Artigo

Deus, um paliativo religioso
Carlos de Brito Imbassahy

cbimbassahy@terra.com.br

 
 

 

Sem dúvida, se há um conceito que perdura desde priscas eras, da época do homem primitivo, é a da figura divina de um Ser Supremo que seria responsável pela humanidade. Não se pode caracterizar uma época em que tal idéia tenha surgido; ademais, tudo indica que seja inerente à própria idéia humana, de forma geral, porque todos os povos que se formaram no mundo, através de seus conceitos ditos religiosos, criaram, à moda de cada um, esta figura divina de um Ente Superior que justificaria a existência de tudo no mundo. Como se trata de um conceito utópico, sem qualquer fundamento com base em observações ou verificações científicas, o conceito de Deus passou a ser um dogma admitido por todas as filosofias existentes em nosso planeta, consideradas de estrutura religiosa.

Deus, portanto, é uma criação puramente dogmática, sem qualquer comprovação, que pode ser aceita ou não pela razão, de acordo com o que se conceba a Seu respeito.

Sua existência da forma religiosa torna-se deveras absurda porque cada doutrina tem seu Deus próprio que só protege os adeptos das respectivas religiões, chegando a ponto de perseguir os que não a aceitem.

Evidentemente, este é um conceito puramente emitido pelos adeptos de cada crença, julgando, até que, atos praticados em Seu nome seriam plenamente justificáveis, como crimes contra aqueles considerados inimigos, e outras formas bárbaras de atuação desde que sejam praticadas contra os que sejam considerados inimigos de sua dita crença.

Ora, portanto, como nos disse certa Entidade adepta do Mazdeísmo, nenhum Deus religioso é verdadeiro, porque a eterna verdade é única, insofismável e incontestável; ora, como cada religião tem seu Deus próprio, distinto, ele jamais poderá ser uma verdade.

Se Deus existe, Ele jamais poderá ser aquilo que os religiosos concebem, cada qual a seu modo. A Ciência admite que, sem dúvida, o Universo sendo efeito, tem que ter uma causa para que possa existir e esta, evidentemente, terá que ser um “Agente Supremo” inteiramente desconhecido do homem, porque sua configuração há que estar de acordo com o Universo e não com um simples planeta de um mísero sistema solar contido nesta imensidão cósmica.

Deus, portanto, seria um Agente atuante, capaz de dominar a existência cósmica de todo nosso Universo e não apenas um Ser antropomórfico preocupado exclusivamente com o homem, criatura altamente atrasada em relação a tudo o que existe além do nosso mundo.

Kardec não teve, provavelmente, oportunidade de analisar este aspecto e teria sido forçado pelas circunstâncias a explicar a existência do Deus religioso O qual foi estudado no primeiro capítulo da sua obra com a qual deu a partida para a codificação do Espiritismo, ou seja, “O Livro dos Espíritos”, complementando-a em uma de suas últimas obras, intitulada “A Gênese”, no seu capítulo II onde tenta dar um novo conceito a respeito da Divindade, contudo, sem ter, ainda, o amparo das descobertas científicas que só iriam aparecer no século seguinte.

Foi um avanço. Por outro lado, para justificar a crença na proteção desta Entidade dita Suprema, Kardec admite que,quando pedimos por Sua proteção, em verdade, quem vem nos ajudar seja um Espírito amigo, evidentemente, porque seria um absurdo admitirmos que aquele considerado Criador do Universo pudesse se preocupar especificamente por uma só pessoa que, o seja, venha lhe implorar proteção.

Além disso, há muita incoerência religiosa entre o conceito dos poderes divinos e a existência da criatura humana, cheia de falhas e erros que jamais justificariam a criação de um Ser perfeito. Mas tudo indica que o homem necessita, por uma questão de vaidade íntima, considerar-se como sendo “imagem e semelhança” deste Ser que, como tal, só teria criado a humanidade e feito tudo mais para honra e glória desta Criação.

Então, seria o caso de indagar: se, de fato, somos a Criação divina, por que não somos perfeitos? Esta vaidade humana de se considerar a suprema obra da criação é que não lhe permite raciocinar em termos simples com a razão.

Evidentemente, nossa capacidade intelectiva, incapaz de compreender as leis perfeitas que regem o Universo, jamais poderia entender o que, de fato, possa ser Deus, como causa da existência do Universo.

Seria pretensão exagerada. Mas, a vaidade humana não admite a verdade e prefere acreditar nas mensagens religiosas que criam a imagem divina de um Ente que estaria intimamente preocupado com a humanidade e que esta seria sua “obra prima”, embora, sem dúvida, ela não seja nada recomendável, como criação de um Ser perfeito.

 

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 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.