Artigo

A Relatividade da Existência

Carlos & Carmen Imbassahy

 
 

 

 

Se tudo fosse relativo, a relatividade seria absoluta; mas, se a relatividade fosse absoluta, nem tudo seria relativo.

 

Quando Galileu Galilei escreveu sua Teoria da Relatividade, hoje conhecida como clássica, apenas, restringiu-se aos movimentos mecânicos dos objetos terráqueos e longe deveria estar de supor que abriria a porta para mais uma etapa metafísica dos estudos exatos da cinemática e, a partir dela, dos fenômenos universais.

 

Só em 1905 é que A. Einstein reformulou os estudos do sábio italiano condenado pelas Igrejas cristãs por contrariar os princípios bíblicos e evangélicos de suas doutrinas, escrevendo seu primeiro trabalho a esse respeito, intitulado Teoria da Relatividade Generalizada.

 

Galileu havia se restringido à que hoje se conhece como Mecânica Newtoniana, a exemplo do caso de um passageiro dentro de um veículo em movimento: se ele jogasse um objeto para trás, mesmo assim, ele estaria indo para frente, dentro do dito veículo em movimento. Segundo este sábio, ainda, dois móveis na mesma linha reta, um se afastando do outro, a velocidade de afastamento seria a soma das duas velocidades, mas se ambos caminhassem no mesmo sentido, a velocidade de aproximação do de trás seria dada pela diferença entre as respectivas velocidades; mas se o da frente fosse mais veloz, a diferença seria de afastamento, embora ambos caminhassem para o mesmo lado. Tudo relativo.

 

Este último é o caso do passageiro correndo atrás da condução mais veloz do que ele: quanto mais corre, mais longe fica!

 

Já Einstein aproveitou este conceito para explicar porque não conseguiríamos chegar aos limites do Universo em expansão porque sua velocidade de expansão é – ou deverá ser – maior do que a velocidade da luz (que é a de observação), por isso, qualquer emissão luminosa lançada pelos nossos observatórios irá bancar o passageiro atrás da condução. Eis porque seu estudo se prende à generalidade.

 

Atualmente, nossos observatórios da equipe de Palomar, registraram as primeiras possíveis emissões luminosas de imagens obtidas a partir das mais longínquas distâncias de nosso planeta e que distam treze milhões de ano-luz da Terra; portanto, o que estamos observando hoje como sendo o limite do Universo, já ocorreu há esse tempo e só agora está chegando até nós. E o curioso é que a Terra ainda não existia quando esta imagem foi emitida. De qualquer forma, o que se evidencia é que o Universo continua se estendendo, o que prova que, além dele algo existe, senão, jamais poderia continuar sua expansão. Eis, pois, uma relatividade de posições: onde estaria a Terra quando estas emissões ora observadas foram lançadas? Existiríamos onde? E aí vai por terra a Gênese bíblica defendida pelos cristãos.

 

Em 1925, o próprio Einstein escreveu um novo estudo conhecido como Teoria da Relatividade Restrita. Em que ela se difere da anterior? Analisemos um exemplo, o mais clássico: se um móvel se desloca numa direção e acende um farol em sua traseira, pela relatividade clássica. A velocidade de afastamento da luz em relação ao móvel que se desloca no sentido oposto deveria ser a soma das duas velocidades, todavia, como não existe velocidade maior do que a da luz, a lei de Galileu não satisfaz a este caso. Daí a restrição ao exemplo dado: a luz se afasta do móvel que se desloca em sentido contrário sem que as velocidades se somem.

 

Este é um exemplo bem simples para que o leigo possa entender a diferença de relatividades, que também é relativa.

 

Do mesmo modo, a distância entre dois pontos ditos fixos é relativa porque, por mais próximos que estejam um do outro, haverá sempre um ponto intermediário entre eles. Nosso problema é a visão, restrita, que precisa de aparelhos ópticos, como microscópios para ver os objetos de dimensões ínfimas. Na Geometria, ainda, qualquer que seja o tamanho de um segmento de reta, sempre poderemos dividi-lo ao meio, indefinidamente.

 

Fermat, matematicamente, usando equações hiperbólicas, provou que a menor distância entre dois pontos é uma catenária – aquela barriga de um fio elétrico esticado entre dois postes – e que o segmento de reta cartesiano é o limite relativo desta distância sideral.

 

E o que tem que ver tudo isso com a nossa existência? Primeiramente, passemos por uma análise pedagógica:

 

Num estabelecimento padrão de ensino, o ideal é ter três classes para cada série: uma para os mais adiantados, outra para os médios e a terceira para os que tenham dificuldade na aprendizagem e para os quais se torne essencial técnicas especiais e, assim, os mais adiantados não se prejudicariam.

 

A Pedagogia se baseia na observação social para concluir quais sejam as técnicas ideais de aprendizagem, portanto, relativas ao próprio comportamento humano, no caso, infantil.

 

Por outro lado, na teoria reencarnacionista, nossa vida atual é conseqüência dos nossos atos de vidas passadas enquanto que nossos atos presentes irão influenciar nossas encarnações futuras. Como se tem dito, a tese reencarnacionista se baseia num princípio físico que diz que “todo fenômeno é repetitivo” e que “um agente capaz de realizar determinado fenômeno poderá reproduzi-lo tantas vezes quantas necessárias”. Como não existem exceções senão em regras gramaticais, cientificamente, a existência em si, ou seja, nossa vida, não poderia contrariar esta lei.

 

Evidentemente, a reencarnação é uma tese que não interessa aos sacerdotes religiosos, principalmente àqueles que vendem a seus fiéis um lugarzinho num céu fictício que não existe em nenhuma parte senão na vontade errônea destes fiéis que almejam tal privilégio inexistente, na vaga ilusão de que possam possuí-lo.

 

Por esse motivo, a Religião em si sempre se opôs à Ciência, acusando-a de materialista e atéia, o que vem a ser o mesmo que terrível heresia “castigada” pelo Criador com a condenação eterna, evidentemente, tudo dentro desta ficção religiosa sem provas nem argumentos convincentes; apenas aceita pelos fanáticos e crentes que, de fato, irão almejar privilégios superiores, com ou sem méritos para tal, apenas, por serem fiéis a este aludido Deus.

 

Por outro lado, se analisarmos a figura divina do Criador, vamos verificar que se trata de terrível aberração, afinal, se somos criados à sua imagem e semelhança, Deus antropomórfico possui todos os predicados e defeitos humanos que, evidentemente, herdamos d’Ele quando nos fez desta forma.

 

Para justificar todas essas aberrações, os sacerdotes responsáveis pelo ensino dogmático – dogma não se discute: aceita-se – criaram a “lei do livre arbítrio” a fim de tirar a culpa do Criador e transferi-la para o próprio homem que resolveu, por conta própria, agir à sua moda, mesmo contrariando os desígnios da “criação”. E Deus, apesar de onisciente, não sabia disso!

 

O livre arbítrio, de fato, é uma opção humana; um exemplo clássico é a escolha do transeunte pelo momento certo em que vá atravessar uma rua com veículos circulando; ele tem o livre arbítrio de escolha deste momento, mas, se não o fizer corretamente, corre o risco de ser atropelado.

 

Mais uma vez, um conceito relativo: o livre arbítrio!

 

Todavia, se há uma pergunta que nem a relatividade explica, é: – por que existimos?

 

Em decorrência disso, se não existíssemos, o que haveria em nosso lugar? E a partir de tal idéia, começam os devaneios da relatividade: – Por que teríamos sido criados? Simples vontade do Criador é algo assaz infantil para que se aceite já que o Universo só pode existir por uma causa muito grave, tal sua intrínseca estrutura perfeita e exata.

 

Todas as concepções religiosas só perduram porque os fiéis às suas crenças nunca pararam para estudar o que já se sabe a respeito das observações cosmológicas. Convém mais crer que haja um Deus hipotético que vá premiá-los pela sua fidelidade do que admitir que cabe a eles todo esforço para se auto-evolverem a fim de que acompanhem o progresso universal.

 

Em nossa sociedade cristã, o conceito da Criação é algo absurdo porque parte da idéia de que um Ente divino teria tido vontade de fazê-lo e teria escolhido a Terra como centro da sua criação. Mas, se imaginarmos que nosso planeta é um ínfimo astro perdido numa galáxia secundária – no caso, a Via Láctea – cuja dimensão seria percorrida pela luz em dez milhões de anos, por que nos considerarmos como sendo a obra prima desta dita criação de Deus? Por que não nos teria, então, colocado em um astro superior? Sequer, a Terra é o principal planeta do nosso sistema solar.

 

Mais uma pedra no caminho do “criacionismo”.

 

As teses da relatividade são implacáveis:

 

A criação universal é deveras perfeita para que seja obra de um Deus religioso qualquer, incompetente e parcial, que só se preocupe com os fiéis de sua respectiva seita. E que, ainda por cima, possa ter a imagem e a semelhança com o homem, este ser cheio de defeitos que habita nosso planeta.

 

O Agente Supremo do Universo há que ser único para todos. Suas leis são as mesmas, até para o ínfimo e sua perfeição também será relativa à existência cósmica do nosso espaço sideral. Ele evolve com o progresso de sua obra, dita “criação”.

 

Cabe, aqui, uma frase de Voltaire: – “... relativo é o conhecimento humano; absoluto é o conhecimento atribuído a Deus!

 

E o que viria a ser o absoluto? Sem dúvida, só poderia ser algo imutável, portanto, se descrevemos um ciclo evolutivo de existência, esta, obrigatoriamente, será relativa à velocidade de aperfeiçoamento que se desenvolva, independente do relativismo terreno; em síntese, alguns astros podem avançar mais rapidamente no processo da evolução que outros, porém, a caminhada geral é definida por tudo aquilo que exista e continue seu ciclo através do espaço-tempo.

 

Neste caso, Deus também seria relativo.  

 

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Artigo recebido dos articulistas, via e-mail, em 21 de março de 2009 (Saturday, March 21, 2009 4:10 PM).

 

 

 

 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.