Artigo

Ilusões e desilusões doutrinárias

Carlos de Brito Imbassahy
 
 

 

Nasci em berço espírita e desde meus primeiros entendimentos infantis aprendi a conviver com a filosofia reencarnacionista e achar normal a comunicabilidade com os desencarnados. Contudo, minha mãe, de formação católica, ex “Filha de Maria” trazia, ainda graves resquícios da sua formação católica que acabaram influindo em muitas decisões minhas a respeito da vida eu levei.

 

Jovem, ainda, assisti a inúmeras reuniões mediúnicas realizadas na casa paterna. Estas sessões ocorriam na Federação Espírita do RJ, sob a presidência de Dona Marocas, senhora austera e de grande domínio doutrinário. Minha mãe, por ser médium e ter vindo para a doutrina trazida por um processo obsessivo, tinha muito medo de que fosse novamente afetada pelo mesmo, daí, julgar de suma importância participar da ditas reuniões. Falece dona Marocas. Pedem a papai para assumir seu lugar. Com isso, optou por transferir as reuniões e elas vieram a ocorrer em nossa casa.

 

Mais para adiante, surgem dona Alice e o Tenente Luís, médiuns psicofônicos inconscientes que trouxeram para a sessão um novo ânimo ante as identificações de pessoas falecidas que por ambos se manifestavam. Muitos desses casos eu os narro em livros e artigos, e isto foi a grande base para que eu não mais duvidasse da existência do fenômeno e da intercomunicabilidade mediúnica com o dito “falecido”.

 

Por essa época, ingressei na então Faculdade de Filosofia, curso de Ciências Exatas e, de imediato, como tivesse grande facilidade de redação, além de pertencer a um grupo de focas da Manchete, ingressei no movimento estudantil, fazendo parte da bancada de nossa Faculdade.

 

Na época, o elegante era ser revolucionário no sentido literal das idéias, ou seja, defender uma linha filosófica de reforma social, inserta de um pragmatismo altamente influenciado por William James na busca do que seja útil ao homem. E, ao lado dessas teorias, imperava um materialismo crucial. Empolguei-me e só não saí da linha doutrinária espírita porque, vendo minha transformação, meu pai teve o esmerado cuidado de manter diálogo franco onde suas indagações não encontravam resposta dentro da filosofia de meus colegas.

 

Contudo, aquela influência mudou minha conduta: se, por um lado, eu trazia as tendências maternas da mentalidade cristã da igreja, pelo outro, minha razão falava mais alto em não aceitar aquela influência altamente perniciosa que o Catolicismo exercia sobre nossa sociedade.

 

Cedo fui lecionar, convidado para dar aula em um Colégio da Campanha, com registro provisório de aluno já no Curso de Didática.

 

Naquela época eu também estudava na Escola Nacional de Música, da rua do Passeio, tendo muito destaque por parte de meus professores. Se o músico tivesse um bom meio de sustentação financeira, eu não teria me enveredado pela carreira que acabei seguindo.

 

Fui trabalhar no Diário do Comércio, aqui em Niterói e conheci o lado bom e o lado podre da nossa Imprensa. Aprendi muito na mesa de uma redação de jornal. Havia deixado à parte meus estudos doutrinários e não fosse o doutor Lauro Schlëder, então diretor do “Mundo Espírita” insistir comigo para que mantivesse uma coluna de crônicas no periódico mensal que dirigia, talvez eu ali tivesse largado as letras espíritas.

 

Com as bases do curso superior, foi-me fácil passar no vestibular para a Engenharia. Nesta época a Escola era estadual e daí, para me tornar estagiário do Governo do RJ foi um passo. Como sempre fui aluno de Escola e Faculdade do Governo, não pesei no bolso do meu pai que não se furtou de me dar todo apoio ao estudo.

 

A Física mudou minha mentalidade e comecei a ver que as religiões, em si, representavam o maior atraso possível na mentalidade do povo porque incutiam uma fé e uma crença cujo único objetivo era o de prender o fiel e crente aos vínculos dos seus respectivos templos religiosos, ensinando erroneamente o Timor Domini para que, visando a um lugar no céu hipotético religioso, o adepto ficasse preso aos princípios de sua Igreja ou templo.

 

No ocidente, onde vivemos, a Igreja, dita cristã, não difere das demais: segue rigorosamente os mesmos princípios religiosos de garantir que o seu Mestre - no caso, ficticiamente, Jesus - seria o único verdadeiro que “salvaria” aqueles que o aceitasse de corpo e espírito e em essência. Salvar de quê? Do Pecado Original, já que não havia outra culpa que pudesse ser imputada ao fiel seguidor do Cristianismo. Tudo isso, evidentemente, inaceitável para meu raciocínio. Não podia conceber privilégios para os que seguissem fielmente as determinações eclesiásticas, independentemente de sua conduta e de suas ações.

 

O Espiritismo que eu conhecia negava tudo isso. Estava contido nas obras de Kardec, embora eu tivesse a ousadia de discordar de muitos pontos codificados por Kardec, principalmente aqueles mais intimamente ligados aos Cristianismo. Contudo, baseado nas próprias definições dadas por Kardec em sua obra O que é o espiritismo, para mim, aquele que seguisse esta doutrina jamais aceitaria o evangelismo eclesiástico imposto pela Igreja.

 

Foi minha primeira e grave desilusão: com mensagens mediúnicas de Emmanuel e Joanna de Ângelis, estavam tentando transformar o Espiritismo em mais uma seita evangélica, legando a segundo plano não só a prudente filosofia espírita de vida como ainda as provas fenomênicas da existência de uma vida espiritual verdadeira, completamente diferente daquela que o Cristianismo, com Emmanuel e de Ângelis estavam pregando.

 

Mas o que pude verificar é que imperava esta mentalidade: não respeitavam mais Kardec e, para os seguidores do tal Cristianismo redivivo, nada mais teria valor senão a salvação por Cristo, o exemplo de vida e o grande Mestre responsável pelo nosso planeta.

 

Só não deu para que eu entendesse porque Jesus seria este Cristo, negando os demais povos que não tinham ou tiveram a oportunidade de o conhecer e que, sem dúvida, é a maior parte da população planetária.

 

Na minha parca opinião, estes neo-espíritas deveriam constituir sua própria doutrina que nós, os verdadeiros seguidores de Kardec, respeitaríamos e que evitaria tumultuar a formação doutrinária e a linha de pensamento do verdadeiro Espiritismo.

 

Todavia, lembrei-me que, quando ainda bem jovem, numa das sessões mediúnicas que assisti, um Espírito muito amigo de meu pai, porque fora companheiro dele, quando encarnado, no movimento espírita do Rio de Janeiro, deu uma comunicação psicofônica dizendo ao velho companheiro que os jesuítas, maiores inimigos, na Espiritualidade da codificação, estavam armando uma nova artimanha para desconfigurar a doutrina codificada por Kardec, numa tentativa de transformá-la em mais uma seita evangélica, o que acabaria com os fundamentos verdadeiramente espíritas.

 

Curioso: Emmanuel foi um padre Jesuíta. Estranho: a tendência atual do movimento espírita no Brasil é de transformá-lo numa seita cristã, adotando, até, os dogmas do Cristianismo, tendo Jesus como Salvador e único.

 

De fato, o Espiritismo que conheci, de berço, era um, este que atualmente impera em nosso movimento, é outro. E tudo pode se harmonizar, desde que os fanáticos não se tornem tão intransigentes: basta que se considere como Espiritismo, apenas, a codificação kardequiana e que se criem novas doutrinas para os demais seguidores.

 

O Emmanuelismo seria muito bem-vindo se não quisesse impor seus preceitos com espíritas. O Roustainguismo, apesar da sua mediocridade de princípios docetistas, poderia coexistir pacificamente em qualquer lugar, com seus adeptos, desde que eles não se tivessem como seguidores de Kardec, tentando “evangelizar” nosso meio com estultices de um ser “fluídico”, imaterial, contrariando tudo o que a Ciência, até o presente momento, conhece.

 

Por que não harmonizarmos a coexistência de todos, separando os “credos”?

 

Espiritismo, de um lado, com Kardec, sem qualquer influência estranha.    Evangelismo,     com Emmanuel e Joana de Ângelis, separadamente. Tendo como escopo o cristianismo igrejista dos jesuítas. Roustainguismo com o docetismo, sem qualquer vínculo com o Espiritismo. Enfim, e qualquer outra crença que queira subsistir, separadamente, sem se imiscuir  com os fundamentos do Espiritismo, tal como fazem os Umbandistas.

 

E viva os Umbandistas!  Eles estão certíssimos. Estudam Kardec como decorrência fenomênica, mas, mantêm-se fiéis a seus princípios próprios, respeitando-nos e esperando ser respeitador por nós.

 

Por que não se separar os conceitos e irmanar no sentido mais do que fraterno de coexistência pacífica, cada qual adotando seus princípios filosóficos, sem um conspurcar o outro com ataques de dissidências?

 

O Espiritismo permanecerá com suas características próprias e os demais adotarão uma nova linha de conduta, como fez o Dr. Randolpho Penna Ribas, em tempos idos, quando quis instituir novos princípios doutrinários, para que não interferisse no movimento fiel a Kardec.

 

Esta é a minha grande decepção: imporem suas vontades e suas idéias como sendo as espíritas, no lugar do que Kardec tenha escrito. A isto dá-se o nome de intolerância.  E Kardec admite, até, que o Espiritismo possa ser seguido pelos que se oponham ao Cristianismo.

 

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http://www.espiritnet.com.br/Harmonia/Ano2007/harmonia03.htm

 

 

 

 

 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.