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ESPÍRITO SANTO E SANTÍSSIMA TRINDADE

Humberto Rodrigues Neto

 
 

 

Nos textos dos Evangelhos primitivos não existe a expressão “Espírito Santo”, tendo sido introduzida por tradutores franceses dos livros canônicos, já que era necessário criar algo que viesse dar força à implantação do incrível dogma da Santíssima Trindade, o qual iria conferir,  ao Deus uno e indivisível, o caráter absurdo de um deus trino.

 

Mateus, ao relatar o batismo de Jesus, diz, claramente: O Espírito de Deus (e não o Espírito Santo) desceu sobre Ele na forma de uma pomba”.

 

Na versão grega dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos, segundo nos diz Leon Denis, a palavra Espírito está por diversas vezes isolada, sem quaisquer acréscimos. São Jerônimo, ao elaborar a Vulgata, ou seja, a tradução da Bíblia para o Latim, acrescenta-lhe “santo”, talvez para diferenciar um espírito bom de um outro menos perfeito, o que foi o bastante para os tradutores franceses deturparem o termo para “Espírito Santo”. A citação de Denis está fundamentada nos escritos de Bellemare.

 

Portanto, somente depois da Vulgata é que a palavra “espírito” passou a ser completada com o vocábulo “santo”, junção esta que lhe deu um sentido obscuro e concorreu para desnaturar-lhe  o sentido original e primitivo.

 

Tanto é assim que, no texto grego, em Lucas, 11:9-13, lê-se, claramente: Aquele que pede, recebe; o que procura, acha; ao que bate, abrir-se-lhe-á. Portanto, se ainda que sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, com maior razão vosso Pai enviará do Céu um Bom Espírito àqueles que lhe pedirem”.

 

No entanto, as traduções francesas trocam o Espírito Bom, original, por Espírito Santo, num clamoroso contra-senso, pois na própria Vulgata consta, em Latim, Spiritum Bonum ( = espírito bom) e não Spiritum Sanctum ( = espírito santo).

 

Se tomarmos a Vulgata, leremos em  Atos, 21:4,  o seguinte: “E disseram a Paulo, sob a influência do Espírito, que não subisse para Jerusalém. No entanto,  traduções francesas dão, a esse trecho o seguinte enunciado: “ ...sob a influência do Espírito Santo...”, o que não é a mesma coisa, pois desvirtua totalmente o significado do termo.

 

Veja-se, também, que Paulo, na Primeira Epístola aos Coríntios, 12:1-11, ao orientar os médiuns sobre os dons de uns para a palavra, de outros para a cura, de outros, ainda, para línguas estranhas, não se refere, nenhuma vez sequer, a Espírito Santo, mas apenas e unicamente a Espírito.

 

Ainda em Atos, 2:1-13, ao reportar-se à manifestação do Dia de Pentecostes, Jesus  se referiu à descida do Consolador, do Espírito de Verdade, ou do Paráclito, e nunca, ao Espírito Santo. Ora, se a figura do Espírito Santo tivesse, mesmo, a proeminência que a  Igreja  indevidamente lhe  atribui, ela não teria, jamais, passado desapercebida à aguda percepção do Mestre.

 

A corruptela Espírito Santo para designar Espírito, foi, portanto, propositadamente adotada para atender aos interesses da Igreja, então empenhada no estabelecimento de uma figura de impacto, que infundisse respeito e temor aos fiéis, e que lhe possibilitasse, numa etapa seguinte, formular o dogma de um Deus trino, representado pelas três pessoas da Santíssima Trindade, resolução que foi aprovada durante o  Concílio de Nicéia, levado a efeito no ano de 325 e sacramentada como verdade teológica em 381, durante o Concílio de Constantinopla, numa  flagrante contradição com os  próprios ensinamentos católicos, que atribuem ao Criador as virtudes inderrogáveis de uma entidade una e indivisível.

 

Ora, se o Cristo tivesse  aceito a  Trindade como uma verdade fundamental, Ele seria o primeiro a reconhecer-se como Deus e como co-partícipe, portanto, desse inusitado triunvirato, atitude que não se vê descrita em nenhum dos Evangelistas, seja em Bíblias católicas, calvinistas ou luteranas, nas quais o Cristo sempre afirma, peremptoriamente, a sua inteira dependência do Pai. 

 

Sobre a manipulação de textos sagrados, aliás,  é importante lembrar que Maomé, o grande líder do Islamismo,  acusava severamente os cristãos de terem adulterado os escritos originais dos livros santos, de modo particular no referente ao dogma esdrúxulo da Santíssima Trindade, conforme cita o Dr. F. X. Funk em sua excelente obra “História Eclesiástica”.

 

Como se vê, os teólogos de então, não obstante seus dotes de erudição,  não conseguiram manter-se imunes ao fascínio que a crença em deuses múltiplos sempre exerceu sobre o homem, como vemos no culto dos antigos egípcios  a Amon, Ra, Osíris, Hórus, Anúbis, etc.; na adoração dos gregos primitivos a Zeus, Cronos, Apolo,  Atena, Eros, Prometeu e outros; na idolatria dos romanos a Júpiter e sua esposa Juno, a Vulcano, Minerva, Netuno, Ceres, e vai por aí afora.

 

Sobre Prometeu,  um dos deuses gregos,  rezam antiquíssimas tradições que teria  ele feito o primeiro homem moldando-o do limbo da terra. Será que...? (Cala-te, boca!).

 

No referente, ainda, ao dogma da Santíssima Trindade, parece-nos que os seus criadores cometeram uma injustiça  contra Maria, mãe carnal de Jesus, pois, uma vez que ela é considerada como “mãe de Deus”, conforme afirma a oração da “Ave Maria”, teria, também, que participar, já não dizemos do deus trino, mas de um deus quádruplo, porquanto é enaltecida como a origem deles todos.

 

Não teria sido sem razão que D. Pedro II, uma das maiores cabeças pensantes que este país já produziu, resolveu estudar, pacientemente, muitas línguas primitivas, como o sânscrito, o aramaico e o hebreu, além do grego e do egípcio antigos, mesmo porque possuía bíblias originais em algumas dessas línguas e não iria permitir que o seu raciocínio privilegiado viesse a ser manipulado por tradutores menos competentes ou pouco sérios.

 

Todos as absurdas deformações introduzidas nos textos sacros como produtos de interpretações errôneas, sejam involuntárias, sejam propositais, é que devem ser difundidas junto aos devotos de outras crenças cristãs, pois não obstante demonstrarem, tais irmãos, muito bons conhecimentos bíblicos, é fora de dúvida que lhes foi vedado, durante os cursos doutrinários, não só o  acesso aos verdadeiros enunciados das fontes originais, como também aos  tipos de violação nada edificantes sobre eles perpetrados, tudo no afã de  garantir a não dispersão do aprisco.

 

Ora, predispor mentes ingênuas e despreparadas à crença em dogmas  abstrusos, como o do Espírito Santo e da Santíssima Trindade, não nos parece um procedimento louvável por parte de doutrinas que se dizem preocupadas com a evolução do homem para melhor.

 

Perdoem-nos os leitores, mas isto não é religião. É mitologia. 

 

Bibliografia: 

Cristianismo e Espiritismo, de Leon Denis.

História Eclesiástica, do Dr. F. X. Funk.

"Enciclopédia Barsa.

Casos Controvertidos do Evangelho, de Paulo Alves Godoy.

 

 

 
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Publicado no PORTAL A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.

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