- Espiritismo

 - Artigos

Articulista: Renato Costa

 Títulos dos artigos

 

Renato Costa é natural de Petrópolis, mas há muito tempo reside na capital fluminense. É engenheiro e expositor espírita no Rio de Janeiro. Atua intensamente na divulgação da Doutrina Espírita. Possui uma extensa lista de ações voltadas, principalmente, para o objetivo de manter leigos e estudiosos do Espiritismo atualizados quanto às informações da Doutrina codificada por Allan Kardec. É médium psicógrafo e psicofônico e ministra palestras em diversas casas do Rio de Janeiro. Ele criou e mantém o site da Instituição Espírita Joanna de Ângelis (www.ieja.org), à qual é associado. Faz parte também do Conselho Editorial do Grupo de Estudos Avançados Espíritas – GEAE (www.geae.inf.br), sendo um dos responsáveis pelo seu boletim mensal editado em inglês, o Spiritist Messenger.

 

A Forma do Espírito

A Liberdade

A Prece

A Questão Primeira

Adão e Eva

Amor à Vida

As Causas do Instinto: Terá Chegado a Hora de Sabê-las?

As Parábolas de Jesus

Atendimento Fraterno na Internet

Bem-Aventurados os Pobres de Espírito

Caim e Abel: Procurando Entender a Alegoria

Caminhos da Evolução Humana - Uma Imagem e uma Reflexão

Clarividência Premonitória e Livre-arbítrio

Como Tratar o Sentimento de Orgulho: Reflexões

De Como Saber se o Autor Espiritual é Espírita

Demonstração de Mediunidade na TV

Desculpe o Transtorno, Estamos em Obras para Atendê-lo Melhor

Deus e a Ciência Humana: Considerações

Do Materialismo Radical ao Espiritualismo Fanático

E, ao Final da Jornada, Seremos Perfeitos

Entendendo o Conceito de Ubiqüidade

Forma e Ubiqüidade dos Espíritos

Golfinhos, Papagaios e Muriquis: Três Caminhos Diferentes da Evolução Anímica

Gratidão, por que? (novo)

Há Muitas Moradas na Casa de Meu Pai
Inteligência e Instinto: A Tênue Fronteira

Irracional, eu?

Minerais: Nossos Irmãos?

Não Saiba a Vossa Mão Esquerda o que Dê a Vossa Mão Direita

Necessidade da Encarnação

Nosso Guia e Modelo

O Aspecto Evolutivo da Reencarnação

O Problema é Doutrina
Os Diversos Caminhos da Evolução Anímica

Percepções da Realidade

Perturbação na Hora do Sono

Porque Sentem Dor os Animais

Proteção Contra Mal-Intencionados

Reflexões Sobre a Fé (novo)
Registros Indeléveis da Evolução Anímica

Rotina e Ritual

Sofrimento e Evolução

Uso da Mediunidade no Dia a Dia: Uma Reflexão

 

A Gênese

 

Entrevista para o ICEB, realizada em 24/06/2003 e transmitida pela Rádio Rio de Janeiro

em quatro domingos consecutivos, às 10h14min, no programa "Cultura Espírita"

 

Entrevistador: Saulo Salgado Vanderlei

Entrevistado: Renato Costa

 
 

Primeiro Dia


1. Em que sentido se pode dizer que A Gênese difere das demais obras da Codificação?


Vejamos, inicialmente, o que diz Kardec na Introdução:

 

“Sem embargo da parte que toca à atividade humana na elaboração desta doutrina, a iniciativa da obra pertence aos Espíritos, porém não a constitui a opinião pessoal de nenhum deles.


Ela é, e não pode deixar de ser, a resultante do ensino coletivo e concorde por eles dado. Somente sob tal condição se lhe pode chamar doutrina dos Espíritos. Doutra forma, não seria mais do que a doutrina de um Espírito e apenas teria o valor de uma opinião pessoal.


Generalidade e concordância no ensino, esse o caráter essencial da doutrina, a  condição mesma da sua existência, donde resulta que todo princípio que ainda não haja recebido a consagração do controle da generalidade não pode ser considerado parte integrante dessa mesma doutrina. Será uma simples opinião isolada, da qual não pode o Espiritismo assumir a responsabilidade.”


Mais adiante, ele continua:

 

“Os mesmos escrúpulos havendo presidido à redação das nossas outras obras, pudemos, com toda verdade, dizê-las: segundo o Espiritismo, porque estávamos certo da conformidade delas com o ensino geral dos Espíritos. O mesmo sucede com esta, que podemos, por motivos semelhantes, apresentar como complemento das que a precederam, com exceção, todavia, de algumas teorias ainda hipotéticas, que tivemos o cuidado de indicar como tais e que devem ser consideradas simples opiniões pessoais, enquanto não forem confirmadas ou contraditadas, a fim de que não pese sobre a doutrina a responsabilidade delas. (1)


Ora, fica evidente, pelas palavras do Codificador, que a obra A Gênese é única no tocante a conter trechos que não foram obtidos pelo ensino geral dos Espíritos. Do mesmo modo, resta claro, a meu ver, que Kardec nos conclama a nos mantermos atualizados com os avanços das diversas ciências, na medida de nossas possibilidades, para que possamos discernir quais das teorias apresentadas eram hipotéticas quando apresentadas e detectar quais, dentre elas, já foram confirmadas ou rejeitadas.


2. Entendendo, assim, que Kardec nos conclama a estudar continuamente os avanços da ciência de modo a verificarmos a confirmação ou não das teorias apresentadas em A Gênese e, tendo em vista o grande avanço da Ciência ao longo do tempo que nos separa da época em que a obra foi concebida, devemos entender que existe a necessidade de uma profunda revisão?


Eu não diria revisão. Uma obra, qualquer que seja, tem uma época, um contexto que devem ser respeitados e entendidos. Além disso, uma obra só pode ser revista pelo próprio autor que a escreveu, caso contrário, não será mais a mesma obra.


Tampouco acho conveniente que se faça demasiadas anotações de rodapé, o que carrega muito as páginas e não assegura que o leitor faça a leitura das notas mais importantes.


Entendo que A Gênese necessita de uma versão comentada, que seja atualizada periodicamente, sempre que a ciência traga novos elementos de entendimento para as teorias nela apresentadas. Sendo uma obra da Codificação, que precisa ser estudada por todos os espíritas, ela deve ser tornada disponível de tal forma que qualquer espírita, independentemente de seu preparo ou formação, possa obter dela somente informações confiáveis e atuais, não só as que foram obtidas pelo ensino concordante dos Espíritos mas, também, as que ali forem apresentadas como teorias cientificas.


3. É do seu entender que essa versão comentada de A Gênese deva ser editada com certa urgência?


Entendo que sim, apesar de também entender que a mesma deva ser feita com muita seriedade e cuidado, com o apoio de uma equipe multidisciplinar e sob a coordenação, preferivelmente, da FEB.


Tenho lido com uma freqüência desagradavelmente alta, mensagens em listas espíritas ridicularizando o Espiritismo, usando como argumento teorias que Kardec claramente colocou como sujeitas a verificação, como a geração espontânea ou os anéis sólidos de Saturno. Esses detratores não espíritas que entram nas listas com o único objetivo de influenciar negativamente os iniciantes na Doutrina encontram campo fértil pois, infelizmente, a maioria dos irmãos que entram em defesa da Codificação não lembram do que Kardec falou na Introdução e acabam usando argumentos frágeis que não são suficientes para desfazer o mal que os detratores causam.


Para que tal fragilidade desnecessária seja eliminada é necessário não só que seja editada uma versão comentada de A Gênese mas que a mesma seja disponibilizada em meio eletrônico, para download gratuito pela Internet. Desse modo, todos os sites que oferecem hoje a Codificação para download poderiam passar a oferecer A Gênese em versão comentada e não na versão simples.


4. Visando atender àquilo que você chamou de recomendação implícita de Kardec, onde entende que devamos nós espíritas estudar os avanços da Ciência, somente em obras de autores espíritas ou em toda forma de mídia disponível?


Cada um deve fazê-lo de acordo com suas possibilidades.


Se a pessoa é iniciante na Doutrina ou se, mesmo não o sendo, carece de preparo para o estudo autônomo, é recomendável que procure atualizar-se freqüentando palestras, estudos dirigidos ou lendo obras espíritas que versem sobre os temas.


Em se tratando de estudioso bem preparado, por outro lado, entendo recomendável que  obtenha informação por todos os meios disponíveis. Seja lendo boas obras de divulgação científica, livros ou revistas, pesquisando na Internet, assistindo a canais ou programas que abordam temas científicos ou  mesmo, por certo, lendo artigos espíritas. Quem tem bom entendimento da Doutrina sabe utilizá-la como filtro para examinar tudo o que estuda e interpretar cada novo conhecimento que adquire de modo com ela compatível.


5. Existe, a seu ver, alguma recomendação especial para o ensino de A Gênese no Centro Espírita?


Entendo que sim.


Tendo em vista o que foi dito, o responsável pelo estudo de A Gênese deve proceder a uma verificação previa de tudo o que será abordado a cada dia, de modo a discernir se necessita pesquisar as atualidades científicas ou se já tem conhecimento atualizado sobre as teorias que serão tratadas. Passar adiante em um estudo informações incompatíveis com o que a ciência apresenta nos dias de hoje é certamente algo que Kardec reprovaria.


É verdade que entender o que a ciência tem hoje a dizer sobre algumas teorias apresentadas em A Gênese exige um preparo científico que nem todos os estudiosos espíritas possuem. Caso seja esse o caso do responsável pelo estudo no Centro Espírita entendo que este deverá se ater a comentar aquilo que entende bem, não deixando, contudo, de apontar aos aprendizes o que é informação consolidada pelo ensino coletivo dos Espíritos e o que são teorias passíveis de comprovação.
 

Segundo Dia


1. Poderia citar algum tópico dentre os julgados carentes de verificação em A Gênese que dê ensejo a alguma ponderação especial?


Sim. No Capítulo VI (Uranografia Geral), por exemplo, temos, nos itens 26 e 27, duas teorias que parecem ter sido rejeitadas pela ciência. Como veremos, uma o foi e a outra, não.

Diz o item 26: “O número e o estado dos satélites de cada planeta têm variado de acordo com as condições especiais em que eles se formaram. Alguns não deram origem a nenhum astro secundário, como se verifica com Mercúrio, Vênus e Marte (2), ao passo que outros, como a Terra, Júpiter, Saturno, etc., formaram um ou vários desses astros secundários.”

 

Apesar da moderna astronomia, aliada às viagens espaciais, ter confirmado que Mercúrio e Vênus não possuem, realmente, satélites, o mesmo não pode ser dito em relação a Marte que teve suas duas luas, Deimos e Phobos, descobertas em 12 de agosto de 1877 pelo astrônomo americano Asaph Hall.

 

Deimos e Phobos são muito pequenos. Demos tem apenas 6 km de raio e Phobos, 11. Só para se ter uma idéia de como são pequenos os satélites de Marte, nossa lua tem raio de 3.476km. Sua constituição, tamanho e formato em muito se assemelha à de asteróides. O interessante é que, devido ao seu tamanho e à sua constituição os astrônomos têm fortes suspeitas de que ambos se formaram em algum outro lugar e foram capturados posteriormente pela gravidade de Marte.

 

Desse modo, a teoria apresentada em A Gênese, de que as condições de formação de Marte não teriam dado origem a nenhum satélite, está em sintonia com o atual conhecimento científico, apesar de, em um primeiro instante, parecer que não está.

 

Vamos, agora ao Item 27. Vejamos o que ele diz: “Além de seus satélites ou luas, o planeta Saturno apresenta o fenômeno especial do anel que, visto de longe, parece cercá-lo de uma como auréola branca. Esse anel é, com efeito, o resultado de uma separação que se operou no equador de Saturno, ainda nos tempos primitivos, do mesmo modo  que uma zona equatorial se escapou da Terra para formar o seu satélite. A diferença consiste em que o anel de Saturno se formou, em todas as suas partes, de moléculas homogêneas, provavelmente já em certo estado de condensação, e pode, dessa maneira, continuar o seu movimento de rotação no mesmo sentido e em tempo quase igual ao do que anima o planeta. Se um dos pontos desse anel houvesse ficado mais denso do que outro, uma ou muitas aglomerações de substância se teriam subitamente operado e Saturno contaria muitos satélites a mais. Desde a época da sua formação, esse anel se solidificou, do mesmo modo que os outros corpos planetários.” 

 

Ora, Saturno não é o único planeta a possuir anéis. Júpiter, Urano e Netuno também os possuem, tendo sido os mesmos, no entanto, descobertos apenas a partir de 1977.  Além disso, não existe em Saturno um anel sólido mas sete anéis com órbita independente e que se compõem, cada um, de inúmeras pequenas partículas com tamanhos variando de um centímetro a vários metros. Há muito poucas partículas em cada anel. Se todas as partículas de todos os anéis fossem compactadas em um único corpo, daria um satélite de menos que 100km de diâmetro. Junto com os trinta satélites do planeta, os anéis  de Saturno representam um complexo sistema em interação cujas características ainda são objeto de estudo pela ciência. A origem dos anéis ainda é uma questão em aberto para os cientistas. Alguns acreditam que eles teriam se formado pelo despedaçamento de um satélite ou asteróide pela gravidade de Saturno. Outros, que eles seriam compostos por fragmentos de um satélite que não conseguiu se constituir, ou seja, não se condensou.

 

Como podemos ver, comparado os fatos que a ciência tem a nos mostrar com o que consta de A Gênese, vários pontos encontram-se em conflito. Nosso comentário com respeito a este Item, portanto, é de outra natureza. Como pode ser verificado na nota de rodapé da primeira página do Capítulo VI – Uranografia Geral, todo o capítulo é uma transcrição de uma série de comunicações ditadas à Sociedade Espírita de Paris, em 1862 e 1863, sob o título - Estudos  Uranográficos e assinadas GALILEU, tendo sido o médium identificado pelas iniciais C. F. Consta, ainda, do rodapé uma Nota do Tradutor (Guillon Ribeiro) observando serem C.F. as iniciais do nome de Camile Flammarion.

 

Admitindo ter sido o médium Camile Flammarion, teríamos aí um sábio astrônomo psicografando um sábio Espírito, que foi, ele mesmo, um dos pais da astronomia. Como, entretanto, todo o capítulo foi obra de um único Espírito, não foi satisfeita a condição de ensino coletivo e concorde dos Espíritos, ficando, portanto, todo ele, no dizer da Kardec, na condição de uma “opinião pessoal”.

 

Mesmo entendendo o Capítulo VI como uma teoria passível de verificação, no entanto, trata-se de uma teoria apresentada por um Espírito e, ainda mais, por um Espírito sábio e estudioso dos assuntos sobre os quais dissertou. É improvável, a meu ver, que o Espírito Galileu, livre das amarras da matéria, tivesse abandonado os estudos aos quais tinha dedicado sua existência entre nós. Alguém poderia, então, perguntar: - Como pode um Espírito adiantado e estudioso de astrologia ter ignorado realidades como a existência de anéis em outros planetas além de Saturno ou o fato de os ditos anéis não serem sólidos?

 

A resposta a essa pergunta não me parece simples. Uma hipótese, a meu ver, é sugerida pela escolha do médium utilizado. Sendo o médium, Camile Flammarion, um astrônomo, ele saberia identificar quando alguma comunicação que recebesse estivesse em desacordo com o conhecimento astronômico de sua época. Seria proveitoso aos objetivos da obra que ela apresentasse conhecimento científico ignorado pela ciência de então? Penso que não. A escolha de Flammarion teria sido, neste caso, uma garantia para que a comunicação não contivesse elementos desconhecidos que causassem estranheza ainda maior nos meios científicos de então.

 

2) Existe em A Gênese alguma linha de raciocínio que tenha sido deixada inconclusiva?

Ocorre-me uma, existente no Capítulo III -  Inteligência e Instinto, e que vai da questão 12 à de número 17 (pg 74 a 78). Nessa linha de raciocínio Kardec explora diversas hipóteses sobre a origem do instinto e da inteligência, encerrando, no item 17, com as seguintes palavras:

 

“Todas essas maneiras de considerar o instinto são forçosamente hipotéticas e nenhuma apresenta caráter seguro de autenticidade, para ser tida como solução definitiva. A questão, sem dúvida, será resolvida um dia, quando se houverem reunido os elementos de observação que ainda faltam. Até lá, temos que limitar-nos a submeter as diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e esperar que a luz se faça. A solução que mais se aproxima da verdade será decerto a que melhor condiga com os atributos de Deus, isto é, com a bondade suprema e a suprema justiça.”


3) Tendo em vista o que disse o Codificador no item 17,  poderíamos dizer que já estão, nesta alvorada do século 21, reunidos os elementos de observação que faltavam a Kardec quando escreveu A Gênese?


É nosso parecer que sim. Em uma série de artigos que vêm sendo publicados pela Revista Internacional de Espiritismo tenho procurado explorar a questão. Alguns desses elementos são: o Modelo do Encéfalo Triúnico, proposto pelo neurologista americano Paul MacLean, a obra Evolução em Dois Mundos, de André Luiz, recebida pela abençoada mediunidade de Chico Xavier, os estudos de Jorge Andréa publicados em Impulsos Criativos da Evolução e o  mundo de informação disponível pela Internet sobre os estudos da Psicologia Associativa e da Etologia sobre o comportamento animal.

 

4) Teríamos hoje, então, condição de acrescentar, ao final do Item 17 uma conclusão para a mencionada linha de raciocínio?

 

Acredito que sim. Não com base, naturalmente, em meu modesto  estudo. Os artigos que venho escrevendo visam apenas levantar a questão para que outros também a pesquisem e escrevam sobre suas conclusões. Somente assim, quando e se conclusões forem consolidadas entre vários estudiosos, poderemos dizer que a linha de raciocínio poderá ser dada como concluída. Entendido, certamente, que estando nós no estágio evolutivo em que estamos, de modo algum tal conclusão, se alcançada, poderá ser aceita como a palavra final.

 

5) Você teria algo mais a falar sobre as teorias passíveis de verificação existentes em A Gênese?
 

Sim. Kardec foi um sábio ímpar que dominava com maestria todo o saber de sua época, além de ser dotado de um profundo bom-senso, um raciocínio brilhante e  uma intuição inspirada. No entanto, tudo aquilo que ele escreveu em A Gênese sem o amparo do ensino coletivo dos Espíritos, ele o fez com base nos conhecimentos de sua época. Desse modo, quando nós, espíritas, estudamos as conquistas da ciência para verificar as teorias passíveis de verificação, estamos fazendo o que Kardec faria se estivesse entre nós. Longe de desmerecer o seu inestimável trabalho, estaremos, em assim fazendo, seguindo o exemplo que ele nos legou.

 

Terceiro Dia


1) No Capítulo XI de A Gênese, Kardec comenta sobre a hipótese de ser o corpo humano uma transformação do corpo do macaco. Com a evolução da ciência até os tempos atuais tal hipótese foi plenamente confirmada?


Sim. Vejamos, no entanto, o que diz A Gênese:

 

Item 15. – “Da semelhança, que há, de formas exteriores entre o corpo do homem e o do macaco, concluíram alguns fisiologistas que o primeiro é apenas uma transformação do segundo. ...”


Ao contrário do que ocorria ao tempo de Kardec, hoje não se trata mais de um “palpite”, dado com base em semelhanças externas. O exaustivo trabalho dos paleoantropólogos, comparando registros da evolução, conta com o apoio das mais modernas tecnologias de datação, análise química e genética. Desse modo, mais que uma hipótese, temos hoje uma teoria plenamente aceita pela comunidade científica.

 

Pelas similaridades genéticas, tanto nós, humanos, quanto os grandes macacos sem rabo (chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos) pertencemos à mesma superfamília dos Hominoidae. Nossa família, a dos Hominidae, é um ramo do galho dos Hominoidae, tendo dele derivado há cerca de 5 milhões de anos. Tendo todas as demais famílias de Hominoidae sido, igualmente, ramos derivados do galho principal, o corpo humano evoluiu, não a partir do corpo de algum macaco (mesmo que grande e sem rabo) hoje existente. Não, tanto ele quanto o corpo de todos os grandes macacos sem rabo atuais, evoluíram a partir de um corpo Homioidae ancestral que não mais existe.

 

Na linha evolutiva de nossa família Hominidae, houve, pelo menos, um gênero antes do Homo, o gênero ao qual pertencem os humanos atuais. Trata-se do Australopitecus, que surgiu na África há mais de 4 milhões de anos, tendo os primeiros Homo sido identificados há pouco mais de 2 milhões de anos. Na linha evolutiva do gênero Homo, nossa espécie, Homo Sapiens, surgiu há cerca de 150.000 anos.

 

Tudo indica, portanto, que houve várias migrações de Espíritos humanos para o nosso planeta nesse alvorecer da humanidade, sem falar das que ocorreram depois. Cada espécie que vem sendo descoberta pelos paleoantropólogos tem acrescentado mais uma peça a um quebra-cabeças de mil peças que parece ficar a cada dia mais complicado e que só será completado quando os esforçados cientistas se renderem à evidência espiritual.

 

Nessa maravilhosa rede escolar que Deus espalhou pelo universo todo aluno que fracassa em um sistema de ensino é transferido para outro até que complete com sucesso o aprendizado nas matérias que o reprovaram.

 

2) Quais são as características que os cientistas usam para identificar a subfamília Hominidae dos demais Hominoidae?

 

Evidências de bipedalismo. Acreditam os cientistas que o bipedalismo foi a característica que marcou a separação entre a nossa linhagem e as dos demais primatas, criando condições que iriam levar, ao longo do tempo, a um considerável aumento da inteligência, à fabricação de ferramentas, à formação de cultura, etc..

 

3) E quais as características que eles usam para identificar o gênero Homo do Australopitecus?

Maior caixa craniana, rosto menos projetado, dentição remodelada, braços mais curtos que as pernas e conformação dos ossos da bacia e das pernas permitindo o andar ereto e o parto de bebês com crânios maiores. Sinais evidentes de que Espíritos mais adiantados estavam modelando tais corpos.

 

Várias são as espécies já identificadas como pertencentes ao gênero Homo, todas elas, menos a nossa, o Homo Sapiens, já extintas. É importante observar que a extinção de uma espécie no plano físico não implica em migração de todos os Espíritos que reencarnavam nela para outro planeta. Não, conforme o estágio evolutivo de cada indivíduo, alguns podem ser conduzidos a outros planetas para continuar seu aprendizado e outros podem passar a

 

 

 

reencarnar em uma espécie sobrevivente no mesmo planeta. O que os cientistas já descobriram sobre a espécie que nos é mais próxima, a dos Neanderthal, por exemplo, nos permite concluir que muitos Espíritos que reencarnavam nessa espécie podem ter passado a reencarnar na nossa, podendo encontrar-se ainda hoje nela.

 

4) Como se processaram as ramificações e transições que fizeram surgir famílias, gêneros e espécies?

 

A ciência identifica a evolução como causada por vários fatores associados às características genéticas das espécies, fatores como mutações, recombinações e seleção natural. Sem, de modo algum, entrar em conflito com o que diz a ciência, A Gênese esclarece:

 

16. “- Admitida essa hipótese, pode dizer-se que, sob a influência e por efeito da atividade intelectual do seu novo habitante, o envoltório se modificou, embelezou-se nas particularidades, conservando a forma geral do conjunto (nº 11). Melhorados, os corpos, pela procriação, se reproduziram nas mesmas condições, como sucede com as árvores de enxerto. Deram origem a uma espécie nova, que pouco a pouco se afastou do tipo primitivo, à proporção que o Espírito progrediu. O Espírito macaco, que não foi aniquilado, continuou a procriar, para seu uso, corpos de macaco, do mesmo modo que o fruto da árvore silvestre reproduz árvores dessa espécie, e o Espírito humano procriou corpos de homem, variantes do primeiro molde em que ele se meteu. O tronco se bifurcou: produziu um ramo, que por sua vez se tornou tronco. Como na  natureza não há transições bruscas, é provável que os primeiros homens  aparecidos na Terra pouco diferissem do macaco pela forma exterior e não muito também pela inteligência.”


Imaginemos se pudesse ter sido de outro modo, o primeiro Espírito humano reencarnando muito diferente de seus pais e dos demais indivíduos da comunidade. Que chance teria tal criança de ser bem aceita e de conviver de forma harmônica com seus pais e vizinhos? Nenhuma. Como sempre, as palavras de Kardec são sábias. (“Como na  natureza não há transições bruscas, é provável que os primeiros homens aparecidos na Terra pouco diferissem do macaco pela forma exterior e não muito também pela inteligência.”)

 
5) As explicações dadas por Kardec nos Itens 15 e 16 continuam válidas?

 
Sim, desde que se saiba que não estamos mais tratando de uma hipótese mas de uma teoria inquestionada no meio científico e que entendamos claramente de que tipo de “macacos” se está falando, conforme acabamos de comentar.

 
6) No seu entender é importante que os espíritas se mantenham atualizados sobre as descobertas da paleoantropologia, a ciência que estuda as origens do homem?

 
Por certo que sim. Não só sobre as descobertas da paleoantropologia, como da arqueologia, da  história, da genética, da medicina e de todas as demais ciências que estudam nossa espécie. Esse conhecimento é importantíssimo para que nos tornemos humildes em relação à nossa evolução, agradecidos à infinita paciência divina para conosco e indulgentes e compreensivos em relação às demais espécies que nos fazem companhia no planeta nessa inevitável trilha rumo à angelitude.

 
Como já disse, entretanto, se espera de cada um de acordo com seu preparo e  sua capacidade.
 

Quarto Dia

 
1) Entre os itens 58 e 61 do Capítulo VI Galieu trata da Diversidade dos Mundos. De uma forma resumida, o que ele coloca é que não devemos entender a diversidade da vida na Terra como a única a existir nos demais planetas habitados. Antes, pelo contrário, devemos entender essa enorme diversidade como um claro sinal de  que a natureza de cada mundo será de acordo com as diversas condições que lhes foram prescritas e com o papel que coube a cada um no cenário do mundo. Que contribuições tem dado a ciência à aceitação desse ensinamento de Galileu?


Não muitas, infelizmente.


Uma das razões que tem limitado os cientistas na procura de vida em outros mundos é o simples fato que não existe sequer uma definição do que vida significa.


“Afinal, o que é um ser vivo?”, se pergunta a Ciência. Algo que se move e tem sangue vermelho? Baratas não têm sangue, como os demais insetos e alguns animais marinhos, que têm, como a lagosta, sangue verde, devido à presença de cobre na sua constituição.


Um sistema vivo deveria ser, pelo menos, capaz de se reproduzir e de consumir energia. No entanto, sem falar dos vírus, certas espécies de animais de razoável complexidade, como sapos e peixes que vivem nos desertos, são capazes de permanecer como mortos, sem qualquer troca com o meio ambiente, durante anos, até que chova no local.


Dizer que uma propriedade exclusiva de um ser vivo é reproduzir-se, implicaria em aceitar que cristais são seres vivos. Se fosse escolhida a propriedade do metabolismo para identificar vida, o fogo seria um ser vivo. Se a escolha recaísse sobre o movimento, seria ainda pior, pois incluiríamos o ar e a água entre os seres vivos.


Com base nessa limitação de entendimento, o que a ciência tem feito é procurar em outros planetas evidências de vida com base na chamada Teoria de Oparin sobre como a vida se formou em nosso planeta.


2) Qual é a Teoria de Oparin?


Trata-se de uma teoria proposta pelo cientista russo Aleksandr I. Oparin em 1930. Diz a Teoria de Oparin que a Terra no passado foi muito diferente do que ela é hoje, sendo que sua constituição básica há 3,5 bilhões de anos atrás eram três compostos, hidrogênio, amônia e metano, que, em conjunto, forneciam os elementos básicos necessários da Terra primitiva, nitrogênio, carbono e hidrogênio. Faltava apenas mais um ingrediente, o oxigênio, que, segundo Oparin, veio do vapor d'água liberado pelos incontáveis vulcões que havia no passado (10% dos gases liberados por vulcões é vapor d'água). Além da constituição da Terra primitiva ser diferente da atual, a Terra foi bem mais quente quando se formava do que é hoje. Por ainda não possuir a camada de ozônio, ela esteve sujeita à ação de raios ultravioletas que, quando se misturavam com as descargas elétricas (raios), possibilitaram a ocorrência de reações químicas com os elementos básicos, surgindo assim os primeiros aminoácidos (constituintes primários das proteínas).


A teoria de Oparin foi testada pelo cientista americano Stanley Miller em laboratório no ano de 1953. Ele colocou, dentro de um balão de vidro, metano, amônia, hidrogênio e vapor d'água, que foram extensivamente aquecidos e sofreram a ação de centelhas elétricas. Tudo isto simulou as condições da Terra primitiva. Após alguns dias de espera ele viu aminoácidos se formarem, confirmando a teoria de Oparin.


Se a Teoria de Oparin não provou como a vida se formou na Terra, pelo menos, ofereceu uma hipótese válida – comprovada - de como ela pode ter surgido, dando à Ciência uma Teoria para prospectar a vida em outros planetas. E é isso que ela vem fazendo.


3) Que chances você acha que tem a ciência de encontrar formas de vida nos outros mundos com base na Teoria de Oparin?


Muito poucas, como podemos depreender tanto da comunicação de Galileu, em particular, quanto do conhecimento da Doutrina, de um modo geral. Procurando vida em outros mundos com base em evidências de haver neles os elementos que se supõe terem existido no passado da Terra, no máximo logrará à ciência encontrar formas de vida iguais ou muito semelhantes às que existem em nosso planeta. E as probabilidades de haver vida igual em planetas próximos não devem ser elevadas.


4) Esse tema nos remete ao que diz Maria João de Deus sobre a vida em outros planetas em Cartas de Uma Morta. Poderia comentar a respeito?


Certamente, pois sua lembrança vem muito a propósito.


Em Cartas de Uma Morta, Chico Xavier psicografou várias mensagens de sua querida mãezinha, uma delas falando da vida em Saturno e, outra, da vida em Marte.


Em ambas as descrições, Maria João informa serem os Espíritos habitantes em tais planetas, seres de grande adiantamento, de forma estranha, que podem volitar. Fala de edificações graciosas, vegetação, oceanos menos densos que os da Terra, etc...


Ora, quando a última sonda espacial visitou Marte e descreveu sua superfície, nada encontrou das construções vistas por Maria João, da vegetação ou dos oceanos por ela descritos. Tampouco o conhecimento de que a superfície de Saturno é gasosa parece bater com a descrição recebida pelo Chico de sua querida mãe. O que há de errado, então?


O que há de errado é que, como já dissemos, a Ciência somente procura vida como ela conhece e entende. Maria João, como Espírito desencarnado, estava com seus sentidos muito mais aguçados que qualquer ser encarnado, mesmo com o auxílio dos mais sofisticados instrumentos. As edificações e oceanos que ela viu, portanto, devem existir, mas são de tal sutileza que os atuais instrumentos da ciência não logram perceber.


Sabemos, do estudo da Doutrina, que, à medida que os Espíritos progridem, seus perispíritos e os corpos físicos que assumem quando encarnam vão se tornando mais e mais sutis, até que se despojem totalmente da matéria, quando finalmente é alcançada a perfeição. Desse modo, os Espíritos que Maria João viu, vivendo em total harmonia e dedicados somente às mais nobres virtudes, deviam certamente ser Espíritos muito adiantados, da terceira ou da segunda classe. Tais Espíritos devem ser tão sutis a ponto de serem confundidos pelos instrumentos humanos com radiações cósmicas ou eletro-magnéticas, ao invés de serem reconhecidos como os seres vivos que são. #

 

 

 

 

Codificação Espírita

Revista Espírita

Página 1

Página 2

(Artigos organizados em ordem alfabética)

Mapa do Site

 

<--- Voltar

-

Página inicial