Artigo

MÉDICOS E ESPÍRITAS VERDADEIROS

Luiz Carlos D. Formiga

 

 

 

 

"A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos"

(Tiago, 5:16)
 

 

O Brasil possui mais de cem escolas de medicina e oferece número superior a 9000 vagas por ano. O aumento desordenado do número de faculdades pode levar à perda de qualidade da formação e à piora das condições de trabalho dos profissionais. O aviltamento salarial com provável queda no atendimento, somado à formação inadequada, pode resultar em um aumento significativo de erros médicos (O Estado de São Paulo, 15 de abril).


Sobre esse assunto, dois outros jornais nos chamaram a atenção. Um deles foi o do Centro Acadêmico Carlos Chagas, medicina, UFRJ. Nele, Iglesias, um acadêmico-veterano, produziu um texto (6)  sobre as emergências públicas em geral, principalmente sob o ponto de vista dos estudantes e estagiários. O relato "é produto de longas conversas com muitos estagiários e não uma opinião isolada." O jornal dos estudantes inclui um encarte com diversos depoimentos. Vejamos alguns deles.


"Eu sei que é um problema do sistema público de saúde do Brasil, eu sei que não é nem um pouco fácil mudar isso, mas eu acho que não tem o menor sentido, a nossa população ser atendida por acadêmico do oitavo período ou do nono que seja. Os estágios são totalmente sem supervisão mesmo. A gente acaba não aprendendo nada nesse tipo de estágio. Só há uma parte prática, mas com muito vício, com muita coisa que não presta." (1)


O veterano (6) pergunta: "e quais são as marcas que tais experiências deixam nos estudantes de medicina?" E, continua – "esperamos que seja a da revolta que vem junto com o sofrimento por toda morte que poderia ser evitada e não se evitou por descuido, ignorância, negligência ou desrespeito."


"Paciente com trauma por queda de motocicleta é trazido ao hospital pelo Corpo de Bombeiros. A primeira conduta do médico foi retirar o colar cervical e orientar o paciente a mexer o pescoço. Felizmente não havia instabilidade ou trauma de coluna cervical." (1)

 

Iglesias (6) diz que os "acadêmicos correm um risco muito maior do que aprender errado. O risco de se acostumarem com estes acontecimentos, tomá-los por naturais e inevitáveis." Posteriormente, nos faz lembrar da "época em que professores da faculdade faziam parte de tais equipes e havia  academicismo naquela prática."


"Uma vez, na Emergência clínica reparei numa senhora deitada inconsciente em uma maca sem qualquer tipo de identificação ou prescrição. Perguntei aos médicos e enfermeiros sobre o seu caso e ninguém sequer tinha percebido sua presença." (1)
 

 Ao encerrar, Iglesias rende tributo aos "verdadeiros médicos" dizendo: "a mensagem final não é a de que nada funciona nas emergências públicas, porque isso seria uma grande inverdade e injustiça." Mas, não se pode esquecer que "ocorrem sim situações tristes e evitáveis em muitas ocasiões", "se não está em nosso poder controlar quais equipes de emergência funcionam adequadamente, talvez valha a pena rever nossos conceitos  e decisões a respeito da participação de acadêmicos em tais estágios."

 

No Hospital Universitário (UFRJ) um dos princípios básicos do Programa da Qualidade é a satisfação do cliente. Surgiu assim a Caixa de Sugestões como "um canal de aferição da satisfação dos clientes." Além de auxiliar no diagnóstico da qualidade ela "é um meio para fazer valer os direitos dos clientes como cidadãos na busca da qualidade na instituição." Para utilizá-la, não é necessário identificar-se. Uma vez por mês, os formulários são analisados e compactados em forma de relatório e enviados às divisões, coordenações e à Direção Geral. Os relatórios respondidos são encaminhados ao Comitê da Qualidade. As justificativas às críticas e sugestões são também enviadas aos clientes que se identificaram.


A Avaliação é importante antes (diagnóstica), durante (informativa) e no final do processo (somativa). Os Centros Espíritas podem ser beneficiados com um Programa de Qualidade.


Iglesias (6) rende tributo aos verdadeiros médicos, no O Livro dos Médiuns, Kardec faz uma classificação onde encontramos a dos "espíritas verdadeiros". Na casa Espírita podemos surpreender quadros semelhantes aos descritos na emergência. Já vimos pessoas que chegaram solicitando ajuda e consolo e foram encaminhadas ao "desenvolvimento mediúnico" com o diagnóstico de "problemas de mediunidade". Numa outra ocasião encontrei uma pessoa em visível desequilíbrio mental fazendo entrevista no "apoio fraterno" e posteriormente fui encontrá-la como médium-passista. Nem sempre a teoria exposta no planejamento das atividades da casa é encontrada na prática, fazendo lembrar o  comentário de Emmanuel: "entre saber e fazer há uma grande diferença".


"A fim de preservar os direitos dos seus pacientes, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), da Universidade do Brasil/UFRJ, lança a Cartilha dos Direitos dos Pacientes. A cartilha - distribuída a todos os pacientes - reúne dezenas de normas e condutas a serem seguidas pelos funcionários que lidam diretamente na assistência ao doente. O objetivo é adequar o hospital à era da Gestão da Qualidade, na qual a melhoria e a humanização dos tratamentos estão em primeiro plano".


Aquele que desejar a cartilha completa poderá encontrá-la no Portal Espírita -  http://www.plenus.net/ - em "Matérias Publicadas" com o título: "Espíritas e Voluntariado".


O Prof. Dr. Ismar Silveira, Redator-Chefe do Jornal Brasileiro de Medicina, com seu editorial (7), nos chamou a atenção para o texto intitulado: "Reputação Médica". Pode ser encontrado na revista Medicina, do Conselho Federal, maio-junho de 2000. Nele o Dr. José Gallo (5), Membro do Conselho, escreveu que "a boa reputação do médico é a pedra de toque de seu poder de cura. Nenhuma outra profissão exige maior credibilidade que a médica..." Recordando Chico Xavier fizemos transferência: nenhuma outra condição exige maior credibilidade que a de médium. Enquanto o Dr. Gallo comentava o campo médico nós nos lembrávamos do fenômeno mediúnico. Diz ele "que a exigência de boa conduta transcende aos atos médicos e que, aí, não há como dissociar o pessoal do profissional. Se agir mal como pessoa, será grande a repercussão disso através da mídia." Em mediunidade não é diferente. Sua secretária, seu filho, sua nora, seus parentes, podem exibir falhas de caráter, mas eles, médicos e médiuns não podem. A mídia não perdoará, "apesar do seu provável grande saber na área dos conhecimentos médicos" ou da sua enorme contribuição na área mediúnica. Quando parentes cometem erros eles são usados pela mídia,  envolvendo o nome do médico ou do médium para chamar a atenção e vender a notícia. Os  aerossóis desta água poluída são capazes de contaminar uma reputação bem construída ao longo dos anos. Embora tudo seja posteriormente esclarecido ainda sobra um pequeno percentual de pontos maculados que, para alguns, se tornam resistentes ao detergente da verdade. Isto também se aplica aos  deputados e vereadores.


"À noite era um horror, os médicos iam dormir no quarto andar e os acadêmicos ficavam sozinhos para atender os casos novos e as intercorrências. Alguns trancavam a porta e não levantavam por mais que se batesse à porta. Uma vez, chegou uma paciente com quadro de Eclampsia, nós não sabíamos o que fazer e não tinha nenhum médico perto para ajudar." (1)


 Não sei se exagerou o Dr. Gallo quando disse que "nenhuma outra profissão exige maior credibilidade." Senadores talvez não concordem com ele. A mediunidade também pode "passar por CPIs e ter quebrado o seu sigilo bancário".Recentemente o Prof. Dr. Carlos Augusto Perandréa, fez um estudo grafoscópico de mensagens psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier(4). O estudo se baseia na assinatura do espírito, quando encarnado e, depois, vindo do outro mundo e atuando através do médium. É um trabalho inédito em todo o mundo e apresenta metodologia capaz de comprovar a autenticidade das manifestações espirituais e sobrevivência da alma após a morte do corpo físico. Creio que o cheque do espírito, que foi assinado através da mediunidade de  Chico Xavier seria descontado pelo caixa do banco mesmo  após estudo especializado.


Credibilidade é fundamental em qualquer lugar, assim como a competência. Alguns  médiuns iniciam bem, ganham credibilidade, mas depois são apanhados pelo orgulho e pela vaidade. Na realidade não eram assim tão competentes. Falando da profissão médica diz o Dr. Gallo, "há aqueles socialmente respeitáveis, mas deficientes na formação profissional, que prescrevem terapias inadequadas e (ou) danosas a seus clientes,
cometendo um erro médico". Soubemos que um médium, não espírita, mandava jogar fora os medicamentos receitados pelos médicos. "Ambos pagarão à sociedade, de algum modo e mais cedo ou mais tarde, o tributo que lhe devem." Nesta hora o Dr. Gallo lembra a frase de Nietzsche: "é mais fácil suportar uma consciência pesada do que uma má reputação."  Em mediunidade não é bem assim e ainda  existe, com maior freqüência, um fator complicador que é a obsessão. A  pessoa perde o senso de equilíbrio. A entidade subjuga-a, imprime-lhe a sua vontade e passa a exercer nela um predomínio quase total. Aqui o médium revela seu orgulhoso e se torna prepotente, passa a usar "sandálias douradas" e diz que em mediunidade já é Doutor. Torna-se negligente, não mais se esforça por dominar suas  inclinações menos éticas e acaba virando notícia triste de jornal sensacionalista (3).


O Redator-Chefe do Jornal Brasileiro de Medicina lembra que Hipócrates – considerado o maior médico da Antiguidade e o pai da medicina – deixou um corpo de doutrina (Corpus hippocraticum) em que demonstrou preocupação com o desempenho de seus discípulos e firmou as bases das normas éticas para os médicos. O Codificador, Allan Kardec,  também deixou um corpo de doutrina. Nela  firmou as bases éticas para o médium. Um bom médium é um verdadeiro "Homem de Bem". Generoso, deposita fé em Deus, na Sua bondade, na Sua justiça e na Sua sabedoria. É justo, possuído de amor ao próximo, faz o bem pelo bem. Não espera paga alguma. É altruísta e sem preconceitos. Respeita todas as convicções sinceras. É indulgente para as fraquezas alheias, mas possui autocrítica.

 

Certa vez em uma de suas inteligentes (4) entrevistas Chico Xavier lecionou humildade  comentando os elogios a seu respeito: "cada carta, cada mensagem, que criam destaques em torno de meu nome, é um convite a que eu seja o que ainda não sou e que devo ser, que preciso ser, e que peço a Deus ser algum dia".

 

O Dr. Silveira chama a atenção que no trabalho do Dr. Gallo ele realça um artigo do Código de Ética Médica. O quarto artigo alerta para a necessidade de "zelar e trabalhar pelo perfeito desempenho ético da Medicina e pelo prestígio e bom conceito da profissão."

 

"Chegou um paciente psiquiátrico transferido do Instituto Pinel com alteração do nível de consciência e lesões cutâneas. A médica plantonista foi procurada para prestar atendimento e me disse: "faça o que achar melhor". Eu estava apenas no oitavo período. Felizmente outro médico assumiu o caso." (1)

 

Dr Silveira ao encerrar o Editorial do Jornal Brasileiro de Medicina nos fez lembrar o vereador, posteriormente deputado, Dr. Bezerra de Menezes: "o médico em atividade deve pensar sempre no bem-estar de seus pacientes. É um dever ético e humanitário, porque conserva neles a esperança de cura, de alívio e de consolo."
 
Recentemente, a pintura que retrata o Médico dos Pobres foi retirada de gabinete na Câmara Municipal do Rio de Janeiro por uma vereadora protestante. Ocorrência triste e evitável. No entanto, aconteceu um inesperado final. Euclides de Oliveira Portilho, chefe do Cerimonial da Câmara, acostumado a apresentar a obra-prima a um sem-número de visitantes, especialmente alunos de artes plásticas, acolheu o quadro na sala do Cerimonial. Ele no oferece interessante testemunho: "Trazer a pintura para sala do Cerimonial é para mim motivo de muita honra, não apenas pelas qualidades artísticas – recebo visita de estudantes de arte até de outros países curiosos por conhecer a obra -, mas pela figura do retratado, que presidiu dignamente durante tantos anos esta casa." (7)


Credibilidade e Competência podem se defrontar com "processos de solução demorada e respostas que levam séculos para descerem dos céus a Terra. Mas de todas as orações que se elevam para o Alto, o apóstolo destaca a do homem justo como sendo revestida de intenso poder. É que a consciência reta, no ajustamento à Lei, já conquistou amizades e intercessões numerosas." (2)

 
Revista FRATERNIDADE, (Lisboa-Pt), 464: 3-8, fev. 2002.

 

Referências Bibliográficas

1. Encarte Especial Emergência. Potencial de Ação, 2(4): 1-4, maio 2001.
2. Emmanuel. Fonte Viva. FEB. Lição 150. página 339. Psicografia de Francisco Candido Xavier.
3. Formiga, LCD. Médium: “Cuidado Perigo!”, Revista Internacional de Espiritismo.
4. Formiga, LCD. Por que considero inteligente, o Cândido, Francisco Xavier? Revista Internacional de Espiritismo.

    http://www.aeradoespirito.net/ArtigosLCF/POR_QUE_CONSID_INTEL-O_CAND-FRANC_XAVIER_LCF.html

5.  Gallo, J.H.S. Reputação Médica. Medicina (Conselho Federal de Medicina), maio-junho: 2, 2000.
6. Iglesias, E. (M.12). A Emergência em Choque!!. Potencial de Ação, 2(4): 6-7, maio 2001.

7. Rocha, A. Polêmica envolve quadro de Bezerra de Menezes. O Espírita Fluminense, maio-junho, págs. 8-9, 2001.
8. Silveira, I.C. Reputação do Médico. Jornal Brasileiro de Medicina, 80(3): 5, 2001.

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 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.