CONTO

A MARAVILHOSA HISTÓRIA

DO GRANDE MÚSICO TANSEN
Rabindranath Tagore

(De Tagore Selected Poems, Nova Delhi, 1976.)

 
 

 

O sufi Inayat Khan conta-nos a maravilhosa história do grande músico Tansen, da corte do imperador Akbar:

- Dize-me, grande músico - perguntou o imperador -, quem foi teu mestre?

E ele respondeu:

- Magestade, meu mestre é um músico bastante famoso; porém, mais do que isso, não posso chamá-lo de músico, mas de a Música em si.

E o imperador insistiu:

- Posso ouvir teu mestre cantar?

E Tansen respondeu:

- Talvez. Posso tentar, mas não podeis pensar em trazê-lo para esta corte.

E o imperador insistiu:

- Poderei então ir ao encontro dele?

E o músico respondeu:

- Seu orgulho poderia até fazê-lo revoltar-se por ter de cantar diante de um rei.

E Akbar insistiu:

- E se eu for como teu servo?

Tansen respondeu:

- Bem, há certa esperança nisto.

Assim, ambos foram aos Himalaias, para as altas montanhas, onde um sábio tinha seu templo musical numa caverna, vivendo em contato com a Natureza e em sintonia com o Infinito. Lá chegando, estando o músico a cavalo e Akbar a pé, o sábio observou que o imperador se humilhara para poder ouvir sua música e sentiu-se inclinado a cantar para ele. E, quando veio a vontade de cantar, cantou. E seu canto foi grande, verdadeiro fenômeno psíquico. Era como se todas as plantas e árvores da floresta estivessem vibrando. Era uma canção universal. A profunda impressão que isso causou em Akbar e Tansen foi maior do que poderiam suportar. Mergulharam ambos, num estado de transe, de tranqüilidade, de paz. Quando abriram os olhos, o Mestre já não estava mais ali. O imperador disse:

- Que estranho fenômeno! Mas... para onde foi o Mestre?

Tansen respondeu:

- Jamais o vereis nesta caverna novamente, pois, se uma vez apenas um homem provar desta canção, há de persegui-la para sempre, ainda que isto lhe custe a vida.

Certo dia, quando estavam em casa, o imperador perguntou ao músico:

- Dize-me que tipo de Raga, que canção teu Mestre cantou?

Tansen disse-lhe o nome da Raga e cantou para ele. O imperador, porém, não se sentiu satisfeito e disse:

- Sim é a mesma música, porém não é o mesmo espírito. Por que isto?

- É que eu estou cantando diante do meu imperador e meu Mestre canta diante de Deus. Eis a diferença.

 

* * *

 

 

 

 

 

 

A paz de coração só se mantém pelo desprezo de tudo quanto possa perturbá-la.
Rousseau
Filósofo francês
1712 à 1778