Artigo

Kardec e os Espíritas

Carlos de Brito Imbassahy
 
 
 

Quando o professor Rivail tomou contacto com os primeiros fenômenos mediúnicos, sem dúvida, sendo emérito conhecedor dos processos didáticos, o primeiro impulso que teve foi o de fazer uma análise profunda das mensagens que recebera, tendo, então, escrito o que hoje é conhecido como sendo o 1° Livro dos Espíritos, que mereceu uma edição brasileira elaborada pelo Dr. Silvino Canuto Abreu, contendo, de um lado, o texto original e do outro a versão para nosso idioma.

Para não misturar suas obras sobre metodologia do ensino, o professor Rivail adotou o pseudônimo de Allan Kardec, como já é de domínio público.

Contudo, dando prosseguimento em seus estudos, Kardec reformulou aquela obra dando-lhe nova estrutura e que é a que vigora até a presente data. Consta, ainda, que, até a 6ª ed. ele fez algumas pequeníssimas alterações, motivo por que esta é a considerada como versão final da obra.

Não parou, todavia, por aí. Deu prosseguimento aos seus trabalhos tendo escrito uma série enorme de publicações, incluindo uma revista mensal – Revue Spirite – que fez editar para melhor divulgar a nova doutrina dos Espíritos.

Seu último livro foi “A Gênese”, após o quê deu por encerrada sua missão codificadora, passando a se dedicar, apenas, a esclarecimentos complementares; foi quando elaborou uma coletânea de artigos publicados pela aludida Revista e reuniu por assunto em diversos tomos que, posteriormente, mereceram publicação especial da Federação Espírita da Bélgica.

Por esse motivo, provavelmente, tenha feito inserir no item 35 do cap. III do Livro dos Médiuns referência à mesma a fim de que alertasse o estudioso do Espiritismo para este apêndice literário. No mesmo item, para Kardec, a principal obra para servir de início ao estudioso incipiente é o livro “O Que é o Espiritismo” em cujo preâmbulo ele define o Espiritismo como sendo uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.(sic)

Há duas ou três décadas atrás, assinada por Lúcia Loureiro, encontra uma pesquisa estatística feita em Salvador, capital baiana de largas tradições religiosas. Ela nos dá conta que, àquela época, o livro mais editado com trabalhos de Kardec era uma separata contendo “Preces” e o mais conhecido era o “Evangelho Segundo o Espiritismo” com quase 50% de conhecimento dos pesquisados.

Tudo indica que esta pesquisa tenha sido feita através de anos de busca, para que seu resultado não espelhasse uma situação de época.

Pois pasmem os amigos que, dos entrevistados, nenhum deles conhecia “O Que é o Espiritismo”, “Céu e Inferno”, “A Gênese” e a aludida coletânea incluída pelo próprio Kardec entre as quatro obras essenciais para se conhecer sua codificação.

A maioria absoluta, quase que totalidade, só conhecia Espiritismo através de Divaldo Pereira Franco e as preferências recaíam por Joana de Angelis.

Evidentemente, o estudo foi feito na Bahia. Se ele houvesse ocorrido no Sul, o resultado, provavelmente, seria o mesmo, só que tendo as obras de Chico pontificando em Emmanuel como sendo o grande baluarte da propagação dos conhecimentos doutrinários.

Sem dúvida, no movimento espírita do nosso país, entre os que se dizem espíritas, poucos são os que, de fato, conhecem Kardec, sem dizer que a maioria repudia aquele que, para o codificador, seria o livro básico do seu trabalho, ou seja, “O Que é o Espiritismo” exatamente porque contém as devidas explicações dos assuntos mais indagados à época a respeito do trabalho que representava os estudos de Kardec. E estas explicações não são compatíveis com suas respectivas opiniões.

Evidentemente, é direito líquido e certo de cada um, ler, conhecer e aceitar aquilo que mais se aproxime de sua índole e ninguém condena qualquer ensinamento que possa conduzir a criatura ao bom comportamento, muito menos, obras que reconfortem e definam aquilo que cada qual espera para que se realize na vida.

A busca da felicidade e da compreensão, segundo Buda, está dentro de cada um e não adianta procurar fora aquilo que não encontrar em seu íntimo. Por isso, é essencial que exista uma doutrina específica onde a pessoa se encontre e não adianta apelos e circunlóquios para que esta criatura se modifique.

O que se discute, todavia, é a intolerância dos que queiram impor seus princípios sobre os demais e isto ocorre dentro do Espiritismo: esta maioria que segue o evangelismo de Joana de Ângelis e de Emmanuel quer se sobrepor a Kardec, determinando que seus princípios é que devam reger a codificação em detrimento do que o mestre lionês tenha apresentado.

Com isso, acabam descaracterizando o Espiritismo em sua essência, não só pelo desconhecimento das obras básicas doutrinárias, como ainda, pela imposição de novos princípios que não foram estabelecidos pela codificação.

Que cada um tenha sua opinião, é mais do que justo, que queira adotá-la como verdade plena, é um direito, mas que se resguarde a si e não a imponha aos demais.

O Espiritismo não é mais uma doutrina evangélica para se ombrear como as demais e disso Kardec foi muito claro quando definiu a codificação, no aludido preâmbulo do livro “O Que é o Espiritismo”, motivo pelo qual essa grande maioria de evangelizadores tenta excluí-lo da codificação.

Kardec não proibiu ninguém de se evangelizar, todavia, não recomendou aos espíritas que o fizessem e, quando escreveu uma obra analisando os textos bíblicos do Novo Testamento, em vez de torná-los “sagrados” e irreprováveis, ao contrário, fez um ensaio e crítica dos principais tópicos, condenando uns e explicando outros sob a luz da nova revelação.

Portanto, apesar de ser um dos livros da codificação, o aludido “Evangelho Segundo o Espiritismo” não representa o fundamento doutrinário que esta grande maioria de participantes do movimento espírita quer que seja.

E por que este comentário?

É que, se transformarmos o Espiritismo em mais uma seita evangélica ele vai perder sua principal característica que é, justamente, a de transmitir os ensinos de Jesus àqueles que não se identificam com os princípios das seitas que se dizem cristãs.

Perde-se, assim, a grande oportunidade de levar os ensinamentos do grande missionário, que foi Jesus, para os pesquisadores científicos a fim de que eles apliquem em seus conhecimentos, as sábias palavras ditadas pelo exemplo e pela conduta do mestre da Galiléia, casando a cultura com os princípios da moral sadia e perfeita que deva nortear nosso planeta.

 

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 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.