Estudo

 

Pesquisa: Elio Mollo

 

DESGOSTO PELA VIDA. SUICÍDIO

Estudo com base no Livro Quarto, Esperanças e Consolações, cap. I, Penas e Gozos Terrenos, subcap. IV, questões de 943 à 957 de O Livro dos Espíritos. Obra codificada por Allan Kardec

 

 

 

O desgosto pela vida, que se apodera de alguns indivíduos sem motivos plausíveis, geralmente, é provocado pelo efeito da ociosidade, da falta de fé e também pelos costumes da sociedade. Para aqueles que exercem as suas faculdades com um fim útil e segundo as suas aptidões naturais, o trabalho nada tem de árido e a vida se escoa mais rapidamente suportando suas vicissitudes com mais paciência e resignação. Quanto mais agem tendo em vista a felicidade mais sólida e mais durável será esta no futuro que os espera.

 

O homem não tem o direito de dispor da sua própria vida, somente Deus tem esse direito. O suicídio voluntário é uma transgressão dessa lei. Sendo assim, o insensato que se mata não sabe o que faz.

 

Aquele que busca uma ocupação útil na vida, trabalhando com devoção, evita os desgostos e o desânimo e a sua existência se torna mais feliz e agradável.

 

Aquele que busca o suicídio com o objetivo de escapar das misérias e das decepções deste mundo é porque não teve coragem de suportar as dificuldades naturais e consequentes que lhe surgem na vida. Porém, Deus ajuda aos que sofrem e não aos que não têm forças nem coragem. As tribulações da vida são provas ou expiações. Feliz é aquele que as suporta sem se queixar, porque será recompensado! Infeliz, ao contrário, é aquele que não busca uma solução para as suas dificuldades, e na sua inconsequência, acusa a falta de sorte ou o acaso! A sorte ou o acaso, até, podem favorecê-lo por um instante, mas somente para lhe fazer sentir mais tarde, e de maneira mais cruel, o vazio de suas palavras.

 

Os que buscam provocar desesperos levando alguém as consequências do suicídio, se sentirão infelizes, porque responderão como por um assassínio. O homem que se vê às voltas com a necessidade e se deixa morrer de desespero, também é um suicida, mas os que o causaram ou que o poderiam impedir são mais culpáveis que ele, a quem a indulgência espera. Mas não devemos acreditar, porém, que o suicida seja inteiramente absolvido se lhe faltou a firmeza e a perseverança e se não fez uso de toda a sua inteligência para sair das dificuldades. Infeliz dele, sobretudo, se o seu desespero foi fruto do seu orgulho, ou seja, se é um desses homens em quem o orgulho paralisa os recursos da inteligência e que se envergonharia se tivesse que voltar e prover a sua existência com o trabalho das próprias mãos, preferindo morrer de fome a descer da sua posição social! Há grandeza e dignidade naquele que luta contra as adversidades e enfrenta com dignidade a crítica de um mundo fútil e egoísta. Sacrificar a vida à consideração do orgulho existente no mundo é uma coisa estúpida, porque ele deverá continuar seguindo no seu curso normal.

 

O suicida que tem por fim escapar à vergonha de uma má ação não apagará a falta. Pelo contrário, com ele apareceram duas em lugar de uma. Quando se teve a coragem de praticar o mal, é preciso tê-la para sofrer as consequências. Deus, através da consciência, é quem julga. E, segundo a causa o rigor poderá, às vezes, diminuir.

 

Aquele que pensa ser perdoável usar o suicídio como objetivo de impedir que a vergonha envolva os filhos ou a família, está enganado, pois não procederá bem. Tudo indica que Deus levará em conta a sua intenção, porque será uma expiação que a si mesmo se impôs. Mas mesmo tendo a sua falta atenuada, nem por isso, deixará de cometer uma falta. 

 

NOTA DE ALLAN KARDEC - Aquele que tira a própria vida para fugir à vergonha de uma ação má, prova que tem mais em conta a estima dos homens que a de Deus, porque vai entrar na vida espiritual carregado de suas iniquidades, tendo-se privado dos meios de repará-las durante a vida. Deus é muitas vezes menos inexorável que os homens: perdoa o arrependimento sincero e leva em conta o nosso esforço de reparação; mas o suicídio nada repara.

 

Quem deseja tirar a própria vida com a esperança de chegar mais cedo a uma vida melhor, cometerá um desatino. Ao invés disso será melhor praticar o bem e estará mais seguro de alcançá-la, porque, pelo suicídio, retardará a sua entrada num mundo melhor, e ele mesmo pedirá uma nova reencarnação para completar o que interrompeu por ter tido essa falsa ideia. É útil lembrar que qualquer falta, por mínima que seja, tem que ser reparada, e sempre dificulta o caminho para subir mais um degrau na escala evolutiva do espírito.

 

O sacrifício da vida é meritório, quando tem por fim salvar a de outros ou ser útil aos semelhantes, isso é sublime, de acordo com a intenção, e o sacrifício da vida não é então um suicídio. Um sacrifício inútil, possivelmente, não deve ser considerado um prazer por Deus, principalmente, quando estiver manchado pelo orgulho, ou seja, aquele que pratica um sacrifício com segunda intenção diminui ou esvazia totalmente o seu valor.

 

NOTA DE ALLAN KARDEC - Todo sacrifício feito à custa da própria felicidade é um ato soberanamente meritório aos olhos de Deus, porque é a prática da lei de caridade. Ora, sendo a vida o bem terreno a que o homem dá maior valor, aquele que a ela renuncia pelo bem dos seus semelhantes não comete um atentado: é um sacrifício que ele realiza. Mas antes de o realizar deve refletir se a sua vida não poderá ser mais útil do que a sua morte.

 

O homem que abusa das paixões, abreviando o momento da sua morte, comete um suicídio moral. Na verdade, o homem neste caso, é duplamente culpado, pois há nele falta de coragem e bestialidade, e, além disso, o esquecimento de Deus. Podemos dizer que é mais culpado do que aquele que corta a sua vida por desespero, porque teve tempo de raciocinar sobre o seu suicídio. Aquele que o comete instantaneamente, há às vezes, uma espécie de desvario que se aproxima da loucura, enquanto o que abusa das paixões, será muito mais responsabilizado, porque os sofrimentos morais são sempre proporcionais ao peso da consciência das faltas cometidas.

 

Se um homem vê à sua frente uma morte inevitável e terrível, e por causa disso desejar abreviar por alguns instantes o seu sofrimento através de uma morte voluntária, será responsabilizado por não esperar o termo fixado por Deus. Aliás, qual a certeza de que sua vida tenha chegado malgrado as aparências, ao fim? Não poderá ele receber um socorro inesperado no derradeiro momento? E mesmo que a morte seja inevitável e que a vida só será abreviada por alguns instantes é sempre uma falta de resignação e de submissão à vontade do Criador. As consequências de tal ação poderá levar a uma expiação proporcional à gravidade da falta, segundo as circunstâncias.

 

Se alguma imprudência comprometeu a vida sem necessidade, mas não existiu a intenção e não houve desejo positivo de fazer o mal, podemos deduzir que neste caso não haverá culpabilidade.

 

As mulheres que em certos países se queimam voluntariamente sobre os corpos de seus maridos obedecendo a um costume geral, geralmente o fazem mais pela força do que pela própria vontade, acreditam cumprir um dever, o que não é característica do suicídio. A escusa desse ato está na falta de formação moral e na ignorância de quem a pratica. Essas usanças bárbaras e estúpidas desaparecerão naturalmente com o progresso moral da civilização.

 

Aquele que não podendo suportar a perda de pessoas queridas e se mata na esperança de se juntar a elas, o resultado desse objetivo pode ser bastante diverso do que ela esperava, pois em vez de se unir ao objeto de sua afeição, dela se afasta por tempo maior. Deus não pode recompensar um ato de covardia, pois é como um insulto que lhe é lançado duvidando da sua providência. Esse instante de loucura será pago com aflições ainda maiores do que aquelas que o levou abreviar a sua vida, e não terá para o compensar a satisfação que esperava. A perda de entes queridos atinge todas as classes sociais, ou seja, é uma prova ou expiação produzida por uma lei natural que atinge todos os seres que habitam este mundo. 

 

As consequências do suicídio são as mais diversas. Não há penalidades fixadas e em todos os casos elas são sempre relativas às causas que o produziram. Mas uma consequência a que o suicida não pode escapar é o desapontamento. De resto, a sorte não é a mesma para todos, dependendo das circunstâncias. Alguns expiam sua falta imediatamente, outros numa nova existência, que poderá ser pior do que aquela cujo curso interrompeu.

 

NOTA DE ALLAN KARDEC - A observação mostra, com efeito, que as consequências do suicídio não são sempre as mesmas. Há, porém, as que são comuns a todos os casos de morte violenta, as que decorrem da interrupção brusca da vida. É primeiro a persistência mais prolongada e mais tenaz do laço que liga o Espírito e o corpo, porque esse laço está quase sempre em todo o seu vigor no momento em que foi rompido, enquanto na morte natural se enfraquece gradualmente e em geral até mesmo se desata antes da extinção completa da vida. As consequências desse estado de coisas são o prolongamento da perturbação espírita, seguido da ilusão que, durante um tempo mais ou menos longo, faz o Espírito acreditar que ainda se encontra no número dos vivos. 

SEPARAÇÃO DA ALMA E DO CORPO

 

A separação da alma e do corpo se opera desligando-se os liames que a retinham, assim, ela se desprende. A separação não se verifica instantaneamente, numa transição brusca; a alma se desprende gradualmente e não escapa como um pássaro cativo que fosse libertado. Os dois estados se tocam e se confundem, de maneira que o Espírito se desprende pouco a pouco dos seus liames; estes se soltam e não se rompem. (LE – 155)

 

NOTA DE ALLAN KARDEC - Durante a vida o Espírito está ligado ao corpo pelo seu envoltório material ou perispírito; a morte é apenas a destruição do corpo, e não desse envoltório, que se separa do corpo quando cessa a vida orgânica. A observação prova que no instante da morte o desprendimento do Espírito não se completa subitamente; ele se opera gradualmente, com lentidão variável, segundo os indivíduos. Para uns é bastante rápido e pode dizer-se que o momento da morte é também o da libertação, que se verifica logo após. Noutros, porém, sobretudo naqueles cuja vida foi toda material e sensual, o desprendimento é muito mais demorado, e dura às vezes alguns dias, semanas e até mesmo meses, o que não implica a existência no corpo de nenhuma vitalidade, nem a possibilidade de retorno à vida, mas a simples persistência de uma afinidade entre o corpo e o Espírito, afinidade que está sempre na razão da preponderância que, durante a vida, o Espírito deu à matéria. É lógico admitir que quanto mais o Espírito estiver identificado com a matéria, mais sofrerá para separar-se dela. Por outro lado, a atividade intelectual e moral e a elevação dos pensamentos operam um começo de desprendimento, mesmo durante a vida corpórea, e quando a morte chega é quase instantânea. Este é o resultado dos estudos efetuados sobre todos os indivíduos observados no momento da morte. Essas observações provam ainda que a afinidade que persiste, em alguns indivíduos, entre a alma e o corpo, é às vezes muito penosa, porque o Espírito pode experimentar o horror da decomposição. Este caso é excepcional e peculiar a certos gêneros de morte, verificando-se em alguns suicídios.

 

O conhecimento do Espiritismo exerce uma grande e boa influência, pois faz o Espírito compreender antecipadamente a sua situação: contudo, são a prática do bem e a pureza de consciência as que exercem maiores e melhores influências. (LE - 165)

 

NOTA DE ALLAN KARDEC - No momento da morte, tudo, a princípio, é confuso; a alma necessita de algum tempo para se reconhecer; sente-se como atordoada, no mesmo estado de um homem que saísse de um sono profundo e procurasse compreender a situação. A lucidez das ideias e a memória do passado voltam, a medida que se extingue a influência da matéria e que se dissipa essa espécie de nevoeiro que lhe turva os pensamentos.

 

A duração da perturbação de após morte é muito variável: pode ser de algumas horas, como de muitos meses e mesmo de muitos anos. Aqueles em que é menos longa, são os que se identificaram durante a vida com o seu estado futuro, porque então compreendem imediatamente a sua posição.

 

Essa perturbação apresenta circunstâncias particulares, segundo o caráter dos indivíduos e sobretudo de acordo com o gênero de morte. Nas mortes violentas, por suicídio, suplício, acidente, apoplexia, ferimentos, etc., o Espírito é surpreendido, espanta-se, não acredita que esteja morto e sustenta teimosamente que não morreu. Não obstante, vê o seu corpo, sabe que é dele, mas não compreende que esteja separado. Procura as pessoas de sua afeição, dirige-se a elas e não entende por que não o ouvem. Esta ilusão se mantém até o completo desprendimento do Espírito, e somente então ele reconhece o seu estado e compreende que não faz mais parte do mundo dos vivos.

 

Esse fenômeno é facilmente explicável. Surpreendido pela morte imprevista, o Espírito fica aturdido com a brusca mudança que nele se opera. Para ele, a morte é ainda sinônimo de destruição, de aniquilamento; ora, como continua a pensar, como ainda vê e escuta, não se considera morto. E o que aumenta a sua ilusão é o fato de se ver num corpo semelhante ao que deixou na Terra, cuja natureza etérea ainda não teve tempo de verificar. Ele o julga sólido e compacto como o primeiro, e quando se chama a sua atenção para esse ponto, admira-se de não poder apalpá-lo.

 

Assemelha-se este fenômeno ao dos sonâmbulos inexperientes, que não creem estar dormindo. Para eles, o sono é sinônimo de suspensão das faculdades; ora, como pensam livremente e podem ver, não acham que estejam dormindo. Alguns Espíritos apresentam esta particularidade, embora a morte não os tenha colhido inopinadamente; mas ela é sempre mais generalizada entre os que, apesar de doentes, não pensavam em morrer. Vê-se então o espetáculo singular de um Espírito que assiste os próprios funerais como os de um estranho, deles falando como de uma coisa que não lhe dissesse respeito, até o momento de compreender a verdade.

 

A perturbação que se segue à morte nada tem de penosa para o homem de bem: é calma e em tudo semelhante à que acompanha um despertar tranquilo. Para aquele cuja consciência não está pura é cheia de ansiedades e angústias.

 

Nos casos de morte coletiva observou-se que todos os que perecem ao mesmo tempo nem sempre se reveem imediatamente. Na perturbação que se segue à morte cada um vai para o seu lado ou somente se preocupa com aqueles que lhe interessam.

A afinidade que persiste entre o Espírito e o corpo produz, em alguns suicidas, uma espécie de repercussão do estado do corpo sobre o Espírito, que assim ressente, malgrado seu, os efeitos da decomposição, experimentando uma sensação cheia de angústias e de horror. Esse estado pode persistir tão longamente quanto tivesse de durar a vida que foi interrompida. Esse efeito não é geral; mas em alguns casos o suicida não se livra das consequências da sua falta de coragem e cedo ou tarde expia essa falta, de uma ou de outra maneira. É assim que certos Espíritos, que haviam sido muito infelizes na Terra, disseram haver se suicidado na existência precedente e estar voluntariamente submetidos a novas provas, tentando suportá-las com mais resignação. Em alguns é uma espécie de apego à matéria, da qual procuram inutilmente desembaraçar-se para se dirigirem a mundos melhores, mas cujo acesso lhes é interditado. Na maioria é o remorso de haverem feito uma coisa inútil, da qual só provam decepções.

 

A religião, a moral, todas as Filosofias condenam o suicídio como contrário à lei natural. Todas nos dizem, em princípio, que não se tem o direito de abreviar voluntariamente a vida. Mas por que não se terá esse direito? Por que não se é livre de pôr um termo aos próprios sofrimentos? Estava reservado ao Espiritismo demonstrar, pelo exemplo dos que sucumbiram, que o suicídio não é apenas uma falta como infração a uma moral, consideração que pouco importa para certos indivíduos, mas um ato estúpido, pois que nada ganha quem o pratica e até pelo contrário. Não é pela teoria que ele nos ensina isso, mas pelos próprios fatos que coloca sob os nossos olhos [1].

 

Somente no dia em que abolirmos todos os abusos e os preconceitos da nossa sociedade é que não teremos mais suicídios.

 

FONTES:

Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Livro quatro, cap. I, questões de 943 à 957

__________, O Livro dos Espíritos, Livro dois, cap. III, questão 155.

__________, O Livro dos Espíritos, Livro dois, cap. III, questão 165.

 

[1] O argumento espírita contra o suicídio não é apenas moral, como se vê, mas também biológico, firmando-se no princípio da ligação entre o Espírito e o corpo. A morte, como fenômeno natural, tem as suas leis que o Espiritismo revelou através de rigorosa investigação. O sofrimento do suicida decorre do rompimento arbitrário dessas leis: é como arrancar à força um fruto verde da árvore. As estatísticas mostram que a incidência do suicídio é maior nos países e nas épocas em que a ambição e o materialismo se acentuam, provocando mais abusos e excitando preconceitos. A falta de organização social justa e de educação para todos é causa de suicídios e crimes. Ver o final do item 949: "... se abolirdes os abusos da vossa sociedade e os vossos preconceitos, não tereis mais suicídios." (Nota de J. Herculano Pires)

 

PESQUISA:

 

LOUCURA - SUICÍDIO - OBSESSÃO

Allan Kardec, O que é o Espiritismo, segundo diálogo, O Cético.


Visitante – Certas pessoas consideram as ideias espíritas como de natureza a perturbarem as faculdades mentais, e, por esse motivo, acham prudente deter-lhes a divulgação.

 

A.K. – Conheceis o provérbio: quando se quer matar um cão, diz-se que ele está raivoso. Não é, pois, de espantar, que os inimigos do Espiritismo procurem se apoiar sobre todos os pretextos; este lhes pareceu apropriado para despertar os temores e as suscetibilidades, tomando-o zelosamente, embora ele caia diante do mais superficial exame. Ouvi, pois, sobre esta loucura, o raciocínio de um louco.

 

Todas as grandes preocupações do espírito podem ocasionar a loucura; as ciências, as artes, e a própria religião fornecem seus contingentes. A loucura tem por princípio um estado patológico do cérebro, instrumento do pensamento: estando o instrumento danificado, o pensamento é alterado. A loucura, pois, é um efeito consecutivo, cuja causa primeira é uma predisposição orgânica que torna o cérebro mais, ou menos, acessível a certas impressões; isso é tão verdadeiro que tendes as pessoas que pensam demais e não se tornam loucas, enquanto que outras se tornam sob o domínio da menor superexcitação. Havendo uma predisposição à loucura, esta toma o caráter da preocupação principal, que se torna, então, uma ideia fixa. Essa ideia fixa poderá ser a dos Espíritos, naqueles que deles se ocupam, como poderá ser a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma arte, de uma ciência, da maternidade, de um sistema político ou social. É provável que o louco religioso se tornasse um louco espírita, se o Espiritismo tivesse sido sua preocupação dominante. Um jornal disse, é verdade, que em uma única localidade da América, cujo nome não me recordo, contaram-se quatro mil casos de loucura espírita; mas sabe-se que, entre nossos adversários, é uma ideia fixa crerem-se os únicos dotados de razão, e isso é uma mania como as outras. Aos seus olhos nós somos todos dignos de um manicômio e, por conseguinte, os quatro mil espíritas da localidade em questão, deviam ser igualmente loucos. Nesse aspecto, os Estados Unidos têm centenas de milhares deles, e todos os outros países do mundo, um número bem maior. Esse mau gracejo começou a ser usado depois que se viu esta loucura ganhar as classes mais elevadas da sociedade. Fez-se grande alarde de um exemplo conhecido, de Victor Hennequin, esquecendo-se que, antes de se ocupar com o Espiritismo, ele tinha já dado provas de excentricidade das ideias. Se as mesas girantes não tivessem acontecido, o que, segundo um jogo de palavras bem espirituoso de nossos adversários, fizeram lhe girar a cabeça, sua loucura teria tomado outro curso.

 

Eu digo, pois, que o Espiritismo não tem nenhum privilégio a esse respeito; e vou mais longe: digo que, bem compreendido, é um preservativo contra a loucura e o suicídio.

 

Entre as causas mais frequentes de superexcitação cerebral, é preciso contar as decepções, os desgostos, as afeições contrariadas, que são, ao mesmo tempo, as causas mais frequentes de suicídios. Ora, o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista tão elevado, que as tribulações não são para ele senão os incidentes desagradáveis de uma viagem. O que, em outro, produziria uma emoção violenta, o afeta levemente. Ele sabe, aliás, que os sofrimentos da vida são provas que servem para o seu adiantamento, se as suporta sem reclamar, porque será recompensado de acordo com a coragem com a qual as tiver suportado. Suas convicções lhe dão, pois, uma resignação que o preserva do desespero, e, por conseguinte, de uma causa permanente de loucura e de suicídio. Por outro lado, ele sabe, pelo que vê nas comunicações com os Espíritos, da sorte deplorável daqueles que abreviam voluntariamente seus dias, e esse quadro basta para fazê-lo refletir; por isso é considerável o número daqueles que se detiveram sobre essa inclinação funesta. Eis aí um dos resultados do Espiritismo.

 

Ao número das causas de loucura, é preciso ainda acrescentar o medo, e o medo do diabo desarranjou mais de um cérebro. Sabe-se, acaso, o número de vítimas que se fez amedrontando-se imaginações fracas com esse quadro que se esforça em tornar mais assustador por detalhes hediondos? O diabo, diz-se, não assusta senão as crianças e é um freio para torná-las sábias; sim, como o bicho papão e o lobisomem, e quando elas não têm mais medo, tornam-se piores que antes. E, para esse belo resultado, não se conta o número de epilepsias causadas pela comoção de um cérebro delicado.

 

É preciso não confundir a loucura patológica com a obsessão. Esta não se origina de nenhuma lesão cerebral, mas da subjugação que Espíritos malfazejos exercem sobre certos indivíduos, e tem por vezes as aparências da loucura propriamente dita. Essa doença, que é muito frequente e independente de qualquer crença no Espiritismo, existiu em todos os tempos. Nesse caso, a medicação ordinária é ineficaz e mesmo nociva. O Espiritismo, fazendo conhecer esta nova causa de perturbação da saúde, dá ao mesmo tempo o único meio de triunfar sobre ela, agindo não sobre a doença, mas sobre o Espírito obsessor. Ele é o remédio e não a causa do mal.

 

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O SUÍCIDIO E A LOUCURA

In O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, itens de 14 à 17.

 

A calma e a resignação adquiridas na maneira de encarar a vida terrena, e a fé no futuro, dão ao Espírito uma serenidade que é o melhor preservativo da loucura e do suicídio. Com efeito, a maior parte dos casos de loucura são provocados pelas vicissitudes que o homem não tem forças de suportar. Se, portanto, graças à maneira porque o Espiritismo o faz encarar as coisas mundanas, ele recebe com indiferença, e até mesmo com alegria, os revezes e as decepções que em outras circunstâncias o levariam ao desespero, é evidente que essa força, que o eleva acima dos acontecimentos, preserva a sua razão dos abalos que o poderiam perturbar.

 

O mesmo se dá com o suicídio. Se excetuarmos os que se verificam por força da embriaguez e da loucura, e que podemos chamar de inconscientes, é certo que, sejam quais forem os motivos particulares, a causa geral é sempre o descontentamento. Ora, aquele que está certo de ser infeliz apenas um dia, e de se encontrar melhor nos dias seguintes, facilmente adquire paciência. Ele  se desespera se não ver um termo para os seus sofrimentos. E o que é a vida humana, em relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas aquele que não crê na eternidade, que pensa tudo acabar com a vida, que se deixa abater pelo desgosto e o infortúnio, só vê na morte o fim dos seus pesares. Nada esperando, acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar as suas misérias pelo suicídio.

 

A incredulidade, a simples dúvida quanto ao futuro, as ideias materialistas, em uma palavra, são os maiores incentivadores do suicídio: elas produzem a frouxidão moral. Quando vemos, pois, homens de ciência, que se apoiam na autoridade do seu saber, esforçarem-se para provar aos seus ouvintes ou aos seus leitores, que eles nada têm a esperar depois da morte, não o vemos tentando convencê-los de que, se são infelizes, o melhor que podem fazer é matar-se? Que poderiam dizer para afastá-los dessa ideia? Que compensação poderão oferecer-lhes? Que esperanças poderão propor-lhes? Nada além do nada! De onde é forçoso concluir que, se o nada é o único remédio heroico, a única perspectiva possível, mais vale atirar-se logo a ele, do que deixar para mais tarde, aumentando assim o sofrimento.

 

A propagação das ideias materialistas é, portanto, o veneno que inocula em muitos a ideia do suicídio, e os que se fazem seus apóstolos assumem uma terrível responsabilidade. Com o Espiritismo, a dúvida não sendo mais permitida, modifica-se a visão da vida. O crente sabe que a vida se prolonga indefinidamente para além do túmulo, mas em condições inteiramente novas. Daí a paciência e a resignação, que muito naturalmente afastam a ideia do suicídio. Daí, numa palavra, a coragem moral.

 

O Espiritismo tem ainda, a esse respeito, outro resultado igualmente positivo, e talvez mais decisivo. Ele nos mostra os próprios suicidas revelando a sua situação infeliz, e prova que ninguém pode violar impunemente a lei de Deus, que proíbe ao homem abreviar a sua vida. Entre os suicidas, o sofrimento temporário, em lugar do eterno, nem por isso é menos terrível, e sua natureza dá o que pensar a quem quer que seja tentado a deixar este mundo antes da ordem de Deus. O espírita tem, portanto, para opor à idéia do suicídio, muitas razões: a certeza de uma vida futura, na qual ele sabe que será tanto mais feliz quanto mais infeliz e mais resignado tiver sido na Terra; a certeza de que, abreviando sua vida, chega a um resultado inteiramente contrário ao que esperava; que foge de um mal para cair noutro ainda pior, mais demorado e mais terrível; que se engana ao pensar que, ao se matar, irá mais depressa para o céu; que o suicídio é um obstáculo à reunião, no outro mundo, com as pessoas de sua afeição, que lá espera encontrar. De tudo isso resulta que o suicídio, só lhe oferecendo decepções, é contrário aos seus próprios interesses. Por isso o número de suicídios que o Espiritismo impede é considerável, e podemos concluir que, quando todos forem espíritas, não haverá mais suicídios conscientes. Comparando, pois, os resultados das doutrinas materialista e espírita, sob o ponto de vista do suicídio, vemos que a lógica de uma conduza ele, enquanto a lógica de outra o evita, o que é confirmado pela experiência.

 

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PRECE POR UM SUICIDA

In O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVIII, itens de 71 e 72.

 

PREFÁCIO - O homem não tem jamais o direito de dispor da sua própria vida, pois só a Deus compete tirá-lo do cativeiro terreno, quando o julgar oportuno. Apesar disso, a justiça divina pode abrandar o seu rigor, em virtude de certas circunstâncias, reservando, porém, toda a sua severidade para aquele que quis furtar-se às provas da existência. O suicida assemelha-se ao prisioneiro que escapa da prisão antes de cumprir a sua pena, e que ao ser preso de novo será tratado com mais severidade. Assim acontece, pois, com o suicida, que pensa escapar às misérias presentes e mergulha em maiores desgraças.

 

PRECE - Sabemos qual a sorte que espera os que violam a vossa lei, Senhor, para abreviar voluntariamente os seus dias! Mas sabemos também que a vossa misericórdia é infinita. Estendei-a sobre o Espírito de Fulano, Senhor! E possam as nossas preces e a vossa comiseração abrandar as amarguras dos sofrimentos que sua porta, por não ter tido a coragem de esperar o fim das suas prova. Bons Espíritos, cuja missão é assistir os infelizes, tomai-o sob a vossa proteção; inspirai-lhe o remorso pela falta cometida, e que a vossa assistência lhe dê a força de enfrentar com mais resignação as novas provas que terá de sofrer, para repará-la. Afastai dele os maus; Espíritos, que poderiam levá-lo novamente ao mal, prolongando os seus sofrimentos, ao fazê-lo perder o fruto das novas experiências. E a ti, cuja desgraça provoca as nossas preces, que possa a nossa comiseração adoçar a tua amargura, fazendo nascer em teu coração a esperança de um futuro melhor! Esse futuro está nas tuas próprias mãos: confia na bondade de Deus, que espera sempre por todos os que se arrependem, e só é severo para os de coração empedernido.

 

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