Artigo

AS RAZÕES EXPLICATIVAS DO CAMELO E AGULHA

Victor Manuel Pereira de Passos

 
 

 
Mateus 19:23-30

23 Jesus, pois, disse a seus discípulos: "Em verdade vos digo que um rico entrará com dificuldade no reino dos céus.
24 Novamente vos digo: mais fácil é um camelo passar pelo buraco de uma agulha, que um rico entrar no reino de Deus!
25 Ouvindo isso, os discípulos muito se chocaram e perguntaram: "quem pode, então, salvar-se"?
26 Olhando-os, porém, Jesus disse-lhes: "Aos homens isso é impossível, mas a Deus tudo é possível".
27 Respondendo, então, Pedro disse-lhe: "Eis que nós abandonamos tudo e te seguimos; que, pois, será para nós"?
28 Mas Jesus disse-lhes: "Em verdade vos digo, que vós, que me seguistes na reencarnação, cada vez que o Filho do Homem se sentar no trono de sua glória, sentareis também vós sobre doze tronos, discriminando as doze tribos de Israel.
29 E todo que tenha abandonado casas ou irmãos ou irmãs ou pai ou mãe ou esposa ou filhos ou campos por causa do meu nome, receberá o cêntuplo e participará da vida imanente.
30 Muitos primeiros, porém, serão últimos, e últimos serão primeiros".

Marcos 10:23-31

23 Olhando em torno, disse Jesus a seus discípulos: "Como entrarão com dificuldade no reino dos céus os que têm riquezas"!
24 Os discípulos porém se horrorizaram com as palavras dele. Mas respondendo Jesus disse-lhes: "Filhos, como é difícil entrar no reino de Deus!
25 É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, que um rico entrar no reino de Deus".
26 Eles se chocaram terrivelmente, dizendo uns aos: "E quem poderá salvar-se"?
27 Olhando-os, Jesus disse: "Aos homens isso é impossível, mas não a Deus, pois tudo é possível a Deus".
28 Começou Pedro a dizer-lhe: "Eis que nós deixamos tudo e te seguimos".
29 Disse Jesus; "Em verdade vos digo, ninguém que tenha deixado casa ou irmãos ou irmãs ou mãe ou pai ou filhos ou terras, por minha causa e por causa da Boa-Nova,
30 que não receba agora, nesta oportunidade, o cêntuplo de casas e irmãos e irmãs e mães e filhos e campos, com perseguições, e no eon vindouro a vida imanente.
31 Muitos primeiros, porém, serão últimos, e últimos serão primeiros".

Lucas18:24-30

24 Vendo, então, Jesus que ele se tornara triste, disse: "Como dificilmente os que têm riquezas entrarão no reino de Deus!
25 Pois é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, que um rico entrar no reino de Deus".
26 Disseram, então, os ouvintes: "E quem pode salvar-se"?
27 Ele disse: "O impossível entre os homens é possível para Deus".
28 Disse Pedro, então: "Eis que deixamos nossas coisas e te seguimos"...
29 Então ele disse-lhes: "Em verdade vos digo que ninguém há que abandone casa ou esposa ou irmãos ou país ou filhos por causa do reino de Deus,
30 que não receba muito mais nesta oportunidade e a vida imanente no eon vindouro".

Muita tinta tem corrido acerca desta parábola, e tantos solícitos parafraseantes, as entendem de forma, personalizada, como se trata-se de algo com mistério, ou procuram projetar a sua ideia, mas apenas colidem numa situação, em situação alguma Deus condenaria ninguém à impossibilidade de evolução, de oportunidade de reparação, ou não existisse a reencarnação.

Logo é preciso fazer jus e tentar perceber esta asservativa de enorme profundidade.

Tem aparecido muitas sugestões sobre o significado reflexivo 'o camelo e a agulha'.

Alguns sugerem que pode ter havido uma losa ( erro textual), visto que uma simples vogal pode fazer a diferença entre 'camelon e camilon' sendo esta cordel, no grego. Esta hipótese está fora de questão porque seria possível um cordel passar pelo buraco duma agulha larga.

Outros sugerem que o buraco da agulha se refere a uma das duas portas estreitas da entrada na cidade de Jerusalém.

 

Sinceramente essas portas são bastante largas para um camelo passar, porém tem o senão de serem portas demasiado pesadas para movimentar, então recortaram nelas uma mais pequena e estreita para o movimento normal das pessoas. (recortaram nas próprias portas outra mais pequena)

Esta porta estreita, pelo seu formato, terá sido referida por Jesus como o 'buraco da agulha'. Mas, também esta ideia não tem muito suporte. Além disso, a porta pequena jamais foi referida pelos israelitas como o 'buraco' duma agulha. Esta teoria não apareceu antes do nono século.

 

Os guias turísticos de Israel referindo-se ao buraco, colocam-no em comparação com as vigias estreitas, que aparecem em forma de agulha, como tem na frontaria da porta dourada, onde estão quatro dessas vigias em forma de agulha, semelhantes a

muralhas de um castelo.

 

A impressão recolhida no semblante dos discípulos foi de horror. Justamente eles pensavam que os ricos entrariam muito mais facilmente: que não consegue um homem com dinheiro? Então Jesus resolve aprofundar o espanto e chocá-los, para que jamais esqueçam a lição, e faz uma comparação que os deixa boquiabertos: "é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, que um rico entrar no reino dos céus".

Teofilacto, no século 11°, em seus comentários evangélicos (Patrol. Graeca vol. 123) sugere que, em lugar de kámelos, "camelo", devia ler-se cámilos, "cabo", "corda grossa", aceitando a hipótese já lançada por Cirilo de Alexandria, em sua obra "Contra Julianum", cap. 6.º. Mas isso nada resolve.


Além do que a expressão de Jesus encontra eco nos escritos rabínicos: "ninguém sonha com uma palmeira de ouro, nem com um elefante a passar pelo buraco de uma agulha" (Rabbi Raba, cfr. Strack e Billerbeck, vol. I, pág. 828).

Ora, na época de Jesus os camelos eram comuns à vida quotidiana, ao passo que os elefantes constituíam recordações vagas de séculos atrás, por ocasião das guerras macedônicas. E o mesmo Jesus utiliza outra comparação com o camelo: "vós, que coais um mosquito e engolis um camelo" (Mat. 23: 24).

A exclamação cheia de ternura, com que Jesus se dirige a seus discípulos, chamando-os "meus filhos" (tékna) parece querer abrandar o choque traumático que lhes causara. Na expressão "os que têm riquezas", o substantivo empregado é chrêmata, que engloba bens móveis e imóveis, ao passo que ktêmata exprime apenas os imóveis.

No vers. 24 alguns códices trazem "Filhos, como é difícil aos que confiam nas riquezas entrar no reino dos céus".

Esse adendo, na opinião dos hermeneutas, é glosa antiga, para justificar os ricos que não queriam desfazer-se de suas riquezas, mas cuja amizade interessava ao clero. Knabenbauer (Cursus Sacrae Scripturae Paris, 1894, pág. 271) esclarece muito atiladamente: (si glossa est, apte et opportune addebatur; neque enim opes incursat, sed eos qui ultra modus iis inhaerent), isto é, "se é uma glosa (Anotação que explica o sentido de uma palavra ou de um texto; comentário, interpretação.), foi acrescentada adequada e oportunamente; pois não condena as riquezas, mas aqueles que a elas se apegam além da medida".

O trauma leva os discípulos (Lucas diz "os ouvintes") a interrogar-se entre si: "e quem poderá salvar-se?"

Realmente todos os seres humanos têm posses, embora as de alguns seja constituída de alguns trapos para cobrir a nudez. Há então clara distinção entre pobreza efetiva e pobreza afetiva. A primeira, por maior que seja, talvez a posse de simples lata velha para beber água, pode envolver apego que provoque briga se alguém lha quiser tirar: enquanto a segunda, mesmo que se possuam bens em quantidade, é mantida com a psicologia do mero gerente ou mordomo, sem nenhum apego afetivo em relação a ela.

Conclusão

A essência da parábola , é a de causar mais espanto e reflexão entre os seus seguidores, o Pai nunca, em circunstância alguma impediria os ricos de terem a oportunidade de entrar no Reino de Deus, e a exaltação é feita aos excessos que o rico possa cometer pela riqueza , dando o mote de que realmente a prova da riqueza é muito difícil, porque o facilitismo, como foi dito não sinônimo de partilha isenta, mas um campo minado para quem detém a riqueza. Mas daí a dizer que mesmo falhando, não terá nova oportunidade de revitalização dos seus valores , é um engano.

Nesta parábola, temos os primeiros comentários feitos por Jesus, enquanto se afastava o jovem rico, triste e preocupado (stygnasas, "de sobrecenho carregado") com a luta íntima que nele se travara entre a vontade incontrolável de seguir o Mestre, e o apego descontrolado a seus bens entre o amor ao Espírito e o amor à matéria.

Marcos anota que Jesus "olhou em torno de si" (periblepsámenos), observando com penetração psicológica o efeito que nos discípulos causara a cena, e o que produziriam suas palavras. E disse: "Como os ricos entram com dificuldade no reino dos céus!" O advérbio dyskólôs, "dificilmente", é usado apenas aqui nos três sinópticos.

Todos nós somos seres que falhamos e estamos em cumprimento da renovação, que nuns é mais lenta e noutros mais rápida.

Bibliografia
Sabedoria do Evangelho de Carlos Torres Pastorinho
Cursus Sacrae Scripturae Paris, 1894, pág. 271
Cirilo de Alexandria, em sua obra "Contra Julianum", cap. 6.º.
Teofilacto, no século 11°, em seus comentários evangélicos (Patrol. Graeca vol. 123)
(Rabbi Raba, cfr. Strack e Billerbeck, vol. I, pág. 828).
Evangelho segundo Espiritismo de Allan Kardec
Victor Kossi Agbanou, Le discours eschatologique de Matthieu 24-25: tradition et réaction, Paris, Lecoffre, 1983, 228pp., dans la série "Etudes bibliques. Nouvelle série" vol.2, br.orig., 3 cachets (dont un petit cachet sur les tranches inférieures), bon état,
Johann Nepomuk Alber, Institutiones hermeneuticae Scripturae Veteris Testamenti

 

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 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.