REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 11 - MAIO 1865 - Nº. 5

 

 

EDUCAÇÃO DE ALÉM-TÚMULO.

 

 

 

Escrevem-nos de Caen: 

"Uma mãe e suas três filhas de pouca idade, querendo estudar a Doutrina Espírita, não podiam ler duas páginas sem sentirem um mal-estar do qual não se davam conta. Eu me encontrava, um dia, na casa dessas senhoras, com uma jovem médium sonâmbula muito lúcida; esta adormeceu espontaneamente e viu junto dela um Espírito que reconheceu pelo abade L...antigo cura do lugar, morto há uma dezena de anos.

 

"Pergunta. Sois, senhor, o cura que impediu esta família de ler? 

- Resposta.  Sim, fui eu; velo sem cessar sobre o rebanho confiado aos meus cuidados; há muito tempo que vos vejo querer instruir meus penitentes em vossa triste doutrina; quem vos deu o direito de ensinar?  Fizestes estudos para isso?

 

"Pergunta. Dizei-nos, senhor abade, estais no céu? 

- Resposta.  Não; não sou bastante puro para ver Deus.

 

"Pergunta. Estais, então, nas chamas do purgatório?

- Resposta. Não, uma vez que não sofro.

 

"Pergunta. Vistes o inferno?

- Resposta.  Vós me fazeis tremer!  me perturbais! Eu não posso responder, porque talvez me direis que devo estar numa dessas três coisas. Tremo pensando no que dissestes, e, no entanto, sou atraído para vós pela lógica de vossos raciocínios. Eu retornarei e discutirei convosco.

 

"Com efeito ele retornou muitas vezes; discutimos e ele compreendeu tão bem que o entusiasmo o ganhou.  Recentemente, ele exclamou: "Sim, sou Espírita agora, dizei-o a todos aqueles que ensina. Ah! como gostaria que compreendesse Deus como este anjo me fez conhecê-lo!” Ele falava de Cárita, que tinha vindo até nós, e diante de quem ele caiu de joelhos, dizendo que não era um Espírito, mas um anjo. Desde esse momento, ele tomou por missão instruir aqueles que pretendem instruir os outros."

Nosso correspondente acrescenta o fato seguinte: 

"Entre os Espíritos que vêm ao nosso círculo, tivemos o doutor X..., que se apoderou de nosso médium, e que é como uma criança; é preciso dar-lhe explicações sobre tudo; ele avança, compreende, e está cheio de entusiasmo; ele vai junto dos sábios que conheceu; quer lhes explicar o que vê, o que sabe agora, mas eles não o compreendem; então ele se irrita e os trata de ignorantes. Um dia, numa reunião de dez pessoas, ele se apoderou da criança, como de hábito (a jovem médium, pela qual ele fala e age); pergunta-me quem era e porque eu tinha tanto saber sem ter nada aprendido; tomou-me a cabeça com as mãos e disse: "Eis a matéria, na qual me reconheço, mas como estou aqui, eu? como pude fazer falar este organismo que, no entanto, não é meu? Vós me falais da alma, mas onde está aquela que habita este corpo?"

 

"Depois de tê-lo feito notar o laço fluídico que une o Espírito ao corpo durante a vida, ele exclamou de repente, falando da jovem médium: "Eu conheço esta criança, eu a vi em minha casa; seu coração estava doente; como ocorre que não esteja mais? Dizei-me quem acurou?" Eu lhe fiz observar que se enganava, e que jamais a tinha visto. - "Não, disse ele, eu não me engano, e a prova é que lhe piquei o braço e que ela não sentiu nenhuma dor."

 

"Quando a jovem foi despertada, nós lhe perguntamos se ela tinha conhecido o doutor e se tinha ido consultá-lo. "Eu não sei, respondeu ela, se é ele; mas, estando em Paris fui conduzida à casa de um célebre médico, do qual não me lembro nem o nome, nem o endereço."

 

"Suas ideia se modificam rapidamente; é agora um Espírito no delírio da felicidade do que sabe; ele gostaria de provar a todo o mundo que o nosso ensino é incontestável. O que o preocupa, sobretudo, é a questão dos fluidos. "Eu quero, disse, curar como vosso amigo; não quero mais me servir de venenos; nem tomá-los jamais." Ele estuda hoje o homem, não mais em seu organismo, mas em sua alma; fez-nos dizer-lhe como se opera a união da alma e do corpo na concepção, e com isto pareceu muito feliz. O bom doutor Demeure veio em seguida, e nos disse para não nos admirarmos das perguntas, às vezes pueris, que poderia nos fazer; ele é, disse, como uma criança que precisa aprender a ler no grande livro da Natureza; mas, como é, ao mesmo tempo, uma grande inteligência, se instrui rapidamente, e, para isto, concorremos de nosso lado."

Esses dois exemplos vêm confirmar estes três grandes princípios revelados pelo Espiritismo, a saber:

 

1°. Que a alma conserva, no mundo dos Espíritos, por um tempo mais ou menos longo, as ideias e os preconceitos que tinha durante a vida terrestre;

 

2º. Que ela se modifica, progride e adquire conhecimentos novos no mundo dos Espíritos;

 

3º. Que os encarnados podem concorrer para o progresso dos Espíritos desencarnados.

 

Estes princípios, resultado de inumeráveis observações, têm uma importância capital, naquilo que fazem cair todas as ideias implantadas pelas crenças religiosas sobre o estado estacionário e definitivo dos Espíritos depois da morte. Desde que o progresso no estado espiritual está demonstrado, todas as crenças fundadas sobre a perpetuidade de uma situação uniforme qualquer tombam diante da autoridade dos fatos. Elas tombam também diante da razão filosófica que diz que o progresso é uma lei da Natureza, e que o estado estacionário dos Espíritos seria, ao mesmo tempo, a negação daquela lei e da justiça de Deus.

 

O Espírito progredindo fora da encarnação, disto resulta esta outra consequência, não menos capital, de que, em retornando sobre a Terra, ele traz a dupla aquisição das existências anteriores e da erraticidade. Assim se realiza o progresso das gerações.

 

É incontestável que, quando o médico e o sacerdote de quem se falou acima, renascerem, trarão ideias e opiniões diferentes das que tinham na existência que acabam de deixar; um não será mais fanático, o outro não será mais materialista, e ambos serão Espíritas. Pode-se isto dizer tanto do doutor Morei Lavallé, do bispo de Barcelona e de tantos outros. Há, pois, utilidade, para o futuro da Humanidade, ocupar-se com a educação dos Espíritos.

 

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