Artigo

Na casa de meu Pai há muitas moradas

Carlos de Brito Imbassahy

cbimbassahy@terra.com.br

 
 
 

A mim me parece que os espíritas evangélicos estão completamente errados na interpretação dada a esta expressão atribuída a Jesus. Para eles, o nosso mentor espiritual estaria falando de outros mundos habitados, o que seria um verdadeiro absurdo tentar a justificativa de outras civilizações através de uma frase que jamais poderia expressar tal pensamento.


Senão, vejamos:


Admitindo-se tal frase como procedente de Jesus, e atribuindo o conceito de Deus à referência que faz ou fez de “meu Pai”, primeiramente, há-de se indagar: onde fica a casa de Deus? Evidentemente, não pode ser o Universo com seus astros, pois, sendo este o efeito da Criação divina e, em decorrência disso, sendo Deus a Causa do Universo, Ele terá vindo antes da formação cósmica e, como tal, não poderia morar naquilo que viria a ser sua obra.


Por outro lado, se admitirmos Deus como “pedreiro do Universo”, construindo sua casa para nela morar, a partir de então, ele estaria contido na sua obra, finita e em expansão, segundo os mais adiantados estudos feitos pelo astrônomo Edwin Hubble.


Eis o absurdo: Deus contido por um Espaço finito. Portanto, o Universo finito não pode ser a casa de Deus, dito infinito.


É preciso que analisemos os conceitos e eliminemos absurdos interpretativos como esse a fim de que, pelo menos, no meio espírita haja seriedade nos estudos. Já basta o fardo de ter que explicar Deus dentro dos conceitos canônicos adotados em parte por Kardec e ainda termos que aceitar interpretações desconexas dos que querem encontrar nas palavras de Jesus as justificativas para suas hipóteses.


Além disso, uma afirmativa dessas, sem a devida comprovação, sem a citação de onde provêm as outras moradas, a frase se torna de um vazio absoluto e irreferencial.


Admitindo-se que Jesus quisesse passar algum recado com este conceito, o que se pode aceitar é que ele estivesse falando, mais da Espiritualidade do que, mesmo da vida planetária.


Então, caberia, de fato, admitir que, ao desencarnarmos, encontraremos do outro lado de nossa existência, “moradas” diversas, no sentido de locais distintos para que neles os Espíritos fossem ficar; patamar de vida diferente pautado pelo progresso de cada um e não, admitir-se como certo a hipótese de que nosso destino após a morte fosse o inferno ou o céu. Ainda não existia, naquele tempo, o conceito de purgatório imposto pela Igreja para angariar fundos eclesiásticos, permitindo que seus fiéis pudessem comprar a salvação.


Teria mais lógica dar-se esta interpretação às suas palavras do que partir para a idéia de que ele estivesse se referindo à existência de outros astros habitados por seres encarnados no Universo.


Está na hora de largarmos a fidelidade bíblica de livro sagrado e começarmos a analisar as coisas pelo prisma da razão. A influência nefasta da Igreja em nossa civilização, fazendo uma lavagem cerebral digna dos maiores analistas, tem tido uma ingerência nada satisfatória no meio espírita àqueles que ainda insistem em ser fiéis aos evangelhos bíblicos, mesmo depois que as provas contundentes da sua inveracidade relativa pululam por todos os cantos.


Mas, infelizmente, em nosso meio, continuam interpretando os textos do Novo testamento como se eles, de fato, fossem sagrados, sem analisar as sérias ponderações que o próprio A. Kardec faz no seu livro “O Evangelho Conforme o Espiritismo” a seu respeito, mostrando que muita coisa que ali está não poderia ter sido dita por Jesus, ou não foram corretamente interpretadas.


E é assim que se pode dizer a respeito desta interpretação sobre as moradas na Casa do “nosso Pai”.

 

Este artigo pode ser encontrado também no site

do Instituto Espírita Manoel Batista

http://iemb.org.br/default.asp?opcao=artigos&artigo=visualiza&id=58

 

 

 

 

 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.