sérios; os Espíritos levianos, zombeteiros, obsessores e pseudossábios, frequentemente, são verbosos e prolixos; como os homens que carecem de fundo, eles falam para nada dizerem; as palavras tomam o lugar dos pensamentos, e creem imporem-se por frases redundantes e um estilo pedante.

 

25. Quereis dizer-lhe alguma coisa?

- R. Peço-lhe receber a expressão dos meus sinceros agradecimentos pelo bom pensamento que teve ao me chamar aqui onde me encontro, muito feliz, em contato com os bons Espíritos, se bem que, entretanto, vejo alguns que não valem muito; com eles ganharei em instrução, e não esquecerei o que lhes devo.

 

* * *