Artigo

Espírito Verdade

Carlos de Brito Imbassahy

cbimbassahy@terra.com.br

 
 

 

Lembro-me distintamente: eu ainda era bem jovem e o Dr. Canuto Abreu, por diversas vezes, com meu pai, em nossa casa, discutiu o caso do Espírito Verdade que, segundo Kardec deva ser o mentor espiritual da Codificação.

 

Eles comentavam que, erroneamente, João Ferreira de Almeida, tradutor oficial da Bíblia para a Imprensa Bíblica Brasileira, traduzira Espírito de Verdade, provavelmente, usando indevidamente alguma tradução francesa e não a Vulgata latina.

 

Ainda tenho na memória o que eles diziam: em latim tem-se Spiritus Veritas, com um traço em cima do primeiro “i” e do “e”, uma meia-lua sobre o último “i” em veritas. Ambos os termos no nominativo, o que significa dizer que não existe nenhuma preposição entre eles; para tal, seria preciso que, em vez de veritas, o termo teria que estar no genitivo veritatis.

 

Corroborava a tese com uma tradução inglesa que, para eles, se fosse preposicionada a expressão, sua tradução no idioma do Reino Unido teria que ser The Truth’s Sprit. Não me lembro como era na Bíblia inglesa, só sei que não era como deveria ser para significar “Espírito de Verdade”.

 

Já no idioma francês a partícula “de” faz parte da expressão, sem que a ela corresponda uma tradução direta. E temos os exemplos: Je mange du pain (eu como o pão), rien de personne (ninguém), j’ai d’argent (tenho dinheiro), enfim, é uma partícula idiomática que, durante o gongorismo em Portugal, foi usado em expressões como “puxou da espada” mas consideradas como galicismo.

 

Mas até aí, seria mero conceito lingüístico, embora modifique literalmente o sentido do conceito: Espírito de Verdade é o que se opõe ao espírita de mentira; Espírito da Verdade seria o que a possuísse, enquanto que, no caso, sem a preposição, significa que se trata daquele que nos traz o verdadeiro conhecimento das coisas, muito mais lógico àquilo que Kardec considerou do que o que os detratores do idioma querem impingir.

 

Todavia, como disse, aqui seria apenas uma interpretação vernácula. O que não tem cabimento é partirmos para o conceito de que este Espírito Verdade fosse o próprio Jesus e se tivesse isso como afirmativa de Kardec.

 

Senão, vejamos o que diz nosso codificador no Capítulo XVII – Prédiction de l’Evangile – a partir do item 35 – de “A Gênese” e que no item 39 escreve: Quel doit être cet envoyé ? Jésus disant : « Je prierai mon Pèreet il vous envera un autre consolater » ; indique clairement que ce n’est pas lui-même ; autrement il aurait dit : « Je reviendrai compléter ce 1que je vous ai enseigné » Traduzindo : Qual deva ser este enviado ? Jesus dizendo : « Rogarei a meu Pai e ele vos enviará um outro consolador » indica claramente que este não é ele próprio ; caso contrário, teria dito : « Voltarei para completar o que vos ensinei.

 

Depois desse texto só os grandes negadores de Kardec e os falsos tradutores de suas obras poderão contextar o fato de que, para o mestre lionês, o Espírito Verdade não poderia jamais ser o próprio Jesus, por suas próprias palavras.

 

No meio espírita há verdadeiros adoradores evangélicos que insistem em dizer que Jesus seria o Guia do nosso planeta embora tal afirmativa jamais tenha sido proferida por Kardec em nenhuma de suas obras, nem em seus artigos. E que ele próprio teria tido a incumbência de ditar a Codificação, o que seria deveras improvável ante uma série de considerações.

 

Primeiramente, o Guia de qualquer planeta jamais poderá nascer no mesmo porque, senão, durante o período em que estiver cingido à vida planetária, preso a um corpo – senão somático como o nosso, terreno – material, correlato com a vida planetária do mesmo, ficaria tolhido em suas funções precípuas porque não poderia atuar sobre a vida na Espiritualidade, comandando os desencarnados; caso contrário, estaria desrespeitando as leis da natureza e o próprio Jesus afirmou que não tinha vindo para contrariá-las.

 

A pretenção humana dita uma lei que é representada pelo conceito de que « o meu é o melhor, o meu é o verdadeiro » em detrimento da opinião de outrem.

 

Claro está que os fanáticos seguidores de Jesus, cuja única esperança é a de que ele possa redimi-los de seus erros, querem que se considere Jesus como sendo o supremo mandatário de nosso planeta, a fim de tê-lo como Salvador, evidentemente, para que sua doutrina seja considerada como única verdadeira enquanto que os demais, que formam a grande maioria dos habitantes da Terra, sejam tidos como hereges ou, enfim, seguidores de falsos profetas.

 

Não há nem lógica nisso, porque, entre os homens, o que dita a lei é a maioria e esta não é cristã, embora siga doutrinas tão puras e perfeitas como a de Jesus. Vyasa, o autor dos livros hindus – como o Bagavad Ghita –, garante que o grande enviado da doutrina por ele configurada estaria em sua oitava encarnação na Terra e que surgiria na Palestina em sua nona vida terrena, para pregar a mesma moral. E esta nona encarnação coincide com Jesus. Além disso, há uma enorme semelhança de nomes : no hinduísmo Krishna é o Guia Supremo, Yésu o seu enviado à Terra, o que sugere respectivamente Cristo e Jesus; segundo Jacoliot, os encarregados de instituir a Igreja Católica Apostólica no império romano usaram exatamente a doutrina hindu como fundamento e adaptaram-na ao Judaísmo vigente pregado por Paulo de Tarso em nome de Jesus, opondo-se à verdadeira igreja que seria a de Pedro.

 

O que não se pode, porém, é considerar como sendo espírita qualquer afirmativa que contrarie a posição de Kardec, mesmo que este pudesse estar errado, porque foi ele que escolheu o neologismo para definir a doutrina que codificara e que, como tal, só poderá definir sua obra, independente de qualquer outro conceito.

 

O que contrariar Kardec não será Espiritismo e, por mais que a influência cristã pese em nossa sociedade, com o respeito que temos pelo nosso grande mestre Jesus, o que tem que prevalecer a esse respeito, em nome do Espiritismo é o que fora por ele codificado.

 

Respeitemos todas as opiniões, mas quem quiser modificar os conceitos de Kardec, que funde sua própria doutrina.

 

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 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.