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ESPIRITISMO NA ANTIGÜIDADE

Humberto Rodrigues Neto

 
 

 

MISSA EGÍPCIA


Serápio, (do latim Serapeum) era o principal templo da antiga religião egípcia, estando, os principais, situados em Mênfis e Alexandria.

Eram construídos voltados para o nascente, de forma que, ao despontar, o sol penetrasse por aberturas estrategicamente projetadas, fazendo brilhar, em todo o seu esplendor, as estátuas dos deuses colocadas no cimo dos altares.

Como as pessoas do povo iam para o templo de madrugada e ali aguardavam o início da missa pela manhã, é de supor-se com que emoção viam os deuses resplandecerem na sua imensa glória!

Os principais deuses ali adorados eram Osíris, sua esposa Ísis e Hórus, o deus-menino, filho de ambos. Estaria aí a origem da tendência que as religiões têm de adotar deuses múltiplos?

Católicos e Evangélicos também crêem num Deus trino, representado pelas três pessoas da santíssima trindade. É interessante lembrar que na teologia egípcia a deusa Ísis também caminhava pelo céu conduzindo ao colo o deus-menino Hórus!

Nos Serapeuns, os fiéis acendiam velas e ali depositavam ex-votos, ou seja, partes do corpo curadas pelos deuses, como cabeças, braços, mãos, pernas, pés, etc., reproduzidos em cera, argila, gesso ou madeira, prática muito bem vista pela igreja católica, que os acolheu de muito bom grado, pois o povo gosta bastante de tais práticas e isso seria um atrativo a mais para arrebanhar novos adeptos.

Durante as missas, como advertência para chamar os fiéis à concentração, o auxiliar do sacerdote também fazia soar o sistro (do latim sistrum), uma espécie de arco atravessado por pequenas esferas de metal que, agitadas, vibravam, produzindo som estridente e prolongado, prática que, por sugestiva, foi, também, adotada pela Igreja.

Já se usava o incenso, mas não como oferenda de perfumes às divindades, e sim para atenuar o mau cheiro insuportável emanado de uma população ainda desprovida da comodidade do banho diário, outra atração que não poderia deixar, por interessante, de ser aproveitada. pela Igreja em seus rituais.

É extraordinária, por outro lado, a semelhança existente entre os hinos dedicados a Hórus e aqueles entoados ainda hoje nas igrejas ditas cristãs, tanto na composição musical, quanto na letra.

Vê-se, portanto, que em matéria de liturgia, pouco ou quase nada foi criado de novo, tudo não passando de simples imitações do que já existia, pois tais aparatos agradavam ao povo. A Igreja não iria, como dissemos, suprimir de seus rituais tão convincentes atrativos.


TEBAS E MÊNFIS


Os cultos a Osíris, Isis e Hórus, bem como a outras divindades menores, representadas por animais, como o gato, o escaravelho, o chacal, o boi ápis, etc., eram os permitidos às pessoas comuns do povo.

Os sacerdotes, entretanto, e os iniciados, conheciam a existência de um Deus único e criam na reencarnação, conforme se verifica destes antigos textos, traduzidos depois da decifração dos hieróglifos, por Champollion:

-- A luz que viste - dizia o sacerdote ao iniciado - é a Inteligência Divina. As trevas são o mudo material em que vivem os homens da Terra. As almas são filhas do céu e a viagem que fazem é uma prova.

“-- Na encarnação perdem a lembrança de sua origem celeste. Cativas pela matéria, elas se precipitam até à prisão terrestre, em que tu mesmo gemes, e em que a vida divina te parece um sonho vão.

“-- As almas inferiores e más ficam presas à Terra por múltiplos renascimentos; as virtuosas voam para as esferas superiores, onde recobram a vista das coisas divinas.

“-- Tornam-se luminosas porque possuem o divino em si próprias e o irradiam em seus atos. Imagina, ó Hermés, o vôo dessas almas subindo a escala que conduz até o Pai.!”.

Por que - perguntamos nós - por que esses ensinamentos não eram transmitidos ao vulgo? Vamos em frente na leitura desses textos antiqüíssimos e ouçamos a voz daqueles antigos mestres:

“-- O conhecimento total da verdade só pode ser revelado àqueles que atravessarem as mesmas provas que eu e tu - diz o mestre ao iniciado - É preciso velá-la aos fracos, porque os tornaria loucos, e ocultá-la aos maus, porque fariam dela uma arma de destruição”.

A ciência de tais sacerdotes, absorvida de antigos mestres da Índia, ultrapassava em muitos pontos a ciência atual. Conheciam o magnetismo e o sonambulismo, curavam pelo sono provocado e praticavam largamente a sugestão, por eles denominada de magia.

Segundo afirmam Diodoro da Sicília e Estrabão, os sacerdotes do antigo Egito sabiam provocar a clarividência para fins terapêuticos. Galien cita um templo próximo a Mênfis, célebre por curas hipnóticas.

Como se vê, as práticas espíritas são tão antigas quanto o próprio homem.
 

Textos adaptados do livro “Depois da Morte”, de Léon Denis, Capítulo III, e da História das Civilizações, de Will Durant.


MISTÉRIOS DE ELÊUSIS


Também na Grécia o conhecimento da existência de um Deus único e das verdades da reencarnação eram apanágio apenas dos sacerdotes e dos iniciados

Deixava-se ao vulgo a crença na existência de vários deuses, uns voltados às ciências, outros à guerra, outros ao mar, outros ao fogo, outros às artes, etc., que hoje sabemos tratar-se de espíritos que superintendem esses ramos do conhecimento humano.

O ensino aos iniciados era ministrado em templos situados em Olímpia, em Delfos, mas, sobretudo, em Elêusis. Foi em Delfos que Cerefão ouviu o oráculo de que Sócrates era o mais sábio dos homens de seu tempo, tendo aquele filósofo julgada certa a predição, pois acreditava ser ele o único homem que sabia não saber nada.

Era em tais templos que faziam sua iniciação os sábios, poetas e filósofos. Foi dos antigos egípcios que os gregos iniciados souberam da existência de um Deus único e superior a todos os demais.

Foi dos antigos egípcios que os gregos souberam, também, estar a Terra envolta no fluido universal; serem reais as verdades da reencarnação; originarem-se, os planetas, da explosão do sol e ser este o centro do nosso sistema planetário.

Pitágoras, por exemplo, estudou os mistérios iniciáticos durante 30 anos no Egito. Copérnico só soube da rotação da Terra em torno do Sol ao ler uma passagem de Cícero em que Hicetas, discípulo de Pitágoras, fala do movimento diuturno do globo.

Pitágoras sabia, também, que cada estrela é um sol iluminando outros mundos. O que divulgasse na época tais verdades seria tachado de herético, motivo por que os iniciados estavam expressamente impedidos de divulgar ao vulgo os seus conhecimentos.

Plutarco escreveu: “Durante a iniciação nos mistérios, era possível conversar com as almas dos defuntos. Na maior parte das vezes, intervinham nos Mistérios de Elêusis excelentes espíritos, embora em outras procurassem, também os perversos, ali se introduzir”.

Segundo Pórfiro, “nossa alma deveria encontrar-se, no momento da morte, no mesmo estado em que se achava durante os Mistérios, isto é, isenta de paixão, de cólera e de ódio”.

Diz ainda, Próclus: “Em todos os Mistérios, os deuses - para nós, espíritos de todas as ordens - mostram-se de muitas maneiras, aparecem sob grande variedade de figuras e revestem a forma humana”. Todos esses comentários constam de “A República”, de Platão.

Ao final do livro citado, Platão, que também foi iniciado nos mistérios egípcios, reproduz a cena alegórica que já fizera constar no “Fédon” e no “Banquet”, sobre a teoria das reencarnações, alegoria essa segundo a qual um gênio tira, de sobre os joelhos das Parcas, os destinos das criaturas humanas e exclama:

“ -- Almas divinas! Entrai em corpos mortais; ide começar uma nova carreira. Eis aqui todos os destinos da vida. Escolhei livremente, mas a escolha é irrevogável. Se for má, não acuseis por isso a Deus!”.

Cícero não discordava de tais crenças e a elas se refere no “Sonho de Cipião”(cap. III), e também Ovídio a elas remonta nas suas “Metamorfoses” (cap. XV). Em Virgílio, no VI Livro da “Eneida”, verifica-se que Enéias encontra-se nos Campos Elíseos com seu pai Anquises, o qual lhe ensina a lei dos renascimentos.

Lucano, Tácito, Apúleo, bem como Filóstrato, o grego, acreditavam-se inspirados por gênios familiares e falam, freqüentemente, em suas obras, de sonhos, aparições e evocações de mortos.

Com o tempo, tanto os cultos de iniciação da Índia, como do Egito e da Grécia, foram sendo corrompidos pela admissão de iniciados sem as prerrogativas necessárias ao aprendizado de tão elevados ensinamentos, fomentando a admissão de charlatães e levando tais práticas ao descrédito e à conseqüente extinção.

Apenas os Essênios conseguiram conservar, em meio aos hebreus, os fundamentos puros de tais práticas, fonte onde o próprio Cristianismo foi beber a água viva de seus fundamentos.

Seria impossível imaginar que Moisés, redentor do povo hebreu, não tivesse absorvido as idéias do monoteísmo, ou a crença num Deus único, dos cultos de iniciação por ele freqüentados no Egito.

Há mesmo quem afirme ter Jesus participado, antes de iniciar o seu apostolado, das prédicas dos Essênios, não para aprendê-las, pois não tinha necessidade disso, mas, provavelmente, por simpatizar com as verdades e os ensinamentos delas emanados.


Do livro “Depois da Morte” - Léon Denis.

 

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Publicado no PORTAL A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.

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