REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 4 - OUTUBRO 1861 - Nº. 10

 

 

Discurso do Sr. Allan Kardec

no banquete de Lyon

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 Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses

 

 

 

Senhoras e senhores, todos vós, meus caros e bons irmãos em Espiritismo.

 

Se há circunstâncias em que se possa lamentar a insuficiência de nossa pobre linguagem humana, é quando se trata de exprimir certos sentimentos, e tal é, neste momento, a minha posição. O que eu sinto, ao mesmo tempo, é uma surpresa bem agradável quando vejo o terreno imenso que a Doutrina Espírita ganhou entre vós, há um ano, e admiro a Providência; uma alegria indizível pela visão do bem que ela aqui produz, de consolações que ela derrama sobre tantas dores, ostensivas ou ocultas, e disso deduzo o futuro que a espera; é uma felicidade inexprimível reencontrar-me no meio desta família, tornada tão numerosa em tão pouco tempo, e que aumenta todos os dias; é, enfim, e acima de tudo, uma profunda e sincera gratidão pelos tocantes testemunhos de simpatia que recebo de vós.

 

Esta reunião tem caráter particular. Graças Deus! Estamos todos aqui, muito bons Espíritas penso, para termos o prazer de nos acharmos juntos, e não o de nos encontrar à mesa; e, seja dito de passagem, creio mesmo que um festim de Espíritas seria uma contradição. Presumo também que, me convidando tão graciosamente e com tantas instâncias, a vir ao vosso meio, não acreditastes que a questão de um banquete fosse motivo de atração para mim; foi o que me apressei a escrever aos meus bons amigos Rey e Dijoud, quando se escusaram sobre a simplicidade da recepção; porque, ficai bem convencidos de que o que mais me honra nesta circunstância, o de que, com razão, posso estar orgulhoso, é a cordialidade e a sinceridade da acolhida, o que se encontra muito raramente nas recepções pomposas, porque aqui não há máscaras sobre os rostos.

 

Se uma coisa pudesse atenuar a felicidade que tenho por me encontrar em vosso meio, seria não poder permanecer senão tão pouco tempo; ser-me-ia muito agradável prolongar minha estada num dos centros mais numerosos e mais zelosos do Espiritismo; mas, uma vez que desejais receber algumas instruções de minha parte, não achareis mau, sem dúvida, que, a fim de utilizar todos os instantes, eu saia um pouco das banalidades muito comuns em semelhantes circunstâncias, e que minha alocução empreste alguma gravidade à própria gravidade do assunto que nos reuniu. Certamente, se estivéssemos num repasto de bodas ou de batismo, seria intempestivo falar das almas, da morte, e da vida futura; mas, eu o repito, estamos aqui para nos instruir, antes que para comer, e, em todo caso, não é para nos divertir.

 

Não creiais, senhores, que esta espontaneidade que vos levou a vos reunir aqui seja um fato puramente pessoal; esta reunião, disso não duvideis, tem um caráter pessoal e providencial; uma vontade superior a provocou; mãos invisíveis a isso vos impeliram, com o vosso desconhecimento e talvez um dia ela marcará nos fastos do Espiritismo. Possam nossos irmãos futuros se lembrarem deste dia memorável em que os Espíritas lioneses, dando o exemplo de união e de concórdia, colocaram, nesses novos banquetes o primeiro passo da aliança que deve existir entre os Espíritas de todos os países do mundo; porque o Espiritismo, restituindo ao Espírito o seu verdadeiro papel na criação, constatando a superioridade da inteligência sobre a matéria, apaga naturalmente todas as distinções estabelecidas entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais só o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos da cor. O Espiritismo, alargando o círculo da família pela pluralidade das existências, estabelece entre os homens uma fraternidade mais racional do aquela que não tem por base senão os frágeis laços da matéria, porque esses laços são perecíveis, ao passo que os do Espírito são eternos. Esses laços, uma vez bem compreendidos, influirão pela força das coisas, sobre as relações sociais, e mais tarde sobre a legislação social, que tomará por base as leis imutáveis do amor e da caridade; então ver-se-á desaparecem essas anomalias que chocam os homens de bom senso, como as leis da Idade Média chocam os homens de hoje. Mas isto é obra do tempo, deixemos a Deus o cuidado de fazer chegar cada coisa à sua hora; esperemos tudo de sua sabedoria e agradeçamo-lo somente por nos ter permitido assistir à aurora que se eleva para a Humanidade, e de nos ter escolhido como os primeiros pioneiros da grande obra que se prepara. Que ele se digne derramar a sua bênção sobre esta assembléia, a primeira onde os adeptos do Espiritismo estão reunidos em tão grande número, num sentimento de verdadeira confraternização.

 

Digo verdadeira confraternização, porque tenho a íntima convicção de que todos aqui presentes, não trazem nenhuma outra; mas não duvideis que numerosas coortes de Espíritos estão aqui entre nós, que nos escutam neste momento, espiam todas as nossas ações, e sondam os pensamentos de cada um, investigando sua força ou sua fraqueza moral. Os sentimentos que os animam são bem diferentes; se uns estão felizes com esta união, outros, crede-o bem, estão horrivelmente enciumados com ela; saindo daqui, vão tentar semear a discórdia e a desunião; cabe-vos a todos vós, bons e sinceros Espíritas, provar-lhes que perdem seu tempo, e que se enganam crendo encontrar aqui corações acessíveis às suas pérfidas sugestões. Invocai, pois, com fervor a assistência de vossos anjos guardiães, a fim de que afastem de vós todo pensamento que não seria para o bem; ora, como o mal não pode ter a sua fonte no bem, o simples bom senso nos diz que todo pensamento mau não pode vir de um bom Espírito, e um pensamento é necessariamente mau quando é contrário à lei de amor e de caridade; quando ele tem por móvel a inveja e o ciúme, o orgulho ferido, ou mesmo uma pueril suscetibilidade de amor-próprio melindrado, irmão gêmeo do orgulho, que levaria a olhar seus irmãos com desdém. Amor e caridade para todos, disse o Espiritismo; amarás a teu próximo como a ti mesmo, disse o Cristo: isto não é sinônimo?

 

Eu vos felicitei, meus amigos, pelo progresso que o Espiritismo fez entre vós, e estou mais feliz por constatá-lo. Felicitai-vos, de vosso lado, daquilo que esse progresso é por toda parte; sim, este último ano viu, em todos os países o Espiritismo crescer numa proporção que excedeu todas as esperanças; ele está no ar, nas aspirações de todos, e por toda a parte onde encontra eco, bocas que repetem: Eis o que eu esperava, o que uma voz secreta me fazia pressentir. Mas o progresso se manifesta ainda sob uma nova fase: é a coragem de sua opinião, que não existia ainda há pouco tempo. Não era senão em segredo, às escondidas que dele se falava; hoje confessa-se Espírita tão claramente quanto se confessa católico, judeu ou protestante; afronta-se a zombaria, e essa ousadia impõe aos zombadores, que são como esses cãezinhos que correm depois daqueles que fogem, e fogem se são perseguidos; ela dá coragem aos tímidos, e revela, em muitas localidades, numerosos Espíritas que se ignoravam mutuamente. Pode deter-se esse movimento? Pode-se detê-lo? Eu o digo claramente: Não; lançou-se mão de tudo para isso: sarcasmos, zombadas, ciência, anátema, e ele tudo suplantou sem retardar a sua marcha num segundo; cego, pois, quem não veja aí o dedo de Deus. Pode-se entravá-lo; detê-lo jamais, porque se não correr à direita, ele correrá à esquerda.

 

Vendo os benefícios morais que proporciona, as consolações que dá, os crimes mesmo que já impediu, pergunta-se quem pode ter interesse em combatê-lo. Ele tem contra si primeiro os incrédulos que o injuriam: estes não são de se temer, uma vez que se viram seus dardos afiados quebrar-se contra a sua couraça; os ignorantes que o combatem sem conhecê-lo: estes são os mais numerosos; mas a verdade, combatida pela ignorância, jamais teve a temer, porque os ignorantes se refutam eles mesmos sem o querer, testemunha o Sr. Louis Figuier em sua Historie du mer-veilleux. A terceira categoria de adversários é a mais perigosa, porque é tenaz e pérfida; ela se compõe de todos aqueles cujos interesses materiais podem ser feridos; combatem na sombra, e as setas envenenadas da calúnia não lhes faltam. Eis os verdadeiros inimigos do Espiritismo, como tiveram todas as idéias de progresso em todos os tempos, e os encontrareis em todas as fileiras em todas as classes da sociedade. Vencerão? Não; porque não é dado ao homem se opor à marcha da Natureza, e o Espiritismo está na ordem das coisas naturais; será preciso, pois, que cedo ou tarde tomem o seu partido, e que aceitem o que será aceito por todo o mundo. Não, não o vencerão; serão eles que serão vencidos.

 

Um novo elemento vem se juntar à legião dos Espíritas: é o das classes trabalhadoras; e notai nisso a sabedoria da Providência. O Espiritismo, em primeiro lugar, propagou-se nas classes esclarecidas, nas sumidades sociais; isto era necessário, primeiro, para lhe dar mais crédito, segundo, porque foi elaborado e purgado das idéias supersticiosas que a falta de instrução teria podido nele introduzir, e com as quais o teria sido confundido. Apenas constituído, podendo-se falar assim de uma ciência tão nova, tocou a classe trabalhadora e nela se propagou com rapidez. Ah! É que lá há tanto de consolações a dar, tanto de coragem moral a levantar, tanto de lágrimas a secar, tanto de resignação a inspirar, que ele foi acolhido como uma âncora de salvação, como uma proteção contra as terríveis tentações da necessidade. Por toda a parte onde o vi penetrar na morada do trabalho, por toda a parte o vi ali produzir seus benfazejos efeitos moralizadores. Regozijai-vos, pois, operários lioneses que me escutais, porque tendes em outras cidades, tais como Sens, Lille, Bordeaux, irmãos Espíritas que, como vós, abjuraram as culpáveis esperanças da desordem e os criminosos desejos da vingança. Continuai a provar, pelo vosso exemplo, os benfazejos resultados desta doutrina. Àqueles que perguntam para que ela pode servir? respondei-lhes: Em meu desespero eu queria me matar: o Espiritismo me deteve, porque sei o que poderia me custar abreviar voluntariamente as provas que apraz a Deus enviar aos homens; para me estontear eu me embriagava: compreendi que desprezível era por me tirar voluntariamente a razão e que me privava assim de ganhar meu pão e o de meus filhos; estava divorciado de todos os sentimentos religiosos: hoje eu oro a Deus e coloco a minha esperança em sua misericórdia; eu não cria em coisa alguma senão no nada como supremo remédio para as minhas misérias: meu pai se comunicou comigo e me disse: Meu filho, coragem! Deus te vê; ainda um esforço e serás salvo! coloquei-me de joelhos diante de Deus e lhe pedi perdão; vendo os ricos e os pobres, as pessoas que têm tudo e outras que não têm nada, eu acusava a Providência: hoje sei que Deus pesa tudo na balança de sua justiça e espero o seu julgamento; se está em seus decretos que eu deva sucumbir na miséria, pois bem! sucumbirei, mas com a consciência pura, mas sem levar o remorso de ter roubado um óbolo àquele que poderia me salvar a vida. Dizei-lhe: Eis para que serve o Espiritismo, essa loucura, essa quimera, como o chamais. Sim, meus amigos, continuai a pregar pelo exemplo; fazei compreender o Espiritismo com as suas conseqüências salutares, e quando ele for compreendido, não se assustarão mais; bem mais, será acolhido como uma garantia da ordem social, e os próprios incrédulos serão forçados a falarem dele com respeito.

 

Falei do progresso do Espiritismo; com efeito, não se tem exemplo que uma doutrina, qualquer que ela seja, haja caminhado com tanta rapidez, sem excetuar mesmo o cristianismo. Isto quer dizer que lhe seja superior, que deve suplantá-lo? Não; mas é aqui o lugar de fixar-lhe o verdadeiro caráter, a fim de destruir uma prevenção, geralmente, bastante difundida entre aqueles que não o conhecem.

 

O cristianismo, em seu nascimento, tinha que lutar contra um poder terrível: o Paganismo, então universalmente difundido; não havia entre eles nenhuma aliança possível, não mais do que entre a luz e as trevas: em uma palavra, não podia se propagar senão destruindo o que existia; também a luta foi longa e terrível; as perseguições disso são a prova. O Espiritismo, ao contrário, nada tem a destruir, porque se assenta sobre as próprias bases do cristianismo; sobre o Evangelho, do qual não é senão a aplicação. Concebeis a vantagem, não de sua superioridade, mas de sua posição. Não é, pois, assim como alguns o pretendem, sempre porque não o conhecem, uma religião nova, uma seita que se forma às expensas de suas irmãs mais velhas: é uma doutrina puramente moral que não se ocupa, de nenhum modo, dos dogmas e deixa a cada um inteira liberdade de suas crenças, uma vez que não se impõe a ninguém; e a prova disso é que tem adeptos em todas, entre os mais fervorosos católicos, como entre os protestantes, entre os judeus e os muçulmanos. O Espiritismo repousa sobre a possibilidade de se comunicar com o mundo invisível, quer dizer, com as almas; ora, como os judeus, os protestantes, os muçulmanos têm alma como nós, disso resulta que podem se comunicar com elas tão bem quanto conosco, e que, por conseguinte, podem ser Espíritas como nós.

 

Não é mais uma seita política, como não é uma seita religiosa; é a constatação de um fato que não pertence mais a um partido que a eletricidade e os caminhos de ferro; é, digo eu, uma doutrina moral, e a moral está em todas as religiões e em todos os partidos.

 

A moral que ele ensina é boa ou má? É subversiva? Aí está toda a questão. Que se estude, e saber-se-á a que se agarrar. Ora, uma vez que é a moral do Evangelho desenvolvida e aplicada, condená-la seria condenar o Evangelho.


Fez o bem ou o mal? Estudai ainda e vereis. Que fez ele? Impediu inumeráveis suicídios; levou a paz e a concórdia a um grande número de famílias; tornou dóceis e pacientes os homens violentos e coléricos; deu resignação àqueles que não a tinham, consolações aos aflitos; levou a Deus aqueles que o desconheciam, destruindo as idéias materialistas, verdadeira praga social, que aniquila a responsabilidade moral do homem; eis o que fez, o que faz todos os dias, o que fará mais e mais à medida que estiver mais difundido. Está aí o resultado de uma doutrina má? Mas não sei que alguém tenha jamais atacado a moral do Espiritismo; somente diz-se que a religião pode produzir tudo isso. Convenho com isso perfeitamente; mas então por que não o produz sempre? É porque nem todo mundo a compreende; ora, o Espiritismo, tornando claro e inteligível para todos o que não o é, evidente o que é duvidoso, conduz à aplicação; ao passo que não se sente jamais a necessidade daquilo que não se compreende; portanto,
o Espiritismo, longe de ser o antagonista da religião, dela é o auxiliar; e a prova é que reconduz às idéias religiosas aqueles que a haviam repelido. Em resumo, jamais aconselhou mudar de religião, nem de sacrificar as suas crenças; não pertence em particular a nenhuma religião ou, para dizer melhor, ele está em todas as religiões.

 

Algumas palavras ainda, senhores, eu vos peço, sobre uma questão toda prática. O número crescente dos Espíritas, em Lyon, mostra a utilidade do conselho que vos dei no ano passado, relativamente à formação dos grupos. Reunir todos os adeptos em uma só sociedade, hoje já seria uma coisa materialmente impossível, e que o será bem mais ainda em algum tempo. Além do número, as distâncias a percorrer em razão da extensão da cidade, as diferenças de hábito segundo as posições sociais, acrescentam a essa impossibilidade. Por esse motivo, e por muitos outros que seria muito longo desenvolver aqui, uma única sociedade é uma quimera impraticável; multiplicai os grupos o mais possível; que haja dez deles, que haja cem, se for necessário, e ficai certos de que chegareis mais rápido e mais seguramente.

 

Haveria aqui coisas muito importante a dizer sobre a questão da unidade de princípios; sobre a divergência que poderia existir, entre eles, sobre alguns pontos; mas me detenho para não abusar da vossa paciência em me escutar, paciência que já coloquei a prova muito longa. Se o desejais, disso farei o objeto de uma instrução especial que vos remeterei proximamente.

 

Eu termino, senhores, esta alocução, na qual me deixei arrastar pela própria raridade das ocasiões que tenho de ter a felicidade de estar em vosso meio. Levarei, de vossa benevolente acolhida, uma lembrança que não se apagará jamais, disso ficai bem persuadidos.

 

Ainda uma vez, meus amigos, obrigado do fundo do coração pelas marcas de simpatia que consentistes me dar; obrigado pelas boas palavras que me dirigistes pelos vossos intérpretes, e das quais não aceito senão o dever que elas me impõem, por aquilo que me resta a fazer, e não os elogios. Possa esta solenidade ser a garantia da união que deve existir entre todos os verdadeiros Espíritas!

 

Levo um brinde aos Espíritas lioneses, e a todos aqueles, dentre eles, que se distinguem por seu zelo, seu devotamento, sua abnegação, e que vós os enumereis, vós mesmos, sem que eu tenha a necessidade de fazê-lo.

 

Aos Espíritas lioneses, sem distinção de opinião, estejam ou não presentes!


Senhores, os Espíritos querem também ter sua parte nesta festa de família, e nela dizer suas palavras. O de Erasto, que conheceis pelas notáveis dissertações que foram publicadas na Revista, ditou espontaneamente, antes de minha partida, e em vossa intenção, a epístola seguinte, da qual me encarregou de vos ler em seu nome. É com alegria que me desincumbo desse encargo. Tereis assim a prova de que os Espíritos que se comunicam convosco não são os únicos a se ocuparem de vós e do que vos concerne. Esta certeza não pode senão consolidar a vossa fé e a vossa confiança, vendo que o olho vigilante dos Espíritos superiores se estende sobre todos, e que, sem disso duvidar, sois também o objeto de sua solicitude.

 

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Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses
 

Lida no banquete de 19 de setembro de 1861. 

Não é sem uma emoção muito suave que venho conversar convosco, caros Espíritas do grupo lionês; em um meio como o vosso, onde todas as classes estão confundidas, onde todas as condições sociais se dão as mãos, sinto-me cheio de ternura e simpatia, e estou feliz em poder vos anunciar que nós todos, que somos os Espíritos iniciadores do Espiritismo na França, assistiremos com uma alegria muito viva aos vossos fraternais banquetes, aos quais fomos convidados por Jean e Irénée, vossos eminentes guias espirituais. Ah!, esses banquetes despertam, em meu coração, a lembrança daqueles onde nos reuníamos todos, há mil e oitocentos anos, quando combatíamos contra os costumes dissolutos do paganismo romano, e quando já comentávamos os ensinos e as parábolas do Filho do Homem, morto pela propagação da idéia santa sobre a árvore da infâmia! Se o Altíssimo, meus amigos, por um efeito de sua misericórdia infinita, permitisse que a lembrança do passado pudesse irradiar um instante em vossas memórias entorpecidas, vos lembraríeis dessa época, ilustrada pelos santos mártires da plêiade lionesa: Sanctus, Alexandre, Attale, Episode, a doce e corajosa Blandine, Iréneé, o valente bispo, aos quais, muitos dentre vós, formavam então cortejo, aplaudindo o seu heroísmo e cantando os louvores do Senhor; também vos lembraríeis que, vários dentre aqueles que me escutam, regaram com o seu sangue a terra lionesa, esta terra fecunda que Eucher e Grégoire de Tours chamaram a pátria dos mártires. Eu não os nomearei; mas podeis considerar aqueles que cumprem, junto de vosso grupo, uma missão, um apostolado, como já tendo sido mártir da propagação da idéia igualitária, ensinada do alto do Gólgota pelo nosso Cristo bem-amado! Hoje, caros discípulos, aquele que foi sagrado por São Paulo vem vos dizer que a vossa missão é sempre a mesma, porque o paganismo romano, sempre de pé, sempre vivaz, enlaça ainda o mundo, como a hera enlaça o carvalho; deveis, pois, derramar sobre os vossos infelizes irmãos, escravos de suas paixões ou de paixões dos outros, a sã e consoladora doutrina que meus amigos e eu viemos vos revelar pelos nossos médiuns de todos os países. Não obstante, constatamos que os tempos progrediram; que os costumes não são mais os mesmos e que a Humanidade aumentou; porque hoje, se fósseis alvo da perseguição, ela não emanaria mais de um poder tirânico e ciumento, como no tempo da primitiva Igreja, mas dos interesses aliados contra a idéia e contra vós, os apóstolos da idéia.

 

Acabo de pronunciar a palavra igualitária: creio útil deter-me um pouco, porque não viemos pregar, em vosso meio, utopias impraticáveis, e porque, ao contrário, repelimos energicamente tudo o que pareceria se ligar às prescrições de um comunismo anti-social; somos, antes de tudo, essencialmente propagadores da liberdade individual, indispensável ao desenvolvimento dos encarnados; por conseguinte, inimigos declarados de tudo o que se aproxima dessas legislações conventuais que aniquilam os indivíduos. Se bem que me dirijo a um auditório em parte composto de artesãos e de proletários, sei que suas consciências, esclarecidas pelas irradiações da verdade espírita, já repeliram toda comunhão com as teorias anti-sociais dadas em apoio desta palavra: igualdade. Seja como for, creio dever restituir a essa palavra a sua significação cristã, tal como aquele que disse: "Dai a César o que é de César," explicara ele mesmo. Pois bem! Espíritas, a igualdade proclamada pelo Cristo, e que nós mesmos professamos no meio de vossos grupos amados, é a igualdade diante da justiça de Deus, quer dizer, nosso direito, segundo o nosso dever cumprido, de subir na hierarquia dos Espíritos e atingir, um dia, os mundos avançados, onde reina a felicidade perfeita. Para isto, não teve em conta nem o nascimento, nem a fortuna: o pobre e o fraco ali chegam como o rico e o poderoso; porque uns não levam mais do que os outros materialmente; e como lá não se compra nem seu lugar, nem seu perdão, com o dinheiro, os direitos são iguais para todos; igualdade diante de Deus, eis a verdadeira igualdade. Não vos será pedido o que possuístes, mas bem o uso que fizestes daquilo que possuístes. Ora, quanto mais tiverdes possuído, mais longas e mais difíceis serão as contas que tereis a prestar de vossa gestão. Assim, pois, depois de vossas existências de missões, de provas ou de castigos nas paragens terrestres, cada um de vós, segundo suas obras boas ou más, ou progredirá na escala dos seres, ou recomeçará, cedo ou tarde, sua existência, se esta foi desviada. Em conseqüência, eu vo-lo repito, proclamando o dogma sagrado da igualdade, nós não viemos vos ensinar que deveis ser, neste mundo, todos iguais em riquezas, em saber e em felicidade; mas que chegareis todos, na vossa hora e segundo os vosso méritos à felicidade dos eleitos, quinhão das almas de elite que cumpriram os seus deveres. Eis, meus caros Espíritas, a igualdade à qual tendes direito, à qual o Espiritismo emancipador vos conduzirá, e à qual eu vos convido com todas as minhas forças. Para ali chegar, que tendes a fazer? Obedecer a estas duas palavras sublimes: amor e caridade, que resumem admiravelmente a lei e os profetas. Amor e caridade! Ah! aquele que cumpriu, segundo a sua consciência, as prescrições desta máxima divina está seguro de subir rapidamente os degraus da escada de Jacó, e de atingir logo as esferas elevadas, de onde poderá adorar, contemplar e compreender a majestade do Eterno.

 

Não poderíeis crer o quanto nos é doce e agradável presidir ao vosso banquete, onde o rico e o artesão se acotovelam bebendo fraternalmente; onde o judeu, o católico e o protestante podem se sentar na mesma comunhão pascal. Não poderíeis crer o quanto estou orgulhoso em distribuir, a todos e a cada um, os elogios e os encorajamentos que o Espírito de Verdade, nosso mestre bem-amado, me ordenou conceder às vossas piedosas coortes: a ti, Dijoud, a ti, sua digna companheira e a todos vossos devotados missionários que derramais os benefícios do Espiritismo, obrigado pelo vosso concurso e pelo vosso zelo. Mas quem é nobre deve proceder com nobreza, meus amigos, sobretudo a do coração, e serieis muito culpados, muito criminosos em falir, no futuro, em vossas santas missões; mas não falireis; nisso tenho por garantia o bem que fizestes e aquele que vos resta a fazer, mas é a vós meus bem-amados irmãos do labor cotidiano, que reservo minhas mais sinceras felicitações, porque, eu o sei, subis penosamente vosso Gólgota levando, como o Cristo, a vossa cruz dolorosa. Que poderia eu dizer de mais elogioso para vós do que lembrar a coragem e a resignação com que suportais os desastres inauditos que a luta fratricida, mas necessária, das duas Américas engendra no vosso meio? Ah! ninguém pode negar que abenfazeja influencia do Espiritismo não se faça já sentir; ela penetrou com a esperança e a fé, no meio das oficinas; e quando se lembram as épocas do último reinado, onde, desde que o trabalho faltava, os trabalhadores desciam da Croix-Rousse aos Terreaux em grupos tumultuosos, fazendo pressagiar o motim, e o motim a repressão terrível, deve-se agradecer a Deus pela nova revelação. Com efeito, segundo essa imagem vulgar de que se servem, em sua linguagem pitoresca, freqüentemente, lhes é preciso dançar diante do aparador; então, dizem, fechando a correia: Ora essa! Comeremos amanhã!!!! Sei bem que a caridade pública e particular se esforçam e se comovem; mas aí não está o verdadeiro remédio. É preciso melhor para a Humanidade; é por isso que, se o Cristianismo preconizou a igualdade e as leis igualitárias, o Espiritismo recebe em seus flancos a fraternidade e suas leis; obra grandiosa e durável que os séculos futuros bendirão. Lembrai-vos, meus amigos, que o Cristo tomou os seus apóstolos entre os últimos dos homens, e que esses últimos, mais fortes que os Césares, conquistaram o mundo para a idéia cristã. A vós, pois, incumbe e obra santa de esclarecer os vossos companheiros de oficina, e de propagar a nossa sublime Doutrina que faz os homens tão fortes na adversidade, enfim, que o Espírito do mal e da revolta não venha suscitar o ódio e a vingança no coração de vossos irmãos, que a graça espírita ainda não tocou. Essa obra vos pertence inteiramente, meus caros amigos; vós a cumprireis, eu o sei, com zelo e o ardor que dá a consciência de um dever a cumprir; e um dia a história, reconhecida, inscreverá em seus anais que os operários de Lyon, esclarecidos pelo Espiritismo muito mereceram da pátria, e, 1861 e 1862, pela coragem e pela resignação pelas quais suportaram as tristes conseqüências das lutas escravocratas entre os Estados desunidos da América. Que importa! Porque esses tempos de lutas e de provas são, meus filhos, os tempos benditos de Deus, enviados para desenvolver a coragem, a paciência e a energia; para apressar a elevação e o aperfeiçoamento do orbe terrestre e dos Espíritos que nele estão aprisionados nos últimos laços carnais da matéria. Ide! Agora, a trincheira está aberta no velho mundo, e sobre as suas ruínas aclamareis a era espírita da fraternidade, que vos mostra o objetivo e o fim das misérias humanas, consolando e fortificando os vossos corações contra a adversidade e a luta, e confundis os incrédulos e os ímpios, agradecendo a Deus o quinhão de vossos infortúnios e de vossas provas, porque estas vos aproximam da felicidade eterna.

 

Resta-me fazer-vos ouvir alguns conselhos que, com freqüência, os vossos guias habituais vos deram, mas que a minha posição pessoal, e a circunstância atual, me convidam a vos lembrar de novo. Dirijo-me aqui, meus bons amigos, a todos os Espíritas, a todos os grupos, a fim de que nenhuma cisão, nenhuma dissidência, nenhum cisma surja entre" vós, mas que, ao contrário, uma crença solidária vos anime e vos reuna a todos, porque isso é necessário para o desenvolvimento da nossa benfazeja Doutrina. Sinto com uma vontade que constrange vos pregar a concórdia e a união, porque nisso como em toda coisa, a união faz a força, e tendes necessidade de ser fortes e unidos para resistir às tempestades que se aproximam; e não só tendes necessidade de estar unidos entre vós, mas ainda com os vossos irmãos de todos os países; por isso, eu vos peço para seguirem o exemplo que vos dão os Espíritas de Bordeaux, dos quais todos os grupos particulares formam os satélites de um grupo central, o qual solicitou entrar em comunhão com a Sociedade iniciadora de Paris que, a primeira, recebeu os elementos de um corpo de doutrina e colocou bases sérias aos estudos do Espiritismo, que nós todos, Espíritos, professamos pelo mundo inteiro.

 

Sei que o que vos digo aqui não será perdido; refiro-me, de resto, inteiramente aos conselhos que já recebestes, e que recebereis ainda de vossos excelentes guias espirituais, que vos dirigem nesse caminho salutar, porque é preciso que a luz vá do centro aos raios e dos raios ao centro, a fim de que todos aproveitem e se beneficiem dos trabalhos de cada um. E incontestável, aliás, que submetendo-se ao cadinho da razão e da lógica todos os dados e todas as comunicações dos Espíritos, será fácil repelir o absurdo e o erro. Um médium pode ser fascinado, um grupo enganado, mas o controle severo de outros grupos, mas a ciência adquirida e a alta autoridade moral dos chefes de grupos, mas as comunicações dos principais médiuns que recebem uma marca de lógica e de autenticidade dos nossos melhores Espíritos, farão justiça, rapidamente, aos ditados mentirosos e astuciosos emanados de uma turba de Espíritos enganadores, imperfeitos ou maus. Repeli-os, impiedosamente, todos esses Espíritos que se dão como conselheiros exclusivos, pregando a divisão e o isolamento. São quase sempre Espíritos vaidosos e medíocres que tendem a se impor aos homens fracos e crédulos prodigalizando-lhes louvores exagerados, afim de fasciná-los e tê-los sob o seu domínio. São geralmente Espíritos famintos de poder que, déspotas públicos ou privados quando vivos, querem ter ainda vítimas para tiranizar depois de sua morte. Em geral, meus amigos, desconfiai das comunicações que trazem um caráter de misticismo e de estranheza, ou que prescrevem cerimônias e atos bizarros; há sempre, então, um motivo legítimo de suspeita. Por outro lado, crede bem que quando uma verdade deve ser revelada à Humanidade, ela é, por assim dizer, instantaneamente comunicada em todos os grupos sérios, que possuem médiuns sérios.

 

Enfim, creio bom dizer-vos de novo aqui que ninguém é médium perfeito se está obsidiado; a obsessão é um dos maiores escolhos, e há obsessão manifesta quando um médium não está apto para receber senão a comunicação de um Espírito especial, tão alto que este procure se colocar por si mesmo. Em conseqüência, todo médium, todo grupo que se crê privilegiado por comunicações que só eles podem receber, e que, de outra parte, estão sujeitos a práticas que roçam a superstição, indubitavelmente, estão sob a ação de uma obsessão das melhores caracterizadas. Digo-vos tudo isto, meus amigos, porque existem no mundo médiuns fascinados por Espíritos pérfidos. Eu desmascararei impiedosamente esses Espíritos, se ousam ainda profanar nomes veneráveis, dos quais se apoderam como ladrões, e com os quais se adornam orgulhosamente como lacaios com a roupa de seu senhor; eu os pregarei no pelourinho sem piedade, se persistem em afastar do caminho reto Cristãos honestos, Espíritas zelosos, cuja boa fé enganaram. Em uma palavra, deixai-me vos repetir o que já aconselhei aos Espíritas parisienses: vale mais repelir dez verdades momentaneamente do que admitir uma única mentira, uma única falsa teoria; porque sobre essa teoria, sobre essa mentira, poderíeis edificar todo um sistema, que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento edificado sobre areia movediça; ao passo que, se rejeitais hoje certas verdades, certos princípios, o que não vos estão demonstrados logicamente, logo um fato brutal ou uma demonstração irrefutável virá vos afirmar a sua autenticidade.

 

A Jean, a Irénée, a Blandine, assim como a todos vós, Espíritos protetores, incumbe a tarefa de vos premunir, doravante, contra os falsos profetas da erraticidade. O grande Espírito emancipador que preside aos nossos trabalhos, sob o olhar do Todo-Poderoso, a isso provera, podeis nisto crer-me. Quanto a mim, se bem que esteja mais particularmente ligado aos grupos parisienses, virei algumas vezes conversar convosco e seguirei sempre com interesse os vossos trabalhos particulares.

 

Esperamos muito da província lionesa, e sabemos que não faltareis, nem uns nem os outros, às vossas missões respectivas. Lembrai-vos, de que o Cristianismo, trazido pelas legiões cesarianas, lançou, há quase dois mil anos, as primeiras sementes da renovação cristã em Viena e em Lyon, de onde elas se propagaram rapidamente na Gália do Norte. Hoje, o progresso deve se cumprir numa irradiação nova, quer dizer, do Norte para o Sul. À obra, pois, Lioneses!; é preciso que a verdade triunfe, e que não é sem uma legítima impaciência que esperamos a hora em que soará a trombeta de prata, que nos anunciará o vosso primeiro combate e a vossa primeira vitória.

 

Agora deixai-me vos agradecer pelo recolhimento com o que me escutastes, e pela simpática acolhida que me destes. Que Deus Todo-Poderoso, nosso Senhor de todos, vos conceda a sua benevolência, e derrame sobre vós, e sobre seu servidor muito humilde, os tesouros de sua misericórdia infinita! Adeus! Lioneses eu vos bendigo.

ERASTO.