01 – O que
levou você criar o Projeto OMBUDSMAN DA IMPRENSA ESPÍRITA?
Na verdade, queridos amigos, não fui eu quem criei o projeto
“Ombudsman”. Ele é o resultado prático de várias discussões
realizadas pelos colaboradores da ADE-SC, que, ao tomarem contato
com as publicações espíritas, vinham percebendo a necessidade de
comentar e até criticar, de forma construtiva, tanto em relação ao
conteúdo quanto à formatação de matérias, artigos ou editoriais.
Assim, depois de algumas “experiências” com alguns artigos,
resolvemos inaugurar o Projeto. Vale salientar, ainda, que, em anos
anteriores, a ADE-SC tinha realizado atividade similar, cunhada como
“Observatório Espírita da Imprensa”, mas, nesse caso, o foco não era
a imprensa espírita, mas a leiga, sempre que surgiam matérias que
pudessem ser interpretadas à luz do conhecimento espírita. A
inspiração vem da própria imprensa leiga que, em alguns veículos,
tem um Ombudsman para criticar (construtivamente) a si mesma,
apontando possíveis erros e equívocos, no sentido de contribuir para
o aperfeiçoamento da comunicação social.
02 – A
nossa Imprensa está tão medíocre assim a ponto de precisar ser
avaliada de forma tão contundente?
Penso que não seja adequada a adjetivação medíocre e, tampouco, o
Ombudsman se presta a esse papel. Conforme consta no preâmbulo de
cada edição do projeto, o objetivo da iniciativa é “[...] discutir e
criticar construtivamente artigos, matérias e editoriais veiculados
pela imprensa espírita (impressa ou virtual), visando contribuir
para a melhoria da qualidade da própria imprensa e para a difusão da
necessidade de adoção de uma política de comunicação social espírita
em nosso país”. Deste modo, também serão enaltecidas as “boas
iniciativas”, presentes nos veículos de comunicação impressa, embora
a intenção maior seja contribuir para a reflexão sobre os rumos que
o movimento espírita (e sua imprensa) vem tomando, em alguns casos
se afastando perigosa e decisivamente das diretrizes propostas por
Allan Kardec. Em relação à “contundência”, entendemos que é
imprescindível promover debates no sentido de esclarecer à opinião
pública espírita sobre a diferença entre o movimento “religioso”
espírita e a abordagem sistêmica e completa da Doutrina Espírita
(Ciência, Filosofia e Moral), sem promover qualquer tipo de “caça às
bruxas” ou indexação, mas refletindo com acuidade e interesse sobre
a subutilização da divulgação e da comunicação social espírita,
privilegiando uma abordagem (a religiosa) e diminuindo o âmbito de
alcance e efetividade da proposta espiritista. Se ser honesto,
imparcial e autêntico na avaliação do que é publicado nos veículos
espíritas é ser contundente, então assumimos este viés. Lembramo-
nos, pois, de Herculano Pires que, com firmeza e coragem, “sacudia”,
vez por outra, as estruturas do movimento, apontando os problemas,
as deturpações e as interpretações parciais do conhecimento
espírita.
03 – Como você analisa a reação dos editores, jornalistas e
intelectuais espíritas que antipatizam com o Projeto?
Sinceramente, não temos tido muito contato com a aludida reação
de editores, jornalistas ou intelectuais. Temos, sim, lido alguns
comentários das pessoas que têm lido as mensagens via internet, e
muitas têm elogiado e parabenizado a ADE-SC pela iniciativa corajosa
e inédita, já que é comum “aceitar tudo”, “passar a mão na cabeça”
e, até, a tônica no movimento é “não polemizar”, como se a
discussão, o debate, o contraditório fossem encarados como “obra dos
maus espíritos”, obsessão, etc. É claro que quando idealizamos o
projeto, sabíamos que ele provocaria manifestações, até contrárias,
que materializariam a opinião daqueles que pensam que “tudo são
flores” e que a divulgação do “escândalo” não seria benéfica para o
movimento. Nós, contudo, pensamos de modo diferente e estamos
abertos ao debate. O que não aceitamos é que haja algum tipo de
censura ao nosso trabalho, do tipo “quem são eles para criticar?” ou
“qual a autoridade moral do crítico?”. Da mesma forma como temos a
liberdade de pensamento, de ação e de expressão (comunicação), todos
os que pensam diferente também a possuem, e, portanto, se alguém
porventura estiver “incomodado” com o projeto, que se manifeste, no
mesmo tom e nível da linguagem e da proposta do “Ombudsman”.
04 - Você não tem receio que o movimento brasileiro boicote os
projetos de Comunicação Social da ADE/SC?
Sinceramente, não! Ademais, temos que insistir na proposta de
comunicação das idéias espíritas com alteridade, que é a realidade
da convivência pacífica e comunicativa entre os “diferentes”, com
absoluto respeito interpessoal e interinstitucional. Em verdade, o
próprio movimento espírita tem uma “história” de boicotes. Nós
mesmos, em Santa Catarina, na instituição em que iniciamos nossas
atividades – e na qual permanecemos mais de duas décadas, sofremos
isto na pele, quando dirigentes federativos locais, ao tomarem
ciência de nossa vinculação e participação ativa na Confederação
Espírita Pan-Americana (CEPA), estiveram na instituição em que eu
era vice-presidente, e exigiram que a Revista Espírita HARMONIA (que
editamos até hoje) não mais circulasse na casa, porque ela dava
espaço à CEPA, sob pena de “desfiliação do Centro”. O caso tomou
repercussão nacional, já que eu também era diretor de política e
metodologias de comunicação da Abrade (Associação Brasileira de
Divulgadores do Espiritismo), entidade que não tolerou a pressão e o
boicote ao trabalho de uma ADE (responsável pela edição da revista),
e tomou satisfações da federativa, via Conselho Federativo Nacional.
Há pessoas que pregam ideais de fraternidade, amor e tolerância, mas
que não sabem conviver com quem tenha idéias distintas das suas, e
passam a perseguir ou a desmerecer individualidades, instituições ou
trabalhos. Se fôssemos nos preocupar com boicotes, com muita
naturalidade, já teríamos nos “confinado” ao conforto de nosso lar,
com o carinho dos nossos parentes e amigos. Lembrando o jovem de
Nazaré, “Não julgueis que vim trazer paz à terra; não vim trazer a
paz, mas a espada. [...] E os inimigos do homem serão os seus
próprios domésticos” (Mt; 10:34-36). Há os que desejam ardentemente
a paz no movimento espírita, mas a paz que promovem ou propugnam é a
“concordância tácita”, a “subserviência”, a “água parada do fundo do
poço”. Tudo no movimento é passível de discussão, de análise, de
construção. Neste sentido, estamos fazendo a nossa parte e esperamos
que cada um que deseja uma realidade melhor, mais verdadeira,
realmente fraterna e produtiva, não somente “intra-muros” do Centro,
mas socialmente, que também “pegue na charrua”.
05 - O OMBUDSMAN não bate de frente com os princípios alteritários
que você tanto defende?
Importante não confundir as coisas. Alteridade é proximidade,
convivência pacífica e diálogo. Não implica em “concordância” sobre
tudo, nem “acordo”, em que se recua ante determinados
posicionamentos, como se fosse um pacto. As relações interpessoais,
muitas vezes, envolvem embates e, deles, resultam “vencedores” ou
“vencidos”. Na relação alteritária não há esta prática, nem esta
necessidade. O importante é o respeito pelo outro (e do outro por
si, porque se só houver respeito de um lado, igualmente não teremos
nenhuma relação baseada em alteridade). Ela não implica, repetimos,
em cedência de (parte ou total) direito(s), mas investe-se na
possibilidade da manutenção das relações em si, com o aprendizado
que a constância e a maturidade poderão proporcionar, em termos de
crescimento pessoal – para mim e para o outro. Para ilustrar, há uma
frase muito repetida por aí, inclusive no meio espírita, que é de
Voltaire e que diz: “Não concordo com o que dizes, mas defenderei
até a morte o direito de dizê-lo”. Curiosamente, este é o espírito
do
Ombudsman: dizer o que se pensa; defender o direito de expressão meu
e do outro; apontar, se for o caso, aquilo que consideramos equívoco
e, neste sentido, deixar a cargo dos leitores,
dos pensadores espíritas o condão de escolherem “com quem
ficam”, ou “a quem aceitam ou seguem”. Não é isto, fundamentalmente,
que acontece durante toda a nossa
vida de encarnados, quando tomamos contato com idéias e propostas
vida de encarnados, quando tomamos contato com idéias e propostas e
delas retiramos
|
“aquilo que nos serve”. De tudo, pois, “reter o
essencial”, esta é a nossa filosofia.
06
- Você já teve que criticar acidamente algum jornal ou articulista
de sua relação de intercâmbio e de amizade?
Veja, não tomemos o projeto como pessoal ou individual. Há alguns
companheiros que discutem conosco, avaliando não só o que tem sido
veiculado pela imprensa especializada (espírita), como ponderando em
relação ao que vai ser objeto da “crítica”, no (do) Ombudsman. E,
também, antes da publicação final de cada número, avalia-se o que
foi escrito e, na discussão e no consenso – já que se trata de um
trabalho “patrocinado” pela ADE -SC – chega-se à redação final e
definitiva. A “acidez” me parece ser um juízo de valor desta
editoria (ANESP), da mesma forma como, há pouco, utilizou a
“contundência”, concordam? Vamos ponderar o seguinte: eu, você, o
outro, todos nós temos as “nossas verdades”, conseqüência de nossa
trajetória, de nosso pensar, de nossa bagagem espiritual, etc. Com
base nestas verdades (que não são únicas nem as “maiores”),
promovemos o trabalho do Ombudsman. Ele se dispõe a apresentar um
contraponto, uma outra visão ou versão para o que está sendo dito
pelo articulista ou pelo editor do periódico. Quem antes fez isso?
Quem faz isto, cotidianamente, de modo explícito? A maioria de nós,
quando lê este ou aquele periódico, analisa o teor da matéria,
concordando ou não (parcial ou totalmente) com o que está ali
escrito. Muitas vezes, a atitude comum é “virar a página” quando o
que está lendo não lhe parece concorde com suas idéias. Alguns
companheiros vão além: escrevem para o jornal ou revista e comentam
isso ou aquilo. Quais os periódicos que publicam “críticas” ou
comentários “contrários” ao que foi publicado? Podemos contar nos
dedos... Isto demonstra claramente a filosofia adotada pela imprensa
espírita, que, com raras exceções, “chove no molhado”, isto é, se
destina a publicar muita repetição do que já existe, ou comentários
(que acrescentam um ou outro ponto), mas sobre temas “batidos” ou de
“senso comum”. Falar sobre o que é “unânime”, é muito mais fácil.
Falar sobre o “novo”, ousar apresentar novas teses, fazer a
autocrítica (lembrando um antigo programa da Rede Band), é o
diferencial, é o que acrescenta valores ao nosso caminhar... Em
relação à crítica que fazemos, não “olhamos” sinceramente para quem
está do outro lado, isto é, o “alvo” do comentário, se é João ou
José, mas reconhecemos que se é alguém que prezamos, que conhecemos,
com quem já trabalhamos e com quem já trocamos palavras ou
correspondência, em dado momento pensamos na sua reação, o que não
influi no trabalho. Gostaríamos, sinceramente, que aquele que
recebesse o Ombudsman (sobre seu artigo ou trabalho) pudesse
refletir e, até, elegantemente, apresentar uma tréplica, para que o
próprio movimento pudesse “tirar as melhores partes” da discussão.
No entanto, em muitos casos, sabemos, as pessoas vão se entristecer
ou se melindrar, porque isto ainda é muito marcante em nossa
personalidade. Quem sabe, mais à frente seja diferente...
07
- O OMBUDSMAN está isento de ser avaliado da mesma forma que avalia
a Imprensa e seus colaboradores?
De maneira alguma. Vamos usar um bordão: “Seremos medidos com o
mesmo metro que medirmos o outro”. Assim, o trabalho não está
“isento” de falhas e nem se coloca “acima dos outros” ou em posição
de primazia, ou de sabedoria espiritual plena. Quando o Ombudsman
avalia e aponta artigos que contêm algo considerado como
“prejudicial”, “incorreto” ou “desnecessário”, na nossa ótica
(frisemos bem isso), reconhecemos que é possível haver opiniões
diferentes, na ótica do próprio articulista e da opinião pública
espírita (ou parte dela). Aí reside a validade da proposta. Assim
como não é necessário nenhum consenso, nem unanimidade, a avaliação
crítica promove a discussão, a reflexão, apresenta pontos
alternativos em relação a uma dada “verdade”. Lembremos, entretanto,
que já saíram (e sairão outras) edições enaltecendo pontos positivos
deste ou daquele trabalho, e, neste caso, a avaliação positiva
credencia a continuidade daquele trabalho, no nosso entendimento.
Repetimos o que já frisamos em outra resposta: se o autor do
trabalho avaliado ou terceiros tiverem comentários “educados”,
“isentos”, “não-apaixonados”, sem agressividade, rancor ou com o
chamado ranço proibitivo (aquela idéia de que ninguém teria estatura
moral para “julgar” os outros, e por aí afora...), gostaríamos
francamente de receber o material, para nosso aperfeiçoamento e para
a continuidade do Ombudsman.
08
- Quem se sentir criticado de forma equivocada e injustamente tem
direito de resposta garantido?
Sem dúvida alguma. Vamos dizer de outro modo, repisando o que
acabamos de tratar na questão anterior. Todos os que tiverem “o que
dizer” serão ouvidos por nós. E, ainda, caso a ADE-SC entenda que
algum texto (em “tréplica”) possa contribuir para o debate e para
elucidação da opinião pública espírita, teremos o maior prazer em
publicar, como mais uma edição do Ombudsman. Não é necessário
falar-se, todavia, em “direito de resposta”, instituto jurídico,
obtido comumente mediante ação judicial específica, previsto para a
manifestação de alguém que se sinta ofendido por alguma publicação.
No nosso caso, desde que não se trate de mero “bate-boca” ou que se
disponha a “acusar e ofender”, todo texto encaminhado pelos
interessados diretos aos nossos e-mail (ade- sc@floripa.com.br ou
cellosc@floripa.com.br) será considerado e oportunamente divulgado.
09 - Qual o canal de interatividade do OMBUDSMAN para receber e
publicar esse direito de resposta?
Acabamos de mencionar na questão anterior. Nossos e-mails (ade-sc@floripa.com.br
ou cellosc@floripa.com.br) estão à disposição dos companheiros
espíritas, tanto para adicionar comentários às edições do Ombudsman,
como para sugerir “pautas”, isto é, matérias que tenham sido
publicados em veículos da imprensa espírita, locais ou de
abrangência nacional, para que façamos alguma análise crítica. E, é
claro, como dito antes, para propiciar novo “contraditório” sempre
que algum interessado (em relação às edições publicadas) desejar
fazer uso de seu direito de manifestação.
10 - Sua mensagem para encerrar esta entrevista exclusiva para a
Gazeta PENSADOR...
Toda idéia nova, quando surge, provoca reações nos circunstantes. Há
pessoas que, infelizmente, têm ojeriza às novidades, às propostas
que surgem nos ambientes em que participamos, e prejulgam sem
conhecê-las a fundo. O mundo viveu, durante épocas marcantes da
nossa história, episódios infelizes de censura e de patrulhamento
ideológico, em que determinados indivíduos escolhiam (pelos outros e
em nome deles) o que deveria ou não ser publicado. O espírito do
Ombudsman é justamente outro: discutir, sim, mas sem o intuito de
proibir ou desqualificar pessoas ou instituições, muito menos
periódicos espíritas. No Estado Democrático de Direito que
vivenciamos, e, principalmente, em face de nosso amadurecimento
paulatino em todas as questões afetas ao Espírito, vamos percebendo
que nossa relação com os outros deve ser pautada na franqueza, na
fraternidade e na alteridade. Neste sentido, que procuremos nos
credenciar para as mudanças de paradigmas, que já estão ocorrendo e
para as outras que virão, fruto da nossa própria evolução individual
e da mutação social e planetária. Que as idéias novas possam
provocar – em nós – o desejo de conhecer melhor “o novo”.
Marcelo Henrique Pereira.
João Pessoa (PB), 1° de Maio de 2007.
CARMEM PAIVA DE BARROS,
Secretária de Redação.
anespbarros@gmail.com
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