REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 3 - OUTUBRO 1860 - Nº. 10

 

 

DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS

Recebidas ou lidas na Sociedade por vários médiuns

  • FORMAÇÃO DOS ESPÍRITOS

  • OS ESPÍRITOS ERRANTES

  • O CASTIGO

  • MARTE

  • JÚPITER

  • OS ESPÍRITOS PUROS

  • MORADA DOS BEM-AVENTURADOS

  • A REENCARNAÇÃO

  • O DESPERTAR DO ESPÍRITO

  • PROGRESSO DOS ESPÍRITOS

  • A ELETRICIDADE DO PENSAMENTO

  • A HIPOCRISIA

 

 

 

FORMAÇÃO DOS ESPÍRITOS

Médium – Sra. Costel

 

Deus criou a semente humana, que espalhou nos mundos, como o lavrador lança nos sulcos o grão que deve germinar e amadurecer. Essas sementes divinas são moléculas de fogo que Deus faz jorrar do grande foco, centro de vida, onde resplandece o seu poder. Tais sementes são para a Humanidade aquilo que são os germes das plantas para a terra; desenvolvem-se lentamente e só amadurecem após longa permanência nos planetas-mãe, onde se forma o começo das coisas. Falo apenas do princípio; chegado à sua condição de homem o ser se reproduz e a obra de Deus está consumada.

 

Por que, sendo comum o ponto de partida, são tão diversos os destinos humanos? Por que nascem uns num meio civilizado e outros no estado selvagem? Qual é, então, a origem dos demônios? Retomemos a história do Espírito em sua primeira eclosão. Apenas formadas, hesitantes e balbuciantes, as almas são, entretanto, livres de inclinar-se para o bom ou para o mau lado.

 

Desde que viveram, os bons separam-se dos maus. A história de Abel é ingenuamente verdadeira. Apenas saídas das mãos do Criador, as almas ingratas persistem na revolta do crime; então, durante a sucessão dos séculos, elas erram, prejudicando os outros e, sobretudo, a si mesmas, até que sejam tocadas pelo arrependimento, o que acontece infalivelmente. Então os primeiros demônios são os primeiros homens culpados.  Deus, na sua imensa justiça, jamais impõe sofrimentos que não sejam os resultantes dos atos maus. A Terra devia ser inteiramente povoada, mas não o poderia ser igualmente; conforme o grau de progresso obtido nas migrações terrenas, uns nascem nos grandes centros de civilização, enquanto outros, Espíritos incertos, ainda necessitados de iniciação, nascem nas florestas recuadas.  O estado selvagem é preparatório. Tudo é harmonioso, e a alma culpada e cega de um demônio da Terra não pode reviver num centro esclarecido. No entanto, algumas se aventuram nesse meio que não é o seu. Se aí não marchar em uníssono, oferecem o espetáculo da barbárie no seio da civilização.  São seres expatriados.

 

O estado embrionário é o de um ser que ainda não sofreu migração.  Não se pode estudá-lo à parte, por isso que é a origem do homem.

 

Georges

 

OS ESPÍRITOS ERRANTES

Médium – Sra. Costel

 

Os Espíritos estão divididos em várias categorias. A princípio os embriões, que não possuem nenhuma faculdade distinta; que flutuam no ar como insetos que se veem turbilhonar num raio de sol; que volitam sem objetivo e se encarnam sem terem feito escolha. Tornam-se seres humanos ignorantes e grosseiros.

 

Acima deles estão os Espíritos levianos, cujos instintos não são maus, mas apenas maliciosos; divertem-se com os homens e lhes causam aborrecimentos frívolos. São crianças, delas conservando os caprichos e a malícia pueril.

 

Os Espíritos maus não são todos do mesmo grau; uns não fazem outro mal, além de ligeiros enganos; não se prendem a um ser e se limitam a cometer faltas pouco graves.

 

Os Espíritos malfeitores impelem ao mal e gozam com isto, mas ainda têm algum lampejo de piedade.

 

Os Espíritos perversos não a têm. Todas as suas faculdades tendem para o mal. Fazem-no por cálculo e com perseverança; gozam as torturas morais que provocam.

 

Correspondem, no mundo dos Espíritos, aos criminosos no vosso. Chegam a tal perversidade porque desconhecem as leis de Deus; nas suas vidas carnais, sucumbem de queda em queda e passam-se séculos antes que lhes venha um pensamento de renovação. O mal é o seu elemento; nele mergulham com prazer; mas, obrigados a reencarnar-se, passam por tais sofrimentos e esses sofrimentos de tal modo crescem em suas vidas espíritas que a paixão do mal neles se consume; acabam por compreender que devem ceder à voz de Deus, que não cessa de chamá-los. Viram-se Espíritos rebeldes pedir com ardor as mais terríveis expiações e suportar o martírio com alegria. Esse retorno ao bem é uma imensa felicidade para os puros Espíritos. A palavra do Cristo sobre as ovelhas desgarradas é radiosa verdade.

 

Os Espíritos errantes da segunda ordem são os intermediários entre os Espíritos superiores e os mortais, porque é raro que os Espíritos se comuniquem diretamente, sendo preciso que a tanto sejam impelidos por uma solicitude particular. Esses intermediários são os Espíritos dos mortais que não têm nenhum mal grave a se censurar e cujas intenções não foram más.  Recebem missões e, quando as realizam com zelo e amor, são recompensados por um progresso mais rápido. Têm menos migrações a sofrer. Assim, os Espíritos desejam ardentemente essas missões, que só lhes são concedidas como recompensa e quando são julgados capazes de cumpri-las. São os Espíritos superiores que os dirigem e lhes escolhem as funções.

 

Os Espíritos superiores não são todos do mesmo grau. Se eles são dispensados das migrações nos vossos mundos, não o são das condições de progresso nas esferas mais elevadas. Enfim, não existe nenhuma lacuna no mundo visível e no invisível; uma ordem admirável proveu a tudo; nenhum ser é ocioso ou inútil; todos concorrem na medida de suas faculdades para a perfeição da obra de Deus, que não tem termo nem limite.

 

Georges

 

O CASTIGO

Médium – Sra. Costel

 

Os Espíritos maus, egoístas e inflexíveis, logo após a morte são entregues a uma dúvida cruel sobre o seu destino presente e futuro; inicialmente olham em torno de si e, porque não veem nenhum assunto sobre o qual possam exercer a sua influência má, o desespero apodera-se deles, uma vez que o isolamento e a inação são intoleráveis para os Espíritos maus; não levantam o olhar para os lugares habitados pelos Espíritos puros; consideram o que os cerca e logo, sensibilizados pelo abatimento dos Espíritos fracos e punidos, lançam-se a eles como a uma presa, armando-se com a lembrança de suas faltas passadas, incessantemente postas em ação por meio de gestos irrisórios. Não lhes bastando esta zombaria, lançam-se sobre a Terra como abutres esfaimados; procuram entre os homens a alma que dará mais fácil acesso às suas tentações; delas se apoderam, exaltam-lhe a cobiça, tentam extinguir a sua fé em Deus e, finalmente, quando donos de uma consciência veem a presa dominada, espalham o fatal contágio sobre tudo que se aproximar de sua vítima.

 

O Espírito mau que dá vazão à sua raiva é quase feliz; apenas sofre nos momentos em que não age e também naqueles em que o bem triunfa sobre o mal.

 

Entretanto, passam os séculos; o Espírito mau sente-se de súbito invadido pelas trevas.  Aperta-se o seu círculo de ação, e sua consciência, até então muda, faz-lhe sentir as pontas aceradas do arrependimento. Inativo, arrastado pelo turbilhão, vaga, sentindo, como diz a Escritura, o pelo de sua carne se eriçar de pavor; em breve um grande vazio se faz nele e ao seu redor; chegado o momento, deve expiar; a reencarnação, ameaçadora, lá está; ele vê, como numa miragem, as provas terríveis que o aguardam; gostaria de recuar, mas avança e, precipitado no abismo escancarado da vida, rola apavorado até que o véu da ignorância lhe cai sobre os olhos. Vive, age, é ainda culpado; sente em si uma espécie de lembrança inquietante, de pressentimentos que o fazem tremer, mas não o levam a recuar no caminho do mal.  Esgotado de forças e de crimes, vai morrer. Estendido sobre o catre ou sobre o leito – não importa – o homem culpado sente, sob aparente imobilidade, mover-se e viver um mundo de sensações esquecidas! Debaixo das pálpebras fechadas vê surgir um clarão e ouve sons estranhos; sua alma, que vai deixar o corpo, agita-se impaciente, enquanto suas mãos crispadas procuram agarrar-se aos lençóis; gostaria de falar, de gritar aos que o cercam: Segurem-me!  vejo o castigo!  Não pode; a morte se fixa sobre os lábios descorados e os assistentes dizem: Ei-lo em paz!

 

Entretanto, ele ouve tudo; flutua em redor do corpo, que não desejaria abandonar; uma força secreta o atrai: vê, reconhece o que já viu. Desvairado, lança-se no espaço, onde quer esconder-se.  Não há mais retiro!  Não há mais repouso!  Outros Espíritos lhe devolvem o mal que ele fez e, castigado, ridicularizado, confuso por sua vez, erra e errará até que o divino clarão penetre a sua resistência e o esclareça, para lhe mostrar o Deus vingador, o Deus triunfante de todo o mal, que ele só poderá apaziguar à força de gemidos e expiações.

 

Georges

 

OBSERVAÇÃO – Nunca foi desenhado um quadro mais eloquente, mais terrível e mais verdadeiro da sorte do mau.  É então necessário recorrer à fantasmagoria das chamas e das torturas físicas?

 

MARTE

Médium – Sra. Costel

 

Marte é um planeta inferior à Terra, da qual é grosseiro esboço; não é necessário habitá-lo.  Marte é a primeira encarnação dos mais grosseiros demônios. Os seres que o habitam são rudimentares; têm a forma humana, mas sem nenhuma beleza; têm todos os instintos do homem, sem a nobreza da bondade.

 

Entregues às necessidades materiais, comem, bebem, batem-se, acasalam-se. Mas como Deus não abandona nenhuma de suas criaturas, no fundo das trevas de sua inteligência jaz latente o vago conhecimento de si mesmos, mais ou menos desenvolvido. Esse instinto é suficiente para torná-los superiores uns aos outros e preparar a eclosão para uma vida mais completa. A deles é curta como a dos insetos efêmeros. Os homens, que são apenas matéria, desaparecem após curta evolução. Deus tem horror ao mal e só o tolera como servindo de princípio ao bem.  Ele abrevia o seu reino, sobre o qual triunfa a ressurreição.

 

Nesse planeta a terra é árida; pouca verdura; uma folhagem sombria, que a primavera não renova; um dia igual e cinzento. Apenas aparente, o Sol jamais prodigaliza suas festas; o tempo escoa monótono, sem as alternativas e as esperanças das novas estações; não é inverno, não é verão. Mais curto, o dia não é medido do mesmo modo; a noite reina mais longa. Sem indústria, sem invenções, os habitantes de Marte consomem a vida à procura de alimento. Suas grosseiras habitações, baixas como um casebre, são repugnantes pela incúria e pela desordem que nelas reinam. As mulheres se destacam sobre os homens; mais abandonadas, mais famélicas, não passam de suas fêmeas. Têm apenas o sentimento maternal; dão à luz com facilidade, sem nenhuma angústia; alimentam e guardam seus filhos a seu lado, até o completo desenvolvimento de suas forças, e os expulsam sem pesar e sem saudade.

 

Não são canibais; suas contínuas batalhas não têm outro objetivo que não seja a posse de um terreno mais ou menos abundante em caça. Caçam nas planícies intermináveis.  Inquietos e instáveis como os seres desprovidos de inteligência, deslocam-se incessantemente. A igualdade da estação, a mesma em toda parte, comporta, em consequência, as mesmas necessidades e as mesmas ocupações; há pouca diferença entre os habitantes de um e de outro hemisfério.

 

Para eles a morte não representa nenhum pavor ou mistério; consideram-na apenas como a putrefação do corpo, que queimam imediatamente. Quando um desses homens vai morrer, logo é abandonado; então, só e deitado, pensa pela primeira vez; um vago instinto o assalta; como a andorinha advertida da próxima estação, sente que nem tudo está acabado, que vai recomeçar alguma coisa desconhecida. Não é bastante inteligente para supor, temer ou esperar, mas calcula, às pressas, suas vitórias e derrotas; pensa no número de caças que abateu e se regozija ou se aflige conforme os resultados obtidos. Sua mulher – só têm uma por vez, embora possam trocá-las sempre que lhes convêm – agachada à entrada, atira seixos no ar; quando formam um montículo, ela julga que chegou a hora e se aventura a olhar para o interior; se suas previsões se tiverem realizado, se o homem estiver morto, ela entra sem um grito, sem uma lágrima, despoja-o da pele de animais que o envolve, vai friamente avisar seus vizinhos, que transportam o corpo e o incineram, tão logo esfria.

 

Os animais, que por toda parte sofrem os reflexos humanos, são mais selvagens, mais cruéis que em qualquer outro lugar. O cão e o lobo são uma só e mesma espécie, incessantemente em luta com o homem, que, contra eles, se entrega a combates encarniçados. Aliás, menos numerosos, menos variados que na Terra, os animais são a miniatura deles mesmos.

 

Os elementos têm a cólera cega do caos; o mar furioso separa os continentes sem navegação possível; o vento ruge e curva as árvores até o solo; as águas submergem as terras ingratas, que não fecunda; o terreno não oferece as mesmas condições geológicas da Terra; o fogo não o aquece; os vulcões são desconhecidos; as montanhas, pouco elevadas, não oferecem nenhuma beleza; fatigam o olhar e desencorajam a exploração; enfim, por toda parte, monotonia e violência; por toda parte a flor sem cor e sem perfume, por toda parte o homem sem previdência, matando para sobreviver.

 

Georges

 

OBSERVAÇÃO – Para servir de transição entre o quadro de Marte e o de Júpiter, seria necessário o de um mundo intermediário, da Terra, por exemplo, mas que conhecemos suficientemente. Observando-a, fácil é reconhecer que mais se aproxima de Marte que de Júpiter, posto que, mesmo no seio da própria civilização, ainda se encontram seres tão abjetos e tão desprovidos de sentimentos e de humanidade, vivendo no mais absoluto embrutecimento e não pensando senão em suas necessidades materiais, sem jamais terem voltado o olhar para o céu, que parecem ter vindo diretamente de Marte.

 

JÚPITER

Médium – Sra. Costel

 

Infinitamente maior que a Terra, o planeta Júpiter não apresenta o mesmo aspecto. É inundado por uma luz pura e brilhante, que ilumina sem ofuscar. As árvores, as flores, os insetos, os animais, dos quais os vossos são o ponto de partida, ali são maiores e aperfeiçoados; a Natureza é mais grandiosa e mais variada; a temperatura é igual e deliciosa; a harmonia das esferas encanta os olhos e os ouvidos. A forma dos seres que o habitam é a mesma que a vossa, mas embelezada, aperfeiçoada e, sobretudo purificada. Não somos submetidos às condições materiais de vossa natureza: não temos as necessidades, nem as doenças que lhes são consequência. Somos almas revestidas de um envoltório diáfano, que conserva os traços de nossas passadas migrações; aparecemos aos amigos tal como nos conheceram, porém iluminados por uma luz divina, transfigurados por nossas impressões interiores, que são sempre elevadas.

 

Como a Terra, Júpiter é dividido num grande número de países de aspectos variados, mas não de clima.  As diferenças de condições são determinadas apenas pela superioridade moral e de inteligência; não há senhores nem escravos; os mais elevados graus são marcados somente pelas comunicações mais diretas e mais frequentes com os Espíritos puros e pelas mais importantes funções que nos são confiadas.  Vossas habitações não vos podem dar nenhuma ideia das nossas, pois não temos as mesmas necessidades.  Cultivamos as artes, chegadas a um grau de perfeição desconhecida entre vós. Gozamos de espetáculos sublimes; entre eles, o que mais admiramos, à medida que melhor compreendemos, é o da inesgotável variedade das criações, variedades harmoniosas que têm o mesmo ponto de partida e se aperfeiçoam no mesmo sentido. Todos os sentimentos ternos e elevados da natureza humana, nós os encontramos engrandecidos e purificados, e o desejo incessante que temos, de alcançar o plano dos Espíritos puros, não é um tormento, mas uma nobre ambição que nos impele ao aperfeiçoamento. Estudamos incessantemente, com amor, para nos elevarmos até eles, o que também fazem os seres inferiores para nos igualarem.  Vossos pequenos ódios, vossos ciúmes mesquinhos nos são desconhecidos; um laço de amor e de fraternidade nos une: os mais fortes ajudam os mais fracos. Em vosso mundo tendes necessidade da sombra do mal para sentir o bem, da noite para admirar a luz, da doença para apreciar a saúde. Aqui, esses contrastes não são necessários; a eterna luz, a eterna bondade, a calma eterna da alma nos cumulam de uma eterna alegria. Eis o que o Espírito humano tem mais dificuldade para compreender: se foi engenhoso para pintar os tormentos do inferno, jamais pôde representar as alegrias do céu. E por quê? Porque, sendo inferior, só tendo suportado sofrimentos e misérias, não foi capaz de entrever as claridades celestes; não vos pode falar senão do que conhece, como o viajante descreve os países que percorreu. Mas, à medida que se eleva e se depura, o horizonte se aclara e ele compreende o bem que está à sua frente, como compreendeu o mal que ficou para trás.

 

Já outros Espíritos tentaram vos fazer compreender, tanto quanto o permite a vossa natureza, o estado dos mundos felizes, a fim de vos estimular a seguir o único caminho que a eles pode conduzir.  Mas há entre vós os que estão de tal modo ligados à matéria, que ainda preferem as alegrias materiais da Terra às alegrias puras, reservadas ao homem que sabe desligar-se delas. Que gozem, pois, enquanto estão aqui! Porque um triste revés os espera, talvez mesmo nesta vida. Os que escolhemos para nossos intérpretes são os primeiros a receber a luz.  Infelizes, sobretudo, os que não aproveitam o favor que Deus lhes concede, porquanto sua justiça pesará sobre eles!

 

Georges

 

OS ESPÍRITOS PUROS

Médium – Sra. Costel

 

Os puros Espíritos são aqueles que, chegados ao mais alto grau da perfeição, são julgados dignos de ser admitidos aos pés de Deus. O infinito esplendor que os envolve não os dispensa de ser úteis nas obras da Criação: as funções que devem preencher correspondem à extensão de suas faculdades. Esses Espíritos são os ministros de Deus; sob suas ordens, regem os mundos inumeráveis; dirigem do alto os Espíritos e os humanos; estão ligados entre si por um amor sem limites, e esse ardor se estende sobre todos os seres que procuram atrair para se tornarem dignos da suprema felicidade. Deus se irradia sobre eles e lhes transmite suas ordens; eles o veem sem serem ofuscados por sua luz.

 

Sua forma é etérea, nada tendo de palpável; falam aos Espíritos superiores e lhes comunicam sua ciência; tornam-se infalíveis. Em suas fileiras é que são escolhidos os anjos-da-guarda, que bondosamente baixam o olhar sobre os mortais, e os recomendam aos Espíritos superiores, que os amaram. Estes escolhem os agentes de sua direção nos Espíritos de segunda ordem. Os Espíritos puros são iguais, e nem poderia ser de outro modo, pois somente são chamados a essa posição depois de haverem atingido o mais alto grau de perfeição. Há igualdade, mas não uniformidade, porquanto não quis Deus que nenhuma de suas obras fosse idêntica. Os Espíritos puros conservam sua personalidade, que apenas adquiriu a perfeição mais completa no sentido de seu ponto de partida.

 

Não é permitido dar mais detalhes sobre esse mundo supremo.

 

Georges

 

MORADA DOS BEM-AVENTURADOS

Médium – Sra. Costel

 

Falemos das últimas espirais da glória, habitadas pelos Espíritos puros. Ninguém as atinge antes de haver atravessado os ciclos dos Espíritos errantes. Júpiter está no mais alto grau da escala. Quando um Espírito, longamente purificado por sua estada nesse planeta, é julgado digno da suprema felicidade, é disso advertido por um redobramento de ardor; um fogo sutil anima todas as partes delicadas de sua inteligência, que parece irradiar e tornar-se visível; deslumbrante, transfigurado, ele clareia a luz que parecia tão radiosa aos olhos dos habitantes de Júpiter; seus irmãos reconhecem o eleito do Senhor e, trêmulos, ajoelham-se ante a sua vontade. Entretanto, o Espírito escolhido eleva-se, e os céus, na sua suprema harmonia, lhe revelam belezas indescritíveis.

 

À medida que sobe, compreende, não mais como na erraticidade, não mais vendo o conjunto das coisas criadas, como em Júpiter, mas abarcando o infinito. Sua inteligência transfigurada eleva-se como uma flecha até Deus, sem tremor e sem terror, como num foco imenso alimentado por mil objetos diversos. O amor, nesses diversos Espíritos, reveste a cor de sua personalidade; eles se reconhecem e se regozijam. Refletidas, suas virtudes repercutem, por assim dizer, as delícias da visão de Deus e aumentam incessantemente com a felicidade de cada eleito. Mar de amor que cada afluente aumenta, essas forças puras não ficam mais inativas que as forças de outras esferas. Logo investidos do dom da ubiquidade, abrangem ao mesmo tempo os detalhes infinitos da vida humana, desde a sua eclosão até as últimas etapas. Irresistível como a luz, sua vista penetra por toda parte simultaneamente e, ativos como a força que os move, espalham a vontade do Senhor. Como de uma urna cheia escapa a onda benfazeja, sua bondade universal aquece os mundos e confunde o mal.

 

Esses diversos intérpretes têm como ministros de seu poder os Espíritos já depurados. Assim, tudo se eleva, tudo se aperfeiçoa e a caridade irradia sobre os mundos, que alimenta em seu seio poderoso.

 

Os Espíritos puros têm como atributo a posse de tudo quanto é bom e verdadeiro, porque possuem o próprio princípio, que é Deus. O próprio pensamento humano limita tudo que abrange e não admite o infinito, que a felicidade não limita.  Depois de Deus, que pode haver?  Deus ainda, sempre Deus.  O viajante vê os horizontes se sucederem aos horizontes e um é apenas começo de outro; assim, o infinito se desdobra incessantemente. A maior alegria dos Espíritos puros é precisamente essa extensão tão profunda quanto a própria eternidade.

 

Do mesmo modo que não se descreve uma graça, uma chama e um raio, não posso descrever os Espíritos puros.  Mais vivos, mais belos e mais resplandecentes que as mais etéreas imagens, uma palavra resume seu ser, seu poder e seus prazeres: Amor!  Preenchei com esta palavra o espaço que separa a Terra do Céu, e ainda não tereis senão a ideia de uma gota de água no mar. Por mais grosseiro que seja, só o amor terrestre pode vos dar ideia de sua divina realidade.

 

Georges

 

A REENCARNAÇÃO

Médium – Sr. de Grand-Boulogne

 

Há na doutrina da reencarnação uma economia moral que não escapa à tua inteligência.

 

Sendo a corporeidade compatível somente com os atos de virtude, e sendo esses atos necessários ao melhoramento do Espírito, raramente encontrará este, numa única existência, as circunstâncias necessárias ao seu progresso acima da humanidade.

 

Sendo admitido que a justiça de Deus não pode harmonizar-se com as penas eternas, deve a razão concluir pela necessidade: 1.º de um período de tempo durante o qual o Espírito examina o seu passado e toma suas resoluções para o futuro; 2.º de uma existência nova em harmonia com o avanço atual desse Espírito. Não falo dos suplícios, por vezes terríveis, a que são condenados certos Espíritos, durante o período da erraticidade; por um lado eles correspondem à enormidade da falta e, por outro, à justiça de Deus.  Isto diz bastante para dispensar detalhes que, aliás, encontrarás no estudo das evocações. Voltando às reencarnações, haverás de compreender a sua necessidade por uma comparação vulgar, mas de impressionante verdade.

 

Após um ano de estudos, o que acontece ao jovem colegial? Se progrediu, passa para a classe superior; se ficou imobilizado em sua ignorância, repete o ano. Vai mais longe; comete faltas graves e é expulso. Pode vagar de colégio em colégio; pode ser afastado da Universidade e pode ir da casa de educação à casa de correção. Tal a imagem fiel da sorte dos Espíritos e nada satisfaz mais completamente à razão. Quer-se cavar mais profundamente a doutrina?  Ver-se-á, nessas ideias, o quanto a justiça de Deus parece mais perfeita e mais conforme às grandes verdades que dominam a nossa inteligência.

 

No conjunto, como nos detalhes, há nisso algo de tão surpreendente que o Espírito que começa a iniciar-se fica como que iluminado.  E as censuras murmuradas contra a Providência, e as maldições contra a dor, e o escândalo do vício feliz em face da virtude que sofre, e a morte prematura da criança; e, numa mesma família, de encantadoras qualidades, dando, por assim dizer, a mão a uma perversidade precoce; e as enfermidades que datam do berço; e a infinita diversidade de destinos, tanto nos indivíduos, quanto nos povos, problemas até hoje insolúveis, enigmas que fazem duvidar da bondade, e quase da existência de Deus, tudo isto se explica ao mesmo tempo. Um puro raio de luz se estende no horizonte da filosofia nova e, no seu quadro imenso, agrupam-se harmoniosamente todas as condições da existência humana.  As dificuldades se aplainam, os problemas se resolvem, e mistérios até hoje impenetráveis se explicam numa única palavra: reencarnação.

 

Leio em teu pensamento, prezado cristão. Tu dizes: eis, desta vez, uma verdadeira heresia. Meu filho, nada mais que a negação das penas eternas. Nenhum dogma prático entra em contradição com esta verdade. O que é a vida humana? O tempo durante o qual o Espírito permanece unido ao corpo. No dia marcado por Deus os filósofos cristãos não terão nenhuma dificuldade para dizer que a vida é múltipla.  Isso não acrescenta nem muda nada nos vossos deveres. A moral cristã fica de pé e a lembrança da missão de Jesus paira sempre sobre a Humanidade. A religião nada tem a temer deste ensino, e não está longe o dia em que seus ministros abrirão os olhos à luz; por fim reconhecerão, na revelação nova, os socorros que, do fundo de suas basílicas, imploram do céu. Eles creem que a sociedade vai perecer: será salva.

 

Zénon

 

O DESPERTAR DO ESPÍRITO

Médium – Sra. Costel

 

Quando o homem abandona os despojos mortais, experimenta um espanto e um deslumbramento que o deixam por algum tempo indeciso quanto ao seu estado real; não sabe se está morto ou vivo e suas sensações, muito confusas, demoram bastante para aclarar-se.  Pouco a pouco, os olhos do Espírito ficam deslumbrados por diversas claridades que o cercam e ele acompanha toda uma ordem de coisas, grandes e desconhecidas, que de início tem dificuldade em compreender, mas em breve reconhece que não passa de um ser impalpável e imaterial; procura seus despojos e se surpreende de não os encontrar; passa-se algum tempo antes que lhe venha a memória do passado e o convença de sua identidade. Olhando a Terra, que acaba de deixar, vê os parentes e amigos que o pranteiam, como vê o corpo inerte.  Finalmente seus olhos se destacam da Terra e se elevam para o Céu; se a vontade de Deus não o retém no solo, ele sobe lentamente e se sente flutuar no espaço, o que é uma sensação deliciosa. Então a lembrança da vida que deixa lhe aparece com uma clareza às mais das vezes desoladora, mas outras vezes consoladora. Falo-te aqui do que experimentei, eu que não sou um Espírito mau, mas que não tenho a felicidade de ocupar uma posição elevada.  Nós nos despojamos de todos os preconceitos terrenos; a verdade aparece em toda a sua luz; nada atenua as faltas, nada oculta as virtudes; vemos nossa alma tão claramente quanto num espelho; procuramos entre os Espíritos os que foram conhecidos, porque o Espírito se apavora no seu isolamento, mas eles passam sem se deterem; não há relações amistosas entre os Espíritos errantes; aqueles mesmos que se amaram não trocam sinais de reconhecimento; essas formas diáfanas deslizam e não se fixam; as comunicações afetuosas são reservadas aos Espíritos superiores, que intercambiam seus pensamentos. Quanto a nós, nosso estado transitório só serve para o nosso adiantamento, tendo em vista que nada nos distrai; as únicas comunicações que nos são permitidas são com os humanos, porque têm um fim de mútua utilidade, que Deus prescreve.

 

Os Espíritos maus também contribuem para a melhoria humana: servem para as provas; quem lhes resiste, conquista méritos. Os Espíritos que dirigem os homens são recompensados por um grande abrandamento de suas penas. Os Espíritos errantes não sofrem a ausência de comunicações entre si, pois sabem que se encontrarão; têm apenas mais ardor para chegar ao momento em que as provas realizadas lhes darão o objeto de sua afeição, que não pode ser expressa, mas que neles jaz latente. Nenhum dos laços que contraímos na Terra se desfaz; nossas simpatias serão restabelecidas na ordem em que tiverem existido, mais ou menos vivas conforme o grau de calor ou de intimidade que tiverem tido.

 

Georges

 

PROGRESSO DOS ESPÍRITOS

Médium – Sra. Costel

 

Os Espíritos podem avançar intelectualmente, se o quiserem sinceramente e com firmeza. Como os homens, têm o livre-arbítrio e o estado errante não lhes impede o exercício de suas faculdades; até auxilia, facultando-lhes meios de observação, de que podem aproveitar-se.

 

Os Espíritos maus não estão fatalmente condenados a permanecer como tais. Podem melhorar-se, mas raramente o querem, uma vez que lhes falta o discernimento e encontram uma espécie de prazer doentio no mal que praticam. Para que voltem ao bem é necessário que sejam violentamente impressionados e punidos, porquanto seus cérebros tenebrosos não se esclarecem senão pelo castigo.

 

Os Espíritos fracos, que não fazem o mal por prazer, mas que não avançam, são detidos por sua própria fraqueza e por uma espécie de entorpecimento, que paralisa suas faculdades; vão sem saber aonde; passa-se o tempo, sem que o avaliem; pouco se interessam pelo que veem, disso não tiram proveito ou se revoltam. É necessário que o Espírito haja chegado a um certo grau de progresso moral para poder progredir na erraticidade; assim, esses pobres Espíritos frequentemente escolhem muito mal as suas provas; sobretudo procuram ficar o melhor possível na vida corpórea, sem se inquietarem muito com o que serão mais tarde. Esses Espíritos fracos aspiram ardentemente à reencarnação, não para se depurarem, mas para viver ainda.  Os seres que fizeram muitas migrações são mais experimentados que os outros; cada uma de suas existências depositou neles uma soma de conhecimentos mais consideráveis; viram e retiveram; são menos ingênuos do que os que se encontram mais próximos do ponto de partida.

 

Os Espíritos que deixaram a Terra nela reencarnam mais do que alhures, porque a experiência aí adquirida é mais aplicável. Quase não visam outros mundos, senão antes ou após o seu aperfeiçoamento. Em cada planeta as condições de existência são diferentes, porquanto Deus é inesgotável na variedade de suas obras. Entretanto, os seres que os habitam obedecem às mesmas leis de expiação e tendem todos para o mesmo objetivo de completa perfeição.

 

Georges

 

A CARIDADE MATERIAL E A CARIDADE MORAL (1)

Médium – Sra.  de B...

 

“Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros o que quereríamos que nos fizessem eles.” Toda a religião, toda a moral se acham encerradas nestes dois preceitos. Se fossem observados nesse mundo todos seríeis felizes: não mais aí ódios, nem ressentimentos. Direi ainda: não mais pobreza, porquanto, do supérfluo da mesa de cada rico, muitos pobres se alimentariam e não mais veríeis, nos quarteirões sombrios onde habitei durante a minha última encarnação, pobres mulheres arrastando consigo miseráveis crianças a quem tudo faltava.

 

Ricos!  pensai nisto um pouco.  Auxiliai os infelizes o melhor que puderdes. Dai, para que Deus, um dia, vos retribua o bem que houverdes feito, para que tenhais, ao sairdes do vosso invólucro terreno, um cortejo de Espíritos agradecidos, a receber-vos no limiar de um mundo mais ditoso.

 

Se pudésseis saber da alegria que experimentei ao encontrar no Além aqueles a quem, na minha última existência, me fora dado servir!... Dai e amai ao vosso próximo; amai-o como a vós mesmos, porque o sabeis, vós também, agora que Deus permitiu começásseis a vos instruir na ciência espírita, que, repelindo um desgraçado, estareis, quiçá, afastando de vós um irmão, um pai, um amigo vosso de outrora. Se assim for, de que desespero não vos sentireis presa, ao reconhecê-lo no mundo espírita!

 

Desejo compreendais bem o que seja a caridade moral, que todos podem praticar, que nada custa, materialmente falando, porém, que é a mais difícil de exercer-se.

 

A caridade moral consiste em se suportarem umas às outras as criaturas e é o que menos fazeis nesse mundo inferior, onde vos achais, por agora, encarnados. Sede, pois, caridosos, porque avançareis mais no bom caminho; sede humanos e suportai-vos uns aos outros.  Grande mérito há, crede-me, em um homem saber calar-se, deixando fale outro mais tolo do que ele. É um gênero de caridade isso. Saber ser surdo quando uma palavra zombeteira se escapa de uma boca habituada a escarnecer; não ver o sorriso de desdém com que vos recebem pessoas que, muitas vezes erradamente, se supõem acima de vós, quando na vida espírita, a única real, estão, não raro, muito abaixo, constitui merecimento, não do ponto de vista da humildade, mas do da caridade, porquanto não dar atenção ao mau proceder de outrem é caridade moral.  Passando junto a um pobre enfermo, olhá-lo com compaixão tem sempre muito mais mérito do que atirar-lhe um óbolo com desprezo.

 

Contudo, não se deve tomar essa figura ao pé da letra, porque essa caridade não deve impedir a outra. Tende, porém, cuidado principalmente em não tratar com desprezo o vosso semelhante. Lembrai-vos de tudo o que já vos tenho dito: Tende presente sempre que, repelindo um pobre, talvez repilais um Espírito que vos foi caro e que, no momento, se encontra em posição inferior à vossa. Encontrei aqui um dos pobres da Terra, a quem, por felicidade, eu pudera auxiliar algumas vezes, e ao qual, a meu turno, tenho agora de implorar auxílio.

 

Sede, pois, caridosos; não sejais desdenhosos; sabei deixar passar uma palavra que vos fere e não julgueis que ser caridosos seja apenas prodigalizar o auxílio material, mas também praticar a caridade moral. Eu vo-lo repito: praticai uma e outra. Lembrai-vos de que Jesus disse que todos somos irmãos e pensai sempre nisso, antes de repelirdes o leproso ou o mendigo. Virei ainda para vos dar uma comunicação mais longa, pois agora sou chamada. Adeus: pensai nos que sofrem e orai.

 

Irmã Rosália

 

(1) Esta mensagem foi inserida por Allan Kardec e com o mesmo título na obra O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XIII, item 10 na 3ª. e definitiva edição de 1866.

 

A ELETRICIDADE DO PENSAMENTO

Médium – Sra. Costel

 

Falarei do estranho fenômeno que se passa nas assembleias, seja qual for o seu caráter. Quero falar da eletricidade do pensamento, que se espalha, como por encanto, nos cérebros menos preparados para recebê-la. Por si só esse fato poderia confirmar o magnetismo aos olhos dos mais incrédulos. Surpreende-me, sobretudo, a coexistência dos fenômenos e a maneira pela qual se confirmam reciprocamente. Sem dúvida direis: O Espiritismo os explica a todos, pois dá a razão dos fatos, até então relegados ao domínio da superstição. É preciso crer no que ele vos ensina, porque transforma a pedra em diamante, isto é, eleva incessantemente as almas que se aplicam a compreendê-lo e lhes dá, nesta Terra, a paciência para suportar os males, proporcionando-lhes, no Céu, a elevação gloriosa que aproxima do Criador.

 

Volto ao ponto de partida, do qual me afastei um pouco: a eletricidade que une os Espíritos dos homens numa reunião, e os faz compreender, todos ao mesmo tempo, a mesma ideia. Essa eletricidade será, um dia, empregada tão eficazmente entre os homens quanto já o é agora para as comunicações distantes. Chamo-vos a atenção para esta ideia; um dia eu a desenvolverei, pois é muito fecunda. Conservai a calma em vossos trabalhos e contai com a benevolência dos Espíritos bons para vos assistirem.

 

Vou concluir meu pensamento, incompleto na última comunicação. Eu falava da eletricidade do pensamento e dizia que um dia ela seria empregada como o é a sua irmã, a eletricidade física. Com efeito, reunidos, os homens liberam um fluido que lhes transmite, com a rapidez do relâmpago, as menores impressões. Por que jamais se pensou em empregar esse meio, por exemplo, para descobrir um criminoso, ou fazer que as massas compreendam as verdades da religião ou do Espiritismo? Nos grandes processos criminais ou políticos, todos os assistentes dos dramas judiciários puderam constatar a corrente magnética que, pouco a pouco, forçava as pessoas mais interessadas a ocultar o pensamento, a descobri-lo, até mesmo a se acusar, por não mais poderem suportar a pressão elétrica que, mau grado seu, fazia brotar a verdade, não de sua consciência, mas de seu coração. Deixando de lado essas grandes emoções, o mesmo fenômeno se reproduz nas ideias intelectuais, que se comunicam de cérebro a cérebro. O meio, portanto, já foi encontrado; trata-se de aplicá-lo: reunir num mesmo centro homens convictos, ou homens instruídos, e lhes opor a ignorância ou o vício. Essas experiências devem ser feitas conscientemente, e são mais importantes do que os inúteis debates travados sobre palavras.

 

Delphine de Girardin

 

A HIPOCRISIA

Médium – Sr. Didier Filho

 

Deveria haver na Terra dois campos bem distintos: o dos homens que fazem o bem abertamente e o dos que fazem o mal abertamente. Mas não! O homem não é franco nem mesmo no mal: afeta virtude. Hipocrisia! Hipocrisia!  deusa poderosa, quantos tiranos procriaste?  quantos ídolos fizeste adorar? O coração do homem é realmente muito estranho, pois pode bater quando está morto e amar, em aparência, a honra, a virtude, a verdade e a caridade! Diariamente o homem se prostra ante estas virtudes e falta à sua palavra, desprezando o pobre e o Cristo. Todo dia mente, todo dia é um tartufo! Quantos homens parecem honestos porque a aparência muitas vezes engana! Cristo os chamava sepulcros caiados, isto é, cheios de podridão por dentro e limpos por fora, brilhando ao sol.  Homem, na verdade tu pareces essa morada da morte; e, enquanto teu coração estiver morto, não serás inspirado por Jesus, essa divina luz que não clareia o exterior, mas ilumina interiormente.

 

A hipocrisia, entendei bem, é o vício de vossa época; e quereis fazer-vos grandes pela hipocrisia! Em nome da liberdade, vos engrandeceis; em nome da moral, vos embruteceis; em nome da verdade, mentis.

 

Lamennais

 

Allan Kardec

 

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