Artigo

"50 ANOS DEPOIS"

Luiz Carlos D. Formiga

 
 

 

Este título nos faz lembrar imediatamente a psicografia de Emmanuel e a figura amorável de Francisco Cândido Xavier, o médium que produziu obras altamente lucrativas, mas que nunca aceitou qualquer dinheiro dos livros e nem mesmo admite a sua autoria, tudo é revertido em obras de caridade. Chico comentou os elogios a seu respeito lecionando humildade: "cada carta, cada mensagem, que criam destaques em torno de meu nome é um convite a que eu seja o que ainda não sou e que devo ser, que preciso ser e que peço a Deus ser algum dia".

 

Chico Xavier psicografou o livro "Há Dois Mil Anos" que descreve a passagem de Emmanuel pela Terra, como patrício romano, ao tempo de Tibério, de quem foi legado na Palestina, onde conheceu Jesus, participando dos acontecimentos ligados à crucificação do Mestre. É o relato das primeiras perseguições cristãs e da destruição de Jerusalém e Pompéia. "50 Anos Depois" é a continuação das lutas redentoras de Emmanuel, que pela reencarnação, volta à arena terrestre sob a veste humilde de escravo, acompanhado de outras personagens de "Há Dois Mil Anos", salientando-se a figura sublime de um coração feminino que se divinizou no sacrifício e na abnegação (3).

 

Não é sobre o livro de Emmanuel que hoje gostaríamos de falar, mas do que aconteceu "50 Anos Antes" do dia 18 de julho de 1998. Em 1948, a cidade do Rio de Janeiro recebia a visita de moços congressistas e seus acompanhantes de outros Estados (4).

 

Como seria o Rio naquela época? Talvez fosse como nos contam Nonato Buzar e Chico Anísio em "Rio Antigo ( Como Nos Velhos Tempos)" .

 

Era aquele bate-papo na esquina, com crianças na calçada, brincando sem perigo, sem metrô e sem frescão. Naquela época se pegava o bonde 12 de Ipanema, para ver o Oscarito e o Grande Otelo, domingo, no cinema. Havia o pregão do garrafeiro, Zizinho no gramado, o samba sincopado, o bonde, taioba, bagageiro, e o desafinado que o Jobim "sacou".

 

Chico Anísio e Nonato não poderiam referir-se à obra espírita porque os espíritas sempre realizaram sem divulgar. Hoje parece que a coisa está mudando e com o "Despertar do Terceiro Milênio" podemos tomar conhecimento das obras realizadas. Era época do Leopoldo.

 

Leopoldo Machado era casado com Marília Barbosa Machado, companheira do seu ideal em todos os sentidos. Não tiveram filhos e decidiram fundar o "Lar de Jesus", recebendo, desde a inauguração, trinta e duas crianças carentes desde os primeiros dias de nascidas.

 

Simultaneamente, fundaram o Centro Espírita "Fé, Esperança e Caridade" e dentro dele um albergue. Ali eram ensinados, através de palestras, os princípios doutrinários aos adultos e amparados os idosos carentes.

 

Loureiro (4) conta que ao atingirem à maior idade, as 32 "filhas" do casal Leopoldo tornaram-se patrimônio da sociedade, tanto como exemplares donas-de-casa quanto eficientes funcionárias, mediante concurso.

 

Chico Anísio e Nonato dizem que todos ouviam a novela pelo rádio, iam a Lapa fazer lanche no Capela ou saborear um bife lá no Lamas. Como Deus a havia criado, a cidade não tinha aterro. Foi nesse clima, em um domingo ensolarado, no elegante Teatro João Caetano, completamente lotado, que teve início o Primeiro Congresso de Mocidades Espíritas no Brasil. Seu idealizador foi o Professor Leopoldo Machado. As Sessões de estudos e debates doutrinários integrando jovens e adultos ocuparam, durante uma semana, o auditório e as dependências da Sociedade de Medicina e Espiritismo, na Avenida Rio Branco 4, 15 andar, cedida com satisfação e alegria pelo seu fundador e presidente Doutor Levindo Mello.

 

É bom recordar o Rio antigo quando havia baile com Valdir Calmon, ouvia-se o Trio de Ouro, com a Estrela Dalva do Brasil e se encontrava Sergio Porto com seu bom humor.

 

Participaram do Primeiro Congresso mais de quinhentas pessoas, entre jovens congressistas e seus acompanhantes. Por sugestão do Professor Leopoldo Machado os participantes dos Estados 1 Núcleo Espírita Universiátio - Rio de Janeiro http://zap.to/neurj foram carinhosamente hospedados nas residências dos seus confrades, como convinha a uma convivência fraternal.

 

O Rio era aquele onde havia programa de calouros com Ari Barroso e o Lamartine ensinava o Lá-lá-laá gostoso. Chico e Nonato lembram da Cinelândia estreando "E o Vento Levou", recordam um velho samba do Ataufo, do carnaval com serpentina, da Copa Roca, de Brasil e Argentina, dos Anjos do Inferno e dos Quatro Ases e um Coringa.

 

A obra "Lar de Jesus", na época, influenciou a fundação dos "Lares de Maria", em Macaé, no Estado do Rio, e em Belém, no Pará. O orador e escritor espírita é o autor da letra da "Canção da Alegria Cristã", música de Oli de Castro, adotada pelo I CMEB. A presença e a contribuição de Leopoldo ao Movimento Espírita no Brasil integram o patrimônio eterno da Doutrina dos Espíritos em nosso país, chegando a transpor fronteiras.

 

Mais recentemente, no final do ano passado, Portugal, na cidade do Porto, realizou o seu 14 Encontro Nacional de Jovens Espíritas, de 29 de novembro à 1 de dezembro (6). Os minigrupos formados discutiram oito temas, variando entre a Codificação Espírita, a vida de Allan Kardec, o Espiritismo em seu tríplice aspecto, o perispírito, os "milagres" e a formação da Terra e a evolução anímica. Os jovens concluíram que há grande necessidade de estudar para compreender a obra assinada por Allan Kardec. O encontro apresentou noites culturais organizadas pela Comissão Organizadora. O grupo de Leiria contribuiu com uma teatralização sobre o aborto. Os jovens de Lisboa e os de Chaves uniram-se e, na forma de teatro, exemplificaram como se processa a reunião do Evangelho no Lar. Importante foi a realização de uma mesa redonda dedicada à história do movimento de jovens em Portugal, com a presença de algumas pessoas ligadas diretamente ao início dos encontros (Memória Viva ou Encarnada!). Nesta hora tomou-se conhecimento de que tudo começou através de um Minicongresso de Jovens Espíritas, organizado pelos jovens do Círculo Cultural de Juventude Meimei há mais de dez anos. Abro parênteses para lembrar que Meimei é autora da "Trova do Além", que está no livro "Pai Nosso". Quem move as mãos no serviço, foge à treva e à tentação. Trabalho de cada dia é senda de perfeição.

 

Apesar das limitações doutrinárias ocorridas aqui e ali, os jovens tiveram muitas oportunidades de aprender, conviver, trocar experiências e conhecimentos e, sobretudo, apertar mais os laços da fraternidade, que entre os presentes já existiam há um tempo.

 

O diário "O Comercio do Porto" fez várias referências ao encontro, mas no dia 2 de dezembro estampou mais de meia página intitulada "Um Esforço Para Ser Melhor", do jornalista Paulo Ferraz, que ninguém conhecia, surpreendendo a todos. Uma notícia de fim de semana também foi publicada no "O Correio da Manhã". O próximo encontro, que acontece de dois em dois anos, será nos dias 1-3 de maio em Viana do Castelo, tendo como tema "Conhece-te a Ti Mesmo".

 

Portugal, que também tem seus fenômenos de efeitos físicos, nestes últimos anos tem sido muito beneficiado pela espiritualidade. O Congresso Espírita deste ano deverá impulsionar ainda mais o estudo da Doutrina Espírita.

 

Dentre os espíritos generosos que reencarnaram em Portugal podemos lembrar da Rainha Isabel muito conhecida por sua benemerência. Conta-nos Carvalho (2) que Isabel levava dinheiro para beneficiar pobres, enquanto o Rei enfrentava intrigas da corte a respeito de gastos. Ao entrar no pátio a rainha é surpreendida pela presença do rei D. Dinis. Este nota a surpresa da esposa e percebe que ela se esforça para esconder alguma coisa. Pergunta-lhe o marido: - "Que levais aí?". A rainha respondeu-lhe: - "Rosas, meu senhor". Como isto se passava no inverno, o rei sorriu, dizendo que teria muito prazer em ver rosas no mês de janeiro...

 

A rainha, que amava Clara de Assis, descobriu o que escondia e para grande admiração de todos, apareceram rosas frescas em seu regaço.

 

Voltemos ao Rio de Janeiro.

 

Abstal Loureiro (4) nos diz que ao ensejo do cinquentenário do Primeiro Congresso de Mocidades Espíritas no Brasil várias solenidades serão realizadas, tanto no Rio de Janeiro, quanto nos outros Estados. No Rio, com o apoio de outras entidades, encabeça a iniciativa o Instituto de Cultura Espírita do Brasil, onde militam vários dos antigos participantes do I CMEB.

 

Loureiro (4) sabe que a iniciativa é extremamente importante, está consciente da necessidade de se registrar o acontecimento porque, como disse Rubem Alves (1), "são as palavras que orientam as mãos e os olhos. O primeiro ato de domínio exige que o dominado esqueça o seu nome, perca a memória do seu passado, não mais se lembre de sua dignidade, e aceite os nomes que o senhor impõe. A perda da memória é um evento escravizador. É por isto mesmo que a mais antiga tradição filosófica do mundo ocidental afirma que o nosso destino depende de nossa capacidade e vontade de recuperar memórias perdidas."

 

18 de julho é o Dia da Imprensa Espírita e a associação de Divulgadores do Espiritismo do Rio de Janeiro, promoverá às 14:00 horas, no auditório da USEERJ, rua dos Inválidos, 182, reunião comemorativa, sendo o expositor Wilson Longobucco, seu atual presidente. Com toda a violência da grande cidade, jovens se reúnem para estudar a Doutrina Espírita, no mesmo dia 18 de Julho, fazendo aquele "esforço para ser melhor". Vamos encontrar o EMEI, COMEMA, CONMEL, CONJEB, ETC... Leopoldo, o autor de Uma Grande Vida, deve estar contente!

 

"Uma Grande Vida" é um Estudo Biográfico de Cairbar Schutel, composto e impresso pela Casa Editora O Clarim, propriedade do Centro Espírita "Amantes da Pobreza", em Matão, SP. O prefácio da obra foi feito por José da Costa Filho, um dos diretores do Centro, na época de Cairbar Schutel. José diz que "ao traçar a biografia do "Seo" Schutel, Leopoldo Machado conseguiu obter as principais e interessantes ocorrências verificadas na vida desse Apóstolo, desde a sua infância. É um trabalho digno de encômios, de quem tem verdadeiro "amor à arte". E, continua "... ofertando-nos, além disso, sem remuneração pelo seu trabalho, tão valiosa obra, que consideramos um verdadeiro e imperecível tesouro."

 

Colhemos da oblata final as palavras de Leopoldo que se seguem. "Amigo e irmão querido: Aí tem o que pudemos oferecer-te, o que pudemos apresentar aos pósteros, de tua Grande Vida, para lições e exemplos magníficos dos que - poucos, naturalmente! - desejarem exemplos e lições deslumbrantes, a fim de bem orientarem e cristianizarem sua existência terrena.

 

E o fizemos, querido irmão e amigo, com o pensamento nos moços espíritas de nosso querido Brasil." (5)

 

Chico Anísio e Nonato cantaram "O Rio Antigo". Disseram que naqueles dias "as valsas eram do Orestes e acontecia o som de fossa de Dolores", mas talvez eles não saibam ou nem acreditem que ela voltou trazendo um som diferente. Através da psicografia, Dolores, retorna, mas agora com uma "Cantiga de paz": se quiseres sentir a paz dentro de ti, escuta meu irmão. Faze silêncio, espera que volte a primavera na força da oração. Transforma o teu soluço em riso de esperança no amanhã que vem. Depois da tempestade surge sempre a bonança agora ou mais além. Em tua longa estrada, só tu tens o poder de transformar espinhos em flores perfumadas, que ao sol da confiança enfeitem os teus caminhos. Olhando ao teu redor verás que almas tristes te pedirão amor. Tua tristeza esquece, sorri, ampara e aquece, seja o irmão quem for. Sofrendo chuva e vento o trigo doura o campo, sem falar de sua dor e, assim que a nuvem passa, a terra generosa desabotoa em flor. Imita a natureza que se desfaz em luz até o entardecer e, quando a noite chega, o céu acende estrelas, até o amanhecer.

 

Revista Internacional de Espiritismo, Ano LXXXIII, número 07, Agosto de 1998

 

Referências Bibliográficas

 

1. Alves, R. O Preparo do Educador. In Brandão C. R.. "O Educador: Vida e Morte. Escritos sobre uma espécie em perigo. Nona edição. GRAAL, 1989.

 

2. Carvalho, A.C.P. As rosas da rainha santa de Portugal. Revista Internacional de Espiritismo, LXXIII (4): 185-186, maio de 1998.

 

3. Federação Espírita Brasileira. Sinopse de Livros Espíritas. Sexta edição, FEB, outubro de 1968.

 

4. Loureiro, A. Primeiro Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil. Macaé Espírita, pág. 7, maio-junho de 1998.

 

5. Machado, L. Uma Grande Vida (Estudo Biográfico de Cairbar Schutel). Casa Editora O Clarim, Matão, SP. Segunda edição, novembro de 1980.

 

6. Revista de Espiritismo, número 38, janeiro-fevereiro-março, Portugal, 1998.

 

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 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.