REVISTA ESPÍRITA

JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

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PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE

ALLAN KARDEC

 

ANO 12 -  1869 - Nºs. Diversos

 

 

COMUNICAÇÕES DE ALLAN KARDEC APÓS O SEU DESENCARNE

NOTA: Após o desencarne de Allan Kardec ocorrido em 31 de março de 1869,

diversos números da Revista Espírita publicaram algumas comunicações do mestre.

Nesta página elas foram reproduzidas por ordem de publicação.

 

 

 

DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS

 

Não nos permitindo a abundância de matérias publicar atualmente todas as instruções ditadas por ocasião dos funerais do Sr. Allan Kardec, nem mesmo todas as que foram dadas por ele próprio, reunimos numa única comunicação os ensinamentos de interesse geral, obtidos através de diversos médiuns.

 

(Sociedade de Paris, abril de 1869)

(Comunicação publicada na Revista Espírita de maio de 1869)

 

Como vos agradecer, senhores, pelos vossos bons sentimentos e pelas verdades expressas com tanta eloquência sobre os meus restos mortais? Não podeis duvidar: eu estava presente e profundamente feliz, sensibilizado pela comunhão de pensamento que nos unia pelo coração e pelo espírito.

 

Obrigado, meu jovem amigo (O Sr. C. Flammarion), obrigado por vos haverdes afirmado, como o fizestes. Vós vos exprimistes com calor; assumistes uma responsabilidade grave, séria e esse ato de independência vos será contado duplamente; nada perdestes por dizer o que as vossas convicções e a Ciência vos impõem. Assim agindo, podeis ser discutido, mas sereis honrado merecidamente.

 

Obrigado a vós todos, caros colegas, meus amigos; obrigado ao jornal Paris, que começa um ato de justiça pelo artigo de um bravo e digno coração.

 

Obrigado, caro vice-presidente; Sr. Delanne, Sr. E. Muller, recebei a expressão dos meus sentimentos de viva gratidão, vós todos que hoje apertais afetuosamente a mão de minha corajosa companheira.

 

Como homem, estou muito feliz pelas boas lembranças e pelos testemunhos de simpatia que me prodigalizais; como espírita eu vos felicito pelas determinações que tomastes para assegurar o futuro da Doutrina; porque, se o Espiritismo não é minha obra, ao menos eu lhe dei tudo quanto as forças humanas me permitiram lhe desse. É como colaborador enérgico e convicto, como campeão, de todos os instantes, da grande doutrina deste século, que a amo, e me sentiria infeliz se a visse perecer, caso isto fosse possível.

 

Ouvi com sentimento de profunda satisfação o meu amigo, o vosso novo e digno presidente, vos dizer: “Ajamos de acordo; vamos despertar os ecos, que há muito tempo não mais ressoam; vamos reavivar aqueles que ecoam! Que não seja Paris, que não seja a França o teatro de vossa ação; vamos a toda parte! Demos à Humanidade inteira o maná que lhe falta; demos-lhe o exemplo da tolerância que ela esquece, da caridade que conhece tão pouco!”

 

Agistes para assegurar a vitalidade da Sociedade; está certo. Tendes o desejo sincero de marchar com firmeza pelo sulco traçado; ainda está certo. Mas, não basta querer hoje, amanhã, depois de amanhã; para ser digno da Doutrina é preciso querer sempre! A vontade que age por espasmos não é mais vontade: é o capricho no bem; mas, quando a vontade se exerce com a calma que nada perturba, com a perseverança que nada detém, é a verdadeira vontade, inquebrantável em sua ação, frutuosa em seus resultados.

 

Sede confiantes em vossas forças: elas produzirão grandes efeitos se as empregardes com prudência; sede confiantes na força da ideia que vos une, pois ela é indestrutível.  Pode-se ativar ou retardar o seu desenvolvimento, mas é impossível detê-la.

 

Na fase nova em que entramos, a energia deve substituir a apatia; a calma deve substituir o ímpeto. Sede tolerantes uns para com os outros; agi sobretudo pela caridade, pelo amor, pela afeição. Oh!  se conhecêsseis todo o poder desta alavanca! Foi essa alavanca que levou Arquimedes a dizer que com ela levantaria o mundo! Vós o levantareis, meus amigos, e esta transformação esplêndida, que será efetuada por vós em proveito de todos, marcará um dos mais maravilhosos períodos da história da Humanidade.

 

Coragem, pois, e esperança. Esperança!... esse facho que os vossos infelizes irmãos não podem perceber através das trevas do orgulho, da ignorância e do materialismo, não o afasteis ainda mais de seus olhos. Amai-os; fazei com que vos amem, vos ouçam, vos olhem! Quando tiverem visto, ficarão deslumbrados.

 

Então, meus amigos, meus irmãos, como eu seria feliz ao ver que os meus esforços não foram inúteis e que o próprio Deus abençoou a nossa obra! Nesse dia haverá no céu uma grande alegria, um grande êxtase! A Humanidade estará livre do jugo terrível das paixões que a acorrentam e oprimem com um peso esmagador. Então não mais haverá na Terra o mal, nem o sofrimento, nem a dor; porquanto os verdadeiros males, os sofrimentos reais, as dores cruciantes vêm da alma. O resto não passa do leve roçar de um espinho sobre as vestes!...

 

Ao clarão da liberdade e da caridade humanas, todos os homens, reconhecendo-se, dirão: “Somos irmãos” e só terão no coração um mesmo amor, na boca uma só palavra, nos lábios um só murmúrio: Deus!

 

Allan Kardec

 

O EXEMPLO É O MAIS PODEROSO AGENTE DE PROPAGAÇÃO

(Sociedade de Paris, sessão de 30 de abril, 1869)

(Comunicação publicada na Revista Espírita de junho de 1869)

 

Venho esta noite, meus amigos, falar-vos por alguns instantes. Na última sessão não respondi; estava ocupado alhures. Nossos trabalhos como Espíritos são muito mais extensos do que podeis supor e os instrumentos de nossos pensamentos nem sempre estão disponíveis. Tenho ainda alguns conselhos a vos dar quanto à marcha que deveis seguir perante o público, com o objetivo de fazer progredir a obra a que devotei a minha vida corporal, e cujo aperfeiçoamento acompanho na erraticidade.

 

O que vos recomendo principalmente e antes de tudo, é a tolerância, a afeição, a simpatia de uns para com os outros e também para com os incrédulos.

 

Quando vedes um cego na rua, o primeiro sentimento que se impõe é a compaixão. Que assim seja, também, para com os vossos irmãos cujos olhos estão velados pelas trevas da ignorância ou da incredulidade; lamentai-os, em vez de os censurar. Mostrai, por vossa doçura, a vossa resignação em suportar os males desta vida, a vossa humildade em meio às satisfações, vantagens e alegrias que Deus vos envia; mostrai que há em vós um princípio superior, uma alma obediente a uma lei, a uma verdade também superior: o Espiritismo.

 

As brochuras, os jornais, os livros, as publicações de toda sorte são meios poderosos de introduzir a luz por toda parte, mas o mais seguro, o mais íntimo e o mais acessível a todos é o exemplo na caridade, a doçura e o amor.

 

Agradeço à Sociedade por ajudar os verdadeiros infortunados que lhe são indicados. Eis o bom Espiritismo, eis a verdadeira fraternidade. Ser irmãos: é ter os mesmos interesses, os mesmos pensamentos, o mesmo coração!

 

Espíritas, sois todos irmãos na mais santa acepção do termo. Pedindo que vos ameis uns aos outros, não faço senão lembrar a divina palavra daquele que, há mil e oitocentos anos, trouxe à Terra pela primeira vez o gérmen da igualdade. Segui a sua lei: ela é a vossa; nada fiz do que tornar mais palpáveis alguns de seus ensinamentos. Obscuro operário daquele mestre, daquele Espírito superior emanado da fonte de luz, refleti essa luz como o pirilampo reflete a claridade de uma estrela. Mas a estrela brilha nos céus e o pirilampo brilha na Terra, nas trevas. Tal é a diferença.

 

Continuai as tradições que vos deixei ao partir.

 

Que o mais perfeito acordo, a maior simpatia e a mais singular abnegação reinem no seio da Comissão. Espero que ela saiba cumprir com honra, fidelidade e consciência o mandato que lhe é confiado.

 

Ah! quando todos os homens compreenderem o que encerram as palavras amor e caridade, não mais haverá na Terra soldados e inimigos; só haverá irmãos; não mais haverá olhares irritados e selvagens; só haverá frontes inclinadas para Deus!

 

Até logo, caros amigos, e ainda obrigado, em nome daquele que não esquece o copo d’água e o óbolo da viúva.

 

Allan Kardec

 

A REGENERAÇÃO

(MARCHA DO PROGRESSO)

(Paris, 20 de junho de 1869)

(Comunicação publicada na Revista Espírita de julho de 1869)

 

Desde longos séculos as humanidades prosseguem uniformemente sua marcha ascendente através do tempo e do espaço. Cada uma delas percorre, etapa por etapa, a rota do progresso, e se diferem pelos meios infinitamente variados que a Providência dispôs em suas mãos, são chamadas a se fundirem todas, a se identificarem na perfeição, já que todas partem da ignorância e da inconsciência de si mesmas para se aproximarem indefinidamente do mesmo fim: Deus; para alcançarem a felicidade suprema pelo conhecimento e pelo amor.

 

Há universos e mundos, como povos e indivíduos. As transformações físicas da terra, que sustenta o corpo, podem dividir-se em duas formas, assim como as transformações morais e intelectuais que alargam o espírito e o coração.

 

A terra se modifica pela cultura, pelo arroteamento e pelos esforços perseverantes dos seus possuidores e interessados; mas, a esse aperfeiçoamento incessante devemos juntar os grandes cataclismos periódicos, que são, para o regulador supremo, o que são a enxada e a charrua para o lavrador.

 

As humanidades se transformam e progridem pelo estudo perseverante e pela permuta de pensamentos. Instruindo-se e instruindo os outros, as inteligências se enriquecem, mas os cataclismos morais que regeneram o pensamento são necessários para determinar a aceitação de certas verdades.

 

Assimilam-se sem abalos e progressivamente as consequências de verdades aceitas. É preciso um concurso imenso de esforços perseverantes para que se aceitem novos princípios. Marcha-se lentamente e sem fadiga sobre um caminho plano, mas é necessário reunir todas as suas forças para transpor um atalho agreste e destruir os obstáculos que surgem. É então que, para avançar, deve o homem quebrar necessariamente a corrente que o liga ao pelourinho do passado, pelo hábito, pela rotina e pelo preconceito; a não ser assim, o obstáculo fica sempre de pé, e ele girará num círculo sem saída até que tenha compreendido que, para vencer a resistência que obstrui a rota do futuro, não basta quebrar armas envelhecidas e danificadas: é indispensável criar outras.

 

Destruir um navio que faz água por todos os lados, antes de empreender uma travessia marítima, é medida de prudência, mas será ainda necessário, para realizar a viagem, que se criem novos meios de transporte. Entretanto, eis onde se encontra atualmente certo número de homens de progresso, tanto no mundo moral e filosófico, quanto nos outros mundos do pensamento! Minaram tudo, tudo atacaram! As ruínas se espalham por toda parte, mas eles ainda não compreenderam que sobre tais ruínas é preciso edificar algo de mais sério que um livre-pensamento e uma independência moral, independentes apenas da moral e da razão. O nada em que se apoiam não é uma palavra muito profunda somente por ser vazia. Assim como Deus já não cria os mundos do nada, o homem não pode criar novas crenças sem bases. Estas bases estão no estudo e na observação dos fatos.

 

A verdade eterna, como a lei que a consagra, não espera para existir a aceitação dos homens; ela é e governa o Universo, a despeito dos que fecham os olhos para não a ver. A eletricidade existia antes de Galvani e o vapor antes de Papin, como a nova crença e os princípios filosóficos do futuro existiam antes que os publicistas e os filósofos os tivessem consagrado.

 

Sede pioneiros perseverantes e infatigáveis!... Se vos chamarem de loucos como o fizeram a Salomão de Caus, se vos repelirem como Fulton, marchai sempre, porque o tempo, esse juiz supremo, saberá tirar das trevas os que alimentam o farol que deve, um dia, iluminar a Humanidade inteira.

 

Na Terra, o passado e o futuro são os dois braços de uma alavanca que tem no presente o seu ponto de apoio. Enquanto a rotina e os preconceitos tiverem curso, o passado estará no apogeu. Quando a luz se faz, a báscula balança, e o passado, que já escurecia, desaparece para dar lugar ao futuro que irradia.

 

Allan Kardec

 

(Paris, 17 de agosto de 1869)

(Comunicação publicada na Revista Espírita de setembro de 1869)

 

Analisando através das eras a história da Humanidade, o filósofo e o pensador logo reconhecem, na origem e no desenvolvimento das civilizações, uma gradação insensível e contínua. – De um conjunto homogêneo e bárbaro surge, em primeiro lugar, uma inteligência isolada, desconhecida e perseguida, mas que, não obstante, faz época e serve de baliza, de ponto de referência para o futuro. – A tribo, ou se quiserdes, a nação, o Universo avançam em idade e as balizas se multiplicam, semeando aqui e ali os princípios de verdade e de justiça que serão a partilha das gerações que chegam. Essas balizas esparsas são os precursores; eles semeiam uma ideia, desenvolvem-na durante sua vida terrena, vigiam-na e a protegem no estado de Espírito, e voltam periodicamente através dos séculos para trazerem seu concurso e sua atividade ao seu desenvolvimento.

 

Tal foi João Huss e tantos outros precursores da filosofia espírita.

 

Semearam, laboraram e fizeram a primeira colheita; depois voltaram para semear ainda, esperando que o futuro e a intervenção providencial viessem fecundar sua obra.

 

Feliz aquele que, do alto do espaço, pode contemplar as diversas etapas percorridas e os trabalhos realizados por amor à verdade e à justiça; o passado não lhe dá senão satisfação, e se suas tentativas foram incompletas e improdutivas no presente, se a perseguição e a ingratidão por vezes ainda vêm perturbar a sua tranquilidade, ele pressente as alegrias que lhe reserva o futuro.

 

Glória na Terra e nos espaços a todos os que consagraram a existência inteira ao desenvolvimento do espírito humano. Os séculos futuros os veneram e os mundos superiores lhes reservam a recompensa devida aos benfeitores da Humanidade.

 

João Huss encontrou no Espiritismo uma crença mais completa, mais satisfatória que suas doutrinas e o aceitou sem restrição. – Como ele, eu disse aos meus adversários e contraditores: “Fazei algo de melhor e me reunirei a vós.” O progresso é a eterna lei dos mundos, mas jamais seremos ultrapassados por ele, porque, do mesmo modo que João Huss, sempre aceitaremos como nossos os princípios novos, lógicos e verdadeiros que cabe ao futuro nos revelar.

 

Allan Kardec

 

O ESPIRITISMO E A LITERATURA CONTEMPORÂNEA

(Paris, 14 de setembro de 1869)

(Comunicação publicada na Revista Espírita de outubro de 1869)

 

O Espiritismo é, por sua própria natureza, modesto e pouco ruidoso. Ele existe pelo poder da verdade, e não pelo barulho feito em seu redor por seus adversários e partidários.

 

Utopia ou sonho de uma imaginação desordenada, após um breve sucesso ele teria caído sob a conspiração do silêncio, ou melhor ainda, sob a do ridículo que, segundo se pretende, tudo destrói na França. Mas o silêncio não aniquila senão as obras sem consistência e o ridículo só mata o que é mortal. Se o Espiritismo sobreviveu, embora nada tenha feito para escapar às ciladas de toda natureza que lhe armaram, é porque não é obra de um homem, nem de um partido, mas o resultado da observação dos fatos e da coordenação metódica das leis universais. Supondo-se que os seus adeptos humanos desapareçam, que as obras que o erigiram em corpo de doutrina sejam destruídas, ele ainda sobreviveria por tão longo tempo quanto a existência dos mundos e das leis que os regem. 

 

Alguém é materialista, católico, muçulmano ou livre pensador por sua vontade ou sua convicção; mas basta existir, se não para ser espírita, ao menos para estar sujeito ao Espiritismo. Pensar, refletir, viver, são, efetivamente, atos espíritas, e por estranha que pareça esta pretensão, ela prontamente se justifica após alguns minutos de exame por aqueles que admitem uma alma, um corpo e um intermediário entre essa alma e esse corpo; pelos que, como Pascal e Louis Blanc, consideram a Humanidade como um homem que vive sempre e aprende sem cessar; pelos que, como La Liberté, admitem que um homem possa viver sucessivamente em dois séculos diferentes e exercer sobre as instituições e a filosofia de seu tempo uma influência da mesma natureza.

 

Quer se esteja convicto ou não, pensar, ouvir a voz interior da meditação, não é praticar um ato espírita, se realmente existem Espíritos? Viver, isto é, respirar, não é fazer o corpo sentir uma impressão que se transmite ao Espírito por meio do perispírito? Admitir esses três princípios constitutivos do ser humano é admitir uma das bases fundamentais da Doutrina, é ser espírita ou pelo menos ter um ponto de contato com o Espiritismo, uma crença comum com os espíritas.

 

Entrai para o nosso meio abertamente ou pela porta oculta, senhores sábios, isso pouco importa, desde que entreis. A Doutrina vos penetra desde agora e, como a mancha de óleo, estende-se e cresce sem cessar. Vós sois dos nossos, porque a ciência humana entra a todo vapor nos domínios da filosofia e a filosofia espírita admite todas as conclusões racionais da Ciência. Sobre esse terreno comum, quer aceiteis ou não, quer deis às vossas concessões um nome qualquer, estareis conosco e a forma não nos importa, se o fundo é o mesmo.

 

Estais bem perto de crer e sobretudo de vos convencer, senhor de Girardin, que achastes conveniente tomar do Espiritismo suas palavras, suas formas e seus princípios fundamentais, para cativar os vossos leitores! E vós todos, poetas, romancistas, literatos, não sois um pouco espíritas, quando vossos personagens sonham com um passado que jamais conheceram,  quando reconhecem lugares que jamais visitaram, quando a simpatia ou a aversão surgem entre eles ao primeiro contato? Sem dúvida fazeis Espiritismo, como os cenógrafos fazem as peças teatrais; para vós, talvez, ele seja um ardil, uma encenação, um quadro. Que nos importa!  Não deixais de popularizar menos os ensinos que encontram eco em toda parte, porque muitos pressentem, sem poder definir, esses princípios de convicção sobre os quais as vossas penas sábias ou poéticas lançam a luz da evidência. O Espiritismo é uma fonte fecunda, senhores! É o inexaurível Golconda que enriquece o espírito e o coração dos escritores que exploram e dos que leem as suas produções!

 

Obrigado, senhores!  sois nossos aliados, sem querer, talvez sem saber, mas nós vos deixamos o julgamento de vossas intenções, para só apreciarmos os resultados.

 

Lamentava-se a penúria dos instrumentos de convicções; o número de médiuns diminuía; seu zelo esfriava; mas agora, não é o poeta da moda, o literato cujas obras se disputam, o sábio encarregado de esclarecer as inteligências, os que popularizam e propagam por toda parte a nova convicção?

 

Ah! não temais pelo futuro do Espiritismo! Criança, ele escapou de todos os cercos do inimigo; adolescente, e adotado por bem ou por mal pela Ciência e pela literatura, não deixará a sua marcha invasora senão quando houver inscrito em todos os corações os princípios regeneradores que restabelecerão a paz e a harmonia por toda parte onde ainda reinam a desordem e as dissensões intestinas.

 

Allan Kardec

 

 O ESPIRITISMO E O ESPIRITUALISMO

(Paris, 4 de outubro de 1869, em casa de Miss Anna Blackwell)

(Comunicação publicada na Revista Espírita de novembro de 1869)

 

Estou mais feliz do que podeis imaginar, meus bons amigos, por vos encontrar reunidos. Estou entre vós, numa atmosfera simpática e benevolente, que satisfaz ao mesmo tempo ao meu espírito e ao meu coração.

 

Há muito tempo que eu desejava ardentemente o estabelecimento de relações regulares entre a escola francesa e a escola americana. Para nos entendermos, meu Deus, bastaria simplesmente nos vermos e trocar opiniões. Sempre considerei o vosso salão, cara senhorita, como uma ponte lançada entre a Europa e a América, entre a França e a Inglaterra, e que contribui poderosamente para suprimir as divergências que nos separam, e estabelecer, numa palavra, uma corrente de idéias comuns, da qual surgiriam, no futuro, a fusão e a unidade.

 

Caro Sr. Peebles, permiti-me cumprimentar-vos pelo vosso vivo desejo de entrar em relação conosco. Não devemos lembrar se somos espíritas ou espiritualistas. Seremos uns pelos outros, homens e Espíritos que buscam conscienciosamente a verdade e que a acolherão com reconhecimento, quer resulte dos estudos franceses ou dos estudos americanos.

 

No espaço os Espíritos conservam suas simpatias e seus hábitos terrestres. Os Espíritos dos americanos mortos são ainda americanos, como os desencarnados que viveram na França são ainda franceses no espaço. Daí a diferença dos ensinamentos em certos centros. Cada grupo de Espíritos, por sua própria natureza, por seu espírito nacional, apropria suas instruções ao caráter, ao gênio especial daqueles a quem falam. Mas, assim como na Terra, as barreiras que separam as nacionalidades tendem a desaparecer, também no espaço os caracteres distintivos se apagam, as nuanças se confundem e, num tempo futuro, menos afastado do que supondes, não mais haverá na Terra nem no espaço, nem franceses, nem ingleses, nem americanos, mas homens e Espíritos, filhos de Deus da mesma maneira, e aspirando, por todas as suas faculdades, ao progresso e à regeneração universais.

 

Senhores, eu saúdo nesta noite, nesta reunião, a aurora de uma próxima fusão das diversas escolas espíritas, e me felicito de encontrar o Sr. Peebles no número dos homens sem prevenção, cujo concurso e boa vontade assegurarão a vitalidade dos nossos ensinamentos no futuro e sua universal vulgarização.

 

Traduzi as minhas obras!  Só se conhecem na América os argumentos contra a reencarnação. Quando as demonstrações em favor desse princípio ali se tornarem populares, o Espiritismo e o Espiritualismo não tardarão a se confundir, tornando-se, por sua fusão, a Filosofia natural adotada por todos.

 

Allan Kardec

 

N. do T.: Embora no original conste o dia 14 de setembro, esta comunicação foi dada no dia 4 de outubro, conforme Errata contida na última página do fascículo de dezembro de 1869.

 

OS ANIVERSÁRIOS

(Paris, 21 de setembro de 1869)

(Comunicação publicada na Revista Espírita de novembro de 1869)

 

Há entre todos os homens do mundo moderno um costume digno de elogios, sem a menor dúvida, que, pela força das coisas, logo se verá transformado em norma. Quero falar dos aniversários e dos centenários!

 

Uma data célebre na história da Humanidade, seja por uma conquista gloriosa do espírito humano, seja pelo nascimento ou a morte de benfeitores ilustres, cujo nome está inscrito em caracteres indeléveis no grande livro da imortalidade, uma data célebre, como disse, vem cada ano lembrar a todos que somente aqueles que trabalharam para melhorar a sorte de seus irmãos têm direito a todo respeito, a toda veneração. As datas sangrentas se perdem na noite dos tempos, e se por vezes ainda nos lembramos com orgulho as vitórias de um grande guerreiro, é com profunda emoção que nos recordamos dos que procuraram, por meio de armas mais pacíficas, derrubar as barreiras que separam as nacionalidades. Isto é bom, é digno, mas é suficiente? A Humanidade santifica seus grandes homens; fá-lo com justiça, e suas sentenças, ouvidas pelo tribunal divino, são inapeláveis, porque foi a consciência universal que as pronunciou.

 

Povo: a admiração, o respeito, a simpatia comovem o teu coração, animam o teu espírito, excitam a tua coragem, mas é necessário ainda mais. É necessário que a emoção que experimentas encontre eco em todos os grandes Espíritos que assistem, invisíveis e enternecidos, à evocação de suas generosas ações; é preciso que estes últimos reconheçam discípulos e êmulos entre os que fazem reviver o seu passado. Lembrai-vos! a memória do coração é o selo dos Espíritos progressistas, chamados ao batismo da regeneração; mas provai que compreendeis o devotamento de vossos heróis prediletos, agindo como eles, num teatro menos vasto, talvez, mas dignificante, para adquirir ou fazer que adquiram, aqueles que vos cercam, os princípios de liberdade, de solidariedade e de tolerância, que constituem a única legislação dos universos.

 

Após quinhentos anos, João Huss vive na memória de todos, ele que não derramou senão o seu próprio sangue para a defesa das liberdades que havia proclamado. Mas, alguém se lembra do príncipe que, na mesma época, ao preço de enormes sacrifícios de homens e dinheiro, tentou apoderar-se das terras de seus vizinhos? Lembra-se dos salteadores armados que exigiam contribuição dos viajantes imprudentes? E, contudo, a celebridade está associada ao guerreiro, ao bandido e ao filósofo; mas o guerreiro e o assassino estão mortos para a posteridade. Sua lembrança jaz encerrada entre duas folhas amareladas das histórias medievais; o pensador, o filósofo, o que primeiro despertou a ideia do direito e do dever, que substituiu a escravidão e o jugo pela esperança da liberdade, está vivo em todos os corações. Ele não procurou o seu bem-estar e a sua glória, procurou a felicidade e a glória da Humanidade futura.

 

A glória dos conquistadores se extingue com a fumaça do sangue que eles derramaram, com o esquecimento das lágrimas que fizeram correr; a dos regeneradores aumenta sem cessar, porque o espírito humano, engrandecendo-se, recolhe as folhas esparsas em que estão inscritos os atos gloriosos desses homens de bem.

 

Sede como eles, meus amigos; procurai menos o brilho que o útil; não sejais do número dos que combatem pela liberdade com o desejo de serem vistos; sede dos que lutam obscuramente, mas incessantemente, para o triunfo de todas as verdades, e sereis também daqueles cuja memória jamais se apagará.

 

Allan Kardec

 

 

OS DESERTORES

 

O número de dezembro de 1869 publicou o trabalho de A. Kardec intitulado “Os Desertores”, que figura em “Obras Póstumas”, mas acrescido da comunicação espiritual do Mestre, que abaixo reproduzimos. A comunicação foi precedida da seguinte observação: “– Como complemento deste artigo, publicamos uma instrução que sobre o mesmo assunto Allan Kardec deu, logo que voltou ao mundo dos Espíritos. Parece-nos interessante, para os nossos leitores, juntar às páginas eloquentes e viris que se acabam de ler a opinião atual do organizador por excelência da nossa filosofia.”

 

(Paris, novembro de 1869)

 

Quando eu me achava corporalmente entre vós, disse muitas vezes que havia de fazer aí uma história do Espiritismo, que não seria destituída de interesse. É este, ainda agora, o meu parecer e os elementos que eu reunira para esse fim poderão servir um dia à realização da minha ideia. É que eu, com efeito, me encontrava mais bem colocado do que qualquer outro para apreciar o curioso espetáculo que a descoberta e a vulgarização de uma grande verdade provocara. Pressentia outrora, hoje sei, que ordem maravilhosa e que harmonia inconcebível presidem à concentração de todos os documentos destinados a dar nascimento à nova obra.

 

A benevolência, a boa vontade, o devotamento absoluto de uns; a má-fé, a hipocrisia, as maldosas manobras de outros, tudo concorre para garantir a estabilidade do edifício que se eleva. Nas mãos das potestades superiores, que presidem a todos os progressos, as resistências inconscientes ou simuladas, os ataques visando semear o descrédito e o ridículo, se tornam elementos de elaboração.

 

Que não têm feito! Que é o que não têm posto em ação para asfixiar no berço a criança!

 

A princípio o charlatanismo e a superstição quiseram, ora um, ora outra, apoderar-se dos nossos princípios, a fim de os explorarem em proveito próprio; todos os raios da imprensa se projetaram contra nós; chasquearam das coisas mais respeitáveis; atribuíram aos Espíritos do mal os ensinos dos Espíritos mais dignos da admiração e da veneração universais; entretanto, todos esses esforços conjugados mais não conseguiram, senão proclamar a impotência dos nossos adversários.

 

É dentro dessa luta incessante contra os preconceitos firmados, contra erros acreditados, que se aprende a conhecer os homens. Eu sabia, ao consagrar-me à obra de minha predileção, que me expunha ao ódio, à inveja e ao ciúme dos outros. O caminho se achava inçado de dificuldades que de contínuo se renovavam. Nada podendo contra a doutrina, atiravam-se ao homem; mas, por esse lado, eu me sentia forte, porque renunciara à minha personalidade. Que me importavam os esforços da calúnia; a minha consciência e a grandeza do objetivo me faziam esquecer de boa vontade as urzes e os espinhos da estrada. Os testemunhos de simpatia e de estima, que recebi dos que me souberam apreciar, constituíram a mais estimável recompensa que eu jamais ambicionara. Mas, ah!  quantas vezes teria sucumbido ao peso da minha tarefa, se a afeição e o reconhecimento de muitos não me houvessem feito olvidar a ingratidão e a injustiça de alguns, porquanto, se os ataques contra mim dirigidos sempre me encontraram insensível, penosamente magoado me sentia, devo dizê-lo, todas as vezes que descobria falsos amigos entre aqueles com quem mais contava.

 

Se é justo censurar os que hão tentado explorar o Espiritismo ou desnaturá-lo em seus escritos, sem o terem previamente estudado, quão mais culpados não são os que, depois de lhe haverem assimilado todos os princípios, não contentes de se lhe apartarem do seio, contra ele voltaram todos os seus esforços! É, sobretudo, para os desertores dessa categoria que devemos implorar a misericórdia divina, pois que apagaram voluntariamente o facho que os iluminava e com o qual podiam esclarecer os outros. Eles, por isso, logo perdem a proteção dos Espíritos bons e, conforme a triste experiência que temos feito, bem depressa chegam, de queda em queda, às mais críticas situações!

 

Desde que voltei para o mundo dos Espíritos, tornei a ver alguns desses infelizes! Arrependem-se agora; lamentam a inação em que ficaram e a má vontade de que deram prova, sem lograrem, todavia, recuperar o tempo perdido!... Tornarão em breve à Terra, com o firme propósito de concorrerem ativamente para o progresso e se verão ainda em luta com as tendências antigas, até que triunfem definitivamente.

 

Fora de crer que os espíritas de hoje, esclarecidos por esses exemplos, evitariam cair nos mesmos erros. Assim, porém, não é. Ainda por longo tempo haverá irmãos falsos e amigos desassisados; mas, tal como seus irmãos mais velhos, não conseguirão que o Espiritismo saia da sua diretriz. Embora causem algumas perturbações momentâneas e puramente locais, nem por isso a doutrina periclitará. Ao contrário, os espíritas transviados bem depressa reconhecerão o erro em que incidiram e virão colaborar com maior ardor na obra por um instante abandonada e, atuando de acordo com os Espíritos superiores que dirigem as transformações humanitárias, caminharão a passo rápido para os ditosos tempos prometidos à Humanidade regenerada.

 

Allan Kardec

 

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