Artigo

Duas faces de Deus

 

DEUS, UMA UTOPIA

Carlos de Brito Imbassahy

(Físico)

 
 

 

 

Deus é uma utopia para atender às necessidades humanas

 (Anônimo)

 

 

Quando Thomas More, chanceler inglês do reinado de Henry III, santificado pela Igreja em 1935 escreveu seu famoso ensaio político criticando a sociedade da sua época, inspirado na idéia de um país imaginário ideal onde houvesse compreensão de todos, longe estava de imaginar que criaria um neologismo que mudaria por completo a idéia que ele quis dar do mesmo, ou seja, do que fosse “utopia”.

 

Vinte anos depois, ele se insurgiria contra o divórcio do rei de Inglaterra, ato condenado pela Igreja romana da qual fazia parte, o que o fez ser preso e condenado, sendo executado em 1535, quatro séculos antes da sua canonização.

 

Mas a utopia, sinônimo direto de “quimera”, passou a ser um termo vernáculo neste novo sentido definindo algo irreal que possa ser ideal para os homens de boa vontade. Homens, que, para a religião, foram criados por Deus.

 

E aí jaz o problema.

 

Os sofistas, sem dúvida, encontram nisso uma grande oportunidade de criarem seus silogismos, deveras contrastantes, quais sejam: ou Deus não criou o homem ou ele não foi suficientemente competente para criar algo perfeito e, por conseguinte, a terceira afirmativa silogística: Deus não é perfeito.

 

Uma pergunta que muitos fazem é a origem da idéia de Deus, criador dos seres e das coisas; sem dúvida, o que se tem idéia é a de que, desde que o homem que raciocinava passou a existir, ele imaginou que o mundo não poderia advir do nada; com isso, cada povo criou em sua imaginação a figura relativa a seres superiores, deuses, que seriam os responsáveis, cada qual por alguma coisa criada no mundo; portanto a idéia primitiva de Deus sempre politeísta, porém, com a idéia central de um governo, admitiam que um ente superior a todos os deuses seria o responsável por eles, comandando-os como um rei ou imperador sobre seu povo.

 

Dessa forma, foram criadas as diversas doutrinas que acabaram se transformando nas religiões, de um modo geral. Evidentemente, cada qual calcada nos seus respectivos costumes e hábitos, onde tais divindades se amoldavam àquilo que era conhecido pelo povo.

 

O monoteísmo no oriente, pelo que a História indica, teria sido pregado inicialmente por Kung Fu Tséu (Confúcio) e no ocidente por Osíris, ser mitológico egípcio cuja filosofia teria sido adotada por Nefertiti. Mas, de qualquer forma, outros grandes missionários trouxeram a idéia do Deus único, todavia, como cada religião ou doutrina religiosa adota um Deus próprio que só atende a seus fiéis, que só os protege, enfim, individualista e com predicados próprios à sociedade que o venera, o óbvio, perante a Ciência, é de que nenhum deles seja verdadeiro, pois a verdade é única e ninguém a contesta.

 

Quando alguém diz que a molécula da água é formada por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, a opinião é unânime e ninguém nega. Eis, pois, a verdade. Mas, em se tratando de Deus, cada religião tem o seu, específico e que só atende à necessidade dos seus seguidores e nisso, existe a controvérsia.

 

Afinal, Deus existe? E, se existe, o que seria? Qual sua obra? Por que o homem não se abstém da Sua existência? Paradigmas da suposta verdade.

 

No ocidente predominam com absolutismo as doutrinas cristãs que seguem a Bíblia como livro sagrado coadjuvadas pelo judaísmo que se restringe ao Velho Testamento, primeira parte deste mesmo livro. Mas o Deus bíblico é antropomórfico e, como tal, com os mesmos defeitos e virtudes humanas, como diz o sofisma, ou não nos criou, ou não sabia o que estava fazendo, enfim, não seria tão perfeito quanto o absoluto exige para Ele.

 

Mas o Deus bíblico teria criado a Terra como centro de tudo e o homem como sua obra prima, tanto assim o é que acabou inspirando Ptolomeu para idealizar seu sistema geocêntrico, abominado pela verdade, logo, de fato, Ele não procede como verdadeiro. E não adianta querer corrigir o erro com sentidos figurados, afinal, o Universo é imenso e a Terra nada representa dentro dele, portanto, o criador da Terra, dentro desses moldes, mesmo evangélicos, jamais poderia ser o Ente Supremo do Universo.

 

E, para tal, basta que apresentemos o que já se sabe do que se tem como espaço sideral, cósmico, componente do mesmo Universo: desde que Edwin Hubble, astrônomo norte-americano, descobriu que o Universo era curvo e se expandia, idealizando a tese que ele é pulsante e anisotrópico, acabou o conceito de que ele teria sido criado do nada por um Ente supremo, todo poderoso, enfim, um Deus acima de tudo e de todos.

 

Ser pulsante significa que ele se expande e se retrai sequentemente, o que elimina a hipótese de ter sido criado do nada; ser anisotrópico significa que a fase de retração não é inversa à de expansão, na qual vivemos atualmente.

 

No caso, a Terra já existia antes desta fase de expansão, provavelmente, numa etapa inferior e nós, humanos, se nela não habitávamos nesta época, tê-la-íamos transformado para adaptá-la para ser nosso planeta atual; daí dizer que Deus – o religioso – a teria criado num dos sete dias da gênese, torna-se um verdadeiro absurdo.

 

Kardec, prudentemente, em “A Gênese” diz que, quando evocamos Deus é sempre um Espírito amigo que vem em nosso socorro, provavelmente, para não ferir a susceptibilidade científica dos Astrofísicos que, até o momento não conseguiram conciliar a idéia do Universo com a de um “Criador” nos moldes religiosos, unicamente preocupado com a vida humana, centro de suas atenções, esquecendo-se da imensidão existente em seu entorno.

 

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 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.