Artigo

Uma doutrina de escol

Carlos de Brito Imbassahy

cbimbassahy@terra.com.br

 
 

 

Meu pai dizia que, de fato, para se saber o nosso idioma, era preciso conhecer latim e grego o que justificaria plenamente a obrigatoriedade de se ter estas duas cadeiras num curso superior da língua portuguesa.

Não se tratava, portanto, de uma exigência da Igreja para que o latim fosse estudado no ginásio, mas a tradição escolar da nossa formação lingüística.

Também julgava ele que todo dicionário importante deveria ter a origem da palavra, a sua formação, enfim, para que se pudesse dominar a sua ortoépia, com rigor e destreza. No meu tempo de escola, os professores de idioma sem dúvida exigiam bons dicionários e lembro-me que existia um, conhecido como “Moraes”, em 4 volumes, tido como a deturpação do nosso idioma porque ele, além de não conter a formação de cada termo, ainda incluía toda e qualquer palavra de uso corrente, mesmo que imprópria, tal como o faz o atual “Houaiss” ao qual pouco importa seja ela vernaculamente correta ou de uso popular, sem a formação idiomática.

Esta referência cabe a um galicismo – que, como todo mundo sabe, é o uso de uma palavra francesa, indevida, existindo outra em nosso idioma – muito usual e que tomou sentido próprio em nossa língua: elite – em francês élite (escol) do verbo élire – eleger, escolher – tomou significados distintos para nós, onde o termo passou a definir a alta sociedade e não mais um grupo de eleitos ou escolhidos para tal fim. Por isso, se traduzirmos ao pé da letra as palavras de Kardec, quando diz que o Espiritismo é uma doutrina de “elite” não estaremos dando o verdadeiro sentido dos conceitos que o codificador quis empregar, pois, de fato, o Espiritismo não é uma doutrina de massa porque não se torna compreendido por aqueles que buscam uma religião – e não uma doutrina de estudos – para seguir e se ter ante Deus, para eles, um ser relativamente antropomórfico, preocupado, apenas, com a humanidade e com o julgamento de cada um.

Evidentemente, o Espiritismo não serve para aqueles que buscam apenas a fé pura e simples, na esperança de que um Ser supremo, todo poderoso, possa ajudá-lo ante as vicissitudes da vida, enquanto que a codificação espírita diz que cada um terá que se ressarcir de seus erros e pagar por eles, a fim de resgatá-los, coerente com a lei de equilíbrio universal (a toda ação corresponde uma reação igual e contrária), o que, evidentemente, não é o objetivo essencial da criatura humana sem os devidos conhecimentos de escol.

De fato, se observarmos no mundo, vamos ver que são pouquíssimos os que seguem os estudos de Kardec com a devida fidelidade e enorme a quantidade dos que deturpam seus ensinamentos, a começar pelo Brasil, onde domina o evangelismo pregado pela Igreja, tendo Jesus comodamente como salvador dos que nele possam crer.

Evidentemente, esta doutrina é muito mais agradável àqueles que cometem erros do que ter que aceitar a idéia de que teremos que ressarcir estes erros com o mesmo grau de intensidade em que fora praticado; portanto, usando uma lei psicológica, a grande massa que se diz espírita no Brasil julga que, se conseguir tornar a doutrina reencarnacionista ditada por Espíritos superiores a Kardec em mais uma seita evangélica, tornarão o fato em verdade; tredo erro, pois, sem dúvida, as leis universais não estão sujeitas às decisões humanas nem a seus desejos, mas a uma idéia imutável que a evolução universal é única, presa a um só princípio de correção, ou seja, o de corrigir todas as coisas erradas, seja de que natureza for.

Infelizmente, a transformação do Espiritismo em mais uma seita evangélica tem, apenas, por objetivo excluí-lo do cenário de uma sociedade puramente cristã, voltada para a aceitação bíblica da existência de um ser sobre-humano que teria sido a emanação divina na terra, cujo nome, até, tirado do sânscrito – Cristo, ou Krishna, criador – seria o próprio Deus encarnado na Terra e que, para muitos, passaria a ser o Guia do nosso planeta.

Sem dúvida, o conhecimento de Kardec através das suas obras no original – e não nas traduções facciosas feitas para o nosso idioma – interpretando suas palavras dentro do verdadeiro sentido lingüístico original, vai-nos mostrar uma outra doutrina deveras distinta da que muitos seguem em nosso país. A começar pela tradução do título de sua terceira obra – La Morale de l’Evangile selon le Spiritisme – “A Moral do Evangelho conforme o Espiritismo” onde Kardec faz uma análise e crítica e prudente do que a Igreja selecionou como sendo a “Boa Nova” das mensagens de Jesus mostrando seus erros e críticas, muito longe de uma apologia em sua defesa, como sendo fundamental para sua codificação.

E o pior de tudo é a própria definição que estão dando os novos dicionários para o verbete Espiritismo que, no caso, deveria ser “doutrina codificada pelo senhor A. Kardec que se baseia na intercomunicação com os mortos e na reencarnação do Espírito” ( Séguier – Petit Dictionaire – vol. II – 1910) e que, para o grande Houaiss (pág. 2191) passou a ser “Doutrina de cunho filosófico-religioso de aperfeiçoamento moral do homem através de ensinamentos transmitidos por espíritos mais aprimorados...” não só negando a definição de Kardec contida no preâmbulo do seu livro “O Que é o Espiritismo” (último parágrafo) quando ele o define como sendo “...uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal” como ainda transformando-o numa doutrina puramente filosófico-religiosa sem citar sua origem, simplesmente, ignorando o codificador. E ainda há no meio espírita quem tenha este dicionário como paradigma do nosso idioma!

No Brasil, poucos são os que, de fato, seguem Kardec. A maioria adota uma nova doutrina ditada por Espíritos superiores ligados à Igreja que prega algo mais simples em detrimento dos conceitos da codificação, mas que atendem primordialmente às necessidades de seus seguidores, provavelmente, na esperança de que esta seja uma forma, um patamar ou um degrau para a compreensão posterior dos verdadeiros ensinamentos da Codificação.

Contudo, se, por um lado, atende à necessidade da grande massa humana, transforma os estudos científicos do Espiritismo, sem dúvida, numa outra forma evangélica de aceitação doutrinária, afastando os ensinamentos dos espíritos superiores ditados a Kardec da linha científica desejada e esperada por este a fim de levar aos cientistas a verdadeira doutrina dos ensinamentos ligados a Jesus e aos grandes enviados à Terra. 

 

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 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.