REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 3 - ABRIL 1860 - Nº. 4

 

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE O OBJETIVO

E O CARÁTER DA SOCIEDADE

(no Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas de abril de 1860)

 

 

 

Sexta-feira, 9 de março de 1860 – Sessão particular

 

Leitura do projeto de modificações a ser introduzido no regulamento da Sociedade. A respeito, o Sr. Allan Kardec apresenta as seguintes observações:

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE O OBJETIVO E O CARÁTER DA SOCIEDADE:

 

“Senhores,

 

“Algumas pessoas parecem equivocadas quanto ao verdadeiro objetivo e o caráter da Sociedade. Permiti-me relembrá-los em poucas palavras.

 

“O objetivo da Sociedade está claramente definido em seu título e no preâmbulo do regimento atual. Esse objetivo é, essencialmente e, pode-se dizer, com exclusividade, o estudo da ciência espírita. O que queremos, antes de tudo, não é nos convencer, pois já o estamos, mas instruir-nos e aprender o que não sabemos. Para tanto, queremos nos colocar nas mais favoráveis condições. Como esses estudos exigem calma e recolhimento, queremos evitar tudo quanto seja causa de perturbação. Tal é a consideração que deve prevalecer na apreciação das medidas que vamos adotar.

 

“Partindo deste princípio, a Sociedade não se apresenta absolutamente como uma Sociedade de propaganda. Sem dúvida, cada um de nós deseja a difusão das ideias que julgamos justas e úteis, contribuindo no círculo de suas relações e na medida de suas forças; entretanto, será erro pensar que para isso seja necessário estar reunidos em sociedade e, mais falso ainda, crer que a Sociedade seja a coluna sem a qual o Espiritismo estaria em perigo. Estando regularmente constituída, nossa Sociedade procede com mais ordem e método do que se marchasse ao acaso; mas, abstração disso, ela não é mais preponderante do que os milhares de sociedades livres ou reuniões particulares, existentes na França e no estrangeiro. Ainda uma vez, o que ela quer, é instruir-se; eis por que só admite em seu seio pessoas sérias e animadas do mesmo desejo, porque o antagonismo de princípios é uma causa de perturbação. Falo de um antagonismo sistemático sobre as bases fundamentais, porquanto não poderia ela, sem se contradizer, afastar a discussão sobre as questões de detalhe. Se adotou certos princípios gerais, não o fez por espírito de estreito exclusivismo. Ela tudo viu, tudo estudou, tudo comparou, e somente depois disso é que firmou uma opinião, baseada na experiência e no raciocínio Só o futuro pode encarregar-se de lhe dar ou não razão. Mas, enquanto espera, não procura nenhuma supremacia e somente os que não a conhecem podem supor-lhe a ridícula pretensão de absorver todos os partidários do Espiritismo ou de fazer-se passar como reguladora universal.  Se ela não existisse, cada um de nós instruir-se-ia por seu lado e, em vez de uma única reunião, talvez formássemos dez ou vinte: eis toda a diferença.

 

Não impomos nossas ideias a ninguém. Os que as adotam é porque as consideram justas. Os que vêm a nós é porque pensam aqui encontrar oportunidade de aprender, mas não se trata de uma filiação, pois não formamos nem seita, nem partido. Reunimo-nos para estudar o Espiritismo, como outros se reúnem para estudar a frenologia, a história ou outras ciências. E como nossas reuniões não se baseiam em nenhum interesse material, pouco nos importa se outras se formam ao nosso lado. Na verdade, seria atribuir-nos ideias bem mesquinhas, bem estreitas e bem pueris crer que as veríamos com olhos ciumentos; os que pensassem em nos criar rivalidades mostrariam, por isso mesmo, quão pouco compreendem o verdadeiro espírito da doutrina. Só lamentamos uma coisa: que nos conheçam tão mal, a ponto de nos suporem acessíveis ao ignóbil sentimento do ciúme. Compreende-se que empresas mercenárias rivais, que podem prejudicar-se pela concorrência, se vejam com maus olhos. Mas se essas reuniões não tiverem em vista, como deveriam ter, senão um interesse puramente moral, e a elas não se misturarem nenhuma consideração mercantil, pergunto: Em que poderiam ser prejudicadas pela multiplicidade? Dirão, sem dúvida, que se não existe interesse material, há o do amor-próprio, o direito de destruir o crédito moral de seu vizinho.  Mas talvez esse móvel fosse mais ignóbil ainda. Se é assim – que Deus não permita!  – apenas lamentaremos os que forem movidos por semelhantes pensamentos. Queremos sobrepujar os vizinhos? Tratemos de fazer melhor que eles; eis aí uma luta nobre e digna, desde que não seja ofuscada pela inveja e pelo ciúme.

 

“Eis, pois, senhores, um ponto essencial, que não deve ser perdido de vista: não formamos uma seita, nem uma sociedade de propaganda, nem uma corporação com interesse comum; se deixássemos de existir, o Espiritismo não sofreria nenhum prejuízo, formando-se, de nossas ruínas, vinte outras sociedades. Portanto, os que buscassem destruir-nos com o objetivo de entravar o progresso das ideias espíritas, nada ganhariam com isso; é necessário saberem que as raízes do Espiritismo não estão em nossa Sociedade, mas no mundo inteiro. Existe algo mais poderoso que eles, mais influente que todas as sociedades: é a doutrina, que vai ao coração e à razão dos que a compreendem e, sobretudo, dos que a praticam.

 

“Esses princípios, senhores, indicam-nos o verdadeiro caráter do nosso regimento, que nada tem em comum com os estatutos de uma corporação. Nenhum contrato nos liga uns aos outros; fora de nossas sessões não temos outras obrigações recíprocas que não sejam as de nos comportarmos como gente bem-educada. Os que nessas reuniões não encontrarem aquilo que nelas esperam achar, têm toda liberdade de retirar-se; eu mesmo não compreenderia que permanecessem, desde que não lhes convenha o que aqui se faz.  Não seria racional que viessem perder tempo.

 

“Em toda reunião é preciso uma regra para a manutenção da boa ordem. Falando claramente, nosso regulamento nada mais é que uma instrução destinada a estabelecer ordem em nossas sessões, a manter, entre os assistentes, as relações de urbanidade e de conveniência que devem presidir a todas as assembleias de pessoas educadas, abstração feita das condições inerentes à especialidade de nossos trabalhos. Porque não tratamos apenas com homens, mas com Espíritos que, como sabeis, não são igualmente bons, e contra a velhacaria dos quais é preciso que nos resguardemos.  Nesse número, alguns são muito astuciosos e podem mesmo, por ódio ao bem, impelir-nos a uma vida perigosa. Cabe a nós ter bastante prudência e perspicácia para frustrá-los, o que nos obriga a tomar precauções particulares.

 

“Lembrai-vos, Senhores, da maneira pela qual se formou a Sociedade. Eu recebia em minha casa algumas pessoas em pequeno comitê. Com o crescimento do grupo, acharam que era preciso um local maior. Para consegui-lo, teríamos de pagar; tivemos, portanto, que nos cotizar. Disseram mais: é preciso ordem nas sessões; não se pode admitir o primeiro que chegar; é necessário, portanto, um regulamento. Eis toda a história da Sociedade. Como vedes, é bem simples. Não entrou na cabeça de ninguém fundar uma instituição, nem se ocupar do que quer que seja fora dos estudos; eu próprio declaro, de maneira muito formal, que se um dia a Sociedade quiser ir além, não a acompanharei.

 

“O que fiz, outros são mestres em fazê-lo, ocupando-se à vontade, conforme seus gostos, suas ideias, seus pontos de vista particulares.  E esses diferentes grupos podem perfeitamente entender-se e viver como bons vizinhos. A menos que utilizemos uma praça pública como local de assembleia, considerando-se que é impossível reunir num mesmo lugar todos os partidários do Espiritismo, esses diversos grupos devem ser fração de um grande todo, mas não seitas rivais. E o mesmo grupo, tornado muito numeroso, pode subdividir-se, como os enxames de abelhas. Estes grupos já existem em grande número e se multiplicam todos os dias. Ora, é precisamente contra essa multiplicidade que a má vontade dos inimigos do Espiritismo virá quebrar-se, porque os entraves teriam como efeito inevitável, pela própria força das coisas, a multiplicação das reuniões particulares.

 

“Entretanto, é preciso convir que em certos grupos há uma espécie de rivalidade ou, antes, de antagonismo.  Qual a causa? Meu Deus!  esta causa está na fraqueza humana, no espírito de orgulho que quer impor-se; está, sobretudo, no conhecimento ainda incompleto dos verdadeiros princípios do Espiritismo.  Cada um defende os seus Espíritos, como outrora as cidades da Grécia defendiam seus deuses que, seja dito de passagem, não passavam de Espíritos mais ou menos bons. Essas dissidências só existem porque há pessoas que querem julgar, antes de terem visto tudo, ou que julgam do ponto de vista de sua personalidade. Elas se apagarão, como muitas outras já se apagaram, à medida que a ciência se reformular; porque, em última análise, a verdade é uma só, e sairá do exame imparcial das diferentes opiniões. Esperando que a luz se faça sobre todos os pontos, qual será o juiz? Dir-se-á que é a razão. Mas quando duas pessoas se contradizem, cada uma invoca a sua razão.  Que razão superior decidirá entre as duas?

 

“Sem nos determos sobre a forma mais ou menos imponente da linguagem, forma que os Espíritos impostores e pseudossábios sabem muito bem tomar para seduzir pelas aparências, partimos do princípio de que os Espíritos bons não podem aconselhar senão o bem, a união e a concórdia; que sua linguagem é sempre simples, modesta, marcada pela benevolência, isenta de acrimônia, de arrogância e de fatuidade. Numa palavra, tudo neles respira a mais pura caridade. Caridade – eis o verdadeiro critério para julgar os Espíritos e julgar-se a si próprio. Quem quer que, sondando o foro íntimo de sua consciência, encontrar um germe de rancor contra o próximo, mesmo um simples desejo do mal, pode dizer a si mesmo, sem sombra de dúvida, que é solicitado por um Espírito mau, porque esquece estas palavras do Cristo: “Sereis perdoados como vós mesmos houverdes perdoado.” Portanto, se houvesse rivalidade entre dois grupos espíritas, os Espíritos verdadeiramente bons não poderiam estar ao lado daquele que lançasse anátema ao outro, pois jamais um homem sensato poderia acreditar que a inveja, o rancor, a malevolência, numa palavra, todo sentimento contrário à caridade, pudesse emanar de uma fonte pura. Procurai, então, de que lado há mais caridade prática, e não de palavras, e reconhecereis sem dificuldade de que lado estão os melhores Espíritos e, consequentemente, de quais deles temos mais razão de esperar a verdade.

 

“Estas considerações, senhores, longe de nos afastar do nosso objetivo, colocam-nos no verdadeiro terreno. Encarado desse ponto de vista, o regimento perde completamente seu caráter de contrato, para revestir aquele, bem mais modesto, de uma simples regra disciplinar.

 

Todas as reuniões, seja qual for o seu objetivo, deverão premunir-se contra um escolho: o dos caracteres trapalhões, que parecem nascidos para semear a perturbação e a cizânia, onde quer que se encontrem. A desordem e a contradição são o seu elemento. As reuniões espíritas, mais que as outras, devem pôr-se em guarda contra eles, porque as melhores comunicações só são obtidas na calma e no recolhimento, incompatíveis com sua presença e com os Espíritos simpáticos que os conduzem.

 

“Em resumo, o que devemos buscar é remover todas as causas de perturbação e de interrupção; manter entre nós as boas relações, de que os espíritas sinceros, mais que outros, devem dar exemplo; opor-nos, por todos os meios possíveis, ao afastamento da Sociedade de seus objetivos, à abordagem de questões que não são de sua alçada, e que degenere em arena de controvérsias e de personalismo. O que devemos buscar, ainda, é a possibilidade de execução, simplificando o mais possível as engrenagens.  Quanto mais complicadas forem estas engrenagens, maiores serão as causas de perturbação.  O relaxamento seria introduzido pela força das coisas, e deste à anarquia não há mais que um passo.”

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