Artigo

Mediunidade no tempo de Jesus

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Set/2005. (revisado jan/2007)

(revisão Frazão).

 
 

 

 

“Se alguém julga ser profeta ou inspirado pelo Espírito, reconheça um mandamento do Senhor nas coisas que estou escrevendo para vocês”

(PAULO, aos coríntios).

 

Introdução

 

A mediunidade é uma faculdade humana que consiste na sintonia espiritual entre dois seres. Normalmente, a usamos para designar a influência de um Espírito desencarnado sobre um encarnado, muito embora, na definição de “médium”, dada por Kardec, não se discuta a identidade ou a natureza desses espíritos. Assim ele o define: “Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo”. (Livro dos Médiuns, cap. XIV, item 159, p. 203). Sendo assim, julgamos que, por se tratar de uma aquisição do espírito imortal, pouco importa a situação em que se encontrem esses dois seres, para que se processe a ligação espiritual entre eles.

 

É comum, que ataques ao Espiritismo ocorram por conta desse “dom”, como se ele viesse a acontecer exclusivamente em nosso meio. Ledo engano, pois, conforme já o dissemos, é uma faculdade humana; e assim sendo, todos a possuem, variando apenas quanto ao seu grau, conforme nos asseverou Kardec, quando da seqüência de sua fala anterior: “Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns” (Livro dos Médiuns, cap. XIV, item 159, p. 203)

 

Os detratores querem, por todos os meios, fazer com que as pessoas acreditem que isso é coisa nova, justamente para transparecer que só acontece no Espiritismo; mas podemos provar que a mediunidade não é coisa nova e que até mesmo Jesus dela pode nos dá exemplos. É o que veremos a seguir.

 

A mediunidade e Jesus

 

Quando Jesus recomenda a seus doze discípulos divulgar que o “reino do Céu está próximo” fica evidenciado, aos que estudaram ou vivenciam esse fenômeno, que o Mestre estava falando mesmo era da faculdade mediúnica, uma vez que eles seriam inspirados pelo alto naquilo que deveriam dizer. Entretanto, por conta dos tradutores e/ou dos teólogos, essa realidade ficou comprometida no texto bíblico. Mas como não é possível “tapar o sol com uma peneira”, podemos, perfeitamente, identificá-la, apesar de que, em algumas situações, percebemos um certo esforço para escondê-la.

 

O evangelista Mateus (10,19-20), ao narrar as recomendações de Jesus aos doze discípulos, para quando fossem divulgar a Boa Nova, disse o seguinte: 

“Quando vos entregarem, não fiqueis preocupados em saber como ou o que haveis de falar. Naquele momento vos será indicado o que deveis falar, porque não sereis vós que falareis, mas o Espírito de vosso Pai é que falará em vos”.

 

Para comparação e análise, vamos colocar as outras passagens correlatas:

 

"Quando conduzirem vocês para serem entregues, não se preocupem com aquilo que vocês deverão dizer: digam o que vier na mente de vocês nesse momento, porque não serão vocês que falarão, mas o Espírito Santo”. (Mc 13,11).

 

“Quando introduzirem vocês diante das sinagogas, magistrados e autoridades, não fiquem preocupados como ou com que vocês se defenderão, ou o que dirão. Pois, nessa hora o Espírito Santo ensinará o que vocês devem dizer” (Lc 12,11-12)

Em relação a essas passagens, pesquisamos em Sabedoria do Evangelho, vol. 5, (pp. 97-98) de Carlos Torres Pastorino (1910-1980), formado em Teologia e Filosofia, por um Seminário Católico em Roma, catedrático em grego, hebraico e latim. Segundo seus estudos, somos informados de que, em grego, os textos se encontram desta forma: 

tò pneuma = o espírito”, em Mt 10,20;

tò pneuma tò hágion = o Espírito o santo”, em Mc 13,11;

tò hágion pneuma = o santo Espírito”, em Lc 12,12.

Assim, podemos observar que as narrativas não trazem a mesma palavra; Mateus diz “O Espírito do Pai”, Marcos “O Espírito o santo” e, finalmente, Lucas “o santo Espírito”.

 

Pastorino, inclusive, ressalta, em relação a Lucas, o seguinte: “Há uma observação a fazer. Neste trecho (vers. 10 e 12) não aparece pneuma hágion, mas hágion pneuma; isto é, não 'Espírito Santo', mas 'Santo Espírito'”. (p. 96)

 

Se, numa multiplicação, a ordem dos fatores não altera o produto, no caso gramatical isso altera e muito, pois uma coisa é afirmar santo espírito e outra é Espírito santo. No primeiro caso, trata-se de um espírito santificado, no segundo poder-se-á abrir precedentes para dizer que se trata de uma das pessoas atribuídas à trindade. Colocando mais lenha nessa fogueira, trazemos Marcos que diz “o espírito o santo” o que obviamente, não é a mesma coisa que dizer o Espírito Santo.

 

Então, concluímos que, nessa passagem, o fenômeno mediúnico é inequívoco, já que, para nós, quem colocava palavras na boca dos discípulos eram um santo espírito, ou seja, um espírito bom. Principalmente, levando-se em conta as próprias palavras de Jesus: “não fiquem preocupados como ou com aquilo que vocês vão falar, porque, nessa hora, será sugerido a vocês”, que arremata: “Com efeito, não serão vocês que irão falar, e sim o Espírito do Pai de vocês é quem falará através de vocês”. (Mt 10,19-20)

 

E, antes de sua morte, Jesus predisse a seus discípulos: 

"Mas, antes que essas coisas aconteçam, vocês serão presos e perseguidos; entregarão vocês às sinagogas, e serão lançados na prisão; serão levados diante de reis e governadores, por causa do meu nome. Isso acontecerá para que vocês dêem testemunho. Portanto, tirem da cabeça a idéia de que vocês devem planejar com antecedência a própria defesa; porque eu lhes darei palavras de sabedoria, de tal modo que nenhum dos inimigos poderá resistir ou rebater vocês”. (Lc 21,12-15). 

Essa promessa de Jesus a seus discípulos, de que após a sua morte “daria palavras de sabedoria”, não é outra coisa senão que Ele do plano espiritual, exerceria influência sobre eles dando-lhes palavras de sabedoria, o que é, portanto, fenômeno mediúnico. Foi exatamente a mesma coisa que aconteceu com Paulo: “... vocês estão procurando uma prova de que é Cristo quem fala em mim... (2Cor 13,3).

 

Por outro lado, para aquelas passagens citadas há pouco, se não arredarmos o pé de que seja mesmo “o Espírito do Pai” ou “o Espírito Santo” a influenciar os discípulos, teremos que, forçosamente, admitir que o próprio Deus venha a se manifestar num ser humano. Pensamento absurdo como esse só pode ser fruto da falta de compreensão da grandeza de Deus, bem como, de suas formas de agir.

 

Dizem os cientistas que no cosmo há cerca de 100 bilhões de galáxias; para cada uma delas estimam-se 100 bilhões de estrelas, fazendo do Universo uma coisa fora do alcance da limitada imaginação humana; mas, mesmo que à custa de um grande esforço, vamos imaginar tamanha grandeza. Bom; façamos agora a pergunta: o que criou tudo isso? Diante disso, admitir que esse ser possa estar pessoalmente inspirando uma pessoa é fora de propósito; coisa aceitável somente a povos primitivos, cujos conhecimentos não lhes permitem ir mais longe, por restrição imposta pelo seu habitat.

 

Passando isso para o nosso dia-a-dia: é como um cidadão comum querer que o Presidente da Republica esteja à sua disposição para conversar com ele a qualquer hora, em qualquer lugar, esquecendo-se que esse cargo exige uma montanha de compromissos importantes que fica impraticável que ele, o Presidente, possa atender a todos. Uma estrutura administrativa pública foi criada justamente para isso, liberando o mandatário da nação somente para as questões de alta relevância.

 

Ora, se o homem teve a capacidade de criar uma estrutura de ação frente aos seus semelhantes, por que Deus não teria a sua? Ou será que os profetas e o próprio Jesus, na dimensão física, bem como, os anjos e demais espíritos, na dimensão espiritual, não são parte dessa estrutura?

 

Agora perguntamos: Deus age diretamente? Acreditamos que não, por ter os anjos (espíritos puros) à sua disposição, cuja missão é realizar os Seus desejos e são eles que entram em contato com os homens para trazer as Suas revelações. Vejamos o que se diz nas Escrituras, em se referindo aos anjos: 

“Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?” (Hb 1,14)

Sobre essa questão de anjos ela merece uma explicação à parte; por isso, a colocaremos neste próximo tópico.

 

A mediunidade na aparição dos anjos

 

Apresentamos, para comprovar que os anjos eram mesmo encarregados de transmitir a vontade de Deus, a passagem que relata uma visão de Cornélio: 

O anjo lhe replicou: ‘Tuas orações e tuas esmolas chegaram até Deus e Ele se lembrou de ti’(At 10,4).

 

E mais uma; essa relativa ao anjo enviado a Zacarias:

 

O anjo respondeu-lhe: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar e te trazer esta feliz nova’”. (Lc 1,19)

Vejamos agora várias ocorrências de aparições de anjos, que, para uma melhor compreensão, dividiremos em itens, dada a peculiaridade de cada uma.

 

a) anjo = homem

 

Todos os quatro evangelistas narram aparições às mulheres que foram ao sepulcro, onde Jesus havia sido colocado. São elas: Mt, 28,1-8; Mc 16,1-7, Lc 24,1-8 e Jo 20,11-13. Embora exista divergência quanto à quantidade dos que apareceram, apenas queremos ressaltar que, enquanto Mateus e João dizem ser anjo(s), Marcos e Lucas afirmam ser homem(ns). O detalhe em que todos concordam é quanto às vestes que eram brancas como a neve ou brilhantes. Vamos apenas relatar a de Lucas, pois dela iremos fazer um destaque especial.

“... Entraram e não acharam ali o corpo do Senhor Jesus. Não sabiam ainda o que pensar, quando apareceram dois homens com vestes brilhantes. Cheias de medo, inclinaram o rosto para o chão. Eles disseram: ‘Por que procurais entre os mortos quem está vivo? Não está aqui, mas ressuscitou...'...” (Lc 24,1-8).

Aqui, os dois seres com “vestes brilhantes”, conversam com as mulheres, fato que identificamos como fenômeno mediúnico. Os espíritos evoluídos sempre aparecem em meio a muita luz; daí, vulgarmente, serem denominados de “espíritos de luz”.

 

Em uma passagem mais à frente, Cléofas, falando desse episódio, disse:

“É verdade que algumas mulheres... foram de madrugada ao túmulo, e não encontraram o corpo de Jesus. Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos, e estes afirmaram que Jesus estava vivo”. (Lc 24,22-23)

Observe que na narrativa anterior foi dito de “dois homens com vestes brilhantes”, enquanto que aqui está se afirmando que as mulheres, ao falarem dessa ocorrência, disseram que haviam visto anjos.

 

Há uma passagem interessante em que Jesus afirma que na ressurreição todos seremos como anjos do céu (Mt 22,30); portanto, nos iguala aos anjos; daí não ser difícil de se aceitar que anjo e espírito humano ressuscitado são seres da mesma natureza; em outras palavras, são a mesma coisa. Vamos a outra ocorrência: 

“... Cornélio, ... certo dia, lá pelas três da tarde, viu claramente em visão um anjo de Deus entrar em sua casa e chamá-lo. ‘Cornélio!’ Ele olhou para o anjo e, com medo, respondeu: ‘Que é o Senhor?’ O anjo lhe replicou: ‘Tuas orações e tuas esmolas chegaram até Deus e Ele se lembrou de ti’” (At 10,1-4).

 

“Cornélio respondeu: ‘Faz três dias que, enquanto eu rezava em minha casa, lá pelas três da tarde, um homem com roupas muito claras apareceu na minha frente e me disse: ‘Cornélio, tua oração foi ouvida e tuas esmolas foram lembradas diante de Deus’” (At 10,30-31).

Na primeira passagem descreve-se um anjo aparecendo a Cornélio; na segunda ele afirma que era “um homem com roupas muito claras”, que havia lhe aparecido, o que vem reforçar que anjos possuíam a forma humana. Não será por que são eles exatamente seres humanos desencarnados? Daí, inclusive, justificar-se o medo que Cornélio teve...

 

Há um outro passo onde essa relação também é nítida; leiamo-la: 

“Eu, João,... ajoelhei-me para adorar o Anjo, aquele que me havia mostrado essas coisas. Mas ele não deixou: ‘Não! Não faça isso! Eu sou servo como você, como os seus irmãos, os profetas, e como aqueles que observam as palavras deste livro. É a Deus que você deve adorar’". (Ap 22,8-9).

Aqui é o próprio anjo que se iguala a João, em primeiro plano; e aos profetas e também aos que cumprem a vontade de Deus em seguida, deixando claro que ele é igual a um ser humano, sem qualquer privilégio.

 

b) anjo = espírito

           

Vejamos as passagens:

O anjo do Senhor dirigiu a Filipe estas palavras: ‘Tu irás rumo ao Sul, pela estrada que desce de Jerusalém a Gaza. Ela está deserta’. Filipe partiu imediatamente. Ora, vinha chegando um etíope,... que... tinha ido a Jerusalém para adorar a Deus. Agora voltava, lendo o profeta Isaías, sentado em sua carruagem. O Espírito disse a Filipe: “Aproxima-te e acompanha essa carruagem” (At 8,26-29).

O texto inicia dizendo anjo para depois denominá-lo de espírito, o que evidencia ser tudo a mesma coisa, uma vez que consta do mesmo texto e do mesmo contexto.

“Pedro bateu na porta de entrada; uma empregada, chamada Rosa, foi ao seu encontro. Ela reconheceu a voz de Pedro e, de tanta alegria, nem abriu a porta, mas correu para dentro, anunciando que Pedro estava na entrada. Disseram-lhe: ‘Estás delirando!’ Mas ela insistia, dizendo que era verdade. Observaram então: ‘Deve ser o anjo dele!’ Entretanto, Pedro continuava a bater, até que lhe abriram a porta, e viram que era mesmo ele e ficaram muito admirados” (At 12,13-16).

Após um anjo libertar Pedro da prisão, ele se dirige à casa da mãe de João (Marcos), onde estavam reunidas várias pessoas em oração. Rosa, a pessoa que atende à porta, reconhece a voz de Pedro; mas, ao invés de abrir a porta, sai correndo para dar a notícia aos outros. Entretanto, eles não acreditaram nela, pois pensavam que Herodes já havia mandado matar Pedro, já que o prendeu com essa intenção. Assim, como o supunham morto, disseram que só poderia “ser o anjo dele”. Então concluímos que o “ser o anjo dele” aqui é a possibilidade de alguém morto aparecer; isso não é senão o que, em outras palavras, poderia ser dito: “ser o espírito dele”. Assim, podemos compreender que, àquela época, anjo significava também espírito. A questão é: o que é espírito? A resposta que poderemos dar é: são seres humanos desencarnados.

 

c) Espírito = homem

 

Embora não estivéssemos querendo sair do Novo Testamento, somos obrigados, para um maior esclarecimento, a buscar no Antigo Testamento uma passagem que vem corroborar tudo quanto estamos afirmando aqui.

“Tobias saiu para procurar uma pessoa que pudesse ir com ele até a Média e conhecesse o caminho. Logo que saiu, encontrou o anjo Rafael bem à frente dele, mas não sabia que era um anjo de Deus. Tobias lhe perguntou: ‘De onde você é, rapaz?’ Ele respondeu: ‘Sou israelita, seu compatriota, e estou aqui procurando trabalho’. Tobias lhe perguntou: ‘Você sabe o caminho para a Média?’ Ele respondeu: ‘Sim. Já estive lá muitas vezes e conheço bem todos os caminhos. Fui muitas vezes à Média, e me hospedei na casa do nosso compatriota Gabael, que mora em Rages, na Média. São dois dias de viagem de Ecbátana até Rages, pois Rages fica na região montanhosa e Ecbátana fica na planície’. Tobit lhe perguntou: ‘Meu irmão, de que família e tribo você é?’ ... Rafael respondeu: ‘Sou Azarias, filho do grande Ananias, um compatriota seu’. Tobit disse: ‘... Acontece que você é parente meu e vem de uma família honesta e honrada. Conheço bem Ananias e Natã, os dois filhos do grande Semeías...’”. (Tb 5,4-6.11-14).

Apesar desse livro constar apenas em Bíblias católicas, resolvemos colocá-lo aqui assim mesmo, já que irá ajudar-nos em nosso propósito de estudo. Observe que o anjo Rafael afirma ser um israelita compatriota de Tobias, cujo pai diz conhecer-lhe a família, dizendo, inclusive, que são parentes. Rafael, o anjo, em sua fala disse conhecer bem a região, para onde Tobias desejava ir, propondo ser seu guia. Se supusermos que o anjo Rafael seja, em realidade, um espírito desencarnado que viveu naquelas bandas e que, por isso, conhece bem a região, tudo isso não se encaixaria perfeitamente? Podemos até acreditar no contrário, desde que alguém nos prove que os anjos vivem perambulando aqui na Terra e sendo recebidos pelas pessoas.

 

d) nome de anjo = nome de homem

 

No item anterior já encontramos “um anjo” como o nome de Rafael (Deus curou). Aquele que apareceu a Zacarias, afirmou chamar-se Gabriel (homem de Deus) (Lc 1,19), e encontramos ainda mais um de nome Miguel (= quem é como Deus?), o arcanjo (Jd 9).

 

Se anteriormente não se aplicava a matemática, aqui podemos aplicá-la certamente. Se “B” é igual a “A” e “C” igual a “A”, então “B” é igual a “C”. Vejamos, então: se anjo é igual a homem, se homem é igual a espírito e, ainda, se anjo é espírito, então anjo, homem e espírito são iguais. A conclusão que chegamos é que é bem provável que em todas as passagens em que aparecem anjos e espíritos estamos a falar de seres humanos desencarnados. E para confirmar essa nossa conclusão, trazemos o pastor Rev. Haraldur Nielsson (1868-1928), com essas qualificações: teólogo, professor universitário, tradutor – traduziu para o Irlandês o Antigo Testamento a pedido da Sociedade Bíblica Inglesa, fundador da Sociedade de Estudos Psíquicos. Disse ele:

De resto, acho que há muitas passagens no Novo Testamento que indicam, exatamente, que se compreendia, pela palavra “espírito” (em grego pneuma), a “alma de um morto”.

 

(...)

 

Se Deus é, em Hebreus XII, 9, chamado o “Deus dos Espíritos”, o dicionário indica que a palavra espírito significa tanto as almas dos homens mortos como as dos anjos. Posso ainda acrescentar, sobre o assunto, que o Cristo foi chamado, várias vezes, depois da sua ressurreição, de pneuma e, indiscutivelmente, se tratava de “alma de um morto”, pois que ele vivera na Terra. (NIELSSEN, 1983, p. 88).

Há uma passagem em que fica clara essa questão do intercâmbio com os espíritos e com os anjos; leiamo-la:

“Quando ele [Paulo] disse isto, surgiu uma acirrada discussão entre os fariseus e saduceus, e assim a multidão ficou dividida. É que os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espíritos, enquanto que os fariseus admitem todas estas coisas. Houve então uma enorme gritaria e alguns dos escribas partidários da seita dos fariseus se levantaram e declaravam energicamente: ‘Nada de mal encontramos neste homem. Quem sabe se não foi um espírito que lhe falou? Ou talvez um anjo?’ (At 23,7-9).

Não resta, portanto, dúvida alguma que isso era fato comum, ou seja, a mediunidade como uma ocorrência verificada naquela época. A única coisa que não conseguimos estabelecer, aqui nessa passagem, foi qual a diferença que faziam entre espírito e anjo.

 

Mediunidade na ação dos demônios (espíritos maus)

 

O maior tormento de um médium é tornar-se uma presa de espíritos inferiores, pois dessa influência, muitas vezes, sozinho, não consegue desvencilhar-se. A sintonia com esses espíritos se estabelece por afinidade vibracional, cujas vítimas são os médiuns que ainda não conquistaram sua elevação moral, consolidada nos ensinamentos do Mestre Jesus.

 

Sobre esse assunto disse Kardec:

Pululam em torno da Terra os maus Espíritos, em conseqüência da inferioridade moral de seus habitantes. A ação malfazeja desses Espíritos é parte integrante dos flagelos com que a Humanidade se vê a braços neste mundo. A obsessão que é um dos efeitos de semelhante ação, como as enfermidades e todas as atribulações da vida, deve, pois, ser considerada como provação ou expiação e aceita com esse caráter.

 

Chama-se obsessão à ação persistente que um Espírito mau exerce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres muito diferentes, que vão desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais... (KARDEC, A. A Gênese, FEB, p.304).

Quando isso ocorre, dizemos que a pessoa está obsedada. Entre os tipos de obsessão podemos citar a possessão. É fato indiscutível para nós, os Espíritas, que toda pessoa que está sob obsessão é um médium. A questão agora é a seguinte: podemos encontrar essa ocorrência no tempo de Jesus? Acreditamos que sim. Vejamos algumas passagens onde se percebe isso:

“Então Jesus chamou seus discípulos e deu-lhes poder para expulsar os espíritos maus, e para curar qualquer tipo de doença e enfermidade”. (Mt 10,1).

 

“Vendo Jesus, os espíritos maus caíam a seus pés gritando: ‘Tu és o Filho de Deus!’" (Mc 3,11).

 

“Nessa mesma hora, Jesus curou muitas pessoas de suas doenças, males e espíritos maus, e fez muitos cegos recuperar a vista”. (Lc 7,21).

 

“... Jesus andava por cidades e povoados,... os Doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos maus e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios;”. (Lc 8,1-2)

Então temos aqui, nessas passagens, a comprovação de que a obsessão não é coisa nova, porquanto os espíritos maus já faziam das suas desde há muito tempo.

 

Outras passagens, interessantíssimas por sinal, podemos citar, principalmente para se ter uma idéia de até onde pode chegar uma influência espiritual. Em todas essas passagens se relata a influência demoníaca; e estamos falando exatamente disso. Observar que no último passo acima (Lc 8,1-2) é citado primeiramente “espíritos maus” e depois “demônios”, do que concluímos que está se falando da mesma coisa com nomes diferentes. Em corroboração a isso, podemos ainda relacionar:

 

Passagem

Evangelista

Termo utilizado

Muitos Possessos

Mateus 8,16

Marcos 1,32-34

Lucas 4,40-41

Espíritos

Demônios

Demônios

O possesso de Gerasa

Mateus 8,28-34

Marcos 5,1-13

Lucas 8,26-39

Demônios

Espírito impuro e demônio

Espírito impuro e demônios

O possesso de Cafarnaum

Marcos 1,21-28

Lucas 4,31-37

Espírito impuro

Espírito de demônio impuro e demônio

A filha da mulher Cananéia

Mateus 15,21-28

Marcos 7,24-30

Demônio

Espírito impuro e demônio

O menino mudo e epilético

Mateus 17,14-21

Marcos 9,14-29

Lucas 9,37-43

Demônio

Espírito

Espírito, demônio e espírito impuro

 

Vamos relatar apenas uma dessas passagens, para confirmar o que Kardec disse sobre até onde pode chegar a influência dos espíritos inferiores:

“Jesus e seus discípulos chegaram à outra margem do mar, na região dos gerasenos. Logo que Jesus saiu da barca, um homem possuído por um espírito mau saiu de um cemitério e foi ao seu encontro. Esse homem morava no meio dos túmulos e ninguém conseguia amarrá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes tinha sido amarrado com algemas e correntes, mas ele arrebentava as correntes e quebrava as algemas. E ninguém era capaz de dominá-lo. Dia e noite ele vagava entre os túmulos e pelos montes, gritando e ferindo-se com pedras. Vendo Jesus de longe, o endemoninhado correu, caiu de joelhos diante dele e gritou bem alto: ‘Que há entre mim e ti, Jesus, Filho do Deus altíssimo? Eu te peço por Deus, não me atormentes!’ O homem falou assim, porque Jesus tinha dito: "Espírito mau, saia desse homem!’ Então Jesus perguntou: ‘Qual é o seu nome?’ O homem respondeu: ‘Meu nome é 'Legião', porque somos muitos. E pedia com insistência para que Jesus não o expulsasse da região. Havia aí perto uma grande manada de porcos, pastando na montanha. Os espíritos maus suplicaram: ‘Manda-nos para os porcos, para que entremos neles’. Jesus deixou. Os espíritos maus saíram do homem e entraram nos porcos. E a manada - mais ou menos uns dois mil porcos - atirou-se monte abaixo para dentro do mar, onde se afogou. (Mc 5,1-13).

A força descomunal que esse obsedado possuía, sob a influência dos espíritos maus, era tanta que nem mesmo correntes o seguravam. Vivia no cemitério e à noite vagava pelos montes gritando como um tresloucado. E um fato mais grave ainda lhe acontecia, pois tais espíritos – “meu nome é legião, porque somos muitos” – faziam com que esse pobre coitado viesse a ferir-se com pedras.

 

A informação de que demônios e espíritos são a mesma coisa, é, em parte, admitida por Champlin, quando de seus comentários sobre Mc 5,2 se refere à palavra “os demônios”:

Esse vocábulo era empregado, no grego clássico, ocasionalmente como sinônimo do termo “theos”, “deus”. Assim usou Homero (século IX A.C.). Por outros autores, entretanto, a palavra foi utilizada para indicar certas divindades subordinadas, que inocentavam os deuses maiores da prática de muitas maldades; e é provável que por causa dessa mesma circunstância é que a palavra eventualmente passou a significar alguma entidade sobrenatural cujo propósito é o de praticar a maldade. Esse termo também tem sido usado para referir-se às almas dos homens que, por ocasião da morte, são elevados a determinados privilégios, e, posteriormente, passou a indicar os espíritos humanos em geral, partidos deste mundo. Gradualmente esse vocábulo foi-se limitando aos espíritos malignos em geral, exclusivamente, sem qualquer definição sobre a origem ou natureza desses espíritos.

 

Nada de realmente certo se encontra sobre a origem dos demônios, nas páginas da Bíblia, ainda que muitos creiam que sejam os anjos caídos que seguiram a Satanás (Ver Apo 12:7-9 com Apo 12: 3,4). Mas outros estudiosos acreditam (conforme criam muitos dos antigos) que são espíritos dos mortos que ainda não entraram em qualquer estado bem determinado de transição. Outros ainda, sustentam que os demônios pertencem a ambas essas ordens de seres. Muitos psicólogos modernos duvidam que exista realmente a possessão por meio de espíritos, mas a experiência universal com tais espíritos desaprova essas dúvidas. Alguns daqueles que se ocupam de pesquisas psíquicas, nestes últimos anos, estão convencidos da realidade do mundo dos espíritos, tanto bons como maus. É uma completa tolice pensar que simplesmente porque não podemos ver os espíritos eles não existem – todavia, alguns sensíveis (pessoas psiquicamente dotadas) asseveram que podem ver ocasionalmente aos espíritos, e alguns deles vêem-nos regularmente. É fato sobejamente conhecido que os sentidos humanos são extremamente limitados, não percebendo muitas coisas que sabemos que realmente existem, como por exemplo, a força chamada lei da gravidade; e assim, a maior parte deste mundo totalmente físico continua imperceptível para os nossos sentidos (e quanto menos o mundo espiritual)! Assim, pois, afirmar alguém que algo não existe simplesmente porque os seus sentidos não são aptos a captá-lo, mostra que esse alguém se deixa levar por preconceitos. Mas uma coisa que sabemos bem é que não sabemos praticamente coisa alguma acerca do universo em que vivemos. Não obstante, existem muitas evidências inequívocas, perceptíveis até mesmo para os sentidos humanos, que confirmam a existência de um mundo dos espíritos ao nosso redor.

 

Era ponto teológico comum, entre os judeus (sendo ensinado nas escolas teológicas judaicas dos fariseus e de outros), que os demônios, capazes de possuir e de controlar um corpo vivo, são espíritos de mortos partidos deste mundo, especialmente aqueles de caráter vil e de natureza perversa. (Ver Josefo, de Bello Jud. VII. 6.3). Os gregos, os romanos e outros povos antigos compartilhavam dessa crença. Alguns dos pais da igreja também aceitaram essa idéia, tais como Justino Mártir (150 D.C.) e Atenágoras.

 

Tertuliano (150 D.C.) foi o primeiro pai da igreja a começar a modificar essa idéia, e deu origem à crença de que os demônios fazem exclusivamente parte de uma ordem de anjos decaídos. Finalmente, tendo aparecido o grande comentador Crisóstomo (407 D.C.), obteve aceitação geral a idéia de que os demônios não são espíritos humanos caídos, e, sim, pertencem à ordem de anjos caídos juntamente com Satanás. Essa idéia também prevalece na teologia moderna, apesar de ainda existirem alguns que se apegam à idéia mais antiga, como Lange (do Comentário de Lange), o qual acredita que aquilo que conhecemos pelo título de demônio pertence tanto à ordem de espíritos humanos que daqui partiram e que se tornaram parte de um nível mais baixo dos espíritos como à ordem de seres angelicais caídos. Lange, portanto, aceita ambos os pontos de vista. As próprias Escrituras nada nos informam acerca da origem dos demônios, pelo menos em termos bem definidos; por isso mesmo, a sua identificação com os anjos caídos pode representar ou não a verdade. Se isso representa a verdade, mesmo assim pode não representar a verdade inteira sobre a questão. Muitos casos de possessão demoníaca parecem demonstrar que alguns demônios, pelo menos, são de fato entidades que antes eram seres humanos comuns. Pois é possível que por enquanto, pelo menos parcialmente, estejamos dentro de um intervalo de tempo, antes do julgamento, e que os espíritos não foram ainda para o seu destino final; embora seja possível que exista alguma forma de comunicação entre certas dimensões espirituais (que podem até mesmo ser chamadas de hades) e os homens. Diversos exemplos bíblicos mostram que a comunicação com os mortos é algo que ocorre ocasionalmente. Nas Escrituras somos advertidos contra essa prática, mas não nos é dito ali que tal comunicação seja impossível. Existem evidências que parecem indicar que a posição assumida por Lange, de que os demônios pertencem a ambas as ordens: tanto espíritos humanos de mortos como seres pertencentes à ordem de anjos caídos – é a mais correta, embora nos faltem provas inequívocas quanto a isso. (CHAMPLIN, 2002, pp. 694-695). (itálico do original, negrito nosso).

A mediunidade no apostolado

 

Um fato, que reputamos como de inquestionável ocorrência da mediunidade, aconteceu logo depois da morte de Jesus, quando os discípulos reunidos receberam “como que línguas de fogo” e começaram a falar em línguas, de tal sorte que, apesar da heterogeneidade do povo que os ouvia, cada um entendia o que falavam em sua própria língua. Fato extraordinário registrado no livro Atos dos Apóstolos, desta forma:

“Quando chegou o dia de Pentecostes, todos eles estavam reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam. Apareceram então umas como línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem. Acontece que em Jerusalém moravam judeus devotos de todas as nações do mundo. Quando ouviram o barulho, todos se reuniram e ficaram confusos, pois cada um ouvia, na sua própria língua, os discípulos falarem”. (At 2,1-6).

Nesse passo podemos identificar o fenômeno mediúnico conhecido como xenoglossia, que na definição do Aurélio é: A fala espontânea em língua(s) que não fora(m) previamente aprendida(s). Mas para mudar o sentido do texto possivelmente alteram o artigo indefinido para o definido, quando a realidade seria exatamente de que estavam “repletos de um Espírito santo (bom)”. Isso é fato, pois segundo Pastorino, em Sabedoria do Evangelho, vol. 5, (pp. 97-98), o termo grego empregado no versículo 4 é pneuma hágion, ou seja, sem o artigo, portanto, a tradução correta seria “um espírito santo”. Fica tão evidente isso que na seqüência está dito que falavam em línguas “conforme o espírito lhes concedia”, ou seja, conforme aquele espírito específico, pois como em grego não há a palavra hágion (santo) não poderia ser traduzido por “o Espírito Santo”.

 

Fato semelhante aconteceu, um pouco mais tarde, nomeado como o Pentecostes dos pagãos:

“Pedro ainda estava falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a Palavra. Os fiéis de origem judaica, que tinham ido com Pedro, ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo também fosse derramado sobre os pagãos. De fato, eles os ouviam falar em línguas estranhas e louvar a grandeza de Deus...” (At 10, 44-46).

Episódio que confirma que “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34); daí podermos estender à mediunidade não como uma faculdade exclusiva a um determinado grupo religioso, mas como algo que existe em todos os segmentos em suas expressões de religiosidade.

 

Aqui, segundo Pastorino, em Sabedoria do Evangelho, vol. 5, (p. 97-98) os versículos 44 e 47 estão, respectivamente, em grego: tò pneuma tò hágion, ou seja, o Espírito o santo, portanto, não é Espírito Santo como consta dessa tradução.

 

A mediunidade como era “transmitida”

 

A bem da verdade não há como ninguém transmitir a mediunidade para outra pessoa. Entretanto, pelos relatos bíblicos, a imposição das mãos fazia com que houvesse sua eclosão, óbvio que naqueles que a possuíam em estado latente. Vejamos algumas situações em que isso ocorreu:

 

Em Atos 8, 17-19:

“Então Pedro e João impuseram as mãos sobre os samaritanos, e eles receberam o Espírito Santo. Simão viu que o Espírito Santo era comunicado através da imposição das mãos. Então ele ofereceu dinheiro a Pedro e João, dizendo: ‘Dêem para mim também esse poder, a fim de que receba o Espírito todo aquele sobre o qual eu impuser as mãos’”.

Simão era um mago que, com suas artes mágicas, deixava o povo da região de Samaria maravilhado. Mas, ao ver o “poder” de Pedro e João, ficou impressionado com o que fizeram; daí lhes oferece dinheiro, a fim de que dessem a ele esse poder, para que sobre todos os que ele impusesse as mãos, também recebessem o Espírito Santo.

 

Segundo Pastorino, em grego o v. 17 está sem artigo, no v. 18 não há o santo e o v.19, também sem artigo, significando que, conforme sua maneira de entender, deveria ser “um espírito santo”, “o espírito” e “um espírito santo”, respectivamente.

 

Em Atos 19, 1-7:

“Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo atravessou as regiões mais altas e chegou a Éfeso. Encontrou aí alguns discípulos, e perguntou-lhes: ‘Quando vocês abraçaram a fé receberam o Espírito Santo?’ Eles responderam: ‘Nós nem sequer ouvimos falar que existe um Espírito Santo’. Paulo perguntou: ‘Que batismo vocês receberam?’ Eles responderam: ‘O batismo de João’. Então Paulo explicou: ‘João batizava como sinal de arrependimento e pedia que o povo acreditasse naquele que devia vir depois dele, isto é, em Jesus’. Ao ouvir isso, eles se fizeram batizar em nome do Senhor Jesus. Logo que Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles, e começaram a falar em línguas e a profetizar. Eram, ao todo, doze homens”.

Será que podemos entender que o batismo de Jesus é “receber o Espírito Santo”, conseguido pela imposição das mãos? A narrativa nos leva a aceitar essa hipótese; apenas ressalvamos quanto à expressão “o Espírito Santo”. No grego está: v. 2, pneuma hágion e no v.6 tò pneuma tò hágion, cuja tradução, pela ordem, é “um espírito santo” e “o espírito o santo”; não é como está nessa tradução. Igualmente estamos usando Pastorino, mais uma vez.

 

A mediunidade como os dons do Espírito

 

Na estrada de Damasco, Paulo, que até então perseguia os cristãos, numa ocorrência transcendente, se encontra com Jesus, passando, a partir daí, a segui-lo. Durante o seu apostolado se comunicava diretamente com o Espírito de Jesus, demonstrando sua incontestável mediunidade.

 

Aliás, o apóstolo Paulo foi quem mais entendeu do fenômeno mediúnico; tanto que existem recomendações preciosas de sua parte aos agrupamentos cristãos de então. Ele o chamava de “dons do Espírito” e dizia: “sobre os dons do Espírito, irmãos, não quero que vocês fiquem na ignorância” (1Cor 12,1), mostrando-se interessado em que todos pudessem conhecer tais fenômenos.

 

E esclarece o apóstolo dos gentios:

“Existem dons diferentes, mas o Espírito é o mesmo; diferentes serviços, mas o Senhor é o mesmo; diferentes modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos. A um, o Espírito dá a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de ciência segundo o mesmo Espírito; a outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro ainda, o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, o dom de falar em línguas; a outro ainda, o dom de as interpretar. Mas é o único e mesmo Espírito quem realiza tudo isso, distribuindo os seus dons a cada um, conforme ele quer”. (1 Cor 12,4-11).

Se aqui entendermos que “o Espírito” é na realidade “um Espírito”, baseando-nos nos conhecimentos do intercâmbio entre os dois planos da vida, estaremos, indubitavelmente, diante da faculdade mediúnica, bastando “ter olhos de ver”.

 

Ao que parece, naquela época, os médiuns se preocupavam mais com a xenoglossia, e Paulo, para desfazer esse engano, faz várias recomendações aos coríntios (1Cor 14,1-25), entre elas disse ele:

Procurem o amor. Entretanto, aspirem aos dons do Espírito, principalmente à profecia. Pois aquele que fala em línguas não fala aos homens, mas a Deus. Ninguém o entende, pois ele, em espírito, diz coisas incompreensíveis. Mas aquele que profetiza fala aos homens: edifica, exorta, consola. Aquele que fala em línguas edifica a si mesmo, ao passo que aquele que profetiza edifica a assembléia. Eu desejo que vocês todos falem em línguas, mas prefiro que profetizem. Aquele que profetiza é maior do que aquele que fala em línguas, a menos que este mesmo as interprete, para que a assembléia seja edificada...”. (1Cor 14,1-4)

Destaque especial para o versículo 12, pois é dele que fala o Rev. Haraldur Nielsson, em O Espiritismo e a Igreja. Leiamos o que o pastor Nielsson disse:

E, em outra passagem do mesmo capítulo, diz: “Assim também vós, pois que aspirais dons espirituais (isto é, desenvolver a mediunidade e entram em relação com os espíritos) seja isto para edificação da Igreja e que os procureis possuir em abundância. (I Cor., XIV, 12)”.

 

No texto grego está “espíritos” e não “dons espirituais” como menciona a tradução dinamarquesa da Bíblia. Em muitas traduções da Bíblia, esta passagem está vertida em sentido confuso, apesar de não haver a menor dúvida quanto à verdadeira significação dos termos gregos do texto original: epei zelotai este penumaton.

 

Os tradutores e os revisores da Bíblia nem sempre têm tido a coragem de traduzir, exatamente, as Escrituras Sagradas, o que não nos causa espanto. Os teólogos prenderam os seus sistemas dogmáticos em pesadas e estreitas cadeias. Por outro lado, leigos ortodoxos, em muitos países, não podem suportar a verdadeira tradução por julgarem que ela destrói os seus dogmas. Tenho alguma experiência sobre o assunto e falo do que conheço. (NIELSSEN, 1983, p. 49-50).

Um pouco atrás citamos uma passagem (2Cor 13,3) que nos leva à conclusão de que Paulo era um médium notável, razão pela qual pôde, por experiência própria, orientar aos outros. Algumas circunstâncias que apóiam a sua mediunidade:

Durante a viagem, quando já estava perto de Damasco, Saulo se viu repentinamente cercado por uma luz que vinha do céu. Caiu por terra, e ouviu uma voz que lhe dizia: ‘Saulo, Saulo, por que você me persegue?’ Saulo perguntou: ‘Quem és tu, Senhor?’ A voz respondeu: ‘Eu sou Jesus, a quem você está perseguindo. Agora, levante-se, entre na cidade, e aí dirão o que você deve fazer’. ...Então Ananias saiu, entrou na casa e impôs as mãos sobre Saulo, dizendo: ‘Saulo, meu irmão, o Senhor Jesus, que lhe apareceu quando você vinha pelo caminho, me mandou aqui para que você recupere a vista e fique cheio do Espírito Santo". (At 9,3-17)

 

“Chegando perto da Mísia, eles tentaram entrar na Bitínia, mas o Espírito de Jesus os impediu. Então atravessaram a Mísia e desceram para Trôade. Durante a noite, Paulo teve uma visão: na sua frente estava de pé um macedônio que lhe suplicava: ‘Venha à Macedônia e ajude-nos!’ Depois dessa visão, procuramos imediatamente partir para a Macedônia, pois estávamos convencidos de que Deus acabava de nos chamar para anunciar aí a Boa Notícia”. (At 16,7-10).

Na primeira passagem Jesus lhe aparece e conversa com ele; na segunda é um macedônio quem lhe aparece numa visão e pede ajuda, fatos que provam a mediunidade de Paulo. Observe que no início da aparição se fala sobre uma luz que vinha do céu, exatamente o que dissemos sobre como os espíritos puros se apresentam.

 

Mediunidade por ação do Espírito Santo

 

Inúmeras passagens bíblicas nos dão conta de que várias pessoas receberam a influência do Espírito Santo; entretanto, parece-nos ser essa uma questão controversa, pois muitas delas falam de “um espírito santo” e não de “o Espírito Santo”, já que a diferença entre o artigo indefinido e o definido aqui é fundamental para sabermos de quem está se falando.

 

Anteriormente já citamos algumas dessas passagens, e, por agora, só acrescentaremos mais essa:

“Se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas aos filhos, quanto mais o Pai do céu! Ele dará o Espírito Santo àqueles que o pedirem". (Lc 11,13)

O teólogo Pastorino, em Sabedoria do Evangelho (vol. 2, p. 139), assim traduz essa passagem: “Ora, se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai, o do céu, dará um espírito bom aos que lho pedirem!”.

 

Realmente, a expressão usada em grego é pneuma hágion; portanto, seria “um” espírito santo; quer dizer, um espírito bom, conforme nos diz Pastorino. Dessa forma fica evidenciado que Deus envia espíritos bons para ajudar aos que Lho pedem.

 

O que ainda não conseguimos entender é como o Espírito Santo é citado em várias passagens bíblicas, sem ao menos se darem conta de que isso não poderia ter ocorrido. Senão vejamos:

“Jesus disse isso, referindo-se ao Espírito que deveriam receber os que acreditassem nele. De fato, ainda não havia Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado”. (Jo 7,39).

 

“Então, eu pedirei ao Pai, e ele dará a vocês outro Advogado, para que permaneça com vocês para sempre. Ele é o Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê, nem o conhece. Vocês o conhecem, porque ele mora com vocês, e estará com vocês. Mas o Advogado, o Espírito Santo, que o Pai vai enviar em meu nome, ele ensinará a vocês todas as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu lhes disse". (Jo 14,16-17.26)

 

"Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar. Quando vier o Espírito da Verdade, ele encaminhará vocês para toda a verdade, porque o Espírito não falará em seu próprio nome, mas dirá o que escutou e anunciará para vocês as coisas que vão acontecer. O Espírito da Verdade manifestará a minha glória, porque ele vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês”. (Jo 16,12-14)

Portanto, se Jesus ainda não tinha sido glorificado, o Espírito Santo não poderia aparecer. Até mesmo porque se Deus é trino, e se Jesus é Deus, como dizem, então estando Ele encarnado (Jesus = Deus) entre nós, conseqüentemente, todas as pessoas da trindade também estariam, uma vez que só assim poderá valer o tal do “três em um”.

 

A ocorrência em que os discípulos recebem o Espírito Santo, justamente após Jesus ter sido glorificado, é essa:

“Jesus disse de novo para eles: ‘A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês’. Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: Recebam o Espírito Santo’”. (Jo 20,21-22).

Tudo se explicaria bem até aqui; mas a coisa se complica, pois em grego está “um espírito santo”, o que nos faz crer que toda vez que é citado o “Espírito Santo”, na verdade, está-se referindo a um espírito bom, santificado, uma vez que a trindade, para quem pesquisa, é apenas uma aculturação de crenças pagãs.

 

Se o que estamos concluindo está correto, aí fica fácil entender uma recomendação de João a respeito do intercâmbio com os espíritos. Leiamo-la:

“Amados, não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus; pois muitos falsos profetas vieram ao mundo. Nisto reconheceis o espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio na carne é de Deus; e todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus; é este o espírito do Anticristo. Dele ouvistes dizer que ele virá; e agora ele já está no mundo. Nós somos de Deus. Quem conhece a Deus nos ouve, quem não é de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro”. (1Jo 4,1-6).

Sendo o intercâmbio feito com toda a sorte de Espíritos, João, sabiamente, adverte às comunidades cristãs da Ásia Menor, para que não se deixassem levar pelas artimanhas dos espíritos maus, e verificassem se os espíritos vinham da parte de Deus; se eram “espíritos da verdade” ou “espíritos do erro”. A advertência de João para “examinai os espíritos” (no plural) é completamente sem sentido se ele estivesse falando do Espírito Santo como querem alguns que seja Dele que o apóstolo fala.

 

Conclusão

 

Como define a Doutrina Espírita, o fenômeno mediúnico nada mais é do que uma ocorrência de ordem natural. Podemos identificá-lo desde os mais remotos tempos da humanidade, e não poderia ser diferente, pois, em se tratando de uma manifestação de uma faculdade humana, deverá ser mesmo tão velha quanto a permanência do homem aqui na Terra.

 

Mas, infelizmente, a intolerância religiosa, a ignorância e, por vezes, a má-vontade, para não dizer a má-fé, não permitiram que fosse divulgada da forma correta, ficando mais por conta de uma ocorrência sobrenatural, que só acontecia a uns poucos privilegiados. Coube ao Espiritismo a desmistificação desse fenômeno, com a sua explicação racional. Kardec nos deixou um legado importantíssimo para todos que possam se interessar pelo assunto, quando lança O Livro dos Médiuns, que recomendamos a todos que buscam o conhecimento dessa fenomenologia, que, infelizmente, ainda é muito incompreendida em nossos dias.

 

Cabe-nos, por dever, ressaltar que nem todos comungam com o dogmatismo religioso. Assim é que podemos citar, como um bom exemplo, o comentário de R.N. Champlin, Ph. D.,  sobre Atos 12,15, uma das passagens que analisamos nesse estudo. Diz ele:

Aqueles primitivos crentes devem ter crido que os mortos podem voltar a fim de se manifestarem aos vivos, através da agência da alma. Observemos que a segunda alternativa, por eles sugerida, sobre como Pedro poderia estar no portão, era que ele teria sido morto e que o seu “anjo” ou “espírito” havia retornado. Portanto, aprendemos que aquilo que é ordinariamente classificado como doutrina “espírita” era crido por alguns membros da igreja cristã de Jerusalém. Isso não significa, naturalmente, que eles pensassem que tal fosse a regra nos casos de morte; porém, aceitaram a possibilidade da comunicação dos espíritos, que a atual igreja evangélica, especialmente em alguns círculos protestantes dogmáticos, nega com tanta veemência.

 

O famoso escritor evangélico C.S. Lewis apareceu a J.B. Philips tradutor de bem conhecida tradução do Novo Testamento para o inglês, por duas vezes, após a sua morte, e se assentou naturalmente em sua sala de estar, tendo conversado com ele como se nada tivesse acontecido que pudesse ser classificado como falecimento. Porém, por toda a parte abundam histórias de fantasmas, e muitos céticos negam tudo. Todavia, há muitos desses fenômenos, sob tão grande variedade, e cruzam todas as fronteiras religiosas, para que se possa duvidar dos mesmos como fatos. Algumas vezes os mortos voltam, e entram em comunicação com os vivos. Os teólogos judeus aceitavam isso como um fato, havendo entre eles a crença comum de que os “demônios” são espíritos humanos maus, desencarnados.

 

Essa idéia era forte na igreja cristã até o século V D.C., tendo sido apresentada por pais da igreja como Clemente de Alexandria, Justino Mártir e Orígenes, os quais também acreditavam na possibilidade do retorno e até mesmo da reencarnação de alguns espíritos, com o propósito de realizarem ou continuarem suas missões. (Ver esta doutrina em Mat. 16.14). Os essênios, dos quais João Batista parece ter sido membro, também mantinham crenças idênticas. É um equívoco cercarmos as doutrinas de muralhas, supondo em vão que somente nós, da moderna igreja cristã do século XX, temos as corretas interpretações das verdades bíblicas. Ainda temos muito a aprender, sobre muitas questões, e convém que guardemos nossas mentes abertas, pelo menos o suficiente para permitirmos a entrada de uma réstia de luz. Sabemos pouquíssimo sobre o mundo intermediário dos espíritos e supomos que o estado “eterno” já existe, o que todas as evidências mostram não ser ainda assim. (CHAMPLIN, 2002, vol. 3, p. 250). (itálico do original, negrito nosso).

Assim, temos uma esperança muito grande em relação ao futuro, pois sabemos que aos poucos essas verdades serão disseminadas, exatamente como na parábola de Jesus sobre o semeador que saiu a semear (Mt 13,3-9). Parafraseando Tiradentes: "VERITAS QUAE SERA TAMEM" (verdade ainda que tardia).

Referência bibliográfica

CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado: versículo por versículo, vol. 1 e 3, São Paulo: Hagnos, 2002.

CHAVES, J. R. A Face Oculta das Religiões, São Paulo: Martins Claret, 2001.

KARDEC, A. O Livro dos Médiuns, Brasília - DF: FEB, 1996.

NIELSSON, H. Rev. O Espiritismo e a Igreja, S. Bernardo do Campo, SP: Correio Fraterno, 1983.

PASTORINO, C. T. Sabedoria do Evangelho, vol. 1 a 8, Revista Mensal Sabedoria, Rio, 1964.

Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Paulus, São Paulo, 43ª ed. 2001.

 

 

 

 

 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.