CAPÍTULO I

A GÊNESE
CONFORME O ESPIRITISMO

ALLAN KARDEC

Tradução e comentários de

Carlos de Brito Imbassahy

conforme o original da

3ª. edição de 1868.

 

CARACTERES DA REVELAÇÃO ESPÍRITA

 

 

 

1. – Pode-se considerar o Espiritismo como uma revelação? Neste caso, qual é seu caráter? Sobre o quê está fundada sua autenticidade? A quem e de que maneira ela foi feita? A doutrina espírita é ela uma revelação no sentido litúrgico da palavra, ou seja, é ela de todos os pontos o produto de um ensino oculto vindo do Alto? É ela absoluta ou susceptível de modificações? Em anunciando aos homens a verdade de fato, a revelação não teria ela por efeito de os impedir de fazer uso de suas faculdades desde que lhe pouparia o trabalho da pesquisa? Qual pode ser a autoridade do ensinamento dos espíritos, se eles não são infalíveis e superiores à humanidade? Qual é a utilidade da moral que eles pregam, se esta moral não é outra senão a do Cristo que se conhece? Quais são as verdades novas que eles nos trazem? O homem, tem ele necessidade de uma revelação e não pode encontrar em si mesmo e em sua consciência tudo o que lhe seja necessário para se conduzir? Tais são as questões sobre as quais importa serem fixadas. 

 

2. – Definamos a princípio o sentido do termo revelação.

 

Revelar, derivado do termo véu (do latim velum), significa literalmente tirar o véu; e, no sentido figurado: descobrir, fazer conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Em sua acepção vulgar, a mais geral, diz-se de toda coisa ignorada que é posta ao dia, de toda ideia nova que se põe sobre a vista do que não se sabia.

 

Neste ponto de vista, todas as ciências que nos fazem conhecer os mistérios da natureza são revelações e pode-se dizer que existe para nós uma revelação incessante; a Astronomia nos tem revelado o mundo astral que não conhecíamos; a Geologia a formação da Terra; a Química, a lei das afinidades; a Fisiologia, a funções do organismo, etc. Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier, são reveladores. 

 

3. – O caráter essencial de toda revelação deve ser a verdade. Revelar um segredo é fazer conhecer um fato; se a coisa é falsa, não é um fato e, por consequência, não existe revelação. Toda revelação desmentida pelos fatos deixa de ser uma delas; se é atribuída a Deus, Deus não podendo nem mentir, nem se enganar, ela não poderia emanar d’Ele; é preciso considerá-la como produto de uma concepção humana. 

 

4. – Qual é o papel do professor perante os alunos, senão o de um revelador? Ele se lhes ensina o que não sabem, o que eles não teriam nem tempo nem a possibilidade de descobrirem por eles próprios, porque a Ciência é a obra coletiva dos séculos e de uma multidão de homens que conduziram, cada um, seu contingente de observações e do que se aproveitaram os que vieram após eles. O ensinamento é, pois, em realidade, a revelação de certas verdades científicas ou morais, físicas ou metafísicas, feita pelos homens que a conhecem para outros que as ignoram e que, sem isso, permaneceriam sempre ignoradas. 

 

5. – Mas o professor só ensina o que aprendeu: é um revelador de segunda ordem; o homem de gênio ensina o que encontrou ele próprio: é o revelador primitivo; ele conduz a luz que, de próximo em próximo se vulgariza. O que seria a humanidade sem a revelação dos homens de gênio que aparecem de tempos em quando?

 

Mas, o que são homens de gênio? Por que são eles homens de gênio? De onde vieram? Que vieram a ser? Notemos que a maior parte deles possui de nascença faculdades transcendentais e de conhecimentos inatos que um pouco de trabalho é suficiente para desenvolvê-lo. Eles pertencem de fato, realmente, à humanidade, já que nascem, vivem e morrem como nós. Onde, pois, hauriram estes conhecimentos que não puderam adquirir de sua vivência? Dir-se-á com os materialistas que o acaso lhe deu a matéria cerebral em maior quantidade e de melhor qualidade? Neste caso, eles não teriam mais mérito do que um legume mais volumoso e mais saboroso que outro.

 

Dir-se-á com certos espiritualistas que Deus os dotou de uma alma deveras favorecida que a comum dos homens? Suposição toda também ilógica, já que macularia Deus de parcialidade. A única solução racional deste problema está na preexistência da alma e na pluralidade de existências. O homem de gênio é um Espírito que tem vivido mais longo tempo; que tem, por consequência, mais aquisições e maior progresso que os que são menos adiantados. Encarnando-se, ele traz o que sabe e como sabe muito mais que os outros, sem ter necessidade de aprender, é o que se chama um homem de gênio. Mas o que sabe nada mais é do que fruto de um trabalho anterior e nunca um resultado de um privilégio. Antes de renascer, ele era um Espírito adiantado; ele se encarna, quer por fazer lucrar os demais com o que ele sabe, quer para adquirir vantagem.

 

Os homens progridem incontestavelmente por eles mesmos e pelos esforços de sua inteligência; mais, liberados a suas próprias forças, este progresso é muito lento se não forem ajudados por homens mais avançados como o escolar está para o professor. Todos os povos têm tido seus homens de gênio que vieram, em diversas épocas, dar um impulso e os tirar de sua inércia. 

 

6. – Desde então que se admite a solicitude de Deus por suas criaturas, porque não admitir que Espíritos capazes, por sua energia e a superioridade de seus conhecimentos, de fazer avançar a humanidade, encarnem-se, pela vontade de Deus em vista de ajudar ao progresso em um sentido determinado; que recebem uma missão, como um embaixador em recebimento de uma de seu soberano? Tal é o papel dos grandes gênios. Que vêm eles fazer, senão ensinar aos homens de verdade o que eles ignoram, e que seriam ignorados durante ainda longos períodos, a fim de lhes dar um degrau de ajuda com o qual possam se elevar mais rapidamente? Estes gênios que aparecem através dos séculos estrelas brilhantes, deixam após eles uma longa trilha luminosa sobre a humanidade, são missionários ou, caso queira, messias. Se eles não ensinassem aos homens nada além do que sabem estes últimos, sua presença seria completamente inútil; as coisas novas que eles lhes ensinam, quer na ordem física, quer na ordem filosófica, são revelações.

 

Se Deus suscita reveladores para as verdades científicas, pode, com mais forte razão, suscitá-los para as verdades morais que são elementos essenciais do progresso. Tais são os filósofos cujas ideias atravessaram os séculos. 

 

7. – No sentido especial da fé religiosa, a revelação se diz particularmente das coisas espirituais que o homem não pode saber por ele próprio, que não pode descobrir por meio dos seus sentidos, e do qual o conhecimento lhe é dado por Deus ou por seus mensageiros, quer por meio da palavra direta, quer por inspiração. Neste caso, a revelação é sempre feita a homens privilegiados designados sob o nome de profetas ou messias, isto é, enviados missionários tendo missão de transmiti-las aos homens. Considerada sob o ponto de vista, a revelação implica passividade absoluta; aceita-se sem controle, sem exame, sem discussão. 

 

8. – Todas as religiões tiveram seus reveladores e posto que todos estejam longe de conhecerem toda a verdade, eles tinham sua razão de ser providencial, pois eles estavam apropriados ao tempo e ao meio aonde viviam, ao gênio particular dos povos para os quais falaram e para os quais seriam relativamente superiores. Malgrado o erro de suas doutrinas, eles nem por isso deixaram de movimentar os espíritos e por aí mesmo semear germens de progresso que, mais tarde, deviam se expandir, como se expandiram um dia ao sol do Cristianismo. É, pois injusto que se lhe lance o anátema em nome da ortodoxia, porque um dia virá em que todas essas crenças, se divergentes pela forma, mas que repousam em realidade sobre um mesmo princípio fundamental: Deus e a imortalidade da alma se fundirão em uma grande e vasta unidade, assim que a razão tiver triunfado dos prejulgamentos.

 

Infelizmente, as religiões têm sido a todo tempo instrumento de dominação; o papel de profeta tem tentado as ambições secundárias, e tem-se visto surgir uma multidão de pretendentes reveladores ou messias que, a favor do prestígio de seu nome, exploraram a credulidade em proveito de seu orgulho, da sua cupidez, ou de sua preguiça, achando mais cômodo viver à custa dos seus enganados. A religião cristã não tem estado ao abrigo destes parasitos. Neste caso, chamamos uma atenção séria sobre o capítulo XXI do Evangelho Conforme o Espiritismo: “Haverá falsos cristos e falsos profetas”

 

9. – Há revelações diretas de Deus aos homens? É uma questão que não ousaríamos resolver nem afirmativamente nem negativamente de uma maneira absoluta. A coisa não é radicalmente impossível, porém nada nos dá a prova certa. O que não seria duvidoso, é que os Espíritos, os mais próximos de Deus pela perfeição, compenetrem-se de seu pensamento e possam-no transmitir. Quanto aos reveladores encarnados, conforme a ordem hierárquica à qual pertença e o grau de seu saber pessoal, eles podem haurir suas instruções em seus próprios conhecimentos, ou recebê-las de Espíritos mais elevados, realmente mensageiros diretos de Deus. Estes, falando em nome de Deus, têm podido perfeitamente ser tomados pelo próprio Deus.

 

Esta sorte de comunicações nada tem de estranho para os que conheçam os fenômenos espíritas e a maneira pela qual se estabelecem as referências entre os encarnados e os desencarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios; por inspiração pura e simples, pela audição da palavra, pela via dos Espíritos instrutores durante as visões e aparições, quer em sonho, quer no estado de vigília tal como se veem vários exemplos na Bíblia, no Evangelho e nos livros sacros de todos os povos. É, pois, rigorosamente exato que a maior parte das revelações é dos médiuns inspirados, auditivos ou videntes; de onde não segue que todos os médiuns sejam reveladores, e ainda menos os intermediários diretos da Divindade ou de seus mensageiros. 

 

10. – Os Espíritos puros somente recebem a palavra de Deus com missão de transmiti-la; mas, sabe-se agora que os Espíritos estão longe de ser todos perfeitos e que o é quem se dá com falsa aparência; é o que fez São João dizer: “Não creia jamais em todos os Espíritos, mas veja primeiro se os Espíritos são de Deus”. (Ep. I cap.4:4)

 

Pode-se, pois, haver, revelações sérias e verdadeiras como as há apócrifas e enganosas. O caráter essencial da revelação divina é aquele da eterna verdade. Toda revelação maculada de erro ou sujeita a trocas, não pode emanar de Deus. É assim que a lei do decálogo tem todos os caracteres de sua origem, enquanto que as outras leis mosaicas, essencialmente transitórias, frequentemente em contradição com a lei do Sinai é obra pessoal e política do legislador hebreu. Os costumes do povo, lenitivo, estas leis por si mesmas caíram em desuso, enquanto que o decálogo restou de pé como o farol da humanidade. Cristo fez dele a base de seu edifício enquanto que abolia outras leis; se elas houvessem sido a obra de Deus ele se guardaria de tocá-las; Cristo e Moisés são os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo e aí a prova de suas missões divinas. Uma obra puramente humana não teria um tal poder. 

 

11. – Uma importante revelação completa-se à época atual; é aquela que nos mostra a possibilidade de se comunicar com os seres do mundo espiritual. Este conhecimento, não é, pois, novo, sem dúvida, mas restou até nossos dias de alguma sorte, ao estado de letra morta, isto é, sem proveito para a humanidade. A ignorância das leis que regem estas referências estava sufocada sob a superstição; o homem estava incapaz de tirar dela alguma dedução salutar; estava reservada à nossa época de desembaraçá-la de seus acessórios ridículos, de se compreender a importância e de se fazer surgir a luz que devia clarear a rota do advir.

 

12. – O Espiritismo, fazendo-nos conhecer o mundo invisível que nos envolve, e ao meio do qual vivemos sem nos duvidarmos, as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam, e, por consequência, o destino do homem após a morte, é uma verdadeira revelação na acepção científica do termo.

 

13. Por sua natureza, a revelação espírita tem um duplo caráter: ela tem ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Tem da primeira, no que sua chegada é providencial, e não o resultado da iniciativa de um plano premeditado do homem; que os pontos fundamentais da doutrina são o fato do ensinamento dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens sobre as coisas que eles ignoravam, que não podiam aprender por eles próprios e que lhes importa conhece atualmente, e que são maduros para compreendê-los. Obtém da segunda, no que, este ensinamento não é privilégio de nenhum indivíduo, mas que é dado a todos pela mesma via; que, aqueles que o transmitem e aqueles que o recebem não são seres passivos, dispensados do trabalho de observação e pesquisa; que não fazem nenhuma abnegação de seu julgamento e de seu livre arbítrio; que o controle não lhe é nunca interditado, mas, ao contrário recomendado; enfim, que a doutrina nunca foi ditada em todos os pedaços, nem imposta à crença cega; que ela é deduzida pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos põem sob seus olhos, e das instruções que lhe dão, instruções que estuda, comenta, compara e do qual tira ele mesmo as consequências e as aplicações. Em uma palavra, o que caracteriza a revelação espírita, é que a fonte é divina, que a iniciativa coube aos Espíritos e que a elaboração é o resultado do trabalho do homem

 

14. – Como meio de elaboração, o Espiritismo procede da mesma maneira que as ciências positivas, ou seja, que aplica a metodologia experimental. Fatos de uma ordem nova se apresentam que não podem se explicar pelas leis conhecidas; ele as observa, as compara, as analisa e de efeitos, remontando aos casos, chega à lei que os rege; depois, deduz as consequências e procura as aplicações úteis. Ele não estabelece nenhuma teoria preconcebida; assim, ele não tem se apresentado como hipótese, nem a existência e intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, e nenhum dos princípios da doutrina; concluiu pela existência dos Espíritos já que esta existência é resultado da evidência de observação dos fatos, e, assim, dos outros princípios. Não são, pois, os fatos que vieram depois da ação confirmar a teoria, mas a teoria que veio subsequentemente explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer que o Espiritismo é uma Ciência de observação e não o produto da imaginação. 

 

15. – Citemos um exemplo. Passa-se no mundo dos Espíritos, um fato muito singular, e que, seguramente, ninguém teria suposto, é daqueles Espíritos que não se creem mortos. E bem! Os Espíritos superiores que o conhecem perfeitamente nunca estão vindo dizer por antecipação: “Há Espíritos que creem ainda viver na vida terrestre; que conservam seus gostos, seus hábitos e seus instintos” mas eles têm provocado a manifestação de Espíritos desta categoria para nos fazê-los observar. Tendo, pois, visto incertos sobre seu estado, ou afirmando que eles estariam ainda neste mundo e crendo vagar em suas ocupações ordinárias, do exemplo conclui-se a regra. A multiplicidade de fatos análogos provou que este jamais seria uma exceção, mas, uma das fases da vida espiritual; ela permitiu que se estudassem todas as variedades de causa desta singular ilusão; de reconhecer que esta situação é, sobretudo, a própria dos Espíritos pouco avançados moralmente e que ela é particular a certos gêneros de morte; que não temporária, mas podem durar dias, meses e anos. É assim que nasce a teoria da observação. O mesmo acontecendo com todos os outros princípios da doutrina. 

 

16. Da mesma forma que a Ciência propriamente dita tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual; ora, como este último princípio é uma das forças da natureza que rege incessantemente sobre o princípio material e reciprocamente, disso resulta que o conhecimento de um não pode se completar sem o conhecimento do outro; que a Ciência sem o Espiritismo se encontra na impossibilidade de explicar certos fenômenos exclusivamente pelas leis da matéria, e que é por ter feito abstração do princípio espiritual que ela carrega dentro de si numerosos impasses; que o Espiritismo sem a Ciência capengaria de apoio e de controle, e poderia se embalar de ilusões. O Espiritismo, vindo antes das descobertas científicas teria sido uma obra abortada como tudo o que vem antes do seu tempo. 

 

17. – Todas as ciências se encadeiam e se sucedem numa ordem racional; nascem umas das outras, à medida que encontram um ponto de apoio nas ideias e nos conhecimentos anteriores. A Astronomia, uma das primeiras que foram cultivadas, restou nos erros da infância até o momento em que a Física veio revelar a lei das forças dos agentes naturais; a Química nada poderia sem a Física, devendo sucedê-la de perto, para em seguida marcharem em conjunto apoiando-se uma na outra. A Anatomia, a Fisiologia, a Zoologia, a Botânica, a Mineralogia não são senão advindas de ciências sérias com ajuda das luzes trazidas pela Física e pela Química. A Geologia, nascida ontem, sem a Astronomia, a Física, a Química e todas as outras tem faltado a suas verdades elementares de vitalidade; não poderia vir senão depois. 

 

18. – A Ciência moderna em razão dos quatro elementos primitivos dos antepassados e, de observação em observação, chegou à concepção de um só elemento gerador de todas as transformações da matéria; mas a matéria, por si só, é inerte; ela não possui nem vida nem pensamento, nem sentimento; é preciso sua união com o princípio espiritual. O Espiritismo não descobriu nem inventou este princípio, mas o primeiro a demonstrá-lo pelas provas irrecusáveis; estudou-o, analisou e se rendeu à ação evidente. Ao elemento material veio juntar o elemento espiritual. Elemento material e elemento espiritual, eis os dois princípios das duas forças vivas da natureza. Pela união indissolúvel destes dois elementos explica-se sem dificuldade uma quantidade de fatos até então inexplicáveis.

 

Por sua essência própria e como tendo por objeto o estudo de um desses dois elementos constitutivos do Universo, o Espiritismo toca forçosamente na maioria das ciências; não poderia vir senão depois da elaboração dessas ciências e depois, sobretudo de elas terem provado sua impotência para explicar tudo através somente das leis da matéria. 

 

19. – Acusa-se o Espiritismo de parentesco com a magia e a bruxaria; mas esquecem-se de que a Astronomia tem por ancestral a astrologia judiciária que não está tão afastada de nós; que a Química é filha da Alquimia da qual nenhum homem sensato não ousaria ocupar-se atualmente. Ninguém contesta, entretanto, que exista na Astrologia e Alquimia o germe da verdade de onde saíram as ciências atuais. Malgrado suas fórmulas ridículas, a Alquimia se pôs sobre o caminho dos corpos simples e da lei das afinidades; a Astrologia apoiava-se sobre a posição e o movimento dos astros que havia estudado; mas, na ignorância das verdadeiras leis que regiam o mecanismo do Universo, os astros estavam para o vulgo como seres misteriosos aos quais a superstição prestava uma influência moral e um sentido revelador. Desde que Galileu, Newton, Kepler fizeram-se conhecer estas leis que o telescópio descerrou o véu e aprofundou nas profundezas do espaço um olhar que certas pessoas acharam indiscreto, os planetas nos apareceram como simples mundos semelhantes ao nosso e toda estrutura do maravilhoso se despencou.

 

É o mesmo com o Espiritismo em atenção à magia e à feitiçaria e ao sortilégio; estas se apoiavam também sobre a manifestação dos Espíritos, como a Astrologia sobre o movimento dos astros; mas, na ignorância das leis que regem o mundo espiritual, misturaram, a suas referências, práticas e crenças ridículas, do que o Espiritismo moderno, fruto da experiência e da observação fez justiça. Certamente, a distância que separa o Espiritismo da magia e do sortilégio é maior que a que existe entre a Astronomia e a Astrologia, a Química e a Alquimia; querer confundi-los é provar que não se sabe a primeira palavra. 

 

20. – O simples fato da possibilidade de se comunicar com os seres do mundo espiritual tem consequências incalculáveis da mais alta gravidade; é tudo um mundo novo que se revela a nós e que tem de tão mais importância que atinge todos os homens sem exceção. Este conhecimento não pode faltar de levar em sua generalização, uma modificação profunda dos costumes, o caráter, os hábitos nas crenças que têm uma tão grande influência sobre as referências sociais. É toda uma revolução que se opera nas ideias, revolução de tão maior, de tão mais poderosa, que não se circunscreve a um povo, a uma casta, mas que atende simultaneamente, pelo coração, todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.

 

É, pois, com razão que o Espiritismo é considerado como a terceira grande revelação. Vejamos em que se diferem, e por liame elas se unem umas às outras. 

 

21. – MOISÉS, como profeta, revelou aos homens o conhecimento de um Deus único, soberano, mestre e criador de todas as coisas; promulgou a lei do Sinai e assentou os fundamentos da verdadeira fé; como homem, foi o legislador do povo pelo qual esta fé primitiva, depurando-se, devia um dia se derramar sobre toda a Terra. 

 

22. – CRISTO, tomando da antiga lei o que é eterno e divino, e rejeitando o que era apenas transitório puramente disciplinar e de concepção humana, junta a revelação da vida futura da qual Moisés nada tinha falado, a das penas e recompensas que atendem ao homem após a morte (Ver Revista Espírita, 1861, págs. 90 e 280). 

 

23. – A parte mais importante da revelação do Cristo, em seu sentido de que seja a fonte primeira, a pedra angular de toda sua doutrina, é o ponto de vista totalmente novo sob o qual fez considerar a divindade. Este não é mais o Deus terrível, ciumento, vingativo, de Moisés, o Deus cruel e implacável que rega a terra com o sangue humano, que ordena o massacre e a exterminação de povos, sem excetuar as mulheres, as crianças e os macróbios, que castiga os que poupam as vítimas; não é mais o Deus injusto que pune todo o povo pela falta do seu chefe, que se vinga do culpado sobre a pessoa do inocente, que atinge os filhos pela falta dos seus pais, mas, um Deus clemente, soberanamente justo e bom, cheio de mansuetude e misericórdia, que perdoa o pecador arrependido, e entrega a cada um conforme suas obras; não é mais o Deus de um só povo privilegiado, o Deus dos exércitos presidindo os combates para sustentas sua apropria causa contra o Deus dos outros povos, mas o Pai comum do gênero humano que estende sua proteção sobre todos os seus filhos e os chama todos a Ele; não é mais o Deus que recompensa e pune pelos seus bens da terra, que faz consistir a glória e a felicidade na subjugação dos povos rivais e na multiplicidade da progenitura, mas que diz ao homem: “Vossa verdadeira pátria não está neste mundo, ela está no reino celeste; é lá que os humildes de coração serão elevados e que os orgulhosos serão aviltados”. Não é mais um Deus que faz uma virtude da vingança e ordena de trocar olho por olho, dente por dente, mas o Deus de misericórdia que diz: “Perdoai as ofensas se quereis que as vossas sejam perdoadas; trocai o bem pelo mal; não faças jamais a outro o que não quereis que vos façam”. Não é mais o Deus mesquinho e meticuloso que impõe sob as penas as mais rigorosas, a maneira pela qual queira ser adorado, que se ofende pela inobservância de uma fórmula, mas o Deus grandioso que olha o pensamento e não se honra pela forma; não é mais, enfim, o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado. 

 

24. – Deus sendo o motivo de todas as crenças religiosas, o objetivo de todos os cultos, o caráter de todas as religiões é conforme a ideia que elas dão a Deus. As que o fazem um Deus vingativo e cruel, crendo honrá-lo por atos de crueldade, pelas piras crematórias e as torturas; as que o fazem um Deus parcial e ciumento são intolerantes; elas são mais ou menos meticulosas na forma conforme o que creem mais ou menos maculadas das fraquezas e das baixezas humanas. 

 

25. – Toda a doutrina do Cristo está fundada sobre o caráter que ele atribui à divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, pôde fazer do amor de Deus e da caridade para com o próximo, a condição expressa da salvação, dizendo: “Eis aí toda a lei e os profetas, e não existe outra”. Sobre esta crença, apenas, ele pôde assentar o princípio da igualdade dos homens ante Deus, e da fraternidade universal.

 

Esta revelação dos verdadeiros atributos da divindade, junto à da imortalidade da alma e da vida futura, modificava profundamente as relações mutuas dos homens, impunha-lhe novas obrigações, fazia-lhe encarar a vida presente sob um outro dia; ele devia, por isto mesmo, reagir sobre os costumes e as relações sociais. É incontestavelmente, por suas consequências, o ponto o mais capital da revelação do Cristo e, pois, não tem sido concluída importância; é lamentável de dizer, é também o ponto do qual mais se tem descartado, que mais se olvida na interpretação de seus ensinamentos. 

 

26. – Entretanto, Cristo acrescenta: muitas das coisas que vos digo, ainda não podeis compreender e terei muitas a vos dizer que vós não compreenderíeis; é porque eu vos falo em parábolas; mas, mais tarde eu vos enviarei o Consolador, o Espírito Verdade que restabelecerá todas as coisas e vos explicá-la-á.

 

Se Cristo não disse tudo o que teria podido dizer, é que ele acreditou devesse deixar certas verdades na sombra até que os homens estivessem em estado de compreendê-las. De sua confissão, seu ensinamento era, pois incompleto, já que anunciava a vinda daquele que devia completá-la; previa, pois que se equivocariam sobre suas palavras, que se desviariam de seu ensinamento, em um termo, que se desfaria o que ele fizera, já que todas as coisas devam ser restabelecidas; ora, não se restabelece senão o que esteja desfeito. 

 

27. – Por que lhe chama o novo messias Consolador? Este nome significativo e sem ambiguidade é toda uma revelação. Ele previa, pois, que os homens teriam necessidade de consolação, o que implica a insuficiência do que encontrariam na crença que eles se tinham feito. Jamais talvez Cristo não tenha sido mais claro e mais explícito como nestas últimas palavras, às quais poucas pessoas assimilaram, talvez porque se evitou pô-las ao claro e de lhes aprofundar o sentido profético. 

 

28. – Se Cristo não pôde desenvolver seu ensinamento de uma maneira completa, é que faltava aos homens conhecimentos que não poderiam adquirir senão com o tempo e sem o que não o poderiam compreender; são coisas que teriam parecido falta de senso no estado de conhecimento de então. Completar seu ensinamento deve, pois, se entender no sentido de explicar e de desenvolver, muito mais do que no de lhe ajuntar verdades novas; porque tudo se encontra aí no germe; faltava a chave para compreender o sentido de suas palavras. 

 

29. – Mas, que ousa permitir-se de interpretar as Escrituras Sagradas? Quem tem este direito? Quem possui as luzes necessárias senão os teólogos?

 

Quem o ousa? A ciência de então, que não pede permissão a ninguém para fazer conhecer as leis da natureza, e salta de pés juntos sobre os erros e os preconceitos. – Quem tem esse direito? Neste século de emancipação intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a todo mundo e as Escrituras não são mais a arca santa na qual ninguém ousava tocar o dedo sem se arriscar de ser fulminado. Quanto às luzes especiais necessárias, sem contestar as dos teólogos, e todo esclarecido que fossem os da idade média, e, em particular, os Pais da Igreja, eles não estavam, entretanto, absolutamente ainda preparados para não condenar como heresia, o movimento da terra e da crença nos antípodas; e sem remontar tão alto, os de nossos dias, não lançaram eles o anátema aos períodos da formação da Terra?

 

Os homens não puderam explicar as Escrituras sem o auxílio do que sabiam, noções falsas ou incompletas que tinham sobre as leis da natureza, mais tarde reveladas pela Ciência; eis porque os teólogos, eles próprios, puderam, de muito boa fé, equivocar-se sobre o sentido de certas palavras e de certos fatos do Evangelho. Querendo, a todo custo aí encontrar a confirmação de um pensamento preconcebido, eles tornavam sempre ao mesmo círculo, sem deixar seu ponto de vista de tal sorte que só viam o que queriam ver aí. Por mais sábios que fossem os teólogos, eles não podiam compreender as causas dependentes das leis que eles não conheciam.

 

Mas quem será juiz das interpretações diversas e frequentemente contraditórias, dadas fora da Teologia? – O futuro, a lógica e o bom senso. Os homens, mais e mais esclarecidos, à medida que novos fatos e novas leis venham se revelar, saberão fazer o aparte dos sistemas utópicos e da realidade; ora, a Ciência faz conhecer certas leis; o Espiritismo o faz conhecer outras; umas e outras são indispensáveis à inteligência dos textos sagrados e todas as religiões, desde Buda e Confúcio até o Cristianismo. Quanto à Teologia, ela não estará judiciosamente extirpada das contradições da Ciência, já que ela nem sempre está de acordo consigo mesma.

 

30. – O ESPIRITISMO, tomando seu ponto de partida nas próprias palavras do Cristo, como Cristo tomou o seu em Moisés, é uma consequência direta de sua doutrina.

 

A ideia vaga da vida futura junta a revelação da existência do mundo invisível que nos envolve e povoa o espaço, e, para tanto, precisa da crença; dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade no pensamento.

 

Define os laços unem a alma e o corpo e eleva o véu que tapava dos homens os mistérios do nascimento e da morte.

 

Pelo Espiritismo, o homem sabe de onde vem, para onde vai, porque está sobre a Terra, porque sofre temporariamente e ele vê em tudo a justiça de Deus.

 

Sabe que a alma progride sem cessar através de uma série de existências sucessivas, até a que atinja o degrau da perfeição que pode aproximá-la de Deus.

 

Sabe que todas as almas, tendo um mesmo ponto de partida, são criadas iguais, com uma mesma aptidão ao progresso em virtude de seu livre arbítrio; que todas são da mesma essência, e que não há entre elas senão a diferença do progresso atingido; que todas têm o mesmo destino e atingirão o mesmo fim, mais ou menos prontamente conforme seus trabalhos e sua boa vontade.

 

Sabe que não há nenhuma criatura deserdada, nem mais favorecidas umas que as outras, que Deus não as criou jamais, que seja, privilegiadas e dispensadas do trabalho imposto às outras para progredir; que não há nenhum ser perpetuamente voltado ao mal e ao sofrimento; que os designados sob o nome demônios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos que fazem o mal ao estado de Espírito, como o faziam na condição de homens, mas que avançarão e melhorarão; que anjos ou Espíritos puros não são seres à parte na criação, mas Espíritos que atingiram a meta, após terem seguido a fileira do progresso; que assim, não há criações múltiplas de diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas que toda a criação sai da grande lei de unidade que rege o universo e que todos os seres gravitam para um alvo comum, que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos em detrimento de outros, todos sendo a consequência de suas obras. 

 

31. – Pelos relatórios que o homem pode atualmente estabelecer com os que deixaram a Terra, tem, não apenas, a prova material da existência e da individualidade da alma, mas compreende a solidariedade que religa os vivos e os mortos deste mundo e os deste mundo com os de outros mundos. Ele conhece sua situação no mundo dos Espíritos; segue-os em suas migrações; ele é testemunha de suas alegrias e de suas aflições; sabe por que são felizes ou desgraçados, e a sorte que lhe esteja reservada de acordo com o bem e o mal que tenha feito. Estas relações o iniciam à vida futura que ele pode observar em todas suas fases, em todas suas peripécias; o porvir não é mais uma vaga esperança: é um fato positivo, uma certeza matemática. Então, a morte nada mais tem de assustador, porque é para ele, a libertação, a porta da verdadeira vida. 

 

32. – Pelo estudo da situação dos Espíritos, o homem sabe que a felicidade e a desgraça na vida espiritual são inerentes ao grau de perfeição e de imperfeição; que cada um suporta as consequências diretas e naturais de suas faltas, dito de outro modo, que ele é punido por onde ele tenha pecado; que suas consequências ficam também durante o período correspondente à causa que as tenha produzido; que, assim, o culpado sofrerá eternamente, se ele persistir eternamente no mal, mas que o sofrimento cessa com o arrependimento e a reparação; ora, como depende de cada um aperfeiçoar-se, cada qual pode, em virtude de seu livre arbítrio, prolongar ou abreviar seus sofrimentos, como o doente sofre de seus excessos também duradouros ao qual não ponha termo. 

 

33. – Se a razão repulsa, como incompatível com a bondade de Deus, a ideia das penas irremissíveis, perpétuas e absolutas frequentemente infringidas por uma só falta; suplícios do inferno que não podem atenuar o arrependimento, o mais ardente e o mais sincero, ela se inclina diante desta justiça distributiva e imparcial, que tem em conta de tudo, nunca fecha a porta de retorno e estende sem cessar a mão ao náufrago em lugar de lhe empurrar para o abismo. 

 

34. – A pluralidade das existências, da qual Cristo colocou o princípio no Evangelho, mas sem mais o definir como a muitos outros, é uma das leis das mais importantes reveladas pelo Espiritismo, no sentido de que demonstras a realidade e a necessidade para o progresso. Por esta lei o homem explica a si todas as anomalias aparentes que mostra a vida humana; suas diferenças de posição social, as mortes prematuras que, sem a reencarnação, tornariam inúteis para a alma as vidas abreviadas; a desigualdade das aptidões intelectuais e morais, pela antiguidade do Espírito que mais ou menos venceu, mais ou menos aprendeu e progrediu e que traz renascendo, as aquisições de suas existências anteriores (N° 5). 

 

35. – Com a doutrina da criação da alma a cada nascimento, recai-se no sistema das criações privilegiadas; os homens são estranhos uns aos outros, nada os religa, os laços de família são puramente carnais; não são absolutamente solidários de um passado onde eles não existiam; com esta do nada depois da morte, toda referência cessa com a vida; não são absolutamente solidários no futuro. Pela reencarnação, eles são solidários do passado e no futuro, suas relações se perpetuam no mundo espiritual e no mundo corporal, a fraternidade tem por base as próprias leis da natureza; o bem tem um objetivo, o mal, suas consequências inevitáveis. 

 

36. – Com a reencarnação caem os preconceitos de raça e de casta, já que o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, grande senhor ou proletário, mestre ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravatura, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, não existe nenhum que prime em lógica o fato material da reencarnação. Se, pois, a reencarnação se funda sobre uma lei da natureza, o princípio da fraternidade universal, ela se fundamenta na mesma lei a da igualdade dos direitos sociais, e, por resultado, o da liberdade.

 

Os homens só nascem inferiores e subordinados na matéria; pelo Espírito eles são iguais e livres. Daí, o dever de tratar os inferiores com bondade, benevolência e humanidade, porque, aquele que é nosso subordinado hoje, pode ter sido nosso igual ou nosso superior, talvez um parente ou um amigo, e que podemos voltar a nosso turno, subordinados a aqueles que comandamos. 

 

37. – Despojai do homem o Espírito livre, independente, sobrevivendo à matéria, fareis dele uma máquina organizada, sem meta, sem responsabilidade, sem outro freio senão a lei civil, e boa a especular como um animal inteligente. Nada esperando após a morte, nada lhe impede de aumentar os prazeres do presente; se ele sofre, não tem em perspectiva senão o desespero e o nada por refúgio. Com a certeza do futuro, de reencontrar os que amou, o temor de rever aqueles que tenha ofendido, todas as suas ideias mudam. O Espiritismo não tenha feito senão tirar o homem da dúvida, tocando a vida futura, teria feito mais pelo seu aperfeiçoamento moral que todas as leis disciplinares que o brindam algumas vezes, mas não o modificam. 

 

38. – Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não é somente inconciliável com a justiça de Deus que tornaria todos os homens responsáveis da falta de um só, seria uma falta de senso e, desta forma menos justificável já que a alma não existia à época em que se pretende fazer remontar sua responsabilidade. Com a preexistência e a reencarnação, o homem traz em renascendo, o germe de suas imperfeições passadas e defeitos dos quais não se corrigiu e que se traduzem pelos seus instintos nativos, suas propensões a tal ou qual vício. Eis aí seu verdadeiro pecado original, do qual ele sofre naturalmente todas as consequências; mas com esta diferença capital, que ele leva a pena de suas próprias faltas e não a da falta de um outro; e esta outra diferença, por sua vez, consoladora, encorajante, e soberanamente equitativa que cada existência lhe oferece os meios de se resgatar pela reparação, e de progredir, quer em se despojando de qualquer imperfeição, quer em adquirindo novos conhecimentos e isto até que esteja suficientemente purificado, ele não tenha mais necessidade da vida corporal, e possa viver exclusivamente da vida espiritual, eterna e afortunada.

 

Pela mesma razão, aquele que progrediu moralmente, traz, em renascendo, qualidades natas, como o que tenha progredido intelectualmente traz ideias inatas; ele está identificado com o bem; pratica-o sem esforço, sem cálculo e por assim dizer sem nisso pensar. O que é obrigado a combater suas más tendências está, ainda, em luta; o primeiro já a venceu, o segundo está em trilha de vencer. Há, pois, virtude original, como há saber original, e pecado, ou melhor, vício original

 

39. – O Espiritismo experimental estudou as propriedades dos fluidos espirituais (a) e sua ação sobre a matéria. Demonstrou a existência do perispírito, suposto desde a antiguidade, e designado por São Paulo sob o nome de Corpo Espiritual, ou seja, corpo fluídico da alma após a destruição do corpo tangível. Sabemos atualmente que este envoltório é inseparável da alma; que é um dos elementos constitutivos do ser humano; que é o veículo de transmissão do pensamento e que, de acordo com a vida do corpo, serve de liame entre o Espírito e a matéria. O perispírito realiza um papel tão importante no organismo e em grande quantidade de afecções, que se liga tanto à fisiologia quanto à psicologia.

 

40. – O estudo das propriedades do perispírito, dos fluidos espirituais e dos atributos fisiológicos da alma, abre novos horizontes à Ciência e dá a chave de um bando de fenômenos incompreendidos justamente pela falta de conhecimento da lei que os rege; fenômenos negados pelo materialismo, porque se referem à espiritualidade, qualificados por outros de milagres e sortilégios, conforme as crenças. Tais são, entre outros, o fenômeno da dupla visão, da visão à distância, do sonambulismo natural e artificial, dos efeitos psíquicos da catalepsia e da letargia, da presciência, dos pressentimentos, das aparições, das transfigurações, da transmissão do pensamento, da fascinação, das curas instantâneas, das obsessões e possessões, etc. Em demonstrando que estes fenômenos repousam também em leis naturais como os fenômenos elétricos e as condições normais nos quais podem se reproduzir, o Espiritismo destrói o império do maravilhoso e do sobrenatural, e, por conseguinte, a fonte da maior parte das superstições. Si faz crer na possibilidade de certas coisas olhadas por alguns como quiméricas, ele impede de crer em muitas outras em que demonstra a impossibilidade e a irracionalidade. 

 

41. – O Espiritismo, bem longe de negar ou de destruir o Evangelho, vem ao contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da natureza que revela, tudo o que disse e fez o Cristo; leva a luz sobre os pontos obscuros de seu ensinamento, de tal sorte que para aqueles para os quais certas partes do Evangelho eram ininteligíveis, ou pareciam inadmissíveis, compreendem-nas sem sacrifício com a ajuda do Espiritismo e as admitem; veem melhor o alcance e podem separar a parte da realidade e da alegoria; Cristo lhes parece maior: este não é mais simplesmente um filósofo, é um Messias divino. 

 

42 – Si se considera, de outra forma, o poder moralizador do Espiritismo pela meta que ele assinala a todas as ações da vida, por consequências do bem e do mal que faz tocar seu dedo; a força moral, a coragem, as consolações que dá nas aflições por uma inalterável confiança no porvir, pela imaginação de ter perto de si os seres que tenha amado, a segurança de os rever, a possibilidade de se entreter com eles, enfim, pela certeza que, de tudo que se faça, de tudo que se adquira em inteligência, em ciência, em moralidade, até a última hora da vida, nada se perde, que tudo se aproveita ao adiantamento, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo à atenção do Consolador anunciado. Ou, como é o Espírito Verdade que preside o grande movimento da regeneração, a promessa de sua vinda encontra-se de fato realizada, porque, pelo feito, é ele que é o verdadeiro Consolador (1). 

 

43. – Se a estes resultados ajuntar-se a rapidez inusitada da propagação do Espiritismo, apesar de tudo o que se tem feito para abatê-lo, não se pode desconvir que sua vinda não seja providencial, já que ele triunfa contra todas as forças e má vontade humanas. A facilidade com a qual é aceito por um tão grande número, e isto sem contratempo, sem outros meios além do poder da ideia, prova que ele responde a uma necessidade: a de crer em alguma coisa, após a vida gravada pela incredulidade e que, por consequência, veio a seu tempo. 

 

44. – Os aflitos são em grande número, não é, pois, surpreendente que tantas pessoas acolham uma doutrina que consola de preferência àqueles que se desesperam; porque é aos deserdados, mais que aos felizardos do mundo, que se endereça o Espiritismo. O doente vê vir o médico com mais satisfação que o que se porta bem; ora, os aflitos estão doentes e o Consolador é o médico.

 

Vós, que combateis o Espiritismo, se quereis que o deixemos para vos seguirdes, dai-nos mais e melhor que ele; combatei mais seguramente as feridas da alma. Daí, pois mais consolo, mais satisfação ao coração, esperanças mais legítimas, certezas maiores; fazem do porvir um quadro mais racional, mais sedutor; mas, não penseis dominá-lo, vós, com a perspectiva do nada, vós, com a alternativa das flamas do inferno ou da beatitude e inútil contemplação perpétua. 

 

45. – A primeira revelação foi personificada em Moisés, a segunda em Cristo, a terceira não o é em nenhum indivíduo. As duas primeiras são individuais, a terceira é coletiva; eis aí um caráter essencial de grande importância. Ela é coletiva neste sentido de que não tenha sido feita por privilégio de ninguém; que ninguém, por consequência, possa se dizer o profeta exclusivo. Ela tem sido feita simultaneamente sobre toda a Terra, para dez milhões de pessoas, de todas as idades, de todos os tempos e de todas as condições, desde o mais inferior até o mais elevado da escala, conforme esta predição referida pelo autor dos Atos dos apóstolos: “Nos últimos tempos, disse o Senhor, verterei de meu Espírito sobre toda carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossas jovens pessoas terão visões e vossos anciãos terão sonhos”. Não saiu de nenhum culto especial, a fim de servir, um dia a todos, de ponto de referência. (2) 

 

46. – As duas primeiras revelações, sendo o produto de um ensinamento pessoal, estão forçosamente localizadas, isto é, que elas tiveram lugar sobre um só ponto, em torno do qual a ideia se expandiu de perto em perto; mas, foi preciso muitos séculos para que atingissem a extremidade do mundo, sem invadi-lo por inteiro. A terceira tem isso de particular, que, não estando personificado em um indivíduo, ela se produziu simultaneamente sobre milhares de pontos distintos, que todos estão se tornando em centros ou focos de radiação. Estes centros se multiplicando, seus raios tornam-se a juntar pouco a pouco, como os círculos formados por uma porção de pedras lançadas na água; de tal sorte, em dado tempo, acabarão por cobrir a superfície inteira do globo.

 

Tal é uma das causas da rápida propagação da doutrina. Se ela houvesse surgido em um só ponto, se fosse obra exclusiva de um só homem, formaria seita em torno dele; mas um meio século seria talvez decorrido antes que houvesse atingido os limites do país onde tivesse tomado nascimento, tanto que após dez anos, ela tem estacas plantadas de um polo a outro. 

 

47. – Esta circunstância inusitada na história das doutrinas, dá-lhe uma força excepcional e um poder de ação irresistível; de fato, se a comprimirem sobre um ponto, em um país, é materialmente impossível comprimir sobre todos os pontos, em todos os países. Por um lugar em que seja entravada, haverá mil lugares onde florirá. E mais, se a atentarem num indivíduo, não poderão atingi-la nos Espíritos, que lhe são a fonte. Ora, como os Espíritos estão em toda parte e que os haverá eternamente, si, por impossível, se os conseguisse sufocar por todo globo, ela reapareceria a qualquer momento após, porque repousa sobre um fato, que este fato está na natureza, e que não se pode suprimir as leis da natureza. Eis isto, pois devem se persuadir os que sonham com o assentimento do Espiritismo (Revista. Espírita, Fev. 1865, p. 38: Perpetuidade do Espiritismo). 

 

48. – Entretanto, estes centros disseminados poderiam permanecer ainda por longo tempo isolados uns dos outros, confinados como estão alguns em países distantes. Era preciso entre eles um traço de união que os colocasse em comunicação de pensamento com seus irmãos em crença, ensinando o que se fizesse alhures. Este traço de união, que teria faltado ao Espiritismo na antiguidade, encontra-se na publicação que vão por toda parte, que condensam, sob uma forma única, concisa e metódica, o ensinamento dado em toda parte sob formas múltiplas e em línguas diversas. 

 

49. – As duas primeiras revelações só poderiam ser o resultado de um ensinamento direto; elas deviam se impor por sua vez, pela autoridade da palavra do mestre, não estando os homens assaz avançados para concorrer em sua elaboração.

 

Observemos, todavia, entre elas um matiz bem sensível que apresenta no progresso dos costumes e das ideias, se bem que tinham sido feitas entre o mesmo povo no mesmo meio, mas após dezoito séculos de intervalo. A doutrina de Moisés é absoluta, despótica, não admite discussão e se impõe a todos pela força. A de Jesus é essencialmente Conselheira; é livremente aceita e só se impõe pela persuasão; é controversa de vivência ainda, de seu fundador, que não desdenhava discutir com seus adversários. 

 

50. – A terceira revelação, vinda em uma época de emancipação e de maturidade intelectual, onde a inteligência desenvolvida não pode se resumir a um papel passivo, onde o homem não aceita nada às cegas, mas quer ver onde se lhe conduza, saber o porque e o quê de cada coisa, devia ser, por sua vez, o produto de um ensinamento e o fruto do trabalho da busca e do livre exame. Os Espíritos ensinam justamente o que é necessário para colocar sobre a estrada a verdade, mas abstêm-se de revelar o que o homem pode encontrar por si próprio, deixando-lhe a atenção de discutir, de controlar, e de submeter tudo ao cadinho da razão, deixando-o mesmo frequentemente adquirir experiência às suas expensas. Dão-lhe o princípio, os materiais, para que ele tire proveito e se ponha em obra (n° 15). 

 

51. – Os elementos da revelação espírita tendo sido dados simultaneamente a uma variedade de pontos, a homens de todas as condições sociais e de diversos graus de instrução, fica bem evidente que as observações não podiam ser feitas por toda parte com o mesmo fruto; que as consequências a tirar, a dedução das leis que regem esta ordem de fenômenos, numa palavra, a conclusão que devia assentar as ideias, só podiam sair do conjunto e da correlação dos fatos. Ora, cada centro isolado circunscrito em um círculo restrito, vendo apenas, no mais frequente, uma ordem particular de fatos, por vezes de aparência contraditória, só tendo geralmente relação com uma só categoria de Espíritos e, no mais, entravado pelas influências locais e Espíritos partidaristas, encontrava-se na impossibilidade material de abranger o conjunto e, por isso mesmo, incapaz de reunir as observações isoladas a um princípio comum. Cada qual apreciando os fatos sob o ponto de vista de seus conhecimentos e de suas crenças anteriores, ou da opinião particular dos Espíritos que se manifestam, havia tido logo tantas teorias e sistemas quanto centros e, do que alguns não poderiam ser completos por falta de comparação e de controle. Em uma palavra, cada qual estaria imobilizado em sua revelação parcial, crendo possuir toda verdade, falta de saber que, em cem outros endereços obtinha-se mais e melhor. 

 

52. – É de notar, além disso, que em nenhuma parte o ensinamento espírita não tem sido dado de maneira completa; toca a um tão grande número de observações, a causas tão diversas que exigem, tanto, conhecimentos como aptidões mediúnicas especiais, que seria impossível reunir sobre um mesmo ponto todas as condições necessárias. O ensinamento, devendo ser coletivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho disseminando o assunto de estudo e de observação, como em certas fábricas, a confecção de cada parte de um mesmo objeto é repartida por diversos obreiros.

 

A revelação assim se faz parcialmente, em diversos lugares e por uma multidão de intermediários e é desta maneira que ela se propaga ainda neste momento, já que nem tudo está revelado. Cada centro encontra, em outros centros, o complemento do que se obtém, e é o conjunto, a coordenação de todos os ensinamentos parciais que têm constituído a Doutrina Espírita.

 

Era, pois, necessário grupar os fatos esparsos para ver sua correlação, reunir os documentos diversos, as instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos e sobre todos os assuntos, a fim de compará-los, analisá-los, em estudar as analogias e as diferenças. As comunicações, sendo dadas pelos Espíritos de toda ordem, mais ou menos esclarecidos, seria necessário apreciar os graus de confiança que a razão permitisse de admitir, distinguir as ideias sistemáticas individuais e isoladas dos que tivessem a sanção do ensinamento geral dos Espíritos, as utopias das ideias práticas; eliminar as que sejam notoriamente desmentidas pelos dados da ciência positiva e a sadia lógica; utilizar os erros, até, reensinamentos fornecidos pelos Espíritos, mesmo do mais baixo estágio, para o conhecimento do estado do mundo invisível, para formar um todo homogêneo. Seria preciso, numa palavra, um centro de elaboração, independente de toda ideia preconcebida, de todo prejulgamento de sectarismo, resolvido em aceitar a verdade tornada evidente, devendo ela ser contrária a suas opiniões pessoais. Este centro é formado dele mesmo, pela força das coisas e sem plano premeditado. (3). 

 

Esta concentração espontânea das forças esparsas deu lugar a uma correspondência imensa, monumento único ao mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno onde se refletem, por sua vez, os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que fizeram nascer a doutrina, os resultados morais, os devotamentos e desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade que poderá julgar os homens e as coisas sobre peças autênticas. Em presença destes depoimentos irrecusáveis em que se tornariam na sequência, todas as falsas alegações, as difamações da inveja e do ciúme? 

 

53. – Deste estado de coisas resultou uma dupla corrente de ideias: umas, indo das extremidades para o centro, outras retornando do centro à circunferência. É assim que a doutrina marchou prontamente sobre a unidade, malograda a diversidade das fontes de onde foi emanada; que os sistemas divergentes estão gradativamente caindo, pelo fato do seu isolamento, ante a ascendência de opiniões da maioria, falta de aí encontrar ecos simpáticos. Uma comunhão de pensamentos, desde então, estabeleceu-se entre os diferentes centros parciais; falando a mesma língua espiritual, eles se compreendem e simpatizam-se duma extremidade do mundo à outra.

 

Os Espíritas encontraram-se mais fortes, lutaram com mais coragem, marcharam com um passo mais resoluto, já que não são mais vistos isoladamente, quando sentiram um ponto de apoio, um ligamento que os prendia à grande família; os fenômenos dos quais eram testemunhos, não mais lhe pareciam estranhos, anormais, contraditórios, quando puderam amarrá-los às leis gerais da harmonia, abraçando, num golpe de olhos à edificação, e ver a todo este conjunto um alvo grande e humanitário. (4)

 

Mas, como saber se um princípio é ensinado por toda parte, ou se é o resultado de uma opinião individual? Os grupos isolados, não sendo capazes de saber o que se diz alhures, tornava-se necessário que um centro reunisse todas as instruções para fazer uma sorte de depuramento das vozes e levar ao conhecimento de toda opinião da maioria. (5) 

 

54. – Não é nenhuma ciência que esteja saída em todas as peças do cérebro de um homem; todas, sem exceção, são o produto de observações sucessivas apoiando-se sobre as observações precedentes, como sobre um ponto conhecido para chegar ao desconhecido. É assim que os Espíritos procederam com o Espiritismo; é porque seu ensinamento é gradual; só abordam questões à medida que os princípios sobre os quais elas devam se apoiar estejam suficientemente elaborados e que a opinião esteja madura para se lhes assimilar. É mesmo considerável que todas as vezes que os centros particulares tenham querido abordar questões prematuras, só obtiveram respostas contraditórias não concludentes. Quando, ao contrário, o momento favorável é vindo, o ensinamento é idêntico sobre toda a linha em quase toda universalidade dos centros.

 

Há, entretanto, entre a marcha do Espiritismo e a das ciências uma diferença capital, que é a de que estas não atingiram o ponto aonde elas chegaram senão depois de longos intervalos, enquanto que foram suficientes poucos anos ao Espiritismo, senão para atender ao ponto culminante, ao menos, para recolher uma soma de observações assaz enorme para constituir uma doutrina. Fora isto, obtém-se pela multidão inumerável de Espíritos que, pela vontade de Deus, manifestaram-se simultaneamente, anunciando cada um o contingente de seus conhecimentos. Resultou disso que todas as partes da doutrina, em lugar de serem elaboradas sucessivamente durante vários séculos, têm-nas sido mais ou menos simultâneas em alguns anos, e que foi suficiente para grupá-las formando um todo.

 

Deus quis que o fosse assim, a princípio para que o edifício chegasse mais prontamente à feitura; em segundo lugar, para que se pudesse, pela comparação, ter um controle por assim dizer, imediato e permanente na universalidade do ensino, cada parte só tendo de valor e autoridade para sua conexão com o conjunto, todas devendo harmonizar-se, encontrar seu lugar no compartimento geral, e encontrar cada um a seu tempo.

 

Não o confiando a um só Espírito a atenção da promulgação da doutrina, Deus quis de outra forma que o menor como maior, entre os Espíritos como entre os homens, levasse sua pedra ao edifício, a fim de estabelecer entre eles um lugar de solidariedade cooperativa que tem faltado a todas as doutrinas saídas de uma fonte única.

 

Por outro lado, cada Espírito, do mesmo modo que cada homem, só tendo uma soma limitada de conhecimentos, individualmente eles estariam inabilitados de tratar ex professo das inumeráveis questões às quais toca o Espiritismo; eis igualmente a doutrina por satisfazer as vontades do Criador, não poderia ser a obra nem de um só Espírito, nem de um só médium; só poderia sair da coletividade dos trabalhos controlados uns pelos outros. (6) 

 

55. – Um último caráter da revelação espírita, e que ressalta das condições próprias nas quais é feita, é que, apoiando-se sobre os fatos, ela é e só pode ser essencialmente progressiva como todas as ciências de observação. Por sua essência, ela contrai aliança com a ciência que, expondo as leis da natureza em uma certa ordem de fatos, não pode ser contrário à vontade de Deus, o autor destas leis. As descobertas da ciência glorificam Deus em lugar de rebaixá-Lo; elas só destroem o que os homens tenham baseados sobre ideias falsas que fizeram de Deus.

 

O Espiritismo não se assenta, pois em princípio absoluto senão no que seja demonstrado com evidência, ou o que ressaia logicamente da observação. Tocando em todos os ramos da economia social, ao qual presta o apoio de suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, que qualquer natureza que sejam, chegadas ao estado de verdades práticas, e saídas do domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria; cessando de ser o que é mentiria à sua origem e sua meta providencial. O Espiritismo, marchando com o progresso, não será nunca extravasado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro sobre um ponto ele se reformulará sobre este ponto; se uma nova verdade se revela, ela a aceita. (7)

 

56. – Qual é a utilidade da doutrina moral dos Espíritos, já que ela não é outra coisa mais do que a do Cristo? O Homem, tem ele necessidade de uma revelação, e não pode encontrar nele mesmo tudo o que lhe seja necessário para se conduzir?

 

No ponto de vista moral, Deus tem, sem dúvida dado ao homem um guia em sua consciência que lhe diz: “não faças a outrem o que tu não quiseres que te lhe faça”. A moral natural é certamente inscrita no coração dos homens, mas todos eles sabem-nas ler? Não têm eles sempre menosprezado estes sábios preceitos? Que fizeram da moral do Cristo? Como a praticam estes mesmos que a ensinam? Não está ela tornada uma letra morta, uma bela teoria, boa para os outros e não para si? Censurai-vos a um pai de repetir dez vezes, cem vezes a mesma instrução a seus filhos se eles não nas aproveitam? Por que Deus faria menos que um pai de família? Por que não enviaria Ele, de tempos em quando, entre os homens, mensageiros especiais encarregados de os chamar a seus deveres e de os remeter pelo bom caminho quando eles se desviam? De abrir-lhe os olhos da inteligência àqueles que o tenham fechado como os homens, os mais avançados enviam missionários aos selvagens e aos bárbaros?

 

Os Espíritos não ensinam outra moral senão a do Cristo, pela razão de que não o há melhor. Mas, então, a quem é bom seu ensinamento, já que dizem apenas o que já sabemos? Poderia se dizer igualmente da moral do Cristo que foi ensinada há quinhentos anos antes dele por Sócrates e Platão e em termos quase idênticos; de todos os moralistas que repetem a mesma coisa, sobretudo os tons e sob todas as formas. Pois bem! Os Espíritos vêm tão simplesmente aumentar o número dos moralistas, com a diferente de que se manifestando por toda parte, eles se fazem entender tanto na cabana como também no palácio, pelos ignorantes como pessoas instruídas.

 

O que o ensinamento dos Espíritos ajunta à moral do Cristo é o conhecimento dos princípios que reatam os mortos e os vivos, que completam as noções vagas que tinham dado da alma, de seu passado e de seu porvir, e que dão por sanção à sua doutrina as próprias leis da natureza. Com o auxílio das novas luzes trazidas pelo Espiritismo e os Espíritos, o homem compreende a solidariedade que une todos os seres; a caridade e a fraternidade tornam-se uma necessidade social; ele faz por convicção o que só fazia por dever e o faz melhor.

 

Logo que os homens praticarem a moral do Cristo, então, somente poderão dizer que não têm mais necessidade de moralistas encarnados ou desencarnados; mas, nesse caso, também Deus não mais os enviará.

 

57. – Uma das questões das mais importantes entre as que estão colocadas no frontispício deste capítulo é esta: Qual a autoridade da revelação espírita, já que emana de seres cujas luzes são limitadas e que não são infalíveis?

 

A objeção seria levada a sério se esta revelação só consistisse nos ensinamentos dos Espíritos; se a devêssemos ter exclusivamente deles e aceitar de olhos fechados; ela se torna sem valor desde o instante que o homem a ela leva o concurso de sua inteligência e de seu julgamento; que os Espíritos se limitam a colocar sobre a via de deduções que podem tirar de observações dos fatos. Ora, as manifestações e suas inumeráveis variedades são fatos; o homem as estuda e procura-lhes a lei; é ajudado neste trabalho pelos Espíritos de todas as ordens que são na maior parte das vezes colaboradores do que mesmo reveladores no sentido usual do termo; ele submete seus ditos ao controle da lógica e do bom senso; desta maneira ele se beneficia de conhecimentos especiais que devem à sua posição, sem abdicar do uso de sua própria razão.

 

Os espíritos não sendo outros senão as almas dos homens, em se comunicando conosco, nós não escapamos de ser a humanidade, circunstância capital a se considerar. Os homens de gênio que têm sido as bandeiras da humanidade são, pois, saídos do mundo dos Espíritos, como eles aí são reentrantes em deixando a Terra. Desde então que os Espíritos possam se comunicar com os homens, estes mesmos gênios podem lhe dar instruções sob a forma espiritual, como o fazem sob a forma corpórea; podem nos instruir após sua morte, como eles o faziam durante sua vivência; eles são invisíveis em vez serem visíveis, eis aí toda a diferença. Sua experiência e seu saber não devem ser menores e sua palavra, como homem, tinha autoridade, ela não o deve ter menos porque eles estejam no mundo dos Espíritos. 

 

58. – Mas, não o são somente os Espíritos superiores que se manifestam, são também os Espíritos de todas as ordens e isto era necessário para nos iniciar no verdadeiro caráter do mundo espiritual, em nos mostrando sob todas as suas faces; por aí, as relações entre o mundo visível e o mundo invisível estão mais íntimas, a conexão é mais evidente; vemos mais claramente de onde nós viemos e para onde vamos; tal é o objetivo essencial destas manifestações. Todos os Espíritos em qualquer grau que estejam chegado nos ensinam, pois, alguma coisa; mas, como eles são mais ou menos esclarecidos, está em nós discernir o que haja neles de bom ou de mau, e de tirar o proveito que caiba em seus ensinamentos; ora, todos, quaisquer que sejam, podem nos ensinar ou nos revelar coisas que ignoramos e que sem eles não saberíamos. 

 

59. Os grandes Espíritos encarnados são individualidades poderosas, sem contradições, mas, cuja ação é restrita e necessariamente lenta a se propagar. Que apenas um dentre eles, seja Elias ou Moisés, Sócrates ou Platão, quer vindo nestes últimos tempos revelar aos homens o estado do mundo espiritual, quem teria provado a verdade de suas assertivas, nestes tempos de cepticismo? Não teria ele sido visto como um sonhador ou um utopista? E em admitindo-o que fosse em verdade absoluta, séculos se escoassem antes que suas ideias fossem aceitas pela massa. Deus, em sua sabedoria, não quis que o fosse assim; quis que o ensinamento fosse dado pelos próprios Espíritos, e não pelos encarnados, a fim de convencê-los de sua existência, e que tivesse lugar simultaneamente por toda a Terra, quer para se propagar mais rapidamente, quer para que se encontrasse na coincidência de ensino uma prova da verdade, cada qual tendo assim os meios de se convencer por si próprios. 

 

60. – Os Espíritos não vieram isentar o homem do trabalho, do estudo e das pesquisas; eles não lhe ocasionam nenhuma ciência completamente feita; sobre o que ele próprio possa encontrar, eles o deixam a suas próprias forças; é o que sabem perfeitamente, hoje, os espíritas. Após longo tempo, a experiência tem demonstrado o erro de opinião que atribuía aos Espíritos todo saber e todo conhecimento, e que era suficiente de se dirigir ao primeiro Espírito vindo para conhecer todas as coisas. Saídos da humanidade, os Espíritos o são uma das faces; como sobre a Terra, nada tem de superiores e de vulgares; muitos, o sabendo, pois cientificamente e filosoficamente menos que certos homens; eles dizem o que sabem, nem mais, nem menos; como entre os homens, os mais adiantados podem nos ensinar sobre mais coisas, dar-nos opiniões mais judiciosas que os atrasados. Pedir conselhos aos Espíritos, não é, pois dedicar a poderes sobrenaturais, mas a seus pares, aos próprios a quem se tenham endereçado em sua vida, a seus parentes, a seus amigos ou a indivíduos mais esclarecidos que nós. Eis, pois, o que importe de se persuadir e o que ignorar os que não tenham estudado o Espiritismo, fazem uma ideia completamente falsa sobre a natureza do mundo dos Espíritos e das relações de além-túmulo. 

 

61. – Qual é, pois, a utilidade destas manifestações, ou, se o quisermos, desta revelação, se os Espíritos não o sabem mais que nós, ou se eles não nos dizem tudo o que sabem?

 

A princípio, como dissemos, eles se abstêm de nos dar o que possamos adquirir pelo trabalho; em segundo lugar, há coisas que não lhes é permitido revelar, porque nosso grau de adiantamento não o comporta. Mas eis à parte, as condições de sua nova existência estendem o círculo de suas percepções; Veem o que viam sobre a terra; libertos dos entraves da matéria, deliberados dos cuidados da vida corpórea, julgam as coisas de um ponto mais elevado e por isso mesmo, mais sadiamente; sua perspicácia abrange um horizonte mais vasto; compreendem seus erros, retificam suas ideias e se desembaraçam das presunções humanas.

 

É nisso que consiste a superioridade dos Espíritos sobre a humanidade corpórea, e que seus conselhos podem estar tendo atenção a seu grau de progresso, mais judicioso e mais desinteressado que o dos encarnados. O meio no qual se encontram lhes permite, além disso, de nos iniciarmos nas coisas da vida futura que ignoramos e que não podemos alcançar de onde estamos. Até este dia, o homem só tinha criado hipóteses sobre seu porvir; eis porque suas crenças sobre este ponto têm estado repartidas em sistemas tão numerosos e tão divergentes, desde o negativismo até as fantásticas descrições do inferno e do paraíso. Atualmente, são as testemunhas oculares, os atores mesmo da vida de além-túmulo que vêm nos dizer o que ela seja, e que apenas, poderiam fazer. Estas manifestações têm, pois, servido para nos fazer conhecer o mundo invisível que nos envolve, e que não supúnhamos; e este conhecimento apenas será de uma importância capital, supondo que os Espíritos fossem incapazes de nada nos ensinar a mais.

 

Se você for num país novo para você, rejeitaria os ensinamentos do mais humilde camponês que encontrasse? Recusaria indagar sobre o estado da rota porque ele é apenas um camponês? Você não esperaria certamente, dele, esclarecimentos de uma alta envergadura, mas, tal como seja, e em sua esfera, ele poderá, sobre certos pontos, passar-lhe meios que não o faria um sábio o qual não conheça o país. Você tirará de suas indicações consequências que ele próprio não poderia tirar, mas ele deixará de ser um instrumento útil para suas observações, não tendo ele servido senão para lhe fazer conhecer os costumes dos camponeses. Ele é igualmente semelhante aos Espíritos onde o menor nos ensina alguma coisa. 

 

62. – Uma comparação vulgar fará ainda melhor compreender a situação.

 

Um navio carregado de emigrantes parte para um destino distante; ele leva homens de todas as condições, parentes e amigos dos que ficaram. Sabe-se que este navio naufragou; nenhum traço restou dele; nenhuma novidade chegou sobre sua sorte; pensa-se que todos os viajantes pereceram e o luto é de todas as famílias. Entretanto, a equipe toda inteira, sem exceção de um só homem, abordou uma terra desconhecida, terra abundante e fértil onde todos vivem felizes sob um céu clemente; mas, ignora-se; Ora, eis que um dia um outro navio aborda esta terra; encontra aí todos os náufragos sãos e salvos. A feliz novidade se espalha com a rapidez de um clarão; cada qual se diz: “Nossos amigos não foram perdidos!” E rendem graças a Deus. Não podem se ver, mas correspondem-se; eles trocam testemunho de afeição e eis que a alegria sucede à tristeza.

 

Tal é a imagem da vida terrestre e da vida do Além, antes e depois da revelação moderna; esta aqui, tal qual o segundo navio, nos traz a boa notícia da sobrevivência dos que nos são caros e a certeza de nos reunirmos um dia; a dúvida sobre sua sorte e sobre a nossa não existe mais; o desencorajamento se desfalece ante a esperança.

 

Mas outros resultados vêm fecundar esta revelação. Deus julgando a humanidade madura para penetrar nos mistérios de seu destino e contemplar de sangue frio as novas maravilhas, permitiu que o véu que separava o mundo visível do mundo invisível fosse levantado. O fato das manifestações não tem nada de extra-humano; é a humanidade espiritual que vem falar com a humanidade corpórea e lhe diz:

 

“Nós existimos, logo, o nada não existe (b); eis o que somos, e eis o que vocês serão; o futuro está para vocês como o é para nós. Vocês marcham na treva, nós viemos clarear a rota de vocês e lhes abrir a visão; vocês iam ao acaso, nós lhes mostramos o alvo. A vida terrestre era tudo para vocês porque nada viam além; viemos lhes dizer, em lhes mostrando a vida espiritual: a vida terrestre não é nada. A sua vista se detinha na Tuma e nós lhes mostramos além um horizonte esplêndido. Não sabiam porque sofriam na Terra; agora, no sofrimento, veem a justiça de Deus; o bem tornava-se sem frutos aparentes para o porvir, de hoje em diante terá uma finalidade e será uma necessidade; a fraternidade era apenas uma bela teoria, e agora esta assente sobre uma lei da natureza. Sob o império da crença que tudo acaba com a vida, a imensidão é vazia, o egoísmo reina como mestre entre vocês, e sua palavra de ordem é: ‘cada um por si’; com a certeza do futuro, os espaços intermináveis se povoam a infinito, o vazio e a solidão não são sem valor, a solidariedade reata todos os seres além e aquém do túmulo; é o reino da caridade com o lema: ‘cada um por todos e todos por um’. Enfim, ao termo da vida vocês dizem um eterno adeus aos que lhes são caros, agora, dirão: ‘até breve’”.

 

Tais são, em resumo, os resultados da revelação nova; ela veio satisfazer o vácuo criado pela incredulidade, levantar as coragens abatidas pela dúvida ou a perspectiva do nada, e dar a todas as coisas a razão de ser. Este resultado é ele, pois, sem importância, por que os Espíritos não vêm resolver os problemas da Ciência, dar o saber aos ignorantes, e, aos preguiçosos o meio de se enriquecer sem trabalho? Entretanto, os frutos que o homem deve recolher não são somente para a vida futura; ele os colherá sobre a Terra pela transformação que estas novas crenças devam necessariamente operar sobre seu caráter, seus gostos, suas tendências e, por decorrência, sobre os hábitos e as relações sociais. Colocando fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, elas preparam o do bem, que é o reino de Deus.

 

A revelação tem, pois, por objetivo de colocar o homem na posse de certas verdades que não poderia adquirir por si próprio, e aí em vista de ativar o progresso. Estar verdades se cercam em geral dos princípios fundamentais destinados a pôr sobre seu caminho de buscas e não a de conduzir para os confins; são marcos que lhe mostram a meta; a ele a tarefa de estudá-los e de deduzir-lhe as aplicações; longe de libertar do trabalho, são os novos elementos fornecidos à sua atividade. 

 

NOTAS:

 

(1) Ainda que, pais de família deplorem a morte prematura de filhos para a educação dos quais fizeram grandes sacrifícios e se dizem que tudo isto foi pura perda. Com o Espiritismo, eles não lamentam tais sacrifícios e estariam prestes a faze-los, mesmo com a certeza de ver morrer seus filhos, porque saberiam que se, estes últimos não aproveitam de tal educação no presente, ela servirá, a princípio, para seu  progresso como Espírito, já que lhe será  igualmente adquirido para uma nova existência e que, já que voltarão, possuirão uma bagagem intelectual que lhes tornará mais aptos para adquirir novos conhecimentos. Tais são estes filhos que trazem ao nascer, ideias inatas, que sabem, sem por assim dizer, terem necessidade de aprender. Se, como pais, não tiveram a satisfação imediata de ver seus filhos pôr esta educação em uso, eles o desfrutarão certamente, mais tarde, quer como Espíritos, quer como homens. Talvez, sejam eles, de novo, os pais destes mesmos filhos que se dizem gloriosamente dotados pela natureza e que devam suas aptidões a uma precedente educação; como também se os filhos voltam mal em sequência da negligência de seus pais, estes podem ter de sofrer mais tarde pelos aborrecimentos e os desgostos que lhes suscitarão em uma nova existência. (Evangelho conforme o Espiritismo.: cap. V, n° 21: Mortes prematuras)

 

(2) Nosso papel pessoal, no grande movimento das ideias que se prepara para o Espiritismo e que começa já a se operar, é o que um observador atento que estuda os fatos para buscar a causa e tirar-lhe as consequências. Temos comparado e comentado as instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos do globo, após o que coordenamos tudo metodicamente; em uma palavra, temos estudado e dado ao público o fruto de nossas pesquisas, sem atribuir a nossos trabalhos outro valor senão o de uma obra filosófica deduzida de observação e de experiência sem jamais nos posarmos como chefe de doutrina, nem ter querido impor nossas ideias a ninguém. Em as publicando, usamos de um direito comum e os que a tenham aceitado, fazem-no livremente. Se as ideias encontraram numerosos simpatizantes, é que elas têm a vantagem de responder às aspirações de um grande número, do que não tiramos vantagem, porque a origem não nos pertence. Nosso grande mérito é o da perseverança e do devotamento à causa que abraçamos. Em tudo isto fizemos o que outros poderiam fazer, como nós; é porque nunca tivemos tido a pretensão de nos acreditarmos profeta ou messias, e ainda menos de nos dar por tal. 

 

(3) O Livro dos Espíritos, a primeira obra que fez entrar o Espiritismo na trilha filosófica, pela dedução das consequências morais de fatos, que tenha abordado todas as partes da doutrina, em tocando nas questões as mais importantes que ela ergue, tem sido, desde sua aparição, o ponto de reunião sobre o qual convergiram espontaneamente os trabalhos individuais. É de notoriedade que, na publicação deste livro, data a era do Espiritismo filosófico, permanecido até então, no domínio das experiências de curiosidade. Se este livro conquistou as simpatias da maioria é que era a expressão dos sentimentos desta mesma maioria, e que respondia a suas aspirações; é também porque cada um aí encontrava confirmação de uma explicação racional daquilo que obtinha em particular. Se ele tivesse estado em desacordo com o ensinamento geral dos Espíritos, não teria nenhum crédito e teria prontamente caído no esquecimento. Ora, a quem se juntou? Não foi ao homem que nada é para si próprio agente principal operário que morre e desaparece, mas à ideia que não periga quando emana de uma fonte superior ao homem.

 

Esta concentração espontânea das forças esparsas deu lugar a uma correspondência imensa, monumento único ao mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno onde se refletem, por sua vez, os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que fizeram nascer a doutrina, os resultados morais, os devotamentos e desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade que poderá julgar os homens e as coisas sobre peças autênticas. Em presença destes depoimentos irrecusáveis em que se tornariam na sequência, todas as falsas alegações, as difamações da inveja e do ciúme? 

 

(4) Um testemunho significativo, tão notável quanto tocante, desta comunicação de pensamento que se estabelece entre os Espíritos pela conformidade das crenças, são as demandas de preces de nos vêm de países os mais distantes, desde o Peru até as extremidades da Ásia, da parte de pessoas de religiões e de nacionalidades diversas, e que jamais vimos. Não será isto o prelúdio da grande unificação que se prepara? A prova das raízes sérias que toma, por tudo, o Espiritismo?

 

É considerável que, de todos os grupos que se formaram com a intenção premeditada de fazer cisão, proclamando princípios divergentes, da mesma forma que os que por razões de amor próprio, ou outros, não querendo ter o ar de sofrer a lei comum, são livres de serem fortes para marcharem sozinhos, terem luzes para se passar conselhos, nenhum conseguiu constituir uma ideia preponderante e viável; todos estão apagados ou vegetam na sombra. Como poderia ser de outro modo, desde então que, para se distinguir, em lugar de se esforçar para proporcionar uma maior soma de satisfação, rejeitam princípios da doutrina, precisamente aqueles que a fazem mais poderoso atrativo, o que há de mais consolador, de mais encorajador e de mais racional? Se tivessem compreendido o poder dos elementos morais que constituíram a unidade, não estariam acalentando uma ilusão quimérica; mas, tomando seu pequeno círculo por universo, não viram nos aderentes senão uma súcia que podia facilmente ser tombada por uma contrapartida. Seria equivocar-se estranhamente sobre os caracteres essenciais da doutrina, e este erro não poderia amenizar senão decepções; em lugar de romper a unidade tendo quebrado o liame que só poderia lhe dar a força e a vida. (Ver Revista Espírita, abril 1866, pgs 106 e 111: O Espiritismo sem os Espíritos; o Espiritismo independente). 

 

(5) Tal é o objeto de nossas publicações que podem ser consideradas como o resultado deste depuramento. Todas as opiniões aí são discutidas, mas as questões não são formuladas em princípios senão depois de ter recebido a consagração de todos os controles que apenas possa lhe dar força de lei e permitir de afirmar. Eis, pois, porque não preconizamos ligeiramente nenhuma teoria e é nisso que a doutrina procedente do ensinamento geral, não é de fato, o produto de um sistema preconcebido; é também o que faz sua força e assegura seu porvir. 

 

(6) Ver no Evangelho conforme o Espiritismo, Introdução, p. VI e Revista Espírita, abril 1864, p. 90: Autoridade da Doutrina Espírita; Controle Universal do Ensinamento dos Espíritos

 

(7) Ante declarações tão puras e tão categóricas como as que estão contidas neste capítulo, caem todas as alegações de tendência ao absolutismo e à autocracia dos princípios, todas as falsas assimilações que pessoas  de prevenção ou mal informadas prestam à doutrina. Estas declarações, a princípio, não são novidade, nós a temos encontradas seguidamente repetidas em nossos escritos para não deixar nenhuma dúvida sobre esta consideração. Elas nos assinalam, por outro lado, nosso verdadeiro papel, o único que ambicionamos: o de trabalhar. 

 

NOTAS DO TRADUTOR

 

(a) Aqui, Kardec usa o conceito de “fluido” adotado à sua época, que abrangia tudo aquilo que não fosse sólido, inclusive as energias, no caso, energias parapsíquicas, o mesmo acontecendo com o conceito de “corpo fluídico”, o mesmo acontecendo no item que se segue e em toda sua obra. 

 

(b) Aqui, e logo adiante, o que os Espíritos deixaram implícito é que, para eles, o nada não existe, mas, que o homem o encontraria. É justamente o que está ocorrendo com a pesquisa astrofísica: acabam de descobrir “o nada” e a quinta força do Universo, e que, pelo que tudo indica, vem a ser a atuação do domínio espiritual sobre o domínio universal (dito material). Este “nada” se caracteriza como algo que tem peso, só não tem massa. (Ver “A Teoria do Nada” – Sten Odenwald – membro da equipe de Palomar)

 

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