REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 10 - AGOSTO 1867 - Nº. 8

 

 

ENTRADA DE INCRÉDULOS NO MUNDO DOS ESPÍRITOS.

 

 

 

O DOUTOR CLAUDIUS.

Sociedade de Paris. Méd. Sr. Morin em sonambulismo espontâneo.

 

Um médico, que designaremos sob o nome de doutor Claudius, conhecido de alguns de nossos colegas, e cuja vida tinha sido uma profissão de materialista, morreu algum  tempo  de  uma  afecção  orgânica,  que  sabia  ser  incurável.  Chamado,  sem  vida, pelo pensamento daqueles que o haviam conhecido e que desejavam conhecera sua posição, manifestou-se espontaneamente por intermédio do Sr. Morin, um dos médiuns da Sociedade, em estado de sonambulismo espontâneo. várias vezes esse fenômeno se produziu por esse médium e outras adormecido com o sono espiritual.

 

O Espírito que assim se manifestou se apodera da pessoa do médium, serve-se de seus órgãos como se estivesse ainda vivo. Não é, então, mais uma fria comunicação escrita; é a expressão, a pantomima, a inflexão de voz do indivíduo que se tem diante dos olhos.

 

Foi nessas condições que se manifestou o doutor Claudius, sem ter sido evocado. Sua comunicação, que reportamos textualmente adiante, é instrutiva a mais de um título, principalmente naquilo que ela pinta os sentimentos que o agitam; a dúvida é ainda o seu tormento; a incerteza de sua situação mergulha-o numa terrível perplexidade, e é a sua punição. É uma exemplo a mais que vem confirmar aquilo que se viu muitas vezes em semelhante caso.

 

Depois de uma dissertação sobre um outro assunto, o médium absorvido se recolhe alguns instantes, depois, como se despertasse penosamente, assim se exprime, falando consigo mesmo:

 

Ah! ainda um sistema!... O que de verdadeiro e de falso na existência humana, na criação, na criatura, no criador?... A coisa, ela é?... A matéria é bem verdadeira?... A ciência, é uma verdade?... O saber, uma aquisição?... a alma... a alma existe?

 

O criador, a divindade, não é um mito?.., Mas, que digo eu?... por que estas blasfê- mias  multiplicadas?...  Por  que,  em  face  da  matéria,  não  posso  crer,  ó  meu  Deus,  não posso ver, sentir, compreender?...

 

Matéria!... matéria!... mas, sim, tudo é matéria...Tudo é matéria!!!... e, no entanto, a invocação a Deus chegou à minha boca!... Por que, pois, eu disse: ó meu Deus?... Porque esta palavra, uma vez que tudo é matéria?...Eu sou?...Não é um eco de meu pensamento que ressoa e que se escuta?... Não são as últimas badalas das do sino que eu agito?

 

 Matéria!... Sim, a matéria existe, eu o sinto!... A matéria existe; eu a toquei!... mas!...tudo não é matéria, e, no entanto, no entanto, tudo foi auscultado, apalpado, tocado, analisado, dissecado fibra por fibra, e nada!... Nada senão a carne, a matéria sempre, que, desde o instante em que o grande movimento foi detido, se deteve também!... O movimento pára, o ar não chega mais... Mas!... se tudo é matéria, por que não se coloca mais em movimento, uma vez que tudo que existia quando ela se agitava, existe ainda?... E, no entanto... ela não existe mais!...

 

Mas se, eu sou!... tudo não acabou com o corpo!... em verdade... estou bem mor to?... no entanto, esse roedor que alimentei, que cuidei com minhas mãos, não me perdoou!...  É  verdade;  estou  morto!...  mas  essa  doença  que  vi  nascer...  crescer...  tinha  uma alma?

 

Ah!  a  dúvida!  sempre  a  dúvida!...  em  resposta  às  minhas  secretas  aspirações!... Mas, se eu sou, ó meu Deus, se eu sou,... ah! fazei-me reconhecer-me!... fazei-me vos pressentir!... porque, se eu sou, que longa sucessão de blasfêmias!... que longa negação de vossa sabedoria, de vossa bondade, de vossa justiça!... Que imensa responsabilidade de orgulho assumi sobre minha cabeça, ó meu Deus!... Mas se, tenho ainda um eu, eu que não queria nada admitir fora o que pode ser tocado... Duvidei de vossa sabedoria, ó meu  Deus! é justo que eu duvide!... Sim, eu duvidei; a dúvida me perseguiu e me pune.

 

Oh! mil mortes antes do que a dúvida na qual vivo!... Eu vejo, reencontrei antigos amigos... e, no entanto, todos morreram antes!... Méry! meu pobre louco!... mas não o sou  eu antes, eu?... o epíteto de louco se adapta à sua personalidade? - Vejamos, pois; o que é a loucura?...

 

A  loucura!...  a  loucura!...  decididamente,  a  loucura  é  universal!!!  todos  os  homens são loucos num grau mais ou menos grande... mas sua loucura, nele, não era a sabedoria ao lado de minha loucura em mim?... Nele, os sonhos, as imagens, as aspirações do além...  mas,  é  a  justiça!... Conhecia  eu  este  desconhecido  que  se  apresenta  inopinadamente a mim?... Não, não, o nada não existe, porque se existisse essa encarnação de negação, de crimes, de infâmias, não me torturaria assim!... Eu vejo, mas vejo muito tarde, todo o mal que fiz!... Vendo-o hoje, e reparando-o pouco a pouco, talvez um dia eu seja digno de ver e de fazer o bem!...

 

Sistemas!... sistemas  orgulhosos,  produtos  dos  cérebros  humanos,  eis  onde  nos conduzis!... Num é a divindade; noutro, a divindade material e sensual; em um outro, o nada, nada!... Nada, divindade material, divindade espiritual, são palavras?... Oh! eu peço para ver, meu Deus!... e se existo, se existis, concedei-me o favor que vos peço; aceitai minha prece, porque eu vos peço, ó meu Deus, de me fazer ver se existo, se eu sou!... (Estas últimas palavras são ditas com um acento dilacerante.) 

Nota. Se o Sr. Claudius perseverou até o fim em sua incredulidade, não foram os meios de se esclarecer que lhe faltaram; como médico, ele tinha necessariamente o espírito cultivado, a inteligência  desenvolvida,  um  saber  acima  do  vulgo,  e,  no  entanto,  isto não lhe bastou. Em suas minuciosas investigações da natureza morta e da natureza viva, ele não entreviu Deus, não entreviu a alma! Vendo os efeitos, não remontou à causa! ou, melhor dizendo, se fez uma causa à sua maneira, e seu orgulho de sábio impedia-o de confessar-se a si mesmo, de confessar, sobretudo, à face do mundo que poderia estar enganado. Circunstância digna de nota, ele morreu de um mal orgânico que ele sabia, por sua própria ciência, ser incurável: esse mal que ele tratava era uma advertência permanente; a dor que lhe causava era uma voz que lhe gritava, sem cessar, para pensar no futuro. No entanto nada pôde triunfar de sua obstinação; ele fechou os olhos até o último momento. É que esse homem jamais teria podido se tornar Espírita? seguramente não; nem  fatos,  nem  raciocínios  teriam  podido  vencer  uma  opinião  tomada  antes,  e  da  qual estava resolvido não se desviar. Era desses homens que não querem se entregar à evidência,  porque  neles  a  incredulidade  é  inata,  como em outros a crença; o sentido pelo qual poderão um dia assimilar os princípios espirituais não eclodiu ainda; são para a espiritualidade o que são os cegos para a luz: não a compreendem.

 

A inteligência não basta, pois, para conduzir ao caminho da verdade; ela é como um cavalo que nos conduz, e que segue o caminho sobre o qual se o lançou; se esse caminho conduz a um lamaçal, ali ele precipita o cavaleiro; mas, ao mesmo tempo, lhe os meios de se levantar.

 

O Sr. Claudius tendo morrido voluntariamente em cegueira, não é de se admirar que não tenha visto logo a luz; que não se reconhecesse num mundo que não quis estudar; que, morto com a idéia do nada, duvida de sua própria existência; incerteza pungente que faz o seu tormento. Ele caiu no precipício onde impeliu seu corcel-inteligência. Mas pode se levantar dessa queda, e parece entrever um clarão que, se o seguir, o conduzirá ao porto. É nesses louváveis esforços que é preciso sustentá-lo pela prece; quando uma vez tiver gozado dos benefícios da luz espiritual, terá horror das trevas do materialismo; e, se retornar um dia à Terra, será com intuições e aspirações diferentes daquelas que tinha em sua última existência.

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