Artigo

A Óptica dos Invisíveis

Carlos de Brito Imbassahy

(Físico)

cbimbassahy@terra.com.br

 
 

 

Sem dúvida, se há um dos capítulos da Física que deixa a Biologia em “suspense”, por causa de suas peculiaridades estranhas, embora conhecidas, este é o referente à luz em si e às reações biofísicas decorrentes dela.

 

De fato, a luz, como fenômeno, é de natureza quântica; está numa faixa das OEM (ondas eletromagnéticas) entre as ondas hertzianas e as catódicas e não apresenta nada diferente das demais senão o comprimento de onda, contudo, perante a biofísica, no que tange à visão animal – sem falar na fotossíntese fitológica – ela passa a ser o fundamento das imagens dos objetos que são projetadas a partir dos mesmos para se configurar na retina a fim de transmiti-las ao cérebro.

 

Não pode ser comparada ao fenômeno acústico onde as vibrações sonoras são captadas pelo tímpano auditivo e percebidas sem levar qualquer outra imagem acoplada além do dito som, bem como o calor percebido pelas nossas reações termostésicas.

 

Pode-se, pois, dizer que o órgão da visão humana depende integralmente da luz – sem ela não há visão – que reflete as imagens dos objetos para transmiti-las pelos olhos que funcionam como câmeras receptoras ao sistema neural que leva os pulsos captados ao cérebro para sua leitura.

 

É tão peculiar o fenômeno que ninguém se preocupa em investigá-lo, evidentemente, não sendo cegos. Tudo se complica, todavia, se passarmos para a área dos invisíveis, os que não têm imagem para se projetar como certos vidros de índice de refração ambiental e, mais especificamente, o mundo espiritual.

 

Contudo, é comum em aparições e manifestações mediúnicas a referência feita à luz dos Espíritos superiores que não pode ser explicada a partir das fontes materiais porque a nossa, no conceito humano – material – é uma forma de energia quântica radiante anteriores às emissões catódicas e que, a princípio, só afetariam corpos materiais.

 

A natureza da luz ainda é polêmica; foi Sir Isaac Newton que, em 1670, elaborou o primeiro estudo a seu respeito, com a “teoria das emissões” supondo que a luz fosse formada de corpúsculos ou partículas imponderáveis e elásticas com o que justificava a sua propagação retilínea e os já conhecidos fenômenos de reflexão, refração e difração. Neste caso, suas diferentes cores se explicariam em decorrência das respectivas emissões a exemplo dos sons cujas notas musicais dependiam da corda ou fonte que as emitia.

 

Contemporâneo de Newton, Christian Huyghens, astrônomo holandês, idealizou a “teoria ondulatória” (1678), na tentativa de explicar os fenômenos de dupla refração, recentemente descoberto, porém, não justificava a propagação retilínea. Assim, ele admitiu que a luz seria um estudo particular de movimento do meio, como o ar para o som.

 

Já em 1655, Francesco Maria Grimaldi, físico jesuíta, houvera observado a curvatura do raio luminoso – difração – em torno da borda de certos objetos. E isto influiu consideravelmente nos estudos que se seguiram.

 

Contudo, a teoria corpuscular das emissões de Newton prevalecia, independente das contestações; só que, no final do século XVIII, os estudos de Thomas Young – apesar de médico oftalmologista inglês de Somerset – sobre a interferência da luz no cristalino ocular veio modificar os conhecimentos a respeito da óptica ondulatória; sua preocupação era relativa aos problemas oculares. Baseado em Huyghens, em 1821, decorrente da luz no cristalino ocular, acabou por estudar a polarização da luz que não tinha nenhum apoio na aludida teoria corpuscular de Newton. Contudo, persistia ainda uma série de obstáculos: a teoria ondulatória, como no caso do som, contrariava, como foi visto, a idéia da propagação retilínea da luz, já que, àquele tempo, não se sabia que o comprimento de onda da luz era tão ínfimo em relação ao som.

 

Porém, um pouco mais tarde, as descobertas de Thomas Young sobre os fenômenos de interferência e difração da luz abalaram consideravelmente as aparentes verdades sobre o fenômeno corroborado pelos estudos de Augustin Fresnel sobre a óptica ondulatória explicando, com auxílio dos estudos de Huighens muitos pontos obscuros.

 

A morte da teoria das emissões de Newton só veio a ocorrer em 1850 quando Leon Foucault – físico francês inventor do giroscópio – mediu a velocidade da luz em diversos meios cujos índices de refração seriam conhecidos e cujo estudo, ainda, gerou a aplicação de espelhos parabólicos em telescópios.

 

O problema todo residia na propagação da luz pelo espaço sideral cuja composição era inteiramente desconhecida e a hipótese de Newton a respeito do FCU (imponderável, inelástico, sem atrito viscoso, etc.) inconsistente –, apesar da tentativa de Augustin Fresnell de dar nova explicação ao que chamou de “éter”, do grego, aither (ar puro) –, não justificava a sua propagação para explicar como a luz do Sol chegava até nós.

 

E ainda faltava explicar a natureza das ondas luminosas.

 

Foi James Clerk Maxwell, natural de Edimburgo, que, em 1873, comparando o valor da constante eletromagnética (3x108 m/seg) equivaler à velocidade da luz, concluiu que esta seria constituída de ondas eletromagnéticas muito curtas, ainda não mensuráveis à época, por falta de condições técnicas.

 

Seu estudo foi complementado por Heirich Hertz, físico alemão de Hamburgo que, em 1887/8 conseguiu produzir ondas extremamente curtas de mesma origem OEM, hoje conhecidas como ondas de rádio, com as mesmas características ópticas.

 

Para os cientistas da época, faltaria muito pouca coisa para se conhecer a respeito da luz já que incluíam as emissões foto-elétricas de uma superfície ativada pelos raios luminosos.

 

Foi exatamente em 1900 que Max Plank, famoso pela teoria quântica das emissões, provou que as radiações do corpo negro eram inteiramente contraditórias com o que se afirmava e tinha como certo a respeito da teoria eletro-magnética vigente.

 

Tudo voltou à estaca zero. Foi Albert Einstein que, em 1905, escrevendo sua primeira “Teoria da Relatividade Generalizada” [a Teoria da Relatividade Restrita é de 1925], nela incluiu o estudo da luz; baseando-se nos resultados de Plank, chegou à conclusão de que o feixe luminoso, em vez de se distribuir uniformemente através do espaço, no campo de uma onda eletro-magnética, ficava concentrado em corpúsculos que denominou de fótons e que, sem dúvida, dentro da teoria ondulatória, era aceito como possuído de uma freqüência e comprimento de onda correspondente, sendo que sua energia seria proporcional à sua freqüência, o que justificava a variação de cores, até então inexplicável.

 

Lembremo-nos de que o valor da freqüência é inverso ao do comprimento de onda λ.

 

O estudo de Einstein era o retorno indireto à teoria corpuscular de Newton.

 

Como ele afirmasse que os demais cientistas também estariam certos em sua observação, indagaram-lhe como poderia ser isto, já que discordavam de opinião. Para justificar sua afirmativa, Einstein comentou: se, numa sala, cada qual estiver olhando apenas para uma de suas paredes, aparentemente, irá discordar do outro relativo ao que veja; apenas serão concordes os que olharem para todas as paredes do cômodo.

 

Só em 1923 é que se teve um estudo sensato englobando a luz nos fenômenos quânticos; deve-se o fato a Louis De Broglie, nobre francês, catedrático da Sorbone, com seu primeiro estudo intitulado “Teoria da Mecânica Quântica e Ondulatória”.

 

Baseado neste estudo, Erwin Schöredinger, físico austríaco de Viena, conseguiu equacionar o fenômeno quântico (1926) incluindo a luz na aludida “função de onda”.

 

Pára aí o estudo da luz em particular.

 

Do mesmo modo que o som, o calor, as ondas de rádio e TV, as emissões catódicas e até os raios cósmicos, também a luz, sendo um fenômeno quântico (compreendida entre as ondas hertzianas e as emissões catódicas) pertence exclusivamente ao domínio das energias ditas radiantes e, como tal, sua influência no meio espiritual jamais poderá divergir da ação dos demais fenômenos desta natureza.

 

Assim, como explicar o grau de luminosidade de um Espírito em decorrência do seu adiantamento evolutivo? Estaria ele preso à existência física do Universo para que possa usufruir a luz como um predicado? E por que a luz?

 

Há uma tese taoista de que tudo o que exista no mundo material (Universo) seria o espectro da materialização das formas de um outro mundo – ou domínio dos estruturadores, para os físicos – que, para nós seria a Espiritualidade. Esta idéia é compatível com a atual posição da Física atômica para a qual a estrutura de um átomo e suas partículas é devida à ação de agentes externos capazes de atuar na energia cósmica amorfa (fundamental), modulando-a e condensando-a na sua forma dita material já que, por si só, a energia cósmica não seria capaz de se alterar.

 

Neste caso, por extensão, a luz seria um estágio correspondente àquilo que para as Entidades espirituais seria sua luminosidade, só que, sendo uma forma quântica de emissão, a luz está em igualdade com as demais radiações, desde as mecânicas, passando pelas acústicas e térmicas até os raios ditos cósmicos e aí, por que não há o correspondente – ou não os captamos – destas outras energias quânticas acompanhando os desencarnados?

 

E voltamos à estaca zero da luz com relação aos invisíveis.

 

Em suma, a óptica não existe para os invisíveis, pelo menos, os do mundo material. Mas, se nos conscientizarmos que existe uma outra forma de vida, dita parapsíquica, evidenciada pelos fenômenos paranormais conhecidos como mediúnicos, através de diversos meios com recursos de sensitivos dotados da aludida mediunidade, embora negada pelos religiosos em geral, só quando dispusermos de aparelhagem capaz de detectar suas radiações diretas – já que, até o momento, só o conseguimos mediunicamente – então é que se poderá dizer algo a respeito da luminosidade espiritual que, provavelmente, seja, apenas, uma forma de vibração espiritual que se transforma em sensação de luz às nossas visões de encarnados.

 

Todavia, enquanto houver essa discussão a respeito de quem – os religiosos ou os cientistas – caiba o estudo da existência do mundo espiritual, esta pendenga continuará flutuando nas ondas da pura disputa de domínio.

 

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Recebido do articulista via e-mail em 25 de novembro de 2008 - 16h40m

 

 

 

 

 Publicado pelo A ERA DO ESPÍRITO com a autorização do autor.