REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 9  - ABRIL 1866 - Nº. 4

 

 

DA REVELAÇÃO.

 

 

 

A revelação, no sentido litúrgico, implica numa idéia de misticismo e de maravilhoso. O materialismo a repele naturalmente, porque ela supõe a intervenção de forças e de inteligências extra-humanas. Fora da negação absoluta, muitas pessoas se colocam hoje estas perguntas: Houve ou não uma revelação? A revelação é necessária? Trazendo aos homens a verdade inteiramente feita, não teria por efeito impedi-los de fazer uso de suas faculdades, uma vez que lhes poupa o trabalho da pesquisa? Estas objeções nascem da falsa idéia que se faz da revelação. Tomemo-la primeiro em sua acepção mais simples, para segui-la até seu ponto mais elevado.

 

Revelar é fazer conhecer uma coisa que não é conhecida; é ensinar a alguém o que ele não sabe. Deste ponto de vista, para nós uma revelação, por assim dizer, incessante. Qual é o papel do professor diante de seus alunos, se não é o de um revelador? Ensina-lhes o que não sabem, o que não teriam nem o tempo, nem a possibilidade de descobrir por si mesmos, porque a ciência é a obra coletiva dos séculos e de uma multidão de homens que lhe trouxeram, cada um, seu contingente de observações, e do qual se aproveitam aqueles que vêm depois deles. O ensino, pois, em realidade, é a revelação de certas verdades científicas ou morais, físicas ou metafísicas, feitas por homens que as conhecem, a outros que as ignoram, e que, sem isto, as teriam sempre ignorado. Encontrar-se-ia mais lógica em deixá-los procurar por si mesmos essas verdades? Esperar para ensiná-los a se servir do vapor quando tivessem inventado a mecânica? Não se poderia dizer que em revelando o que outros encontraram foram impedidos de exercer suas faculdades? Ao contrário, não é em se apoiando sobre os conhecimentos das descobertas anteriores que chegam às descobertas novas? Fazer conhecer ao maior número possível a maior soma possível de verdades conhecidas é, pois, provocar a atividade da inteligência em lugar de abafá-la, e levar ao progresso; sem isto, o homem ficaria estacionário.

 

Mas o professor não ensina senão o que ele aprendeu; é um revelador de segunda ordem; o homem de gênio ensina o que encontrou por si mesmo: é o revelador primitivo; foi ele que trouxe a luz que, cada vez mais, se vulgarizou. Onde nisto estaria a Humanidade, sem a revelação dos homens de gênio que aparecem de tempo em tempo?

 

Mas o que são os homens de gênio? Por que são homens de gênio? De onde vêm? Em que se tornam? Notemos que a maioria, em nascendo, traz faculdades transcendentais e conhecimento inatos, que um pouco de trabalho basta para desenvolver. Eles pertencem bem realmente à Humanidade, uma vez que nascem, vivem e morrem como nós. Onde, pois, haurem esses conhecimentos que não puderam adquirir quando vivos? Dir-se-á, com os materialistas, que o acaso lhes deu a matéria cerebral em maior quantidade e de melhor qualidade? Neste caso, não teriam mais mérito que um legume mais pesado e mais saboroso do que um outro.

 

Dir-se-á, com certos espiritualistas, que Deus os dotou de uma alma mais favorecida do que a do comum dos homens? Suposição também inteiramente ilógica, uma vez que acusaria Deus de parcialidade. A única solução racional desse problema está na preexistência da alma e na pluralidade das existências. O homem de gênio é um Espírito que viveu por muito mais tempo, que tem, conseqüentemente, mais adquirido e mais progredido do que aqueles menos avançados. Em se encarnando, traz o que sabe, e como ele sabe muito mais que os outros, sem ter necessidade de aprender, é o que se chama homem de gênio. Mas o que ele sabe não é menos o fruto de um trabalho anterior e não o resultado de um privilégio. Antes de nascer, era, pois, Espírito avançado; ele se reencarna seja para fazer os outros aproveitarem do que sabe, seja para adquirir mais.

 

Os homens, incontestavelmente, progridem por si mesmos e pelos esforços de sua inteligência; mas entregues às suas próprias forças, esse progresso é muito lento, se não são ajudados por homens mais avançados, como o escolar o é por seus professores. Todos  os  povos  tiveram  seus  homens  de  gênio  que  vieram,  em  diversas  épocas,  dar  um impulso e tirá-los de sua inércia.

 

Desde que se admite a solicitude de Deus para com suas criaturas, por que não admitir-se que os Espíritos capazes, por sua energia e a superioridade de seus conhecimentos, de fazer a Humanidade avançar, se encarnam pela vontade de Deus tendo em vista ajudar o progresso num sentido determinado; que recebem uma missão, como um embaixador a recebe de seu soberano? Tal é o papel dos grandes gênios. Que vêm fazer, se- não ensinar aos homens verdades que estes ignoram, e que teriam ignorado ainda durante longos períodos, a fim de lhes dar um degrau com a ajuda do qual poderão se elevar mais rapidamente? Esses gênios que aparecem através dos séculos, como estrelas brilhantes, deixam depois deles um longo rastro luminoso sobre a Humanidade, são missionários,  ou,  querendo-se,  messias.  Se  não  ensinassem  aos  homens  nada  além  do  que sabem estes últimos, sua presença seria completamente inútil; as coisas novas que ensinam, seja na ordem física, seja na ordem moral, são revelações.

 

Se Deus suscita reveladores para as verdades científicas, com mais forte razão, os suscita  para  as  verdades  morais,  que  são  um  dos  elementos  essências  do  progresso. Tais são os filósofos, cujas idéias atravessaram os séculos.

 

No sentido especial da religiosa, os reveladores são mais geralmente designados sob  os  nomes  de  profeta  sou  messias.  Todas  as  religiões  tiveram  seus  reveladores,  e embora todos estivessem longe de ter conhecido toda a verdade, tinham a sua razão de ser providencial, porque estavam apropriados ao tempo e ao meio onde viviam, ao gênio particular dos povos com os quais falava, e aos quais eram relativamente superiores. Apesar dos erros de suas doutrinas, eles não comoveram menos os espíritos, e por isto mesmo semeado os germes de progresso que, mais tarde, deveriam desabrochar, ou desabrocharão um dia, ao sol do Cristianismo. É, pois, errado que se lhes lance o anátema em nome da ortodoxia, porque dia virá em que  todas essas crenças, tão diversas pela forma, mas que repousam em realidade sobre um mesmo princípio fundamental: Deus e a imortalidade da alma, se fundirão numa grande e vasta unidade, quando a razão tiver triunfado sobre os preconceitos.

 

Infelizmente, as religiões foram em todos os tempos instrumentos de dominação; o papel do profeta tentou as ambições secundárias, e viu-se surgir uma multidão de pretensos reveladores ou messias que, ao favor do prestígio desse nome, exploraram a credulidade em proveito de seu orgulho, de sua cupidez ou de sua preguiça, achando mais cômodo viver  às expensas de seus ingênuos. A religião cristã não está ao abrigo desses parasitas. A esse respeito, chamamos uma atenção séria sobre o capítulo XXI de O Evangelho  Segundo  o  Espiritismo:  "Haverá  falsos  Cristos  e  falsos  profetas.  A  linguagem simbólica  de  Jesus  tem  favorecido  singularmente  as  interpretações  mais  contraditórias; cada um, esforçando-se em torturar-lhe o sentido, acreditou nela encontrar a sanção de seus objetivos pessoais, freqüentemente mesmo a justificativa das doutrinas mais contrárias ao espírito de caridade e de justiça, dos quais é a base. está o abuso que desaparecerá pela própria força das coisas, sob o império da razão. Não é esse ponto do qual vamos  nos  ocupar  aqui.  Somente  constatamos  as  duas  grandes  revelações  sobre  as quais se apóia o Cristianismo: a de Moisés e a de Jesus, porque elas tiveram uma influência decisiva sobre a Humanidade. O islamismo pode ser considerado como um derivado de concepção humana, do mosaísmo e do Cristianismo. Para dar crédito à religião que queria fundar, Maomé teve que se apoiar sobre uma pretensa revelação divina.

 

revelações diretas de Deus aos homens? É uma questão que não ousaríamos resolver  nem  afirmativamente  nem  negativamente  de  maneira  absoluta.  A  coisa  não  é radicalmente impossível, mas nada dela nos uma prova certa. O que não poderia ser duvidoso é que os Espíritos mais próximos de Deus pela perfeição, se penetram de seu pensamento e podem transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, segundo a ordem hierárquica à qual pertencem e o grau de seu saber pessoal, podem haurir suas instruções  em  seus  próprios  conhecimentos,  ou  recebê-las  de  Espíritos  mais  elevados,  ver mesmo os mensageiros diretos de Deus. Estes, falando em nome de Deus, puderam, às vezes ser tomados pelo próprio Deus.

 

Essas espécies de comunicações nada têm de estranho para quem conhece os fenômenos espíritas e a maneira pela qual se estabelecem as relações entre os encarnados e os desencarnados. As instruções podem ser transmiti- das por diversos meios: pela inspiração pura e simples, pela audição da palavra, pela vi- são dos Espíritos instrutores nas visões e aparições, seja em sonho, seja no estado de vigília, assim como se vêem disto muitos exemplos na Bíblia,  no Evangelho e  nos livros sagrados de todos os povos. É, pois, rigorosamente exato dizer que a maioria dos reveladores são médiuns inspirados, auditivos ou videntes; donde não se segue que todos os médiuns sejam reveladores, e ainda menos os intermediários diretos da Divindade ou de seus mensageiros.

 

Somente os puros Espíritos recebem a palavra de Deus com missão de transmiti-la (*); mas sabe-se agora que os Espíritos estão longe de serem todos perfeitos, e que os há que se dão falsas aparências; foi o que fez São João dizer: "Não creiais em todo Espírito, mas vede antes se os Espíritos são de Deus." (Ep. 1 -, cap. IV, v. 4.)

 

Pode, pois, haver reveladores rios e verdadeiros, como os apócrifos e mentirosos. O caráter essencial da revelação divina é o da eterna verdade. Toda revelação maculada de erros ou sujeita a mudanças não pode emanar de Deus, porque Deus não pode nem se enganar conscientemente nem enganar a si mesmo. Assim é que a lei do Decálogo tem todos os caracteres de sua origem, ao passo que as outras leis mosaicas, essencialmente transitórias, freqüentemente em contradição com a lei do Sinai, são a obra pessoal e política do legislador hebreu. Os costumes do povo se abrandando, essas leis por si mesmas caem em desuso, ao passo que o Decálogo está de como o farol da Humanidade. O Cristo fez dele a base do seu edifício, ao passo que aboliu as outras leis; se elas tivessem sido a obra de Deus, ter-se-ia guardado de tocá-las. O Cristo e Moisés são os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo, e es a prova de sua missão divina. Uma obra puramente humana não teria um tal poder.

 

Uma nova e importante revelação se cumpre na época atual; é a que nos mostra a possibilidade de comunicar com os seres do mundo espiritual. Este conhecimento não é novo, sem dúvida, mas ficou até nossos dias, de alguma sorte, em estado de letra morta, quer dizer, sem proveito para a Humanidade. A ignorância das leis que regem essas relações a tinha abafado sob a superstição; o homem era incapaz de dela tirar alguma dedução salutar; estava reservado à nossa época desembaraçá-la de seus acessórios ridículos, de compreender-lhe a importância, e dela fazer sair a luz que deverá clarear o caminho do futuro.

 

Os  Espíritos  não  sendo  outros  senão  as  almas  dos  homens,  em  se  comunicando com eles não saímos da Humanidade, circunstância capital a se considerar. Os homens de gênio que foram a luz da Humanidade saíram, pois, do mundo dos Espíritos como nele reentraram deixando a Terra. Desde que os Espíritos podem se comunicar com os homens, esses mesmos gênios podem lhes dar instruções sob a forma espiritual, como o fizeram sob a forma corpórea; eles podem nos instruir depois de sua morte, como o fizeram  quando  vivos;  são  invisíveis  em  lugar  de  serem  visíveis,  eis  toda  a  diferença.  Sua experiência e seu saber não devem ser menores, e se sua palavra como homens tinha autoridade, ela não deve ter menos porque estão no mundo dos Espíritos.

 

Mas  não  são  apenas  os  Espíritos  superiores  que  se  manifestam,  são  também  os Espíritos de todas as ordens, e isto era necessário para nos iniciar no verdadeiro caráter do mundo dos Espíritos, em no-lo mostrando sob todas suas faces; por isso, as relações entre o mundo visível e o mundo invisível são mais íntimas, a conexão é mais evidente; vemos claramente de onde viemos e onde vamos; tal é o objetivo essencial dessas manifestações. Todos os Espíritos, a qualquer grau que tenham chegado, nos ensinam, pois, alguma coisa; mas como são mais ou menos esclarecidos, cabe a nós discernir o que há neles de bom ou de mau, e tirar o proveito que seu ensinamento comporta; ora, todos, quaisquer que sejam, podem nos ensinar ou nos revelar coisas que ignoramos e que sem eles não saberíamos.

 

Os  grandes  Espíritos  encarnados  são  individualidades  poderosas,  sem  contradita, mas cuja ação é restrita e necessariamente lenta para se propagar. Que um único entre eles, fosse mesmo Elias ou Moisés, tivesse vindo nestes últimos tempos revelar aos homens o estado do mundo espiritual, quem teria provado a verdade de suas afirmativas, nesse  tempo  de  ceticismo?  Não  se  o  teria  olhado  como  um  sonhador  ou  um  utópico? Admitindo que estivesse na verdade absoluta, séculos teriam se escoado antes que suas idéias fossem aceitas pelas massas. Deus, em sua sabedoria, não quis que fosse assim; quis que o ensino fosse dado pelos próprios Espíritos, e  não por encarnados, a fim de convencer de sua existência, e que teve lugar simultaneamente por toda a Terra, seja para propagá-lo mais rapidamente, seja para que se encontrasse na coincidência do ensino uma prova da verdade, cada um tendo assim os meios de se convencer por si mesmo. Tais são o objetivo e o caráter da revelação moderna.

 

Os Espíritos não vêm livrar o homem do trabalho, do estudo e das pesquisas; eles não  trazem  nenhuma  ciência  inteiramente  feita;  sobre  o  que  podem  encontrar  por  si mesmos, o deixam à suas próprias forças; é o que os Espíritas sabem perfeitamente hoje. Depois de muito tempo a experiência demonstrou o erro da opinião que atribuía aos Espíritos todo o saber e toda a sabedoria, e que bastava se dirigir a qualquer um para conhecer todas as coisas. Saídos da humanidade, os Espíritos dela são uma das faces; como sobre a Terra, os superiores e os vulgares; muitos deles sabem, pois, cientificamente e filosoficamente menos do que certos homens; dizem o que sabem, nem mais nem menos; como entre os homens, os mais avançados podem nos informar sobre mais coisas, nos dar conselhos mais judiciosos do que os atrasados. Pedir conselho aos Espíritos não é, pois,  dirigir-se  às  forças  sobrenaturais,  mas  aos  seus  semelhantes,  aqueles  mesmos  a quem se teria dirigido quando vivo, aos seus parentes, aos seus amigos, ou a indivíduos mais esclarecidos do que nós. Eis do que importa se persuadir e o que ignoram aqueles que, não tendo estudado o Espiritismo, se fazem uma idéia completamente falsa sobre a natureza do mundo dos Espíritos e das relações de além-túmulo.

 

Qual é, pois, a utilidade dessas manifestações, e o que se quer desta revelação, se os Espíritos disso não sabem mais do que nós, ou se não nos dizem tudo o que sabem? Primeiro, como o dissemos, eles se abstêm de nos dar o que podemos adquirir pelo trabalho; em segundo lugar, coisas que não lhes é permitido revelar, porque nosso grau de adiantamento não o comporta. Mas, isto à parte, as condições de sua nova existência estendem o círculo de suas percepções; vêem o que não viam sobre a Terra; livres dos entraves da matéria, liberados dos cuidados  da  vida  corpórea,  julgam  as  coisas  de  um ponto mais elevado, e por isto mesmo mais sadiamente; sua perspicácia abarca um horizonte mais vasto; eles compreendem seus erros, retificam suas idéias e se desembaraçam dos preconceitos humanos. Nisto é que consiste a sua superioridade sobre a Humanidade corpórea, e que seus conselhos podem ser, de acordo com o seu grau de adiantamento, mais judiciosos e mais desinteressados do que o dos encarnados. O meio no qual se encontram lhes permite, além disso, nos iniciar nas coisas da vida futura que ignoramos, e que não podemos aprender  naquele em que estamos. Até este dia o homem não tinha criado senão hipóteses sobre o seu futuro; eis porque suas crenças sobre este ponto foram divididas em sistemas tão numerosos e tão divergentes, desde o nihilismo até as fantásticas descrições do inferno e do paraíso. Hoje são as testemunhas oculares, os próprios autores da vida de além-túmulo, que vêm nos dizer o que ela é, e os únicos que podem fazê-lo. Essas manifestações, pois, serviram para nos fazer conhecer o mundo invisível que nos cerca, e que nós não supúnhamos; e este conhecimento seria de uma importância capital, supondo-se que os Espíritos fossem incapazes de nada nos ensinar a mais.

 

Uma comparação vulgar fará compreender melhor ainda a situação.

 

Um navio carregado de emigrantes parte para um destino longínquo; leva homens de todas as condições, parentes e amigos daqueles que ficam. Informa-se que esse navio naufragou; nem um traço resta dele, nenhuma novidade chega sobre sua sorte; pensa-se que todos os viajantes pereceram, e o luto está em todas as famílias. No entanto, toda tripulação, sem dela excetuar um único homem, abordou uma terra desconhecida, terra abundante e fértil, onde todos vivem felizes, sob um céu clemente; mas o ignoram. Ora, eis um dia em que um outro navio aborda essa terra; ali encontra todos os náufragos sãos e salvos. A notícia feliz se espalha com a rapidez do relâmpago; cada um se diz: "Nossos amigos  não  estão,  pois,  perdidos!"  E  disto  rendem  graças  a  Deus.  Não  podem  SR  ver, mas se correspondem; trocam testemunhos de afeição, e eis que a alegria sucede à tristeza.

 

Tal é a imagem da vida terrestre e da vida de além-túmulo, antes e depois da revelação moderna; esta, semelhante ao segundo navio, nos leva a boa nova da sobrevivência daqueles que nos são caros, e a certeza de se juntar a eles um dia; a dúvida sobre sua sorte e sobre a nossa não existe mais; o desencorajamento se apaga diante da esperança.

 

Mas outros resultados vêm fecundar esta revelação. Deus, julgando a Humanidade madura para penetrar o mistério de seu destino e contemplar com sangue frio novas maravilhas, permitiu que o véu que separava o mundo visível do mundo invisível fosse levantado.  O  fato  das  manifestações  nada  têm  de  extra-humano;  é  a  Humanidade  espiritual que vem conversar com a Humanidade corpórea e dizer-lhe: "Nós existimos, portanto, o nada não existe; eis o que somos, e eis o que sereis; o futuro está para vós como está para nós. Caminháveis nas trevas, viemos clarear vosso caminho e abrir a senda; íeis ao acaso, nós vos mostramos o objetivo. A vida terrestre era tudo para vós, porque não víeis nada além; viemos vos dizer, em vos mostrando a vida espiritual: A vida terrestre nada é. Vossa visão se detém no túmulo, nós vos mostramos além um horizonte esplêndido. Não sabíeis porque sofreis sobre a Terra; agora, no sofrimento, vedes a justiça de Deus; o bem era sem frutos aparentes para o futuro, terá doravante um objetivo e será uma necessidade; a fraternidade não era senão uma bela teoria, agora se assenta sobre uma lei da Natureza. Sob o império da crença de que tudo acaba com a vida, a imensidade é vazia, o egoísmo reina soberano entre vós, e vossa palavra de ordem é esta: "Cada um por si"; com a certeza do futuro, os espaços infinitos se povoam ao infinito, o vazio e a solidão não estão em nenhuma parte, a solidariedade liga todos os seres para além e para aquém do túmulo; é o reino da caridade, com esta divisa: "Cada um por todos e todos por cada um." Enfim, no fim da vida dieis um eterno adeus àqueles que vos são caros, agora lhes dizeis: "Até breve!"

 

Tais são, em resumo, os resultados da revelação nova; ela veio encher o vazio cavado pela incredulidade, levantar as coragens abatidas pela dúvida ou pela perspectiva do nada, e dar a toda coisa sua razão de ser. Este resultado, pois, é sem importância, porque os Espíritos não vêm resolver os problemas da ciência, dar o saber aos ignorantes, e aos preguiçosos o meio de se enriquecerem sem trabalho? No entanto, os frutos que o homem deve dela retirar não são apenas para a vida futura; ele os colherá sobre a Terra pela transformação que essas novas crenças devem necessariamente operar sobre seu caráter, seus gostos, suas tendências, e, conseqüentemente, sobre os hábitos e as relações sociais. Pondo fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, preparam o do bem, que é o reino de Deus.

 

A revelação tem, pois, por objeto colocar o homem na posse de certas verdades que não poderia adquirir por si mesmo, e isto tendo em vista ativar o progresso. Essas verdades  se  limitam,  em  geral,  a  princípios  fundamentais  destinados  a  colocá-lo  no  caminho das pesquisas e não a conduzi-lo pela andadeira; são as balizas que lhe mostram o objetivo: cabe a ele a tarefa de estudá-las e de deduzir-lhes as aplicações; longe de livrá-lo do trabalho, são novos elementos fornecidos à sua atividade.

 

(*) Ler sobre a Escala Espírita in O Livro dos Espíritos itens 100 à 113 e as respostas às questões: 168, 170,  226, 233, 268, 562, 563, 625 e 626. (Nota da A ERA DO ESPÍRITO)

 

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