Estudo

Pesquisa in

O Evangelho Segundo o Espiritismo

O Livro dos Espíritos

Revista Espírita

(Jornal de Estudos Psicológicos publicada sob a direção de Allan Kardec)

Obras Póstumas

Pesquisa: Elio Mollo

 

A VIDA FUTURA

 

 

 

1. "Tornou pois a entrar Pilatos no pretório, e chamou a Jesus, e disse-lhe: Tu és o Rei dos Judeus? Respondeu-lhe Jesus: O meu reino não é deste mundo: se o meu reino fosse deste mundo, certo que os meus ministros haviam de pelejar para que eu não fosse entregue aos judeus; mas por agora o meu reino não é daqui. Disse-lhe então Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu o dizes, que eu sou rei. Eu não nasci nem vim a este mundo senão para dar testemunho da verdade; todo aquele que é da verdade ouve a minha voz". (JOÃO, cap. XVIII, 33-37).

 

in O Evangelho Segundo o Espiritismo

Cap. II, itens 1,2 e 3 – Allan Kardec 

 

A VIDA FUTURA

 

2. Por estas palavras, Jesus se refere claramente à vida futura, que ele apresenta, em todas as circunstâncias, como o fim a que se destina a humanidade, e como devendo ser o objeto das principais preocupações do homem sobre a terra. Todas as suas máximas se referem a esse grande princípio. Sem a vida futura, com efeito, a maior parte dos seus preceitos de moral não teriam nenhuma razão de ser. É por isso que os que não crêem na vida futura, pensando que ele apenas falava da vida presente, não os compreendem ou os acham pueris.

 

Esse dogma pode ser considerado, portanto, como o ponto central do ensinamento do Cristo. Eis porque está colocado entre os primeiros, no início desta obra, pois deve ser a meta de todos os homens. Só ele pode justificar os absurdos da vida terrestre e harmonizar-se com a justiça de Deus.

 

3. Os judeus tinham idéias muito imprecisas sobre a vida futura. Acreditavam nos anjos, que consideravam como os seres privilegiados da criação, mas não sabiam que os homens, um dia, pudessem tornar-se anjos e participar da felicidade angélica. Segundo pensavam, a observação das leis de Deus era recompensada pelos bens terrenos, pela supremacia de sua nação no mundo, pelas vitórias que obteriam sobre os inimigos. As calamidades públicas e as derrotas eram os castigos da desobediência. Moisés o confirmou, ao dizer essas coisas, ainda mais fortemente, a um povo ignorante, de pastores, que precisava ser tocado antes de tudo pelos interesses deste mundo. Mais tarde, Jesus veio lhes revelar que existe outro mundo, onde a justiça de Deus se realiza. É esse mundo que ele promete aos que observam os mandamentos de Deus. É nele que os bons são recompensados. Esse mundo é o seu reino, no qual se encontra em toda a sua glória, e para o qual voltará ao deixar a Terra.

 

Jesus, entretanto, conformando o seu ensino ao estado dos homens da época, evitou de lhes dar o esclarecimento completo, que os deslumbraria em vez de iluminar, porque eles não o teriam compreendido. Ele se limitou a colocar, de certo modo, a vida futura como um princípio, uma lei da natureza, à qual ninguém pode escapar. Todo cristão, portanto, crê forçosamente na vida futura, mas a idéia que muitos fazem dela é vaga, incompleta, e por isso mesmo falsa em muitos pontos. Para grande número, é apenas uma crença, sem nenhuma certeza decisiva, e daí as dúvidas, e até mesmo a incredulidade.

 

O Espiritismo veio completar, nesse ponto, como em muitos outros, o ensinamento do Cristo, quando os homens se mostraram maduros para compreender a verdade. Com o Espiritismo, a vida; futura não é mais simples artigo de fé, ou simples hipótese. É uma realidade material, provada pelos fatos. Porque são as testemunhas; oculares que a vêm descrever em todas as suas fases e peripécias, de tal maneira, que não somente a dúvida não é mais possível, como a inteligência mais vulgar pode fazer uma idéia dos seus mais variados aspectos, da mesma forma que imaginaria um país do qual se lê uma descrição detalhada. Ora, esta descrição da vida futura é de tal maneira circunstanciada, são tão racionais as condições da existência feliz ou infeliz do que nela se encontram, que acabamos por concordar que não podia ser de outra maneira, e que ela bem representa a verdadeira justiça de Deus.

 

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Podemos ler nas notáveis confissões de Santo Agostinho, as palavras características e proféticas, ao mesmo tempo, que ele pronunciou ao ter perdido Santa Mônica: "Estou certo de que minha mãe virá visitar-me e dar-me os seus conselhos, revelando-me o que nos espera na vida futura".

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O PONTO DE VISTA

In O Evangelho Segundo o Espiritismo

Cap. II, itens 5, 6 e 7 – Allan Kardec

 

A idéia clara e precisa que se faz da vida futura uma fé inabalável no porvir, e essa tem conseqüências enormes sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista pelo qual eles encaram a vida terrena. Para aquele que se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é infinita, a vida corporal não é mais do que rápida passagem, uma breve permanência num país ingrato. As vicissitudes e as tribulações da vida são apenas incidentes que ele enfrenta com paciência, porque sabe que são de curta duração e devem ser seguidos de uma situação mais feliz. A morte nada tem de pavoroso, não é mais a porta do nada, mas a da libertação, que abre para o exilado a morada da felicidade e da paz. Sabendo que se encontra numa condição temporária e não definitiva, ele encara as dificuldades da vida com mais indiferença, do que resulta uma calma de espírito que lhe abranda as amarguras.

 

Pela simples dúvida sobre a vida futura, o homem concentra todos os seus pensamentos na vida terrena. Incerto do porvir, dedica-se inteiramente ao presente. Não entrevendo bens mais preciosos que os da terra, ele se porta como a criança que nada vê além dos seus brinquedos e tudo faz para obtê-los. A perda do menor dos seus bens causa-lhe pungente mágoa. Um desengano, uma esperança perdida, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que for vítima, o orgulho ou a vaidade feridas, são tantos outros tormentos, que fazem da vida uma angústia perpétua, pois que se entrega voluntariamente a uma verdadeira tortura de todos os instantes.

 

Sob o ponto de vista da vida terrena, em cujo centro se coloca, tudo se agiganta ao seu redor. O mal que o atinge, como o bem que toca aos outros, tudo adquire aos seus olhos enorme importância. É como o homem que, dentro de uma cidade, vê tudo grande em seu redor: os cidadãos eminentes como os monumentos; mas que, subindo a uma montanha, tudo lhe parece pequeno.

 

Assim acontece com aquele que encara a vida terrena do ponto de vista da vida futura: a humanidade, como as estrelas no u, se perde na imensidade; ele então se apercebe de que grandes e pequenos se confundem como as formigas num monte de terra; que operários e poderosos são da mesma estatura; e ele lamenta essas; criaturas efêmeras, que tanto se esfalfam para conquistar uma posição que os eleva tão pouco e por tão pouco tempo. É assim que a importância atribuída aos bens terrenos está sempre na razão inversa; da fé que se tem na vida futura.

 

6. Se todos pensarem assim, dir-se-á, ninguém mais se ocupando das coisas da terra, tudo perigará. Mas não, porque o homem procura instintivamente o seu bem-estar, e mesmo tendo a certeza de que ficará por pouco tempo em algum lugar, ainda quererá estar o melhor ou o menos mal possível. Não há uma só pessoa que, sentindo um espinho sob a mão, não a retire para não ser picada. Ora, a procura do bem-estar força o homem a melhorar todas as coisas, impulsionado como ele é pelo instinto do progresso e da conservação, que decorre das próprias leis da natureza. Ele trabalha, portanto, por necessidade, por gosto e por dever, e com isso cumpre os desígnios da Providência, que o colocou na terra para esse fim. Só aquele que considera o futuro pode dar ao presente uma importância relativa, consolando-se facilmente de seus revezes, ao pensar no destino que o aguarda.

 

Deus não condena, portanto, os gozos terrenos, mas o abuso desses gozos, em prejuízo dos interesses da alma. É contra esse abuso que se previnem os que compreendem estas palavras de Jesus: O meu reino não é deste mundo.

 

Aquele que se identifica com a vida futura é semelhante a um homem rico, que perde uma pequena soma sem se perturbar; e aquele que concentra os seus pensamentos na vida terrestre é como o pobre que, ao perder tudo o que possui, cai em desespero.

 

7. O Espiritismo dá amplitude ao pensamento e abre-lhe novos horizontes. Em vez dessa visão estreita e mesquinha, que o concentra na vida presente, fazendo do instante que passa sobre a terra o único e frágil esteio do futuro eterno, ele nos mostra que esta vida é um simples elo do conjunto harmonioso e grandioso da obra do Criador, e revela a solidariedade que liga todas as existências de um mesmo ser, todos os seres de um mesmo mundo e os seres de todos os mundos. Oferece, assim, uma base e uma razão de ser à fraternidade universal, enquanto a doutrina da criação da alma, no momento do nascimento de cada corpo, faz que todos os seres sejam estranhos uns aos outros. Essa solidariedade das partes de um mesmo todo explica o que é inexplicável, quando apenas consideramos uma parte. Essa visão de conjuntos, os homens do tempo de Cristo não podiam compreender, e por isso o seu conhecimento foi reservado para mais tarde.

 

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In O Evangelho Segundo o Espiritismo

Cap. XV, item 3 – Allan Kardec

 

3. Toda a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, ou seja, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho. Em todos os seus ensinamentos, mostra essas virtudes como sendo o caminho da felicidade eterna. Bem-aventurados, diz ele, os pobres de espírito, - quer dizer: os humildes, - porque deles é o Reino dos Céus; bem-aventurados os que têm coração puro; bem aventurados os mansos e pacíficos;  bem-aventurados os Misericordiosos. Amai o vosso próximo como a vós mesmos; fazei aos outros o que desejaríeis que vos fizessem; amai os vossos inimigos; perdoai as ofensas, se quereis ser perdoados; fazei o bem sem ostentação; julgai-vos a vós mesmos antes de julgar os outros. Humildade e caridade, eis o que não cessa de recomendar, e o de que ele mesmo dá o exemplo. Orgulho e egoísmo, eis o que não cessa de combater. Mas ele fez mais do que recomendar a caridade, pondo-a claramente, em termos explícitos, como a condição absoluta da felicidade futura.

 

No quadro que Jesus apresenta, do juízo final, como em muitas outras coisas, temos de separar o que pertence à figura e à alegoria. A homens como aos que falava, ainda incapazes de compreender as coisas puramente espirituais, devia apresentar imagens materiais, surpreendentes e capazes de impressionar. Para que fossem melhor aceitas, não podia mesmo afastar-se muito das idéias em voga, no tocante à forma, reservando sempre para o futuro a verdadeira interpretação das suas palavras e dos pontos que ainda não podia explicar claramente. Mas, ao lado da parte acessória ou figurada do quadro, há uma idéia dominante: a da felicidade que espera o justo e da infelicidade reservada ao mau.

 

Nesse julgamento supremo, quais são os considerandos da sentença? Sobre o que baseia a inquirição? Pergunta o juiz se foram atendidas estas ou aquelas formalidades, observadas mais ou menos estas ou aquelas práticas exteriores? Não, ele só pergunta por uma coisa: a prática da caridade. E se pronuncia dizendo: "Passai à direita, vós que socorrestes aos vossos irmãos; passai à esquerda, vós que fostes duros para com eles." Indaga pela ortodoxia da fé? Faz distinção entre o que crê de uma maneira, e o que crê de outra? Não, pois Jesus coloca o samaritano, considerado herético, mas que tem amor ao próximo, sobre o ortodoxo a quem falta caridade. Jesus não faz, portanto, da caridade, uma das condições da salvação, mas a condição única. Se outras devessem ser preenchidas, ele as mencionaria. Se ele coloca a caridade na primeira linha entre as virtudes, é porque ela encerra implicitamente todas as outras; a humildade, a mansidão, a benevolência, a justiça etc; e porque é ela a negação absoluta do orgulho e do egoísmo.

 

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In O Evangelho Segundo o Espiritismo

Cap. XXIII, item 6 – Allan Kardec

 

Sem discutir as palavras, devemos procurar compreender o pensamento, que era evidentemente este: Os interesses da vida futura estão acima de todos os interesses e todas as considerações de ordem humana, porque isto concorda com a essência da doutrina de Jesus, enquanto a idéia do abandono da família seria a sua negação.

 

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In O Evangelho Segundo o Espiritismo

Cap. XXIV, item 19 – Allan Kardec

 

19. Regozijai-vos, disse Jesus, quando os homens vos odiarem e vos perseguirem por minha causa, porque sereis recompensados no céu. Essas palavras podem ser interpretadas assim: Sede felizes quando os homens, tratando-vos com má vontade, vos derem a ocasião de provar a sinceridade de vossa fé, porque o mal que eles vos fizerem resultará em vosso proveito. Lamentai- lhes a cegueira, mas não os amaldiçoeis

 

Após isso, acrescenta: "Tome a sua cruz aquele que me quer seguir", isto é: que suporte corajosamente as tribulações que a sua fé provocar, pois aquele que quiser salvar a sua vida e os seus bens, renunciando a mim, perderá as vantagens do Reino dos Céus, enquanto os que tudo perderem aqui em baixo, até mesmo a vida, para o triunfo da verdade, receberão na vida futura prêmio da coragem, da perseverança e da abnegação. Mas para os que sacrificam os bens celestes aos gozos terrenos, Deus dirá: Já recebestes a vossa recompensa.

 

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I O NADA. A VIDA FUTURA

In O Livro dos Espíritos

Livro quatro – cap II

 

O homem repele instintivamente o nada, porque o nada não existe. (LE - 958)

 

O sentimento instintivo da vida futura vem para o homem desde antes da encarnação. O Espírito conhece todas essas coisas, e a alma guarda uma vaga lembrança do que sabe e do que viu no estado espiritual. (LE - 959) (Vide, também, q 393).  

393. Como pode o homem ser responsável por atos e resgatar faltas dos quais não se recorda? Como pode aproveitar-se da experiência adquirida em existências que caíram no esquecimento? Seria concebível que as tribulações da vida fossem para ele uma lição, se pudesse lembrar-se daquilo que as atraiu, mas desde que não se recorda, cada existência é para ele como se fosse a primeira, e é assim que ele está sempre a recomeçar. Como conciliar isto com a justiça de Deus?

-- A cada nova existência o homem tem mais inteligência e pode melhor distinguir o bem e o mal. Onde estaria o seu mérito, se ele se recordasse de todo o passado? Quando o Espírito entra na sua vida de origem (a vida espírita), toda a sua vida passada se desenrola diante dele; vê as faltas cometidas e que são causa do seu sofrimento, bem como aquilo que poderia tê-lo impedido de cometê-las; compreende a justiça da posição que lhe é dada e procura então a existência necessária a reparar a que acaba de escoar-se. Procura provas semelhantes àquelas por que passou, ou as lutas que acredita apropriadas ao seu adiantamento, e pede a Espíritos que lhe são superiores para o ajudarem na nova tarefa a empreender porque sabe que o Espírito que lhe será dado por guia nessa nova existência procurará fazê-lo reparar suas faltas, dando-lhe uma espécie de intuição das que ele cometeu. Essa mesma intuição é o pensamento, o desejo criminoso que freqüentemente vos assalta e ao qual resistis instintivamente, atribuindo a vossa resistência, na maioria das vezes, aos princípios que recebestes de vossos pais, enquanto é a voz da consciência que vos fala, e essa voz é a recordação do passado, voz que vos adverte para não cairdes nas faltas anteriormente cometidas. Nessa nova existência, se o Espírito sofrer as suas provas com coragem e souber resistir, eleva-se a si próprio e ascenderá na hierarquia dos Espíritos, quando voltar para o meio deles.

 

NOTA DE ALLAN KARDEC - Se não temos, durante a vida corpórea, uma lembrança precisa daquilo que fomos, e do que fizemos de bem ou de mal em nossas existências anteriores, temos, entretanto, a sua intuição. E as nossas tendências instintivas são uma reminiscência do nosso passado, às quais a nossa consciência, que representa o desejo por nós concebido de não mais cometer as mesmas faltas, adverte que devemos resistir.

NOTA DE ALLAN KARDEC - Em todos os tempos o homem se preocupou com o futuro de além túmulo, o que é muito natural. Qualquer que seja a importância dada à vida presente, ele não pode deixar de considerar quanto é curta e sobretudo precária, pois pode ser interrompida a cada instante e jamais ele se acha seguro do dia de amanhã. Em que se tornará depois do instante fatal? A pergunta é grave, pois não se trata de alguns anos, mas da eternidade. Aquele que deve passar longos anos num país estrangeiro se preocupa com a situação em que se encontrará no mesmo. Como não nos preocuparmos com a que teremos ao deixar este mundo, desde que o será para sempre?

 

A idéia do nada tem algo que repugna à razão. O homem mais despreocupado nesta vida, chegado o momento supremo pergunta a si mesmo o que será feito dele e involuntariamente fica na expectativa.

 

Crer em Deus sem admitir a vida futura seria um contra-senso. O sentimento de uma existência melhor está no foro íntimo de todos os homens e Deus não os pôs ali à toa.

 

A vida futura implica a conservação da nossa individualidade após a morte. Que nos importaria sobreviver ao corpo, se a nossa essência moral tivesse de perder-se no oceano do infinito? As conseqüências disso para nós seriam as mesmas do nada.

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II INTUIÇÃO DAS PENAS E DOS GOZOS FUTUROS

 In O Livro dos Espíritos

Livro quatro – cap II

 

A crença, que se encontra em todos os povos, sobre as penas e recompensas futuras procede do pressentimento da realidade, dado ao homem pelo seu Espírito. Porque não é à toa que uma voz interior nos fala, mas o nosso mal é não escutá-la sempre. Se observássemos bem isso, com a devida freqüência, nos tornaríamos melhores. (LE - 960)

 

O sentimento que domina a maioria dos homens no momento da morte é

  • a dúvida para os céticos endurecidos;

  • o medo, para os culpados;

  • a esperança para os homens de bem. (LE - 961)

Apesar do pressentimento da vida futura e das coisas espirituais que o homem trás em si, há céticos, mas são em menor número do que supomos. Muitos se fazem de espírito forte durante esta vida por orgulho, mas no momento da morte não se conservam tão fanfarrões.  (LE - 962)

NOTA DE ALLAN KARDEC - A conseqüência da vida futura decorre da responsabilidade dos nossos atos. A razão e a justiça nos dizem que, na distribuição da felicidade a que todos os homens aspiram, os bons e os maus não poderiam ser confundidos. Deus não pode querer que uns gozem dos bens sem trabalho e outros só o alcancem com esforço e perseverança.

 

A idéia que Deus nos dá de sua justiça e de sua bondade, pela sabedoria de suas leis, não nos permite crer que o justo e o mau estejam aos seus olhos no mesmo plano, nem duvidar de que não recebam algum dia, um a recompensa e outro o castigo pelo bem e pelo mal que tiverem feito. É por isso que o sentimento inato da justiça nos dá a intuição das penas e das recompensas futuras.

O homem de uma certa maneira fez idéias muito grosseiras e absurdas das penas e dos gozos da vida futura, porque a inteligência ainda não lhe foi suficientemente desenvolvida. Assim é também a criança, não compreende da mesma maneira que o adulto. Aliás, isso depende também do que se tenha ensinado: é nesse ponto que há necessidade de uma reforma. Nossa linguagem é muito imperfeita para exprimir o que existe além do nosso alcance. Por isso foi necessário fazer comparações, sendo essas imagens e figuras tomadas como a própria realidade. Mas à medida que o homem se esclarece, seu pensamento compreende as coisas que a sua linguagem não pode traduzir. (LE - 966)

 

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O ponto de vista

REVISTA ESPÍRITA

Jornal de Estudos Psicológicos

publicada sobre a direção de Allan Kardec

 

julho de 1862 

 

Não há ninguém que não tenha notado o quanto as coisas mudam de aspecto, segundo o ponto de vista sob o qual são consideradas; não é somente o aspecto que se modifica, mas ainda a própria importância da coisa. Que se coloque no centro de um meio qualquer, fosse ele pequeno, parece imenso; que se coloque fora, parecerá todo outro. Tal que vê uma coisa do alto de uma montanha a acha insignificante, enquanto que, na base da montanha, lhe parece gigantesca.

 

Isto é um efeito de ótica, mas que se aplica igualmente às coisas morais. Ficai um dia inteiro no sofrimento, ele vos parecerá eterno; à medida que esse dia se afasta de vós, vos admirais de ter podido vos desesperar por tão pouco. Os pesares da infância têm também sua importância relativa, e, para a criança, são todos tão amargos quanto os da idade madura. Por que, pois, nos parecem tão fúteis? Porque não o somos mais, ao passo que a criança o é inteiramente, e não vê além de seu pequeno círculo de atividade; ela os vê do interior, nós os vemos do exterior. Suponhamos um ser colocado, em relação a nós, na posição em que estamos em relação à criança, ele julgará nossos cuidados do mesmo ponto de vista, e os achará pueris.

 

Um carreteiro é insultado por um carreteiro; eles discutem e se batem; que um grande senhor seja injuriado por um carreteiro, com isso não se crera ofendido, e não se baterá com ele. Por que isto? Porque se coloca fora de sua esfera: Crê-se de tal modo superior que a ofensa não pode atingi-lo; mas que ele desça ao nível de seu adversário, que se coloque, pelo pensamento, no mesmo meio, e se baterá.

 

O Espiritismo nos mostra uma aplicação desse princípio, se bem que de outro modo importante em suas conseqüências. Faz-nos ver a vida terrestre por aquilo que ela é, nos colocando no ponto de vista da vida futura; pelas provas materiais que dela nos fornece, pela intuição límpida, precisa, lógica que dela nos dá, pelos exemplos que coloca sob nossos olhos, e a ela nos transporta pelo pensamento: é vista, é compreendida; não é mais essa noção vaga, incerta, problemática, que se nos ensina do futuro, e que, involuntariamente, deixa dúvidas; para o Espírita, é uma certeza adquirida, é uma realidade.

 

Faz mais ainda: mostra-nos a vida da alma, o ser essencial, uma vez que é o ser pensante, remontando no passado a uma época desconhecida, e se estendendo indefinidamente no futuro, de tal sorte que a vida terrestre, fosse ela de um século, não é mais do que um ponto nesse longo percurso. Se a vida inteira é tão pouca coisa, comparada à vida da alma, que serão, pois, os incidentes da vida? E, no entanto, o homem, colocado no centro desta vida, com ela se preocupa como se devesse durar sempre; tudo toma para ele proporções colossais: a menor pedra que o choque lhe parece um rochedo; uma decepção o desespera; um fracasso o abate; uma palavra coloca-o furioso. Sua visão, limitada ao presente, ao que o toca imediatamente, lhe exagera a importância dos menores incidentes; um negócio não realizado lhe tira o apetite; uma questão de precedência é um negócio de Estado; uma injustiça coloca-o fora de si. Conseguir é o objetivo de todos os seus esforços, objeto de todas as suas combinações; mas, para a maioria, o que é conseguir? É, se não se tem do que viver, se criar, por meios honestos, uma existência tranqüila? E a nobre emulação de adquirir talento e desenvolver sua inteligência? É o desejo de deixar, depois de si, um nome justamente honrado, e realizar trabalhos úteis para a Humanidade? Não; conseguir, é superar seu vizinho, eclipsá-lo, é afastá-lo, transtorná-lo mesmo, para se colocar em seu lugar; e, por esse belo triunfo, do qual a morte não deixará talvez gozar vinte e quatro horas, que de cuidados, que de tributações! Quanto de gênio mesmo dispensa, algumas vezes, que teria podido ser mais utilmente empregado! Depois, quanto de raiva, quanto de insônias se não se triunfa! Que febre de ciúme causa o sucesso de um rival! Então, prende-se à sua má estrela, à sua sorte, à sua chance fatal, ao passo que a má estrela, o mais freqüentemente, é a imperícia e a incapacidade. Dir-se-á, verdadeiramente, que o homem toma a tarefa de tornar tão penosos quanto possível os poucos instantes que deve passar sobre a Terra, e dos quais não é senhor, uma vez que o dia de amanhã jamais está assegurado.

 

Quanto todas essas coisas mudam de face, quando, pelo pensamento, o homem sai do estreito vale da vida terrestre, e se eleva na radiosa, esplêndida e incomensurável vida de além-túmulo! Quanto então, toma em piedade os tormentos que se criou à toa! Quanto, então, lhe parecem mesquinhas e pueris as ambições, os ciúmes, as suscetibilidades, as vãs satisfações do orgulho! Parece-lhe da idade madura considerar as brincadeiras da infância; do alto de uma montanha, considerar os homens no vale. Partindo deste ponto de vista, torna-se, voluntariamente, o joguete de uma ilusão? Não; ao contrário, está na realidade, na verdade, e a ilusão, para ele, é quando vê as coisas do ponto de vista terrestre. Com efeito, não há ninguém sobre a Terra que não ligue mais importância ao que, para ele, deve durar muito tempo, do que ao que não deve durar senão um dia; que não prefere uma felicidade durável a uma alegria efêmera. Inquieta-se pouco com um desagrado passageiro; o que interessa acima de tudo é a situação normal. Se pois, eleva-se seu pensamento de modo a abarcar a vida da alma, forçosamente, chega-se a esta conseqüência, de que assim se percebe a vida terrestre como uma estação momentânea; que a vida espiritual é a vida real, porque ela é indefinida; que a ilusão é a de tomar a parte pelo todo, quer dizer, a vida do corpo, que não é senão transitória, pela vida definitiva. O homem que não considera as coisas senão do ponto de vista terrestre é como aquele que, estando no interior de uma casa, não pode julgar nem da forma, nem da importância do edifício; julga sobre as falsas aparências, porque não pode ver tudo; ao passo que aquele que vê de fora, só ele podendo julgar o conjunto, julga mais sadiamente.

 

Para ver as coisas desta maneira, dir-se-á, é preciso uma inteligência pouco comum, um espírito filosófico que não se saberia encontrar nas massas; de onde seria preciso concluir que, com poucas exceções, a Humanidade se arrastará sempre no terra-a-terra. É um erro; para se identificar com a vida futura não é preciso uma inteligência excepcional, nem grandes esforços de imaginação, porque cada um dela leva consigo a intuição e o desejo; mas a maneira pela qual se a apresenta, geralmente, é muito pouco sedutora, uma vez que oferece por alternativa as chamas eternas ou uma contemplação perpétua, o que faz com que muitos achem o nada preferível; de onde a incredulidade absoluta em alguns, e a dúvida na maioria. O que faltou até o presente foi a prova irrecusável da vida futura, e esta prova o Espiritismo vem dá-la, não mais por uma teoria vaga, mas por fatos patentes. Bem mais, mostra tal como a razão, a mais severa, pode aceitá-la, porque explica tudo, justifica tudo, e resolve todas as dificuldades. Por isso mesmo é que ela é clara e lógica, e está ao alcance de todo o mundo; eis porque o Espiritismo conduz à crença tantas pessoas que dela tinham se afastado. A experiência demonstra, cada dia, que o simples artesão, que os camponeses sem instrução, compreendem esse raciocínio sem esforços; colocam-se nesse novo ponto de vista tanto mais de boa vontade quanto nele encontram, como todas as pessoas infelizes, uma imensa consolação, e a única compensação possível em sua penosa e laboriosa existência.

 

Se esta maneira de encarar as coisas terrestres se generalizasse, não teria por conseqüência destruir a ambição, estimulando grandes empreendimentos, trabalhos mais úteis, mesmo obras de gênio? Se a Humanidade inteira não pensasse mais senão na vida futura tudo não periclitaria neste mundo? Que fazem os monges nos conventos, se não é se ocupar exclusivamente do céu? Ora, em que se tornaria a Terra se todo mundo se fizesse monge?

 

Um tal estado de coisas seria desastroso, e os inconvenientes maiores do que se pensa, porque os homens a perderiam sobre a Terra e não ganhariam nada dela no céu; mas o resultado do princípio que expomos é inteiramente outro para quem não a compreenda pela metade, assim como a explicamos.

 

A vida corpórea é necessária ao Espírito, ou à alma, o que é a mesma coisa, para que possa cumprir no mundo material as funções que lhe são destinadas pela Providência: é um dos órgãos da harmonia universal. A atividade que está forçada a desdobrar nas funções que exerce com o seu desconhecimento, crendo não agir senão por si mesma, que ajuda o desenvolvimento de sua inteligência e facilita seu adiantamento. A felicidade do Espírito na vida espiritual, sendo proporcional ao seu adiantamento e ao bem que pôde fazer como homem, disso resulta que quanto mais a vida espiritual adquire importância aos olhos do homem, mais ele sente a necessidade de fazer o que for possível para nela assegurar o melhor lugar possível. A experiência daqueles que viveram vem provar que uma vida terrestre inútil ou mal empregada é sem proveito para o futuro, e que aqueles que não procuram neste mundo senão as satisfações materiais as pagam bem caro, seja pelos seus sofrimentos no mundo dos Espíritos, seja pela obrigação, em que estão, de recomeçar sua tarefa em condições mais penosas do quê no passado, e tal é o caso de muitos daqueles que sofrem sobre a Terra. Portanto, considerando as coisas deste mundo do ponto de vista extra-corpóreo, o homem, longe de ser excitado pela negligência e pela ociosidade, compreende melhor a necessidade do trabalho. Falando do ponto de vista terrestre, esta necessidade é uma injustiça, aos seus olhos, quando se compara com aqueles que podem viver sem fazer nada: tem-lhes ciúme, os inveja. Falando do ponto de vista espiritual, esta necessidade tem sua razão de ser, sua utilidade, e a aceita sem murmurar, porque compreende que, sem trabalho, ficaria indefinidamente na inferioridade e privado da felicidade suprema a que aspira, e que não saberia esperar se não se desenvolve intelectualmente e moralmente. Sob este aspecto, muitos monges nos parecem mal compreenderem o objetivo da vida terrestre, e ainda menos as condições da vida futura. Pela seqüestração, se privam dos meios de se tornarem úteis aos seus semelhantes, e muitos daqueles que estão hoje no mundo dos Espíritos, nos confessaram estar estranhamente enganados, e sofrer as conseqüências de seus erros.

 

Este ponto de vista tem para o homem uma outra conseqüência imensa e imediata: é a de lhe tornar mais suportáveis as tribulações da vida. Que ele procure se proporcionar o bem-estar, a passar o mais agradavelmente possível o tempo de sua existência sobre a Terra, é muito natural e nada o proíbe. Mas, sabendo que não está neste mundo senão momentaneamente, que um futuro melhor o espera, atormenta-se pouco com as decepções que experimenta, e, vendo as coisas do alto, toma seus fracassos com menos amargura; permanece indiferente aos tormentos dos quais é alvo da parte dos invejosos e dos ciumentos; reduz ao seu justo valor os objetos de sua ambição, e se coloca acima das pequenas suscetibilidades do amor-próprio. Livre dos cuidados que se crê o homem que não sai de sua estreita esfera, pela perspectiva grandiosa que se abre diante dele, não é senão mais livre para se entregar a um trabalho proveitoso para si mesmo e para os outros. As afrontas, as diatribes, as maldades de seus inimigos não são para ele senão imperceptíveis nuvens num imenso horizonte; não se inquieta mais do que as moscas que zumbem aos seus ouvidos, porque sabe que delas logo estará livre; também todas as pequenas misérias que se lhe suscita, escorregam sobre ele como a água sobre o mármore. Colocando-se do ponto de vista terrestre, com isso se irritaria, disso se vingaria talvez; do ponto de vista extra-terrestre, os despreza como salpicos de um mal-estar passageiro. Esses são espinhos lançados sobre sua senda, e sobre os quais passa, sem mesmo se dar ao trabalho de afastá-los, para não demorar sua caminhada para o objetivo mais sério que se propôs alcançar. Longe de querer o mesmo aos seus inimigos, ele lhes sabe agradecer por fornecer-lhe a ocasião de exercer a sua paciência a e sua moderação, em proveito de seu adiantamento futuro, ao passo que disso perderia o fruto se se rebaixasse em represálias. Lamenta-os por se darem a tantas penas inúteis, e se diz que são eles mesmos que caminham sobre os espinhos pelos cuidados que tomam para fazer o mal. Tal é o resultado da diferença do ponto de vista sob o qual se considera a vida: um vos dá confusões e ansiedade; o outro a calma e a serenidade. Espíritas que sentis decepções, deixai um instante a Terra, pelo pensamento; subi às regiões do infinito e olhai do alto: vereis o que elas serão.

 

Diz-se algumas vezes. Vós que sois infelizes, olhai abaixo de vós e não acima, e com isso vereis mais infelizes ainda. Isto é muito verdadeiro, mas muitas pessoas se dizem que o mal dos outros não cura o seu. O remédio não está sempre senão na comparação, e ocorre para os quais é difícil não olhar para o alto e dizer-se: "Por que este tem o que não tenho?" Ao passo que se colocando no ponto de vista do qual falamos, aquele em que, forçosamente, estaremos um pouco à frente, se está, muito naturalmente, acima daqueles que poderíamos invejar, porque, daí, os maiores parecem bem pequenos.

 

Lembramo-nos de ter visto representar no Odéon, há uns quarenta anos, uma peça em um ato, intitulada lês Ephémères, não sabemos mais de que autor; mas, embora jovem então, ela nos causou uma viva impressão. A cena se passava no país dos Ephémères, cujos habitantes não vivem senão vinte e quatro horas. No espaço de um ato, se os vê passar do berço à adolescência, à juventude, à idade madura, à velhice, à decrepitude e à morte. Nesse intervalo, cumprem todos os atos da vida: batismo, casamento, negócios civis e governamentais, etc.; mas como o tempo é curto e as horas contadas, é preciso se apressar; também tudo se faz com uma rapidez prodigiosa, o que não lhes impede de se ocupar de intrigas, e de se darem muito trabalho para satisfazer sua ambição, e se superarem uns aos outros. Esta peça, como se vê, encerrava um pensamento profundamente filosófico, e involuntariamente o espectador, que via num instante se desenrolar todas as fases de uma existência bem cheia, se punha a dizer: Quanto essas pessoas são tolas em se darem tanto mal por tão pouco tempo que têm para viver! Que lhes resta das confusões de uma ambição de algumas horas? Não fariam melhor viverem em paz?

 

Está bem aí o quadro da vida humana vista do alto. A peça, no entanto, não viveu pouco mais que seus heróis: não foi compreendida. Se o autor vivesse ainda, o que ignoramos, provavelmente hoje seria espírita.

 

A.K.

 

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Allan Kardec, in OBRAS PÓSTUMAS sobre A VIDA FUTURA (1ª. Parte)

 

"O homem não se preocupará com a vida futura senão quando vir nela um fim claro e positivamente definido, uma situação lógica, em correspondência com todas as suas aspirações, que resolva todas as dificuldades do presente e em que se lhe depare coisa alguma que a razão não possa admitir. Se ele se preocupa com o dia seguinte, é porque a vida do dia seguinte se liga intimamente à vida do dia anterior; uma e outra são solidárias; ele sabe que do que fizer hoje depende a sua posição amanhã e do que fizer amanhã dependerá a sua posição no dia imediato e assim por diante.


"Tal tem de ser para ele a vida futura, quando esta não se mais achar perdida nas nebulosidades das abstrações e for uma atualidade palpável complemento necessário da vida presente, uma das fases da vida geral, como os dias são fases da vida corporal. Quando vir o presente reagir sobre o futuro, pela força das coisas, e, sobretudo, quando compreender a reação do futuro sobre o presente; quando, em suma, verificar que o passado, o presente e o futuro se encadeiam por inflexível necessidade, como o ontem, o hoje e o amanhã na vida atual, oh! então suas idéias mudarão completamente, porque ele verá na vida futura não só um fim, como também um meio; não um efeito distante, mas atual. Então, igualmente, essa crença exercerá sem dúvida, e por conseqüência toda natural, ação preponderante sobre o estado social e sobre a moralização da Humanidade.


Tal o ponto de vista donde o Espiritismo nos faz considerar a vida futura."

 

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 RESUMO:

  • Jesus se refere claramente à vida futura

  • Sem a vida futura, com efeito, a maior parte dos  preceitos de moral de Jesus não teriam nenhuma razão de ser.

  • O dogma da vida futura pode ser considerado como o ponto central do ensinamento do Cristo.

  • Jesus veio nos revelar que existe outro mundo, onde a justiça de Deus se realiza. É esse mundo que ele promete aos que observam os mandamentos de Deus. É nele que os bons são recompensados. Esse mundo é o seu reino, no qual se encontra em toda a sua glória, e para o qual voltará ao deixar a Terra.

  • Jesus se limitou a colocar, de certo modo, a vida futura como um princípio, uma lei da natureza, à qual ninguém pode escapar. Todo cristão, portanto, crê forçosamente na vida futura, mas a idéia que muitos fazem dela é vaga, incompleta, e por isso mesmo falsa em muitos pontos. Para grande número, é apenas uma crença, sem nenhuma certeza decisiva, e daí as dúvidas, e até mesmo a incredulidade.

  • Com o Espiritismo, a vida; futura não é mais simples artigo de fé, ou simples hipótese. É uma realidade material, provada pelos fatos.

  • A descrição da vida futura é de tal maneira circunstanciada, são tão racionais as condições da existência feliz ou infeliz do que nela se encontram, que acabamos por concordar que não podia ser de outra maneira, e que ela bem representa a verdadeira justiça de Deus.

O Espiritismo faz-nos ver a vida terrestre por aquilo que ela é, nos colocando no ponto de vista da vida futura;   

  • pelas provas materiais que dela nos fornece,

  • pela intuição límpida, precisa, lógica que dela nos dá,

  • pelos exemplos que coloca sob nossos olhos, e a ela nos transporta pelo pensamento:

  • é vista, é compreendida;

  • não é mais essa noção vaga, incerta, problemática, que se nos ensina do futuro, e que, involuntariamente, deixa dúvidas;

  • para o Espírita, é uma certeza adquirida, é uma realidade.

O Espiritismo faz mais ainda:   

  • mostra-nos a vida da alma, o ser essencial, uma vez que é o ser pensante, remontando no passado a uma época desconhecida, e se estendendo indefinidamente no futuro, de tal sorte que a vida terrestre, fosse ela de um século, não é mais do que um ponto nesse longo percurso.

Se pois, o homem, eleva seu pensamento de modo a abarcar a vida da alma, forçosamente, chega-se a esta conseqüência, de que assim se percebe a vida terrestre  

 

  • como uma estação momentânea;

  • que a vida espiritual é a vida real, porque ela é indefinida;

  • que a ilusão é a de tomar a parte pelo todo, quer dizer, a vida do corpo, que não é senão transitória, pela vida definitiva.

Para ver as coisas conforme a vida futura, dir-se-á, é preciso uma inteligência pouco comum,   

  • um espírito filosófico que não se saberia encontrar nas massas;

  • de onde seria preciso concluir que, com poucas exceções, a Humanidade se arrastará sempre no terra-a-terra.

É um erro;   

  • para se identificar com a vida futura não é preciso uma inteligência excepcional, nem grandes esforços de imaginação, porque cada um dela leva consigo a intuição e o desejo;

  • mas a maneira pela qual se a apresenta, geralmente, é muito pouco sedutora, uma vez que oferece por alternativa as chamas eternas ou uma contemplação perpétua, o que faz com que muitos achem o nada preferível; de onde a incredulidade absoluta em alguns, e a dúvida na maioria. O que faltou até o presente foi a prova irrecusável da vida futura, e  

  • esta prova o Espiritismo vem dá-la, não mais por uma teoria vaga, mas por fatos patentes.

Bem mais, mostra tal como a razão, a mais severa, pode aceitá-la, porque explica tudo, justifica tudo, e resolve todas as dificuldades. Por isso mesmo é que ela é clara e lógica, e está ao alcance de todo o mundo;   

  • eis porque o Espiritismo conduz à crença tantas pessoas que dela tinham se afastado.

A experiência demonstra, cada dia, que o simples artesão, que os camponeses sem instrução, compreendem esse raciocínio sem esforços; colocam-se nesse novo ponto de vista tanto mais de boa vontade quanto nele encontram, como todas as pessoas infelizes, uma imensa consolação, e a única compensação possível em sua penosa e laboriosa existência. 

 

A vida corpórea é necessária ao Espírito, ou à alma, o que é a mesma coisa, para que possa cumprir no mundo material as funções que lhe são destinadas pela Providência: é um dos órgãos da harmonia universal. 

  • quanto mais a vida espiritual adquire importância aos olhos do homem, mais ele sente a necessidade de fazer o que for possível para nela assegurar o melhor lugar possível.

  • considerando as coisas deste mundo do ponto de vista extra-corpóreo, o homem, longe de ser excitado pela negligência e pela ociosidade, compreende melhor a necessidade do trabalho.

  • do ponto de vista espiritual, esta necessidade tem sua razão de ser, sua utilidade, e a aceita sem murmurar, porque compreende que, sem trabalho, ficaria indefinidamente na inferioridade e privado da felicidade suprema a que aspira, e que não saberia esperar se não se desenvolve intelectualmente e moralmente.

A vida futura tem para o homem uma outra conseqüência imensa e imediata: 

  • é a de lhe tornar mais suportáveis as tribulações da vida.

Que ele procure se proporcionar o bem-estar, a passar o mais agradavelmente possível o tempo de sua existência sobre a Terra, é muito natural e nada o proíbe. Mas, sabendo que não está neste mundo senão momentaneamente, que um futuro melhor o espera, 

  • atormenta-se pouco com as decepções que experimenta, e, vendo as coisas do alto, toma seus fracassos com menos amargura;

  • permanece indiferente aos tormentos dos quais é alvo da parte dos invejosos e dos ciumentos;

  • reduz ao seu justo valor os objetos de sua ambição, e se coloca acima das pequenas suscetibilidades do amor-próprio.

Livre dos cuidados que se crê o homem que não sai de sua estreita esfera,   

  • pela perspectiva grandiosa que se abre diante dele, não é senão mais livre para se entregar a um trabalho proveitoso para si mesmo e para os outros.

As afrontas, as diatribes, as maldades de seus inimigos não são para ele senão imperceptíveis nuvens num imenso horizonte; não se inquieta mais do que as moscas que zumbem aos seus ouvidos, porque  

  • sabe que delas logo estará livre;

  • também todas as pequenas misérias que se lhe suscita, escorregam sobre ele como a água sobre o mármore.

...o resultado da diferença do ponto de vista sob o qual se considera a vida:  

 

Sem a vida futura há confusões e ansiedade;

Com a vida futura há calma e serenidade.

 

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