Artigo

Deus e os absurdos

Carlos de Brito Imbassahy

cbimbassahy@terra.com.br

 
 
 

Sem dúvida, se há um capítulo polêmico escrito por Allan Kardec é aquele em que o Codificador da doutrina espírita aborda a criação e faz um comparativo entre o bem e o mal, no seu livro A Gênese, capítulo III.


É tão contundente a exposição kardequiana que a Federação Espírita Brasileira, na sua tradução, ousou fraudar o texto suprimindo parágrafos inteiros que não convinham às suas teses roustaingistas.


Se compararmos o Deus bíblico aceito pelos cristãos, evidentemente, “culpado” – segundo os homens – de tudo o que aconteça na Terra e, provavelmente no espaço, com a idéia de perfeição e bondade, vamos ter que negar a existência deste ser absoluto que poderia ter feito tudo dentro da perfeição e, todavia, acaba se tornando o grande responsável por uma série de coisas ruins que existe e que abala a humanidade.


Vem, então, a explicação cristã do Lúcifer, que teria se rebelado contra o Criador e dos anjos decaídos, tudo isso um absurdo contundente ante a idéia de que Deus, sendo perfeito e único, responsável absoluto por tudo, tenha permitido que sua obra decaísse dessa forma e não tenha sabido fazer com que todas as criaturas por ele criadas fossem puras e boas.


Kardec, neste capitulo, condena aquilo que Roustaing explica, motivo pelo qual, na tradução da FEB, este texto foi supresso e também, convenientemente, os evangélicos que militam em nosso meio, jamais adotariam Kardec na sua concepção de advertência contra os princípios religiosos do Cristianismo.


Entende-se, pois, porque, sabiamente, da nossa tradução, parágrafos inteiros do livro em causa tenham sido surrupiados.


Mas, se analisarmos o que Kardec escreveu naquela época, década de 1860, vamos nos abismar como é que ele pôde se antecipar a fatos que só seriam descobertos no final do século XX, quando, em plena era da Cosmofísica transcendental, os novos observatórios puderam detectar aquilo que ele, Kardec já premonira século e meio antes.


Evidentemente, está na hora de negarmos o Deus evangélico para entendermos o Deus espírita proposto por Kardec e coerente com as hipóteses científicas da existência do Universo.


Depois que Edwin Hubble, astrônomo norte americano provou que o Universo era curvo e se encontrava em expansão, uma série de conceitos científicos ruiu por terra, inclusive a de que nosso espaço seria infinito, quando Kardec alega que, se tal ocorresse, extrapolaríamos o domínio de Deus porque Deus teria que estar contido o Universo.


O Universo se expande para que possa evolver. Se houvesse sido criado perfeito, tornar-se-ia estacionário e não progrediria porque não teria para onde. Mas o Deus bíblico tê-lo-ia feito dentro da sua perfeição. Então, por que ele, Universo evolve? E, como tal, é pulsante e anisotrópico. É muita incoerência que os evangélicos resumem numa frase ainda mais incabível, dizendo que esta foi a Sua vontade.


Sem dúvida, Roustaing, Emmanuel e Joana de Angelis, ao seguirem a trilha evangélica do Deus divino, Criador Supremo, tornam-se incompatíveis com o que Allan Kardec expõe em seu livro a respeito da Criação, motivo pelo qual, convenientemente, tais ou quais textos da Gênese não mereceram tradução por parte dos que almejam transformar o Espiritismo em mais uma seita bíblica. Convém frisar bem, este fato, para alertar os desprevenidos.


E, agora, observemos a posição científica do momento, para entendermos porque, até então, os cientistas nunca aceitaram o Deus religioso, por suas incoerências e incompatibilidade com o que seus aparelhos registram:


Universo pulsante – ou seja, ele se retrai e se expande em cada fase para que possa progredir. Nós estamos num período de expansão comprovada o que nos leva a admitir que ele seja limitado, senão, para onde se expandiria? Mais uma vez Kardec certo e os Evangelhos bíblicos errados. O que se despreza, no momento, é a hipótese do Big bang, porque a sua pseudojustificativa era a de que ele teria desencadeado toda a ação capaz de atuar na energia universal, dando-lhe formas e vidas. Hoje, a hipótese dos agentes estruturadores, muito mais próxima do Espiritismo, mostra que os mesmos seriam externos ao Universo – tal como a Espiritualidade proposta do Kardec – e poderiam atuar em sua energia amorfa dando-lhe forma e vida.


Anisotrópico – ou seja, aquele que não percorre na volta o mesmo caminho da ida, como ocorre com um pêndulo de relógio.


Ao se retrair, o Universo é comprimido por um Agente Supremo que seria o conceito de Deus para a Ciência, ou seja, o que comanda a vida do Universo em suas diversas fases. Este agente seria a perfeição porque teria criado o Universo com o único objetivo de criar um meio para destruir o mal e as coisas ruins que existem.


Este mesmo Agente teria elaborado o Universo para que nele pudesse encarnar a vida espiritual a fim de combater seus erros, enfim, acabar com o mau já que a tese de ele seja a ausência do bem não tem a mínima procedência. Afinal, mais uma vez, o Deus bíblico teria errado.


E de que forma isso ocorre: simplesmente porque o mal para ser combatido e se transformar no bem, há de se manifestar perante o Universo a fim de que, pelo processo do retorno, elimine de sua fonte toda a possibilidade para que ele exista.


E este conceito pode ser visto o que Kardec ensina em A Gênese.


Mais uma vez a Ciência e o Espiritismo, juntos, contrapondo-se aos Evangelhos, evidentemente, no que tange aos conceitos de perfeição, já que ninguém pode ignorar que sejam eles um acervo de ensinamento moral que atende àqueles cuja falta de cultura jamais alcançariam compreensão para compreender o que está no livro que estudamos.


Seria o mesmo processo da tese reencarnatória em que, na Terra, os Espíritos criam corpos para neles viverem por um certo período a fim de se corrigirem de seus defeitos. Os que insistem, praticando o mal, criam em si um campo parapsíquico que, em outra encarnação transforma sua vida em sofrimento e resgate, mas, para isso, torna-se necessário que ele possa se encarnar a fim de criar em processo e, desta forma, corrigir-se dos seus erros.


Entende-se pois que todo o Universo seja algo que exista a fim de que o mal anterior à sua dita existência, possa encontrar, por forma análoga, os meios de fazer com que ele se consuma.


E é dessa forma que os astrofísicos vêem a formação do Universo: com a mais recente descoberta, deste século XXI, o que se tem em mente é que algo atua sobre a energia cósmica – que, no tempo de Kardec era conhecida como sendo o FCU idealizado por Isaac Newton – fazendo com que ela se transforme, a partir da poeira cósmica, em sistemas planetários com defeitos que o próprio Universo, através da lei de ação e reação faz com que se corrija, como se corrigem os seres humanos durante seus processos de encarnação.


É uma pena que queiram acabar com o Espiritismo de Kardec para substituí-lo por mais uma seita evangélica.

 

Este artigo pode ser encontrado também no site

do Instituto Espírita Manoel Batista

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 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.