Artigo

De Copérnico a Kardec

Carlos de Brito Imbassahy

cbimbassahy@terra.com.br

 
 

 

Tornou-se vulgar ou comum considerar Copérnico como sendo o autor do estudo que implantou o sistema heliocêntrico, ou heliocentrismo, contestando o geocentrismo de Galileu.

Mikolaj Kopernik (1473–1543), natural de Torun (Polônia), fez seu curso fundamental em Cracóvia, indo para a Itália com 23 anos para estudar astronomia e direito canônico. Foi quando conheceu os estudos de Nicola de Cusa – colônia romana na Etrúria – relativos às teorias de Aristarco de Samos – ilha do arquipélago turco-grego –, astrônomo (310 aC) que, contrariando as hipóteses bíblicas, teria sido o primeiro a garantir que nosso planeta girava em torno do Sol.

Hoje em dia é tácito que a hipótese de Ptolomeu foi imposta pela Igreja, porque se inspirava na Gênese de Moisés, onde a Terra seria o centro do Universo por obra e graça da criação divina. Afinal, era a palavra de Deus contida no livro sagrado que estava sendo contrariada.

O fato é que, sendo anterior a Constantino – imperador romano que instituiu o Catolicismo em Roma – e nem vivendo no seu império, Aristarco não tinha nenhum compromisso religioso com o Judaísmo e quiçá, sequer conhecesse o Velho Testamento embora escrito dez séculos antes dele nascer, por isso, louvou seus estudos em observações prudentes que evidenciavam que a Terra jamais poderia ser um astro fixo, em torno do qual tudo girava, e que, como tal, o mais provável é que gravitasse em torno do Sol. Já que, por suas observações, o astro rei não descrevia uma trajetória semelhante à da nossa Lua, como a impressão óptica sugeria.

Segundo os analistas, o que faltou a Aristarco foi um aparelho ou instrumento de medidas angulares mais preciso que lhe permitisse medir os movimentos siderais respectivos da Lua e do Sol relativamente à Terra para definir a posição exata dos mesmos e suas respectivas distâncias ao nosso planeta.

Seus dados eram imprecisos e aproximados.

Da Grécia, pois, quem trouxe estes estudos para a Itália foi Nicola de Cusa e o revelou a seus pares como alço curioso digno de análise.

Assim, Copérnico não é o pai propriamente dito do heliocentrismo, mas seu codificador, ou seja, aquele que teve coragem de enfrentar a Igreja em prol da verdade e se contrapor às suas teorias bíblicas relativas à criação do mundo falsamente oficializado como estudo científico por Ptolomeu, estudo tão falso quanto seu catálogo estelar.

Evidentemente, ao defender tal “heresia” e provar sua verdade, complementando-a com uma série de conclusões, Copérnico acabou condenado pela Santa Inquisição e só se salvou das labaredas de sua fogueira crematória porque, retido em Frauenburg (1543), numa espécie de prisão nada domiciliar, veio a falecer antes de ser imolado vivo.

Mais um mito cristão fora derrubado. A Igreja não pôde impedir que a verdade astronômica fosse difundida e pesquisada; os estudos do astrônomo polonês tiveram plena aceitação e comprovação geral pelos demais astrônomos da época, ao seguirem seu método de estudo.

Qual seria a correlação entre o heliocentrismo e o Espiritismo?

Evidentemente, o fenômeno astronômico sempre existiu desde que o Universo foi formado; nada mudou, apenas, o conhecimento humano é que não o tinha percebido; o fenômeno espírita também sempre existiu desde a formação primitiva dos seres; hoje classificado como fenômeno paranormal, ele define e explica a existência do homem na Terra a partir dos princípios fundamentais da evolução dos sistemas, contribui para a evolução do planeta assim como as ocorrências siderais atuam para o desenvolvimento do Universo.

Allan Kardec também não foi o seu primeiro observador, muito pelo contrário, instado por amigos, foi a levado a conhecê-los através destes e tão curioso ficou por eles, como Copérnico pela tese do outro Nicolau, o de Cusa, que acabou desenvolvendo seus estudos na pesquisa dos mesmos.

Também como no caso do heliocentrismo, estes estudos ficaram limitados às observações e condições científicas da época, carecendo de melhores pesquisas a fim de que se possa ter maior e mais pleno conhecimento dos mesmos.

A fenomenologia espírita não pára no que Kardec pôde descrever, no pouco tempo que teve para observá-los, além da precariedade de conhecimento da sua época, para que se pudesse aprofundar nos meandros das suas ocorrências.

Galileu, com sua luneta astronômica, pouco pôde observar, contudo, garantiu que a Lua não podia ser esferóide como a Terra, porque seu baricentro não estaria em seu interior; só quando as sondas espaciais puderam observar atrás da Luz é que descobriram que, caminhando rigorosamente encobertas pela maior, que se interpunha entre elas e a Terra, existiam duas outras Luas que, de fato, mudavam o baricentro do sistema exatamente para o ponto determinado por Galileu.

Assim também foi Kardec: precisou a existência do fenômeno hoje classificado como paranormal; não tinha aparelhagem para medi-lo, os conhecimentos de então eram restritos e limitados; nada se sabia além da existência da molécula e, no entanto, os Espíritos que orientaram o mestre lionês já lhe antecipavam muita coisa que só posteriormente seria verificada.

Do heliocentrismo, a Astrofísica partiu para o estudo geral das galáxias, penetrou no espaço sideral e descobriu uma revolução de fenômenos que fez com que se mudasse a idéia do Universo. Kardec deu o primeiro passo para que se desvendasse o mundo dos Espíritos; libertou-nos dos conceitos cristãos bíblicos impostos pela Igreja e nos levou a um estudo consciencioso da razão pela existência do Espírito antes do nascimento e depois da morte, como sendo um agente capaz de dar vida a um corpo somático. Hoje em diz sabe-se que outros agentes – definidos como frameworkers – fazem o mesmo papel no sistema de formação até das mais elementares partículas atômicas, mostrando que o fenômeno da atuação do Espírito sobre a matéria é que vem a ser a causa da sua existência com forma e vida.

Por que, então, retroagirmos para os arcaicos princípios bíblicos que entravam o progresso do conhecimento científico e transformarmos a Espiritismo, que foi codificado para viver ao lado dos estudos comprovados, em mais uma seita evangélica em detrimento do que nos legou seu codificador?

Todos os estudos podem coexistir sem que um modifique o outro, mas, separados e classificados de acordo com seus princípios, seus fundamentos e seu destino.

O Espiritismo é uma coisa, o evangelismo é outra com destinos distintos: o primeiro para que os cientistas possam conhecer as verdades dos ensinamentos de Jesus através da razão, e o segundo para atingir os corações dos que carecem de auto-ajuda, os aflitos que mendigam socorro espiritual; portanto, ambos são essenciais, só que separados pelo destino.

Está, pois, na hora de se começar a reestudar o fenômeno espírita para que clareie a mente dos que desconhecem a verdadeira vida além da Terra, sem misturá-lo com a doutrina de socorro aos aflitos, pois que a estes, o que se precisa dar é amor e não conhecimento.

Em resumo: a sabedoria está em nada se impor e cada qual ter seu caminho independente, sem misturas e sem demandas, mas, separadamente, cada qual com seu destino.

 

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 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.